8. DISCUSSÕES FINAIS
8.1 REFLEXÕES ACERCA DO MODELO E SUA APLICAÇÃO
Conforme Freire (2000) nos aponta, a educação tem o grande papel de provocar a autorreflexão por parte das pessoas. Essa autorreflexão é o ponto de partida para a tomada de consciência e consequente “libertação” daquele grupo. Uma educação dialógica é o caminho para que este processo de fato ocorra.
Ao longo do curso “O ambiente Moodle como apoio ao ensino presencial” ocorreram diversos diálogos em que os participantes expuseram e questionaram suas práticas coletivas ou individuais, deixando evidente que algo havia provocado aquela autorreflexão por parte deles.
As referências bibliográficas sugeridas para o curso, das quais os participantes além de ler, deveriam preparar seminários, fóruns e conversas presenciais, foram de alta relevância para possibilitar esses momentos de autorreflexão. Diretamente relacionados a essa possibilidade estão alguns aspectos presentes no modelo de rede de colaboração formulado no capítulo 6 e que serviu de base para orientar as ações ao longo do curso. São eles:
• Escolha de uma problemática coletiva, porém de significado individual, afinal, para que houvesse um processo de autorreflexão por parte dos participantes foi importante a escolha de temas interessantes e relacionados não só ao conteúdo programático do curso, mas também com aspectos de interesse dos participantes. Aprimorar a prática pedagógica
no colégio era uma problemática comum entre os participantes, porém, a discussão de como isso poderia se dar, incluiu uma série de experiências individuais apresentada por cada participante;
• Um espírito de 'código-fonte aberto e acessível': buscou-se esclarecer, aos participantes, as regras e os objetivos do curso, abrindo espaço para sugestões de mudanças e novas ideias. Essa participação foi encorajada ao ponto de provocar desvios relevantes acerca do conteúdo programático do curso. Uma série de liberdades dos participantes foi respeitada, de modo que eram encorajados a construírem diálogos acerca dos problemas que os envolviam. No que diz respeito às leituras propostas, os alunos não eram obrigados a ler os textos, porém encorajados a isso. A adoção dessa postura colaborou para que momentos ricos de partilha surgissem entre eles;
• Sentido de coautoria dos participantes da comunidade: a medida em que os participantes foram se sentindo autores das propostas, do curso e das ideias que surgiam, o interesse e a motivação do grupo foi aumentando. O sentido de coautoria pode ser visto, também, como um fruto do processo de autorreflexão. À medida que refletiam sobre suas práticas e tinham a liberdade de sugerir novas ideias e posturas, foram se sentindo coautores da construção do conhecimento e agentes responsáveis pelo processo, inclusive sugerindo melhorias para os participantes do curso e para o colégio de modo geral;
• Liderança sem coerção: a autorreflexão, como já diz a própria palavra, é um processo em que o protagonista não é o “líder” do grupo, mas sim, a pessoa que reflete. Esse processo não deve ser obrigado ou imposto, mas encorajado por parte do mediador que toma o papel de animador e encorajador.
Percebe-se que, a partir dos trechos retirados dos discursos dos alunos e da discussão já tomada no capítulo anterior, a autorreflexão instigada, a princípio, pelos textos e leituras sugeridas no curso, uma vez socializadas, levam os participantes à importantes discussões acerca de suas atividades cotidianas, provocando nestes um desejo de mudança. Conforme aponta Freire (2000 e 2005), uma vez tomada consciência da situação em que se encontram, o grupo tende a buscar alternativas e soluções para aquilo que acredita não estar certo.
Encorajados ao longo do curso a buscarem soluções concretas para seus problemas, e estimulados através de uma série de exemplos de redes de colaboração que deram certo, os
participantes começaram a enxergar, no grupo, uma possibilidade de solução de seus problemas. Percebeu-se que o comportamento dos participantes do curso, levou-os ao encontro dos outros colaboradores do colégio.
Todo este processo relatado e ocorrido no curso, cumpre com aquilo que Freire (2000) ressalta como uma das principais missões da educação: instigar o pensamento crítico, possibilitando um novo sentido de aprendizado e vida.
Esse novo sentido pode ser percebido no curso de diferentes formas. Dentre elas destaca-se a iniciativa do grupo no tocante à criação de uma rede de colaboração envolvendo outros professores e funcionários do colégio.
Tal iniciativa surgiu em meio aos participantes porque a dinâmica do curso não foi centrada em um processo de domesticação, engessado de forma conteudista à respeito da aprendizagem do Moodle , mas sim num processo de 'educação' que culminou em uma proposta real visando não só a si mesmo, mas também o outro. Os participantes do curso se tornaram agentes engajados em um processo de mudança (FREIRE, 2005).
A Figura 7 ilustra este processo de educação dialógica que ocorreu ao longo do curso e as características do modelo de rede de colaboração relacionadas a esse processo.
Avançando nesta discussão, fica claro, a partir dos dados, que o curso O ambiente moodle como apoio ao ensino presencial criou entre os participantes um ecossistema de colaboração corroborando tanto para benefícios para o grupo interno, quanto a ações que atingissem outras pessoas.
Uma série de fatores pode ser considerada como responsáveis ou auxiliares para a criação deste ecossistema.
A busca de uma problemática comum e a capacidade de apresentar uma promessa plausível são apontadas por Raymond (1998) como aspectos fundamentais na criação de uma comunidade de software livre.
A partir do curso é possível constatar a importância deste fator. O ambiente Moodle e a necessidade de integração no colégio se mostraram como sendo de interesse coletivo, em que cada um podia apresentar seu ponto de vista. A partir do envolvimento dos alunos em torno da criação de uma proposta de rede de colaboração, as interações e colaborações surgidas também se intensificaram. Os participantes se sentiam parte do cenário, podendo auxiliar num processo coletivo, de bem comum.
Tal constatação reforça a importância de um dos aspectos do modelo de rede de colaboração proposto: a escolha de uma problemática coletiva porém de significado individual.
Segundo Raymond (1998), um dos pontos principais para o surgimento do sistema operacional Linux, foi o fato de Linus Torvalds ter uma ideia brilhante e partilhá-la, buscando no potencial coletivo da rede, os meios para viabilizar tal ideia.
Diversas cenas ocorridas revelam alguns momentos em que os participantes do curso tiveram atitudes semelhantes, desencadeando num processo com uma série de contribuições e ideias para o coletivo, além do crescimento individual.
Essas constatações todas vem ratificar a importância de se explorar ao máximo o potencial coletivo da rede, característica presente no modelo de rede de colaboração proposto. Tal aspecto está diretamente ligado a outros, também relevantes e que se verificou ao longo do curso:
• Um espírito de 'código-fonte aberto e acessível' nas práticas da comunidade, pois só se pode recorrer ao potencial coletivo proporcionado por uma rede, abrindo-se de fato as práticas e segredos que envolvem determinada proposta. Para que outras pessoas ajudem, elas precisam ter acesso às ideias, regras, caminhos já traçados, entre outros;
• Sentido de coautoria dos participantes da comunidade, afinal, as pessoas envolvidas na rede não verão com bons olhos o fato de alguém se considerar dono de algo que foi gestado ou aprimorado de forma coletiva. É necessário que não haja donos para a proposta, mas sim, coautores, dividindo entre eles os méritos pelo sucesso ou insucesso daquilo que desenvolvem;
• Valorização das boas ideias de todos os participantes da comunidade, porque uma pessoa que não tem suas ideias valorizadas não irá se sentir apta, motivada, útil, para auxiliar em determinada proposta.
Uma vez que se inicia uma rede, o sentido de pertença vai se ampliando de forma que os participantes se veem protagonistas e se percebem não somente em um contexto individual, mas como grupo, uma rede, ratificando mais uma característica do modelo apresentado: existir como comunidade, o que, conforme apresenta Lévy (1998), é um dos objetivos da inteligência coletiva, promovendo um novo humanismo, centrado no 'formamos uma inteligência coletiva, logo existimos eminentemente como comunidade', que amplifica a ideia do penso, logo existo.
O modelo de desenvolvimento bazar é o modelo de desenvolvimento presente nas comunidades de software livre e tem como uma de suas características a flexibilidade ao invés de hierarquias muito rígidas. Apesar de Raymond (1998) nos apresentar este modelo, o autor ressalta a importância de um projeto não se iniciar no “estilo Bazar”, mas ter certa organização em seu princípio.
Tal característica é sentida durante o desenvolvimento da proposta de rede de colaboração. Os participantes perceberam a necessidade de uma base sólida de ideias para, a partir daí, aprimorarem a proposta e desenvolverem novas ideias. Essa necessidade fez com que o mediador tomasse o lugar de um mantenedor, buscando nortear as discussões de modo que os participantes conseguissem vislumbrar o potencial de uma rede e a partir daí construir a proposta. Desta forma, o planejamento e o estabelecimento de regras mostrou-se necessário para que a proposta se desenvolvesse de forma mais livre, porém efetiva.
A Figura 8 apresenta um mapa com alguns aspectos apresentados no modelo de rede de colaboração e sua relação com a criação de um ecossistema de colaboração durante o curso.
No tocante às TIC adotadas no curso, se mostraram importantes para viabilizar os diálogos, principalmente quando a disponibilidade dos participantes foi se mostrando escassa.
Como Castells (2003), Raymond (1998) e Lévy (1999) afirmam, é importante saber explorar a internet como infraestrutura para viabilizar a rede, e isso foi algo relevante no curso, tanto na comunicação entre os participantes quanto à utilização do Moodle, organizando esse ecossistema de colaboração.
As TIC por si só não se justificam, como Lévy (1999) e Castells (2003) ressaltam, é o uso que se dá a determinada infraestrutura que pode fazer com que essa seja positiva ou negativa em determinado contexto.
Essa afirmação não aponta um caráter de neutralidade das tecnologias, porém, transpõe sua relevância na aplicação que se dá. De acordo com os dados, verificou-se o surgimento de diversas possibilidades de construção de conhecimento, a partir do uso da internet. Entretanto, é importante que se atente para a escolha e utilização de boas ferramentas, tecnologias e métodos para cada contexto necessário.
O curso desenvolvido utilizou-se, não somente de determinadas TIC, como também possibilitou discussões sobre a aplicabilidade delas na educação, afinal, o tema central do curso estava em torno de um software: o Moodle.
Com relação ao chat, esta foi a TIC mais utilizada para a comunicação virtual dos participantes, devido sua maior simplicidade. Verificou-se, ao longo do curso, que a forma com que se utiliza o chat é importante para que se cumpra o objetivo da aula.
Ao buscar ideias dos participantes, ou seja, um brainstorm , o “chat livre” - aquele em que o mediador busca poucas interferências e em geral apresenta somente algumas poucas ideias para os participantes discutirem mais livremente - se mostrou bastante válido. Em casos em que se fez necessária a elaboração de ideias mais complexas ou discussões acerca de algum assunto que exige conclusões e formulações, foi preciso uma maior interferência por parte do mediador, caracterizando o chamado “chat mediado”.
Independente da forma com que o chat ocorre, verifica-se que alguns participantes possuem mais dificuldades, outros menos, fato que mostrou-se relacionado ao nível de letramento digital do participante.
A mediação se mostrou importante no chat, para combater a evasão dos participantes. Muitas vezes, alguns participantes tendem a se excluir das conversas, o que pode ser causado tanto pela dificuldade de acompanhamento dos assuntos ou mesmo sua timidez. Nesses casos, cabe ao mediador identificar aqueles que se ausentam e buscar incluí-lo na conversa. Ainda no que diz respeito à mediação, algo que auxiliou o andamento das conversas, foi a postura do mediador que em alguns momentos tecia uma breve síntese do que havia sido discutido até então. Isso possibilitou uma maior interação entre os participantes.
Com relação à videoconferência, esta foi uma das TIC menos utilizadas no curso, isso porque muitos participantes não tinham webcam ou microfone, então ficavam limitados no uso desse recurso.
De acordo com os relatores, os participantes tinham a sensação de exclusão e limitação. Para atenuar essa sensação, buscou-se combinar a utilização da videoconferência com sessões de chat em que os participantes que estavam na videoconferência atualizavam os ausentes sobre os assuntos em questão.
Apesar da limitação exposta, a videoconferência como TIC foi elogiada pelos participantes que viram ali uma forma de comunicação muito mais próxima do encontro presencial, comparando com o chat.
Como já citado, o software utilizado para as videoconferências foi o fmopenlearn, que entre todos os outros softwares para este fim se mostrou mais simples, devido sua característica de operar via browser.
Uma característica do fmopenlearn é que cada participante fala por vez, ou seja, você não possui “pessoas falando ao mesmo tempo”. Essa característica traz uma organização muito maior das ideias, comparado com o chat ou outras formas de utilizar a videoconferência.
Por ser capaz de transmitir de forma mais precisa as emoções, feições, reações corporais dos participantes, a videoconferência se mostrou uma forma de comunicação síncrona mais completa que o chat, porém relevando a questão da sua complexidade em relação aos recursos de hardware que são necessários para utilizá-la.
Um aspecto positivo dessa ferramenta, é que o histórico da sessão criada fica disponível para posterior consulta, ou seja, tudo aquilo conversado na sessão pode ser acessado depois.
No tocante ao fórum, por ser uma TIC assíncrona, favoreceu colaborações, ou seja, expressão de ideias e opiniões mais elaboradas, do que aquelas que vimos nos chats e nas videoconferências. Essa TIC trouxe como caraterística o respeito ao tempo de assimilação de cada participante, favorecendo a aprendizagem.
Outra característica importante nos fóruns, foi sua capacidade de mediar construções coletivas baseando-se em problemas, em que um participante poderia postar sua dificuldade, ou seja, aquilo em que busca colaboração e outros poderiam, de acordo com sua disponibilidade responder àquela questão.
Essa característica, fez com que o fórum fosse escolhido como infraestrutura responsável dentro do Moodle para gerenciar as contribuições na rede de colaboração que os participantes do curso desenvolveram.
Ao postar uma mensagem em um fórum, conscientemente, ou não, o autor trazia consigo o desejo de “ser visto”, ou seja, o desejo de coautoria. Considerando este aspecto, é importante ao mediador de uma rede, que fique atento para as postagens de seus participantes, para que busque tecer um diálogo com os participantes quando estes postam algo no fórum. Quando um autor tem
seu post comentado, ele tende a se interessar mais pelo assunto e se mostrar mais, querendo também, então, colaborar mais.
Com relação à wiki, essa é uma TIC que busca criar textos colaborativos. Temos como exemplo na internet hoje a wikipedia, a maior enciclopédia do mundo, desenvolvida de forma totalmente colaborativa por pessoas ao redor do mundo.
Essa TIC se mostrou muito eficiente na criação de documentos que o grupo precisou elaborar como, por exemplo, a construção da proposta de rede de colaboração. Havia certa dificuldade de se conseguir um encontro presencial entre os participantes, desta forma cada um foi dando sua contribuição ao texto que estava sendo desenvolvido.
Mais especificamente para a revisão de textos, a wiki foi de bastante utilidade, pois possibilitava que as alterações do texto já fossem feitas diretamente pelo corretor e isso de forma online já estava disponível para os outros participantes.
Finalmente, sobre o Moodle de modo geral tem-se que todas as TIC mencionadas, exceto a videoconferência, estavam disponíveis através do Moodle. Além de possuir módulos que disponibilizam essas ferramentas de comunicação, é possível ao Moodle uma série de outras possibilidades, afinal, por ser um software livre modular, diariamente novos módulos surgem para este ambiente, fazendo com que as possibilidades cresçam.
Uma das principais vantagens da utilização do Moodle foi a centralização das TIC em um único ambiente. Tanto o chat, quanto o fórum e a Wiki, poderiam ser utilizados através de outros softwares separados, porém a utilização deles diretamente no Moodle favoreceu a organização do curso. O Moodle, em sua filosofia, tem por objetivo criar um ambiente de aprendizagem colaborativo e de fato, esse objetivo se mostrou claro no dia a dia do curso.
Outra característica a destacar quanto ao ambiente Moodle, é a sua capacidade de armazenamento de históricos e, consequentemente, a geração de relatórios. O ambiente dá ao educador a possibilidade de estudar a dinâmica das interações do curso e através deste estudo, compreender ações que favoreçam a aprendizagem.
Por fim, o Moodle, sendo um software livre e disponibilizando as TIC mencionadas, pode ser utilizado como infraestrutura para a criação de uma rede de colaboração, permitindo inclusive que alterações sejam feitas, caso necessário, afinal é um software livre que todos podem melhorar e disponibilizar suas melhorias para a comunidade.