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5. MEMÓRIA, INTERTEXTUALIDADE E SEMIÓTICA

5.3. Intertextualidade e hipertextualidade

Genette separa o que era outrora unido nos estudos da intertextualidade, utilizando-se da ideia de transtextualidade. Assim, o que antes era de domínio da intertextualidade se divide em outras categorias: a intertextualidade, que se mantém como a presença, em um texto, de vários outros (A está presente com B no texto B), e a hipertextualidade, que é a derivação de um texto (B deriva de A, mas A não está efetivamente presente em B). “Chamo então hipertexto todo texto derivado de um texto anterior por transformação simples (diremos doravante apenas transformação) ou por transformação indireta: diremos imitação” (GENETTE, 1982/1992, p. 16. Tradução nossa).

O texto anterior que serve de referência para o novo é denominado por Genette de hipotexto; o seu derivado é o hipertexto. Embora, de acordo com Samoyault, os discursos teóricos, em sua maioria, não distingam intertextualidade de hipertextualidade, essa divisão traz vantagens por esclarecer as relações entre texto presente e texto ausente, entre o atual e o virtual (quando a linguagem real do texto remete virtualmente a outras linguagens) e considerar o leitor- intérprete. Além do mais, a hipertextualidade porta algumas características bastante pertinentes para o nosso trabalho, quando

[...] oferece a possibilidade de percorrer a história da literatura (como das outras artes) compreendendo um de seus maiores traços: ela se faz por imitação e transformação. O exame de outras práticas artísticas, nos domínios picturial e musical, que Genette nomeia hiperestésicos, permite medir sua importância. A paródia de Jaconde, de Marcel Duchamp

(LHOOQ, 1919), o disfarce das Meninas, de Velázquez, por Picasso, constituem equivalentes às práticas textuais. [...]. Este desvio por outros territórios estéticos permite sublinhar a importância da distinção, no seio das práticas hipertextuais, da transformação (paródia ou disfarce burlesco) e da imitação (pastiche) (SAMOYAULT, 2008, p. 33-34: destaque nosso).

5.4. Tipologias

A intertextualidade admite diversas tipologias que serão indicadas a seguir, mas dentro do sistema de divisão proposto por Genette entre co-presença (intertextualidade) e derivação (hipertextualidade), embora não só limitadas à sistematização que este autor propõe. Samoyault (2008, p. 48-51) enumera as seguintes tipologias intertextuais:

a) Citação: identificável graças a marcas tipográficas como aspas, itálicos, separação de texto, etc. A relação de heterogeneidade do autor com as fontes se torna evidente, indicando o que for necessário para se chegar ao texto de origem.

b) Centão: uma obra construída apenas com citações, repleta de frases e pensamentos de vários autores.

c) Referência: não se expõe o texto citado, porém a este se remete por meio de título, nome de autor e/ou de personagens, ou ainda exposição de uma situação perticular. Quando aparece sem uma indicação de fonte ou sem uma citação, a relação com outros textos se torna mais sutil, pois a heterogeneidade se torna menos evidente. (Não faz parte da tipologia proposta por Genette).

d) Alusão: também remete a um texto anterior, mas sem indicar a heterogeneidade do autor e a citação. Pode funcionar em um nível puramente semântico, sem ser propriamente intertextual. Quando se diz, por exemplo, “ele só pensa naquilo”, faz-se uma alusão erótica, mas não necessariamente intertextual. Outras vezes indica mais a um conjunto textual do que um texto específico, como nos casos de passagens de Ulysses, de Joyce, onde se menciona

Helena de Argos e Tróia, numa referência tanto a Homero quanto a qualquer um que tenha retomado o tema da guerra troiana.

e) Plágio: uma retomada literal, mas sem a marcação presente na citação. Aí, a heterogeneidade é nula. Muitas vezes é considerado o oposto da literatura. Porém, quando é praticado com propósitos lúdicos ou subversivos, possui um aspecto deveras literário.

Tirando-se a citação e o centão, todas as outras tipologias intertextuais têm maior ou menor grau de ambiguidade intertextual, com frequência exigindo a sagacidade do leitor para efetuar a identificação adequada.

No tocante à hipertextualidade, Samoyault (2008, p. 53-55) aponta as seguintes tipologias, cujas características incluem a ausência de referência direta ou mesmo a total exclusão da citação do texto imitado:

a) Paródia: a transformação do texto anterior, para caricaturá-lo ou reutilizá-lo de forma lúdica, ou mesmo admirativa. Transformando-a ou deformando-a, existe uma ligação direta com a literatura existente. É comumente atribuído um sentido negativo a essa expressão, sentido esse que não é necessariamente condizente com a teoria intertextual (Genette insiste no aspecto derivacional, onde, de alguma forma, o hipotexto ainda é reconhecido no hipertexto).

b) Pastiche: deforma, mas imita o hipotexto. Menos remete a um texto em especial do que ao estilo típico de um autor. O escritor pode adotar esse estilo com um propósito lúdico e, ainda, servir-se dele para um processo catártico, pois, imitando um autor, aprende não só a escrever, como também se livra das influências mais ou menos conscientes sobre o próprio estilo, como Proust reconhecia.

As fronteiras entre os elementos que compõem as tipologias estão longe de serem tão puras. Muitas vezes paródia e pastiche se misturam, por exemplo, ou uma paródia usa citações sem marcas, o que também a aproximaria do plágio. Genette acrescenta entre as tipologias

hipertextuais o disfarce burlesco, a reescritura em forma baixa de determinada obra, mas cujo estilo é conservado.

Genette especifica três regimes distintos que permitem distinguir os hipertextos: lúdico, satírico e sério, resumidos no quadro a seguir:

Regime Relação

Lúdico Satírico Sério

Transformação Paródia Disfarce Transposição

Imitação Pastiche Charge Falsificação

As passagens de um ao outro, os hibridismos entre os gêneros, como Genette mostra, são constantes. Mas essas distinções lembram que essas práticas hipertextuais, frequentemente mantidas nas suas conotações ligeiras e lúdicas, podem também dar conta de textos mais sérios, como as re- escrituras dos mitos, Ulisses, de Joyce, ou Le Docteur Faustus, de Thomas Mann (SAMOYAULT, 2008, p. 58-59).

Os termos que não foram trabalhados anteriormente não precisam ser detalhados por ora. No caso dos mitos indicados por Samoyault, eles se encaixariam na Transposição, de acordo com o quadro de Genette.

A maneira como um texto absorve outro envolve diversas formas de integração e colagem da matéria emprestada, um assunto que a autora discute com mais detalhes do que serão abordados aqui, pois, no caso específico de uma história em quadrinhos, as considerações de Peter Wagner sobre ecfrase, iconotexto e intermídia são mais adequadas do que os exemplos que Samoyault oferece, já que, por mais que esta autora entenda o texto como algo que supera a mera forma alfabética e cite exemplos de colagens que envolvam imagens, nunca o faz com um caráter tão constante para uma estrutura narrativa como a integração imagem/escrita que um quadrinho exige.

Mas, antes de discutirmos isso, vale estendermos mais um pouco sobre um aspecto da intertextualidade/hipertextualidade salientado pela autora: a intertextualidade como memória literária.