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3. DO HORROR AO UNDERGROUND

4.3. Os antecedentes nos quadrinhos

O ambiente das histórias de Sandman deriva, em grande parte, do mundo que começou a ser construído com a publicação da primeira história do Super-Homem. O próprio Homem de Aço e Batman são publicados ininterruptamente desde o final dos anos 1930. Outros tiveram seu momento de glória com a publicação inicial do próprio título, até o cancelamento por falta de lucratividade. De qualquer forma, mesmo os personagens relegados a coadjuvantes em revistas alheias tornaram-se parte integrante de uma única e grande “história”, de um universo ficcional que acolhe todos os milhares de personagens criados desde a fundação da primeira versão da DC Comics, a National Allied, do major Wheeler-Nicholson. Ações e histórias escritas nos anos 1940 podem ser interpretadas sob uma ótica revisionista por escritores modernos – o que, não raro, gera uma teia de contradições cuja resolução está longe de ser plenamente resolvida, mesmo com o uso de artifícios narrativos tais como universos paralelos e hecatombes cósmicas33. Porém, o que pode ser um problema, principalmente para os não- iniciados nos quadrinhos de super-heróis, tem o seu aspecto positivo:

O pesadelo do fanático por cronologia e continuidade, que são mil personagens superpoderosos coexistindo num mesmo continuum, pode, com alguma sensibilidade e boa vontade, resultar num fértil manancial mítico,

33 A Crise nas infinitas terras, uma minissérie publicada pela DC, em 1985, foi uma tentativa de transformar os

repleto de seres arquetípicos, todos à nossa disposição aguardando o momento de serem colhidos como uvas na videira (MOORE, 1997, [s.p.]).

Sandman não é exceção. Sua história se situa no mesmo mundo de super-heróis do Super-

Homem, Batman e Mulher-Maravilha, um lugar com características peculiares:

Imagine, por um momento, um universo adornado de jóias preciosas tais como raças alienígenas que variam do transcendentalmente divino ao monstruosamente lovecraftiano. Imagine um cosmo onde ainda existam deuses antigos e dimensões inteiras povoadas por animaizinhos antropomórficos; onde Céu e Inferno são demonstravelmente reais e até mesmo acessíveis. E onde anjos e demônios caminham pela Terra impunemente. Imagine um planeta onde a exposição à radiatividade confere o dom da supervelocidade e não câncer ósseo; onde os céus, por este motivo, são repletos de mulheres e homens voadores que, de tão numerosos, encobrem o próprio sol. Imagine um lugar onde as pessoas fossem inteiramente boas ou terrivelmente más, com pouco espaço para a mediocridade entre tais polos. Não, certamente não seria nada parecido com o mundo em que vivemos, mas isso não o tornaria menos glorioso, tocante, triste ou assustador (MOORE, 1997, [s.p.]).

Existem vários personagens dos quadrinhos com o nome Sandman e, embora outras editoras tenham se servido do conceito do Homem de Areia, falaremos apenas dos seus predecessores da DC Comics. A versão de Gaiman foi a última de um conjunto de quatro. A primeira surgiu em 1939, no número 40 da revista Adventure Comics, criada por Gardner Fox e Bert Christman. O Sandman original era um típico personagem pulp: um detetive milionário, combatente do crime, chamado Wesley Dodds, que utilizava equipamentos incomuns, como pistola de gás sonífero. Para se proteger dos efeitos da própria arma, valia-se de uma máscara de gás. Sua única habilidade extraordinária eram os enigmáticos sonhos premonitórios.

A segunda versão do Sandman surgiu nos anos 1970, criada por Joe Simon e Jack Kirby. Ele tinha um visual super-heroico (roupa colante amarela e vermelha) e a sua missão era evitar que criaturas de pesadelos invadissem o mundo e proteger os sonhos das crianças – principalmente do jovem Jed Paulsen – com a ajuda de duas criaturas (Brute e Glob) e de um apito que acordava as pessoas de sonhos ruins. Originariamente, esse personagem deveria ser o Sandman “definitivo”; mas, no início dos anos 1980, o roteirista Roy Thomas alterou tal conceito e revelou que ele era um cientista chamado Garrett Sanford, construtor de uma máquina capaz de ler sonhos. Depois de salvar a vida de uma pessoa comatosa aprisionada

por um pesadelo (“monstros do id”, como é referido em determinada cena), ele encontrou-se cativo em uma dimensão onírica chamada Fluxo do Sonho, constituída de fragmentos do inconsciente coletivo. Thomas manteve a missão do personagem, mas introduziu a habilidade de Sanford em permanecer uma hora por dia no mundo real. No entanto, enlouquecido, devido à solidão e à incapacidade de viver na Terra, ele cometeu suicídio.

A terceira versão do personagem surgiu em 1988 (pouco antes do Sandman de Gaiman). Seu nome era Hector Hall, filho dos super-heróis Gavião Negro e Mulher-Gavião. Depois de morrer em combate, seu espírito adentrou o Fluxo do Sonho, sendo encontrado pelas entidades Brute e Glob e transformado no novo Sandman, com o uniforme levemente alterado, poderes e a limitação de visitar o mundo desperto por apenas 60 minutos por dia. Hector tinha uma namorada chamada Hippolyta (Lyta) Trevor – a super-heroína Fúria – e descobriu que ela esperava um filho seu. Passou a visitá-la durante as noites, enquanto ela dormia. Hector e Lyta (ainda grávida) casaram-se e passaram a viver no Fluxo do Sonho.

Wesley Dodds, o primeiro Sandman da DC Comics. Fonte da imagem: Sandman: teatro do mistério especial, 1999. Ed. Tudo

em Quadrinhos

Garrett Sanford, o segundo Sandman. Fonte da imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/Sand

man_(DC_Comics)

Hector Hall, o terceiro Sandman, visitando a amada Lyta. Fonte da

imagem:

http://en.wikipedia.org/wiki/Hector_ Hall

Todas as versões anteriores foram abordadas no Sandman de Gaiman, que explicou não só o fato de existirem tantos Sandmen, mas porque uma entidade tão importante, Morpheus, o verdadeiro Mestre dos Sonhos, jamais havia interagido antes com outros personagens da DC Comics. Sonho foi aprisionado por uma seita ocultista em 1916 e o universo, ao perceber sua ausência, tentou sanar o problema, utilizando alguns substitutos (na proposta original para a

série, Gaiman faz referência direta à noção aristotélica de que a natureza abomina o vazio). Se, por um lado, o autor com isso explica a origem dos sonhos proféticos de Wesley Dodds, por outro revela que o Fluxo do Sonho nada mais é do que a tentativa, de Brute e Glob, de criar uma versão própria e independente do reino onírico (fazendo Sanford e Hall pensarem que protegiam a dimensão dos sonhos enquanto, na verdade, estabeleciam uma barreira entre a mente de uma criança e o resto do verdadeiro mundo dos sonhos).

Sonho dos Perpétuos, na visão do artista Kelley Jones. O desenho do elmo nas mãos de Morpheus, um dos seus símbolos de poder, foi baseado na máscara de gás de Wesley Dodds, o primeiro Sandman. Fonte da imagem:

Sandman nº 22, p. 23 (agosto de 1991). Ed. Globo

O encontro de Lyta e seu marido Hector Hall, o terceiro Sandman, com Morpheus. Fonte da imagem: Sandman nº 12, p. 21 (novembro de 1990). Ed. Globo

Dos personagens anteriores que usaram o nome, foi o da terceira versão – principalmente por causa da ligação com Lyta Trevor (agora com o sobrenome do marido, Hall) – que teve impacto direto na série, como veremos em outro momento.