2.3. Origens comerciais e sociais dos super-heróis
2.3.4. Tornando-se editor
Agora, algumas observações devem ser feitas. Na seção anterior tivemos uma visão das pessoas que estabeleceram, através do mercado, algumas das bases simbólicas do que iria tornar-se o super-herói: a perfeição física (uma ideia que atraía particularmente o jovem Joe Shuster), a ficção científica (que também fascinaria Shuster, mas seria uma verdadeira obsessão para o idealizador do Super-Homem, Jerry Siegel) e a contraditória posição feminina entre a liberação e submissão. As incursões na sexualidade permitiram, em certa medida, o advento de publicações marginais que lidariam com sexo, seja como entretenimento ou como educação, embora em muitos casos, incluindo os quadrinhos, servisse para transformar o incipiente processo de libertação sexual da mulher em objeto de fetiche e dominação masculina.
Veremos também, em outro tópico, como o major Malcolm Wheeler-Nicholson, que publicou os primeiros trabalhos de Shuster e Siegel com quadrinhos, acabará ligando-os à Harry Donenfeld e Jack Liebowitz. Entretanto, ainda continuaremos o nosso enfoque nas relações mercadológicas e sociais, para posteriormente deslindar os símbolos que elas ofereciam na forma de cultura de massa e o impacto que estas relações tiveram na mente dos jovens criadores do Homem de Aço. Afinal, é dessa junção que surge a fórmula do super-herói, que permanece e até hoje define os rumos da maior parte da cultura dos quadrinhos norte- americanos – e que Sandman, ao seu modo, por assim dizer, desconstrói.
No mundo das revistas, embora saúde e ficção científica fossem tendências que significassem lucro, o que um dia resultaria na fundação da DC Comics se dá pela mudança de carreira de Donenfeld: de impressor trambiqueiro do Lower East Side a editor de histórias eróticas. É
justo então que façamos um panorama sobre como ele se envolveu com a produção de pornografia light misturada com histórias pulps.
Neste ponto da história, um personagem contribuiu decisivamente: Frank Armer, que influenciaria Donenfeld a tornar-se dono de editora. Armer havia lançado em 1922, juntamente com Paul Sampliner (antes de este fundar a Eastern News, com Charles Dreyfus), uma revista chamada Screenland, que era dedicada ao cinema – não muito diferente da
Photoplay de MacFadden. Donenfeld era o impressor das capas. Em 1925, Armer produziu Artists and Models, com fotos de atrizes, modelos e garotas do Ziegfeld Follies – um show de
variedades da Broadway.
Entretanto, Armer apreciava arte refinada e podia-se encontrar na revista um artigo sobre a pintura de Goya ou um poema de Dante Gabriel Rosseti misturado com colunas de fofoca e ficção levemente erótica.
Cada edição continha o perfil de algum artista contemporâneo que Armer julgava merecer atenção – e que sempre fotografava ou pintava nus femininos [...]. A Artists and Models era sofisticada, pretensiosa, um tanto grosseira e dissimulada. Acima de tudo, era uma maneira esperta de fazer com que fotos de mulheres nuas passassem pelos censores e autoridades postais e chegassem […] nas tabacarias e bancas. (JONES, 2006, p. 81)
Porém, em 1925, Sampliner rompeu com Armer para fundar a Eastern News com Dreyfus. Armer precisava de um alguém para arcar com os custos. Donenfeld, que imprimia as capas e as fotografias, aceitou bancar parte dos gastos de produção, iniciando uma parceria duradoura. O sucesso de revistas de humor com pitadas eróticas era inegável. A maioria das publicações era insinuante, porém discreta. Mas como não existia muita vigilância por parte da lei, a ousadia foi aos poucos crescendo. Fotos de mulheres com roupas íntimas deram lugar aos nus. Armer decide seguir essa trilha e em 1926 lançou a Pep!, com “histórias novas, elegantes, picantes e ARTE”, segundo a promessa da edição de dezembro do mesmo ano, que chegou ao ponto de colocar uma mulher com seios à mostra na capa.
Pep! Data de capa: dezembro (1926). Fonte da imagem: http://groups.yahoo.com/group/pulpscans/
Mas algo inusitado fez os responsáveis pela revista mudarem de foco: a descoberta de que as histórias faziam tanto sucesso quanto a “arte”, o que era uma grande vantagem: textos eram mais baratos de imprimir do que fotos, e reduziam as chances de atritos com a lei ou algum outro guardião da moral e dos bons costumes.
Eliminando as fotos e retomando as capas pintadas – no geral menos explícitas, mas muitas vezes mais provocantes do que as fotos –, Armer, sempre com a ajuda de Donenfeld, inundou o mercado: Artists and Models Stories, Broadway Nights, Real Story, Ginger Stories e Spicy
Stories. Finalmente, em 1929, Harry e Irving Donenfeld formaram a Irwin Publishing para
divulgar as suas próprias imitações: Juicy Tales e Hot Tales, ainda mantendo a parceria com Armer. Desbravaram um novo gênero, as revistas pulps de sexo ou, como eram chamadas,
smooshes. Gerard Jones resume o cenário que então cercava Donenfeld:
Os contornos daquela “cultura alternativa não documentada” se definem a partir desses negócios e dessas relações sociais. Bebida, jogatina e prostituição num extremo; no outro, feminismo, direito ao controle de natalidade e utopias científicas. Entre os dois, fotografias, nus, humor pornográfico, dançarinas e atrizes estreantes, homens de negócios, camelôs e políticos que se opunham à Lei Seca e defendiam os métodos contraceptivos, mas sem poder admitir isso publicamente. (JONES, 2006, p. 83-84)
A estreia de Donenfeld como editor se deu no mesmo mês do crack da Bolsa de Nova York, em 1929. A Eastern News não faliu, mas os piores anos da Grande Depressão ainda viriam. Nesse momento, surge um contador de sindicato com educação socialista que “seguraria o tranco” e daria uma nova dinâmica à vida financeira dos negócios de Harry Donenfeld, até se tornar seu sócio e o ajudar a ficar milionário: Jack Liebowitz.