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2 AS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS E O PROCESSO DE ENSINO-

2.1 Introdução

Neste capítulo procuramos definir o que é Fraseologia, sua área de atuação e quais os teóricos da Europa e do Brasil que contribuíram para o seu crescimento, desde que surgiu, a princípio, como um braço da lingüística, passando pela especificidade da lexicologia, até alcançar o status de ciência lingüística, como defende González Rey (2004), com sua teoria e instrumentos próprios, seu desenvolvimento e suas características de seu objeto de estudo.

Com o objetivo de tornar mais clara a importância da fraseologia, apresentamos a taxionomia das UFs na visão de alguns teóricos, com especial ênfase nas expressões idiomáticas (EIs), classificando-as e caracterizando-as quanto à sua estrutura interna e externa, sem perder de vista a necessidade de essas expressões serem inseridas no processo de ensino-aprendizagem de línguas, sobretudo as estrangeiras.

A fraseologia, em suas variadas manifestações, especialmente as EIs, vem se fixando como uma disciplina merecedora de alguns estudos significativos nos últimos anos, uma vez que envolve diretamente os interessados em desvendar seus mistérios: os falantes de uma língua, seja ela materna ou estrangeira.

No primeiro caso, seu estudo se justifica pelo fato de ser um componente a mais na comunicação cotidiana dos participantes de uma dada comunidade, apesar do preconceito existente com relação à sua presença na sala de aula de língua materna, talvez pelo aspecto coloquial que lhe é peculiar, como acredita González Rey (2004). Para a autora, a comunidade de lingüistas considera as frases feitas como produções sem originalidade e próprias da fala popular e, portanto, sem direito a espaço num lugar dedicado à arte de aprender a escrever, pelo menos no que diz respeito aos níveis primário e secundário, já que na universidade o impulso nasce da investigação do fenômeno fraseológico. Desse modo, o uso das UFs geralmente é de maneira automatizada, sendo essas expressões repassadas de geração para geração, sem o conhecimento, na maioria das vezes, dos acontecimentos e do contexto em que foram geradas e, conseqüentemente, a gama de informações outras que podem trazer consigo.

No segundo caso, além de podermos repetir o mesmo motivo que movem os falantes de uma língua materna a se interessarem pela fraseologia, podemos mencionar outro, também bastante relevante. O fato de as UFs atuarem como veículo de transmissão de cultura de um povo pode cumprir satisfatoriamente a função de promover, na sala de aula de LE uma convivência harmônica entre os dois idiomas: materno e estrangeiro. Assim, a aprendizagem das UFs em LE pode contribuir de maneira expressiva no desenvolvimento da competência comunicativa, objetivo principal a ser alcançado no ambiente de sala de aula.

Talvez por esses motivos a Lexicografia7 venha ganhando tanto espaço com a

elaboração de dicionários exclusivamente voltados para a tarefa de coletar em seus volumes, confeccionados à luz das novas teorias, os usos das EIs, registrando-as, contextualizando-as, além de explicitar sua etimologia e uso. Essa prática específica que cataloga as EIs recebeu a denominação de fraseografia (CORPAS PASTOR & MORVAY, 2002), muito embora seja difícil encontrar sua definição em dicionários menos atentos.

A relativamente nova especificidade na elaboração de dicionários tem gerado produções interessantes onde se recopilam os termos próprios, componentes ou não de expressões idiomáticas e refrões de uma língua, como são facilmente encontradas na língua espanhola, por exemplo em dicionários específicos como os que se seguem:

• Diccionario del Habla de los Argentinos, da Academia Argentina de Letras (2003); • Diccionario de locuciones verbales para la enseñanza del español, de Inmaculada

Penadés Martínez (2002);

• Diccionario Etimológico del Lunfardo, de Oscar Conde (1998); • Vocabulario y Refranero Criollo, de Tito Saubidet (2002);

• Expresiones idiomáticas verbales del español y sus equivalentes semánticos en português, de Ana Belén García Benito (2002);

• Diccionario de expresiones idiomáticas A-Z: español/português, de Ana Belén García Benito (2004);

• Diccionario Gauchesco, de José Gobello (2003); Diccionario fraseológico documentado del español actual: locuciones y modismos españoles, de Manuel Seco (2004);

• Diccionario fraseológico del español moderno, de Fernando Varela e Hugo Kubarth (1994);

• Diccionario Akal del español coloquial, de Alicia Ramos e Ana Serradilla (2000);

7 Para o Dicionário de Lingüística, Lexicografia é a técnica de confecção dos dicionários e a análise lingüística

• Diccionario de Refranes, de Luis Junceda (2005);

• Diccionario de dichos y frases hechas, de Alberto Buitrago (2007).

Outra prova do fascínio que causam os fraseologismos, em geral, no cotidiano das pessoas é o interesse em entender o que diz o Outro, como diz e por que diz. Há uma quantidade infinita de sítios existentes na Internet que se dedicam a catalogar e explicar parêmias e UFs como o Dicionário de Fraseologia, do Portal Galego da Língua (http://www.agal-gz.org/modules.php?name=Encyclopedia&op=terms&eid=3&ltr=N); o Diccionario del Lunfardo, do sitio Todotango (http://www.todotango.com/ spanish/main.html), Diccionarios de variantes del español (http://www3.unileon.es/dp/ dfh/jmr/dicci/0000.htm) e Diccionario de colocaciones del español (http://www.dicesp.com/). Além desses, há outros criados para discutir as EIs e seus equivalentes em várias línguas, numa espécie de fórum virtual, como é o caso do WordReference.com (http://forum.wordreference.com/). A título de exemplificação da importância de se entender as EIs de um determinado grupo falante de uma LE, registramos a existência de um “blog” (http://desdeelbano.blogspot.com/2006/08/gua-para-ver-el-hijo-de-la-novia-1.html)

despretensioso, mas muito interessante, criado por uma cidadã comum argentina. O motivo de sua criação pautou-se na preocupação em conduzir os cinéfilos estrangeiros no entendimento do universo fraseológico de seu país, fortemente registrado no filme “O Filho da Noiva (“El Hijo de la Novia”), de circulação internacional.

O interesse que se nota poderia ser explicado pelo fato de que a fraseologia diz respeito aos cidadãos comuns, pois está diretamente vinculada à linguagem, assim como a Lingüística Aplicada. Segundo Jackendoff (2003), o que interessa às pessoas sobre a linguagem é a “história natural”: a etimologia das palavras, de onde elas vieram. Para entendermos melhor a relação que a fraseologia tem com a Lingüística Aplicada, trataremos desse tema no tópico seguinte.