Parte I – Problema de investigação
17. Jacinta Furtado – Uma microempreendedora orgulhosa
(...) Estamos numa crise e as pessoas falam disso todos os dias mas crise eu nunca fui rica, portanto sempre vive em crise.
Jacinta Furtado é uma Cabo-verdiana nascida em S. Tomé. Cedo foi para Cabo Verde onde viveu a maior parte da sua vida. Viajou depois para a Holanda e pouco depois entrou em Portugal com intuito de acompanhar a mãe que estava doente e veio a falecer pouco depois. Em Portugal viveu no Catujal (Concelho de Loures) e posteriormente com o marido numa Habitação social em Algueirão. Está no país há 10 anos. Quando chegou trabalhou primeiro num cabeleireiro sem contrato de trabalho e depois no num supermercado como trabalhador por conta de outrem.
Sobre a sua situação económica/financeira antes da criação do negócio Jacinta refere que teve problemas de dinheiro mas não sofreu muito porque sempre conseguiu trabalhar. Por isso quando iniciou o seu negócio estava empregada. Foi uma opção deixar o trabalho por conta de outrem para criar o seu próprio negócio.
4.1.12. Experiencia profissional de aproximadamente 20 anos
A experiencia profissional foi fundamental para a Jacinta avançar para a criação do seu próprio negócio. A profissão que sempre aprendeu foi cabeleireiro e já desenvolve esta actividade há mais de 20 anos (em Cabo Verde e Portugal).
Jacinta deixou de trabalhar por conta de outrem para lançar o próprio negócio porque já “trabalhava por conta própria aqui”, conseguiu o empréstimo e não queria continuar a trabalhar por conta de outros.
Estava a trabalhar e senti um pouco humilhada por causa das pessoas. Por isso meti na cabeça uma coisa: Eu sei trabalhar (como cabeleireira), dediquei por mim mesmo e não aprendi com ninguém e disse bem vou lutar e abrir o meu próprio negócio. Por isso que quando fui à formação fiz de tudo para ver se consigo abrir o meu negócio.
A formação profissional encorajou a microempresária a dar o referido passo. Ela tem apenas o quinto ano de escolaridade. Fez um curso de Cabeleireiro além da formação “criação do próprio negócio” no âmbito do PEI.
O principal entrave para a criação do negócio foi sobretudo a sua situação legal em Portugal. Resolvida a questão, o financiamento foi importante porque não tinha condições (activos produtivos, propriedade, recursos) para investir em tudo o que precisava apesar da possibilidade de ter apoios de irmãos.
4.1.13. Microcrédito e criação do próprio negócio: A autonomia que precisava para
a sua vida
O negócio de Jacinta é um Cabeleireiro criado com financiamento do microcrédito desde 2009. O valor do empréstimo foi de 7000 euros sob prestação de garantia para 20% do Capital. O prazo de reembolso é de 4 anos mediante prestações mensais. Questionada sobre as dificuldades no reembolso Jacinta admite até agora estar a conseguir sem dificuldades liquidar as prestações mensais. Para Jacinta o microcrédito e a criação do seu próprio negócio ajudou a ser mais autónoma, a não depender de outros, sentir reconhecimento das pessoas e atingir os seus próprios objectivos de vida. Claro! Deu-me toda a força. Sinto-me realizada, mais capaz, trabalho para mim própria.
Um dos grandes entraves até então segundo Jacinta é a obtenção do Alvará da Camara Municipal de Sintra. Na data da entrevista Jacinta tinha além dela mais três pessoas a trabalhar embora sem contrato de trabalho, segundo ela porque não tendo alvará não consegue formalizar contrato para uma pessoa de acordo com a sua intenção.
4.1.14. Importância da formação, acompanhamento e animação e estratégias de
negócio
A formação “Criação do próprio negócio” e acompanhamento no âmbito do PEI na Associação OS CAÇAS foi importante para a criação e gestão do próprio negócio segundo Jacinta.
Sobre as dificuldades Jacinta afirma o seguinte: Sim não tem sido fácil, mas eu viro-me.
Entre as estratégias de negócio utilizadas por Jacinta encontram-se a diversificação, longas horas de trabalho, forte dimensão relacional e sociocomunitária (clientes são amigos, familiares, ex-colegas, empréstimos familiares quando precisa), promoção para “clientes fixos”.
Se tem poucas pessoas a tratar dos cabelos, tenho produtos de cabelo que posso vender. Como aplico tiçagem, tranças, se não faço uma coisa estou a fazer outra por isso viro-me. E financeiramente só tenho este sítio. Alem disso refere ainda: Trabalho todos os dias. Trabalho das 9h30 às 20h00. Abro mais cedo, fecho mais tarde quando houver necessidade, por exemplo quando há uma festa, as pessoas querem despachar de manha. Já cheguei a abrir às 6h00 da manha. Assim compenso porque pode haver dias que não consiga nada. Além disso eu de vez em quando viajo para trabalhar fora para cobrir aqui.
Jacinta refere que trabalha apenas por conta própria e que pagando o empréstimo nunca mais vai ao banco, fica com a sua propriedade e trabalha e gera os seus rendimentos. Questionada sobre porque que acha que os seus clientes que a procuram, procuram a ela e não aos seus concorrentes refere que a “simpatia” e “qualidade do trabalho da pessoa” é que determina isso.
4.1.15. Impacto do negócio nas condições de vida
O acesso ao microcrédito e criação do próprio negócio tem permitido à Jacinta realizar objectivos de vida que o trabalho por conta de outrem não permitia. Além da satisfação e reconhecimento dos
outros por trabalhar para ela própria, consegue melhores rendimentos e gere a sua vida de outra forma (gestão de horários). A seguinte afirmação ilustra bem o que acabamos de referir:
Sim melhorou a nossa vida. Olha, não trabalho pra ninguém, tenho um filho que está a estudar eu é que dou de tudo. Está na faculdade. Tenho mais uma com 6 anos também que está estudar e que sou eu que dou tudo. O que me deixa mais feliz ainda é que estou a dar ao meu filho o curso que ele precisa e queria. E acredito que se tivesse a trabalhar por conta de outrem secalhar não conseguia garantir nada disso. Sinceramente estou sem ordenado nenhum mas não me preocupo desde que estou a conseguir pagar a alimentação, pagar as minhas despesas…
A microempresária não está convencida que um dia regressa a Cabo Verde mas caso regressar diz que desenvolverá o seu próprio negócio.
O orgulho e a libertação que o seu próprio negócio lhe deu é tanto que a leva a afirmar o seguinte: