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1 INTRODUÇÃO

1.2 Justificativa do objeto de estudo

Antes de explicar os porquês da minha escolha, devo explicitar o enredo do romance Jane Eyre (1897), que chegou às minhas mãos através da tradução de Doris Goettems (2010), publicada pela editora Landmark, em edição bilíngue.

Jane Eyre é escrito em 37 capítulos e é dividido em cinco partes, que se passam nas localidades de Gateshead, Lowood, Thornfield Hall, Whitcross e Ferndean. A narrativa é elaborada pela própria personagem, que relembra acontecimentos da sua vida desde a sua infância até a sua vida adulta. Em Gastshead, a pequena Jane, órfã de pai e mãe, vive na casa de uma tia com seus três primos, onde é tratada com desprezo, sem ser considerada como membro efetivo da família. Aos 10 anos, Jane é enviada a uma escola para preparação de garotas órfãs, em Lowood. A precariedade do local e a falta de alimentação digna provida às garotas que vivem no internato não impedem que Jane se dedique com afinco aos estudos, único meio para que alguém de sua condição social alcançasse algum destaque e sustento. Quando completa 18 anos, já atuando como professora, Jane percebe que nada conhece do mundo, por ter passado os últimos oito anos confinada em Lowood e por não possuir uma família que a acolhesse nas férias. Seu contato com o mundo externo se baseia exclusivamente no relato dos seus livros prediletos e para ampliar sua visão decide aplicar-se a uma vaga de emprego como governanta em Thornfield Hall. Em Thornfield, Jane conhece Edward Rochester, o dono da propriedade na qual irá trabalhar e que, assim como ela, não apresenta grandes atrativos físicos, ao contrário dos personagens que tipicamente recebem destaque em romances da época. Jane se apaixona por Rochester porque admira a sua inteligência; Rochester se apaixona por Jane porque ela não se submete às suas tentativas de dominação. Com o desenrolar dos acontecimentos e a decisão de oficializar o romance através do casamento, Jane descobre que Rochester já é casado e que mantém a esposa, Bertha, trancafiada no terceiro andar de sua mansão, em função de sua loucura. Rochester sugere que ambos vivam como amantes, oferta recusada por Jane, que foge de Thornfield em direção a Whitcross. Longe de Rochester, Jane é abrigada pelos irmãos St. John, Mary e Diana, que mais tarde se descobre serem seus primos. Assim como Rochester, o clérigo St. John tenta dominar e convencer Jane a casar-se com ele sem, no entanto, amá- la. Jane descobre que herdou uma herança e, agora, independente financeiramente, decide investigar o que aconteceu com Edward Rochester. Ao chegar a Thornfield, descobre que a mansão dos Rochester está em ruínas por conta de um incêndio causado por Bertha Rochester, morta no incidente, e que Rochester perdeu uma das mãos e ficou cego ao resgatar os seus criados das chamas. Jane vai à propriedade dos Rochester em Ferndean, onde decide permanecer e casar-se com Edward Rochester. Ao lado de Jane, Rochester recupera a visão quase que integralmente.

Este breve relato de Jane Eyre pode sugerir a narrativa e as convenções de um conto tradicional: uma jovem pobre e órfã, desprovida de beleza, recebe uma herança inesperadamente e casa-se com o homem que ama apesar de todas as adversidades. Os temas abordados por Charlotte Brontë, no entanto, não se assemelham de forma alguma àqueles encontrados em narrativas ingênuas. A autora constrói uma personagem que i) não se sujeita ao poder masculino, mesmo quando esse poder está respaldado por argumentos religiosos; ii) acredita na capacidade do trabalho como forma do alcance da independência feminina; e iii) critica a sociedade, que naturaliza a supremacia dos homens perante às mulheres e a união entre pessoas motivadas exclusivamente pelo dinheiro. Com base na abordagem desses temas polêmicos, decidi analisar comparativamente duas retextualizações de Jane Eyre para o português brasileiro, a primeira (1926, 2.ª edição) e a última16 (2010), com a finalidade de investigar a presença discursiva dos respectivos tradutores.

A retextualização de 2010, de Doris Goettems, apresenta a sua voz em notas de tradução, como forma de contextualizar o leitor acerca das inúmeras expressões em francês, presentes no romance, ou de livros e fatos históricos mencionados na narrativa. Quando adquiri a retextualização de 1926 e deparei-me com as especificidades do contexto em que o trabalho foi produzido – a censura católica, a denúncia da censura feita pelo tradutor em seu paratexto e a possibilidade de comportamento transgressor do tradutor –, optei por trabalhar exclusivamente com essa tradução, ou seja, minha escolha foi guiada pelo CC17. No CC de 2010 possivelmente não havia nada a ser suprimido porque os leitores, em sua maioria, não se chocariam com uma personagem que trabalha para conseguir seu próprio sustento e critica a religião católica. No CC de 1926, com o Estado recém-separado da Igreja devido à Proclamação da República em 1890 (27 anos na história de um país não é uma soma relevante)18, havia. Além disso, o fato de a personagem apresentar características feministas me fazia querer investigar como seria a sua reconstrução no contexto brasileiro,

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Já existe, atualmente, mais uma tradução disponível, de 2011, de autoria da tradutora Heloísa Seixas, publicada pela editora BestBolso.

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O Contexto de Cultura tanto da textualização quanto da retextualização são abordados, mais profundamente, em seção da Metodologia, capítulo 3.

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Somam-se 27 anos, pois a primeira edição de Joanna Eyre, a qual não consegui ter acesso, data de 1917.

tendo em vista que naquela ocasião as mulheres, tipicamente, eram subordinadas aos homens (cf. subseções 3.1.1.3.2 e 3.1.1.3.3).

Na seção seguinte, apresento, brevemente, o que foi abordado neste capítulo e o que é discutido nos capítulos posteriores.

1.3 Estrutura da dissertação

Neste capítulo apresentou-se um panorama da dissertação, dando ênfase para os objetivos e as perguntas de pesquisa que a conduzem. Viu-se também que esta pesquisa apresenta um caráter interdisciplinar, fazendo interface entre os ET, a LSF e os Estudos da Tradução com base em Corpus (ETC), em conformidade com a tradição teórica e metodológica explorada em diversos artigos, estudos, dissertações e teses no contexto brasileiro e internacional. Além dessa Introdução, esta dissertação apresenta outros quatro capítulos. No capítulo 2, correspondente ao Referencial Teórico, são apresentadas as concepções teóricas que guiam a pesquisa em relação à LSF; ao CC manifestado nos conceitos específicos de patronato, (auto-) censura e voz do tradutor; e aos ETC. No capítulo 3, ou Metodologia, são apresentados os estágios de desenho, construção e processamento do corpus; e os procedimentos para a análise dos itens investigados. No capítulo 4, ou Análise do Corpus, são apresentadas as análises dos dados no que se refere i) ao perfil ideacional da personagem Jane/Joanna Eyre, com base nas categorias do Sistema de Transitividade; ii) à presença discursiva do tradutor, com base nas categorias propostas por Hermans (1996) e por mim; e iii) às omissões do tradutor, com base nos conceitos de patronato de Lefevere (1992) e de (auto-) censura de Coracini (2008). Por fim, no capítulo 5, ou Conclusão, são expostas as conclusões a que chega esta pesquisa, as limitações do trabalho face ao escopo sugerido para a sua realização, e, a partir daí, as sugestões para futura pesquisa.