2.3 Ampliando o Contexto de Cultura
2.3.1 Voz do Tradutor
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Sigo aqui a sugestão das professoras Viviane Heberle e Ina Emel, que durante a Banca de Qualificação consideraram mais adequado para a minha pesquisa a inclusão desses conceitos como parte integrante do CC.
“Quando Boris Yeltsin fala através de um intérprete, nós realmente queremos ouvir a voz do intérprete?” 83
, questiona-se Theo Hermans (1996, p. 23) na abertura do seu artigo intitulado The Translator’s Voice in Translated Narrative. Nós a escutamos, certamente, porque desejamos saber o que Yeltsin tem a dizer, observa o autor ao mencionar que procedemos dessa forma por termos sido condicionados a considerar a voz do intérprete como “um veículo transmissor transparente sem substância própria” (HERMANS, 1996, p. 23). Por conta disso, acreditamos que as palavras do intérprete são uma cópia verdadeira das palavras de Yeltsin: ambos os discursos são equivalentes, coincidentes, idênticos. Segundo Hermans (1996), quando refletimos sobre a variedade de processos interlinguais e interculturais assimétricos envolvidos na situação relatada, damo-nos conta de que nutrimos uma ilusão. Em parte, explica o autor, a ilusão existe porque essa é a maneira como fomos levados, culturalmente, a entender ‘interpretação’ e ‘tradução’: como uma “citação direta”.
No que se refere à tradução e à ficção traduzida, essa ilusão da citação direta tende a ser ainda maior, afirma Hermans ao citar o exemplo da tradução juramentada de um diploma de graduação, autenticado como ‘uma cópia fiel’ do original. A autenticação marca a distância existente entre o original e a tradução e, ao mesmo tempo, declara que a cópia é ‘tão boa quanto’ o original. “Tradutores e intérpretes falam em nome de outros indivíduos e, por isso, é esperado que adotem o que Brian Harris chama de norma do ‘porta-voz honesto’, que requer que pessoas que falam em nome de outras reexpressem as ideias dos falantes originais [...] sem omissões significativas [...]”84 (1996, p. 25). Ao ler ficção traduzida, por exemplo, os leitores tipicamente tendem a se esquecer de que, na verdade, estão lendo uma tradução. Como o próprio Hermans sugere, é costumeiro afirmarmos que estamos lendo Dostoiévski, ainda que o nosso olhar corra por palavras em inglês, francês, espanhol ou português, e não em russo. Ele prossegue constatando que esse ‘apagamento’ da intervenção do tradutor é paradoxal: enquanto na interpretação consecutiva existem dois falantes
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When Boris Yeltsin speaks through an Interpreter, do we really want to hear the Interpreter’s voice? (HERMANS, 1996, p. 23).
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Translators, after all, like interpreters, speak in someone else’s name and thus they are expected to subscribe to what Brian Harris has called the ‘true interpreter’ norm, or the ‘honest spokesperson’ norm, which ‘requires that people who speak on behalf of others… re-express the original speakers’ ideas […] without significant omission […] (idem, ibidem, p. 25).
dividindo o mesmo espaço, em ficção traduzida o que se apresenta diante do leitor é exclusivamente o próprio texto traduzido. “A voz primária, a voz original autoritária, está, na verdade, ausente. E, ainda assim, afirmamos que é a única voz que se faz presente” 85
(HERMANS, 1996, p. 26). Segundo Hermans, comportamo-nos de tal forma por força da “hierarquia” implícita na ordem e no tamanho em que aparecem inseridos os nomes dos autores e dos tradutores na folha de rosto dos livros, representada na Figura 9:
Figura 9 – Representação da “hierarquia” implícita na folha de rosto de livros (HERMANS, 1996, p. 26)
Com base no exemplo de Dostoiévski, surgem as perguntas que motivaram a confecção do artigo de Hermans: i) “o tradutor, executor do trabalho manual, desaparece sem deixar traço textual?”; ii) “os tradutores podem usurpar a voz original e, ao mesmo tempo, desocupar o seu próprio espaço enunciatório?”; e iii) “qual voz, exatamente, apresenta-se a nós quando lemos um discurso traduzido?” 86 (HERMANS, 1996, p. 26). Antes de iniciar a discussão dessas questões, Hermans introduz um esquema da representação padrão de narrativas87, conforme a Figura 10:
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The primary voice, the authoritative originary voice, is in fact absent. And yet we casually state it is the only one that presents itself to us (idem, ibidem, p. 26). 86
Does the translator, the manual labour done, disappear without textual trace, speaking entirely ‘under erasure’? Can translators usurp the original voice and in the same move evacuate their own enunciatory space? Exactly whose voice comes to us when we read translated discourse? (idem, ibidem, p. 26).
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Hermans elabora o seu esquema de ‘representação padrão de narrativas’, adaptado aqui em português, com base em Rimmon-Kenan (1983) e Chatman (1978, 1990), assumindo um Autor Implícito e um Leitor Implícito, conforme o informado na nota de fim do seu artigo (idem, ibidem, p. 46).
Figura 10 – Esquema de representação padrão de narrativas sugerido por Hermans (HERMANS, 1996, p. 26)
Pode-se observar que o esquema representa a situação normal, sem referência à tradução; o discurso com o qual nos deparamos é produzido por um narrador (HERMANS, 1996). No entanto, em ficção traduzida, quem exatamente articula o discurso traduzido? Hermans faz um questionamento referente à identidade do narrador na tradução, perguntando se este é o mesmo narrador presente no texto-fonte. Esse esquema padrão mostra que os modelos narratológicos atualmente disponíveis não fazem qualquer distinção entre ficção original e traduzida, negligenciando uma presença na narrativa traduzida que não pode ser completamente suprimida e reforçando a ilusão de uma única voz, transparente e coincidente (HERMANS, 1996).
Hermans argumenta que narrativas traduzidas sempre contêm uma segunda presença discursiva, uma ‘segunda’ voz, a qual ele denomina “a voz do tradutor”. Em alguns casos, ela é tão sutil, mantendo-se encoberta pela voz do narrador, que não chega a ser percebida; em outros, no entanto, o leitor se dá conta de que existe uma outra voz “surgindo das sombras”, interferindo na narrativa. Segundo Hermans (1996, p. 28), existem três casos em que a outra voz em textos narrativos traduzidos se manifesta e intervém diretamente em um texto que o leitor foi levado a acreditar possuir apenas uma voz, aquela do autor:
i) casos em que o texto é orientado a um Leitor Implícito e, por isso, sua habilidade de funcionar como um meio de comunicação está em risco;
ii) casos de autorreflexividade e autorreferencialidade envolvendo o próprio meio de comunicação;
iii) casos em que ocorre ‘sobredeterminação contextual’ - ‘contextual overdetermination’, terminologia criada por Hermans;
Em cada um desses casos o grau de visibilidade da presença discursiva do tradutor depende da estratégia de tradução88 adotada e da consistência com a qual é empregada ao longo do texto traduzido. No que se refere ao primeiro caso, Hermans (1996) afirma que narrativas traduzidas são endereçadas a um Leitor Implícito diferente daquele do texto-fonte, já que o discurso traduzido opera em um novo contexto. Todos os textos são impregnados pela sua cultura e para que possam funcionar como veículos de comunicação, é necessário que tanto aqueles que os produzem quanto aqueles que os leem compartilhem certas referências culturais. É precisamente em situações como essa, que se referem ao contexto cultural dos textos, que a voz do tradutor se introduz abertamente no discurso, objetivando fornecer informações consideradas necessárias para garantir a compreensão do texto pela sua nova audiência, como ocorre, por exemplo, nas notas de tradutor e em outros paratextos (HERMANS, 1996).
No que se refere ao segundo caso, o autor menciona que a “autorreferencialidade” e a “autorreflexividade” são por ele utilizadas como terminologias “um tanto gerais”, pois englobam casos de intraduzibilidade – como textos que afirmam serem escritos em um determinado idioma –, e trocadilhos ou polissemias, típicos de linguagem literária. Segundo Hermans (1996), em algumas situações, traduções criam certas “contradições” e “incongruências” que levam os leitores a suspeitar de que exista uma outra presença discursiva se insinuando na narrativa; em outras situações, o próprio texto demanda a intervenção explícita da voz do tradutor através da utilização de parênteses ou notas. Hermans (1996) cita como exemplo de intraduzibilidade, o capítulo final de Discours de La Méthode (DESCARTES, 1637). No original em francês, o autor, em determinado momento, afirma que o livro “é escrito em francês e não em latim”. A tradução para o latim não mantém tal afirmação, justamente para evitar a “autocontradição” de uma declaração em latim com os dizeres “o texto é escrito em francês e não em latim”. O leitor da versão latina, portanto, é incapaz de detectar essa omissão e, consequentemente, neste caso
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Utilizo o termo ‘estratégia de tradução’, no sentido atribuído por Albir (2011, p. 246): “procedimentos, conscientes e inconscientes, verbais e não verbais, utilizados pelo tradutor para resolver problemas encontrados no desenrolar do processo tradutório, em função de necessidades específicas”.
específico, a estratégia tradutória marca, na verdade, a invisibilidade do tradutor e não a sua presença discursiva. O tradutor da versão inglesa do excerto de Descarte, por sua vez, ao inserir a tradução em inglês do trecho com a afirmação do autor de que escreve em francês (“and if I write in French rather than in Latin it is because”) apresenta, ainda que com menos evidência, uma “autocontradição” para o público-alvo e cria uma “lacuna de credibilidade” que os leitores podem apenas solucionar ao se lembrarem de que estão lendo uma tradução. Além disso, esses mesmos leitores se dão conta de que a referida afirmação não pertence exclusivamente a Descartes. “Existe também outra voz atuando, imitando e duplicando a primeira, mas com um timbre próprio” 89 (HERMANS, 1996, p. 30).
No que se refere ao terceiro caso, o autor sentiu a necessidade de criá-lo ao analisar diversas traduções do romance holandês Max Havelaar, de Multatuli (pseudônimo de Eduard Douwes Dekker), publicado em 1860. Com uma narrativa bastante complexa, o romance relata a história de Max Havelaar, um funcionário público holandês da administração colonial das Índias Orientais Holandesas nos anos 1850. A estrutura narrativa atípica e a utilização de diferentes narradores ao longo da história são responsáveis pela autenticidade e riqueza do romance, que mistura dados fictícios com a realidade, dentre os quais se destaca o fato de os personagens Max Haveelar e Sjaalman (introduzido por um dos narradores na história) serem o próprio Multatuli. Segundo Hermans (1996), a “sobredeterminação contextual” é evidenciada por meio das iniciais E.H.V.W, utilizadas na narrativa em referência à personagem Tine, esposa de Haveelar: as iniciais formam um provérbio holandês (Eigen haard veel waard; em português em tradução livre ‘não existe lugar melhor que a nossa casa’) e remetem à dedicatória presente no livro, destinada à “E.H.v.W. – Everdine Huberte Baronnesse van Wynbergen”, esposa do escritor Eduard Douwes Dekker, autor do romance. Conforme Hermans (1996) observa, devido a essa “sobredeterminação contextual”, os tradutores tinham de manter as iniciais e o provérbio em holandês no texto traduzido – inserindo uma nota explicativa –, pois as iniciais são parte de uma “cadeia de identificação conectando a personagem ficcional Tine com o nome presente na dedicatória” (HERMANS, 1996, p. 40) e auxiliam os leitores na solução do enigma de que Haveelar, Sjaalman e Multatuli/Eduard Douwes Dekker são todos a mesma pessoa.
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There is, clearly, another voice at play, duplicating and mimicking the first one, but with a timbre of its own (idem, ibidem, p. 30).
Além do terceiro caso, Hermans (1996) exemplifica os outros dois tipos de ‘voz do tradutor’ através da análise dessas traduções de Max Haveelar (1860) e conclui o seu artigo argumentando a necessidade de um modelo de narrativa traduzida que considere a voz do tradutor se insinuando no discurso. “Um modelo que incorpore o tradutor coproduzindo o discurso, imitando e forjando as palavras do narrador e, ocasionalmente, surgindo nas disparidades do texto e paratextualmente, como uma presença discursiva à parte” 90
(HERMANS, 1996, p. 44). E finaliza afirmando que a tradução é irredutível: sempre deixa vestígios, é sempre híbrida, plural e diferente.
No contexto da presente pesquisa – e exclusivamente para utilização neste contexto, proponho acrescentar um outro tipo de caso que contribui para a manifestação explícita dessa outra voz em ficção traduzida, que emerge das próprias análises aqui feitas e sugere um ‘posicionamento político’ do tradutor em seu paratexto ‘Prefácio’ diante da censura de sua época:
iv) casos em que o tradutor se vê impelido, devido ao Contexto de Cultura, a inserir mais informações no paratexto ‘Prefácio’, motivado exclusivamente por uma agenda política.
Uma agenda política que, no contexto desta pesquisa, hipotetiza- se ser manifestada para combater o patronato.