2.2 A bidirecionalidade texto-contexto no âmbito da
2.2.2 A Metafunção Ideacional e o Sistema de
2.2.2.1 Processos Materiais e Respectivos Participantes
Orações Materiais47 correspondem àquelas de ‘Acontecer & Fazer’ e, por isso, estão relacionadas com a construção de experiências do mundo externo (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004). Dessa forma, tipicamente, Processos Materiais representam eventos concretos: “mudanças no mundo material passíveis de serem percebidas, como o deslocamento no espaço [...]” 48
(MARTIN, MATTHIESSEN e PAINTER, 1997, p. 103); a alteração de estado físico; e a realização, o acontecimento e a criação de coisas.
Em orações Materiais, existe sempre um Participante – o Ator (Actor), que realiza o desdobramento do Processo através do tempo, conduzindo a um efeito diferente daquele existente na fase inicial do desdobramento (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 180). Esse efeito pode ser restrito ao próprio Ator, como ocorre em orações que representam (a) ‘Processos de Acontecer’, denominadas intransitivas, onde o Ator é o único Participante envolvido no Processo, que é realizado por um grupo verbal ativo:
46
[...] optional augmentations of the clause rather than obligatory components (idem, ibidem, p. 175).
47
Halliday e Matthiessen (ibidem, p. 187-189) oferecem tabelas com exemplos de Processos Materiais em língua inglesa, assim como Fuzer e Cabral (2010, p. 36) disponibilizam exemplos de Processos Materiais em português brasileiro: ambos os levantamentos se encontram no Anexo A e serviram como base na análise dos dados desta dissertação.
48
changes in the material world that can be perceived, such as motion in space [….] (MARTIN, MATTHIESSEN e PAINTER, 1997, p. 103).
(a)
[Joanna] vem!
Ator Processo Material
Grupo nominal Grupo verbal ativo
No entanto, em muitas orações, o desdobramento do Processo se estende a outro Participante – a Meta (Goal), impactando-o de alguma forma: “o efeito [do Processo] é registrado em primeira instância na Meta e não no Ator” 49
(HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 180). Este segundo tipo de oração Material, classificada como transitiva, representa ‘Processos de Fazer’ e pode ser realizada por um (b) grupo verbal ativo ou (c) passivo:
(b)
A Joanna devia ter esmagado esses pensamentos.
Ator Processo Material Meta
Grupo nominal Grupo verbal ativo Grupo nominal
(c)
Esses pensamentos deviam ter sido esmagados por Joanna.
Meta Processo Material Ator
Grupo nominal Grupo verbal passivo Grupo nominal
Nas três orações, o Ator (realizado pelo grupo nominal Joanna), atua como um Participante inerente e faz algo. No entanto, em (a) a ação praticada por Joanna (ir) é restrita a ela mesma. Já em (b) e (c) a ação realizada por Joanna (esmagar) foi dirigida aos, ou extensiva aos, seus pensamentos, a Meta, o Participante que “sofre ou é submetido ao Processo” (HALLIDAY e MATTHISSEN, 2004, p. 181).
Como se pôde observar através da configuração dos exemplos (a), (b) e (c) o “Ator é um Participante inerente tanto a orações materiais transitivas quanto a intransitivas; a Meta é inerente a orações transitivas” 50
(HALLIDAY e MATTHIESSEN 2004, p. 190). Somados a essas duas categorias de Participantes, existem outros quatro envolvidos em orações com Processos Materiais: o Escopo (ou extensão), o Recebedor, o Cliente e, mais à margem, o Atributo. Este último, por “entrar em
49
the outcome is registered on the Goal in the first instance, rather than on the Actor (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 180).
50
The actor is an inherent participant in both intransitive and transitive material clauses; the Goal is inherent in transitive clauses (idem, ibidem, p. 190).
orações Materiais de modo mais restrito”, (HALLIDAY e MATTHISSEN, 2004, p. 195) não será discutido nesta dissertação.
O Escopo (Scope) é a Extensão (Range) dos Processos Materiais (MARTIN, MATTHIESSEN e PAINTER, 1997). Conforme indicam Halliday e Matthiessen (2004), o Escopo não é afetado pelo desempenho do Processo. Na verdade, este tipo de Participante (d) expressa o domínio sobre o qual repousa o Processo ou (e) constrói o próprio Processo:
(d)
I would cross oceans.
Ator Processo Material Escopo (Entidade)
(e)
Tu tencionas tomar um rumo.
Ator Processo Material Escopo (Processo)
No exemplo (d) o Escopo constrói uma Entidade – por isso a denominação Escopo (Entidade) – que existe independente do Processo, mas que indica o seu domínio de atuação, o domínio no qual o Processo acontece. Com base em nossa experiência, sabemos que o grupo nominal oceans (oceanos) existe independentemente do fato de alguém querer atravessá-lo ou não porque é assim que a gramática, tanto do inglês quanto do português, o constrói – como um Participante que pode estar presente em diferentes tipos de Processos. Em I would cross oceans (Eu atravessaria oceanos), oceans representa a extensão do grupo verbal would cross, isto é, ambos estão semanticamente ligados.
Na oração (e) Tu tencionas tomar um rumo, fica evidenciado que o Escopo auxilia na construção do próprio Processo – por isso a classificação Escopo (Processo): ele é responsável pela significação do grupo verbal. Dessa forma, o Processo (tomar), somado ao Escopo (um rumo), resulta em rumar, a própria ação realizada pelo Ator (Tu). Aqui, o grupo verbal é lexicalmente ‘vazio’ e, por isso, “o Processo da oração é expresso apenas pelo grupo nominal que funciona como Escopo” 51 (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 193), tal qual nas construções tomar um banho (banhar-se), cometer um erro (errar), fazer um pedido (pedir), dar uma olhada (olhar), etc.
O Recebedor (Recipient) e o Cliente (Client) ocorrem em contextos bastante diversos (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p.
51
the process of the clause is expressed only by the noun functioning as Scope (idem, idibem, p. 193).
191). No entanto, assim como a Meta, ambos são afetados pelo Processo; mas enquanto aquela sofre a ação praticada no desdobramento do Processo, o Recebedor e o Cliente se beneficiam do Processo (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 191 e 192). No caso do Recebedor, o benefício ocorre através da transferência de bens. Dessa forma, ele atua em orações Materiais como (f) a entidade que realiza a posse do bem:
(f)
Jane will give me her love.
Ator Processo Material Recebedor Meta
Já o Cliente tende a participar de Processos Materiais que denotam criatividade, isto é, este Participante representa (vii) a entidade para quem alguma coisa é feita, criada ou transformada.
(g)
You may make a dressing-gown for yourself.
Ator Processo Material Meta Cliente
Na oração (f) Jane will give me her love/Jane me dará o seu amor, o Recebedor (realizado pelo pronome pessoal me) se beneficia do Processo (dar/give), por ser o Participante que detém a posse da Meta (o amor de Jane/her love). No exemplo seguinte, (g) You may make a dressing gown for yourself/Você pode fazer um roupão para si mesmo, o Cliente (realizado pelo pronome pessoal si/yourself) se beneficia do Processo (fazer/make), por realizar o papel do Participante para quem algo é criado, que corresponde à Meta (roupão/dressing-gown). Ambos os exemplos demonstram que, tipicamente, (i) o Recebedor e o Cliente são construídos por pronomes pessoais; e (ii) a Meta desempenha a função do “bem transferido” (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 191), em orações Materiais com Recebedor; e do “bem que é criado” (HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 191), feito ou transformado, em orações Materiais com Cliente.