• Nenhum resultado encontrado

3. ENTRE MERCADO E SOCIEDADE CIVIL: A DISCUSSÃO SOBRE AGROTÓXICOS E OS

3.2. LÓGICA DO MERCADO DISSOCIADA DA SOCIEDADE DE RISCO

Conforme bem acentua Beck os riscos são igualmente uma oportunidade de mercado, entretanto, na sociedade de risco opõem-se aqueles que produzem as situações de riscos daqueles que são direta e instantaneamente afetados por estes riscos.

“É justamente ao lidar com os riscos que se origina uma multiplicidade de novos conflitos e diferenciações. Estes não se atêm mais ao esquema da sociedade de classes. Eles surgem sobretudo da ambivalência dos riscos na sociedade de mercado

158Tal como aponta Beck (Ibidem), riscos são inicialmente bens de rejeição, cuja inexistência é pressuposta até prova em contrário, de acordo com o princípio “in dubio pro progresso”, o que equivale dizer, que na dúvida, deixa estar.

159 Cf. infra capítulo 4 (4.2) 160 Cf. Infra capítulo 4

59 desenvolvida: os riscos não são nesse caso apenas riscos, são também oportunidades de mercado. É precisamente com o avanço da sociedade de risco que se desenvolvem como decorrência as oposições entre aqueles que são afetados pelos riscos e aqueles que lucram com eles. Da mesma forma, aumenta a importância social e política do conhecimento, e consequentemente do acesso aos meios de forjar o conhecimento (ciência e pesquisa) e disseminá-lo (meios de comunicação de massa). A sociedade de risco é, nesse sentido, também a sociedade da ciência, da mídia e da informação. Nela, escancaram-se assim novas oposições entre aqueles que produzem definições de risco e aqueles que as consomem.”161 (grifei)

Essa oposição, no entanto, é anulada na medida em que os riscos passam a afetar a todos de forma indiscriminada, revogando as zonas residuais de imunidade e desenvolvendo uma tendência à unificação objetiva das suscetibilidades em situações de ameaça global.162

Não obstante os riscos globais iminentes quanto ao uso de agrotóxicos na agricultura, no Brasil o seu emprego só tem aumentado ao longo dos anos, o que decorre do fato de que o agronegócio, fundamentado no uso maciço de agrotóxicos, representa no Brasil a principal atividade econômica, responde por um em cada três reais gerados no país, corresponde a 33% do Produto Interno Bruto (PIB)163 e a 42% das exportações totais do país.164

No tocante à indústria de agrotóxicos verifica-se que se trata de um segmento altamente concentrado em nível mundial, vale dizer, poucas empresas controlam a produção dos agrotóxicos no mundo. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM)165, as maiores produtoras de agrotóxicos do mundo são Syngenta166, Bayer167, Monsanto168, Basf169, Dow170, Du Pont171 e Nufarm172 e todas possuem fábricas no Brasil. Em 2007, seis das maiores empresas fabricantes de agrotóxicos (Bayer, Syngenta, Basf,

161Ibidem, p. 56.

162Enquanto as sociedades de classes são organizáveis em Estados Nacionais, as sociedades de risco fazem emergir “comunhões de ameaça” objetivas, que em última instância somente podem ser abarcadas no marco da sociedade global. Ibidem, p. 57. Outra distinção entre as sociedades de classes e as sociedades de risco reside no fato de que as primeiras estão referidas ao ideal de igualdade, enquanto que a segunda está pautada na segurança Ibidem, p. 59.

163O PIB é um indicador econômico que representa a soma dos valores de todos os bens produzidos dentro de um país, em determinado período.

164CEPEA – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Disponível em: <

www.cepea.esalq.usp.br>. Acesso em: 09.09.2012. Portal do agronegócio. Disponível em: <http://www.portaldoagronegocio.com.br>. Acesso em:

Acesso em: 09.09.2012.

165Anuário da Indústria Química Brasileira – Edição de 2011.

166Disponível em: http://www.syngenta.com/country/br/pt/Pages/home.aspx. Acesso em: 18.08.2012. 167Disponível em: http://www.bayer.com.br/scripts/pages/pt/index.php. Acesso em: 18.08.2012. 168Disponível em: http://www.monsanto.com.br/. Acesso em: 18.08.2012.

169Disponível em: http://www.basf.com.br/. Acesso em: 18.08.2012. 170Disponível em: http://www.dow.com/brasil/. Acesso em: 18.08.2012.

171Disponível em: http://www2.dupont.com/Brazil_Country_Site/pt_BR/. Acesso em: 18.08.2012. 172Disponível em: http://www.nufarm.com/BR/Inicio. Acesso em: 18.08.2012.

60 Monsanto, Dow e DuPont) controlavam 86% do mercado mundial173. Só no Brasil a participação dessas empresas foi estimada em cerca de 80% do mercado em 2006174.

As empresas fabricantes de agrotóxicos são classificadas em integradas e especializadas. As empresas integradas são aquelas que atuam em todas as etapas da produção dos agrotóxicos – da pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas químicas até a distribuição e a comercialização dos produtos finais. Geralmente, as empresas integradas são subsidiárias de grandes grupos da indústria química que apresentam um grande dinamismo tecnológico e são líderes no segmento de mercado em que atuam. As empresas especializadas são aquelas que atuam na fabricação de produtos técnicos, cuja validade da patente tenha expirado (produtos equivalentes), e de produtos formulados. Elas concorrem diretamente com as empresas integradas no mercado de produtos formulados com patente vencida.

Como sublinham Terra e Pelaez175:

“O mercado da indústria de agrotóxicos como um todo apresenta-se altamente concentrado em nível mundial. Em 2004 cerca de 10 empresas controlavam aproximadamente 98% das vendas nas diferentes regiões do planeta (Terra, 2008). Em 2007, as seis maiores empresas do ramo (Bayer, Syngenta, Basf, Monsanto, Dow, DuPont) controlavam 86% do mercado mundial (McDougall, 2008). No Brasil a participação das oito maiores empresas do ramo foi estimada em cerca de 80% do mercado em 2006 (Neves, 2006).

De acordo com os dados acima apresentados, constata-se, assim, que a lógica do agronegócio está dissociada dos riscos iminentes decorrentes do emprego de agrotóxicos na agricultura. Essa dissociação não é setorizada, vale dizer, não diz respeito apenas ao mercado de agrotóxicos, mas é generalizada, ou seja, envolve o modo de produção capitalista global, que se constituiu ao longo da história e que se mantém “cego” aos problemas ambientais e sociais atuais, os quais também foram surgindo durante esse processo.

Usando as palavras de Gilberto Dupas176: “Os mercados são míopes e predadores por natureza, não se permitindo perceber a escassez futura de recursos ou sumidouros nem incorporar as incertezas de longo prazo.”

173In McDougall, P. “The global agrochemical and seed markets: industry prospects”. Presentation at CPDA Annual Conference. San Francisco, 21st July, 2008. Disponível em:

http://www.cpda.com/CPDA/files/ccLibraryFiles/Filename/000000000191/Phillips%20-

%20The%20Global%20Agrochemical%20and%20Seed%20Markets.pdf. Acesso em 10.08.2012

174In NEVES, E. M. “Defensivos agrícolas: participação no mercado das principais empresas”. Boletim do Programa de Educação Tutorial. Departamento de Economia, Administração e Sociologia, ESALQ/Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2006.

175 In TERRA, F.H.B; PELAEZ, V. “A História da Indústria de Agrotóxicos no Brasil: das primeiras fábricas na década de 1940 aos anos 2000”. Disponível em: http://www.sober.org.br/palestra/13/43.pdf. Acesso em 14.09.2012.

61 Necessário, portanto observar a visão do mercado e da economia em relação aos recursos naturais. Como bem aponta Andrei Cechin177, a economia do século XIX estava atrelada à ideia defendida por Adam Smith de que a riqueza é criada pelo trabalho, vale dizer, pela transformação de recursos naturais em bens de consumo. A riqueza, portanto, estava atrelada à melhora na produtividade, a qual dependia de uma divisão rígida do trabalho. O crescimento econômico, então, adviria da acumulação de capital resultante da produtividade do trabalho e dos lucros daí decorrentes. Tal pensamento foi aperfeiçoado com o ideal de acumulação de capital, de modo que o crescimento econômico deveria ser medido também através da poupança proveniente dos lucros.

A revolução no pensamento econômico ocorre no período compreendido entre 1870 e 1890 com a denominada Revolução Marginalista, caracterizada pela utilização de técnicas matemáticas de cálculo diferencial e pelo distanciamento do foco de questões até então consideradas fundamentais, como a produção e a distribuição da riqueza. A economia passa a ser um campo de ciência matemática, dissociada da política178.

Após a Grande Depressão, na década de 1930, John Maynard Keynes formula uma nova concepção da economia, pautada na preocupação com a taxa de crescimento econômico e de acordo com uma visão macroeconômica, segundo a qual o crescimento seria aferível por índices de consumo, poupança, renda, produção e emprego. Segundo Keynes o crescimento econômico constante só seria possível se políticas fiscais e monetárias apropriadas fossem seguidas pelo governo.

Como aponta Cechin, a economia de boa parte do século XX foi uma combinação da microeconomia neoclássica com a macroeconomia inspirada no keynesianismo, o foi denominada por Paul Anthony Samuelson (Economics – 1948) de síntese neoclássica179. De

176 In “Meio Ambiente e Crescimento Econômico: tensões estruturais”. Gilberto Dupas (org). São Paulo: Editora UNESP, 2008. “O impasse ambiental e a lógica do capital”. P. 57

177 In “A Natureza como Limite da Economia. A contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen”, Ed. SENAC/EDUSP, São Paulo, 2010, p. 27.

178Um dos percussores deste pensamento foi Léon Walras, cuja principal obra foi Elements of a Pure Economics. Segundo Walras, para cada mercadoria trocada no mercado haveria um único preço, visto que a oferta e a demanda eram tidas como forças que se cancelavam. O foco do pensamento econômico passa a ser a fixação dos preços e a forma com que os bens são alocados entre os indivíduos. O equilíbrio do sistema econômico residiria na satisfação humana, quando ninguém quisesse mais efetuar trocas, dados os bens disponíveis e os preços dos bens de consumo. Para os marginalistas os preços são determinados pela demanda, ou seja, a utilidade que os bens possuem para os consumidores, diferente do pensamento clássico, segundo o qual os preço era determinado pelo custo objetivo de tempo e trabalho. Sintetizando estes dois pensamentos, Alfred Marshall assume que o preço de mercado é o ponto em que a oferta encontra a demanda.

179Depois da Segunda Guerra Mundial, a síntese neoclássica tornou-se praticamente um consenso entre os economistas e os formuladores de políticas econômicas. Desde que a economia crescesse e produzisse pleno emprego, o fruto do crescimento atual do produto disponibilizaria recursos adicionais para atender às necessidades de todos. O crescimento econômico passou a ser visto como a chave do sucesso, mesmo porque a

62 acordo com o mesmo autor, os clássicos viam no crescimento econômico o foco do pensamento econômico. Para alguns, o crescimento seria retardado até chegar numa economia estacionária, enquanto que para outros, o crescimento levaria o próprio sistema capitalista ao colapso. Para a corrente clássica, avanços tecnológicos proporcionam uma maior produtividade do capital, aumentando a taxa de crescimento econômico e a renda per capita, além de mudar a estrutura da economia de acordo com o novo uso dos fatores. Como observa o autor180 é curioso notar que os autores pós Revolução Marginalista foram abandonando o termo política na tentativa de estabelecer uma nova ciência pura do fenômeno econômico. Supostamente longe de juízos morais, além de rigorosa e universal como a física, a disciplina passaria a ser chamada em inglês de economics, em alusão a physics, e não mais de political economy.

Cechin181 prossegue na análise deste processo histórico acerca da economia, citando as ideias de Stanley W. Jevos, o qual defendia que o auto interesse humano era uma força muito parecida com a força da gravidade182 e que levaria os indivíduos a maximizarem sua utilidade, como uma medida de satisfação pessoal proporcionada pelo consumo. Como os recursos não são infinitos haveria uma restrição às ações. O problema, a partir de Jevos, passaria a ser o de encontrar a combinação de bens e serviços que maximizassem a utilidade, isto é, a satisfação das pessoas, dada a restrição de recursos. Na visão de Jevos, diferenças nas utilidades individuais criavam um tipo de energia potencial para a troca. Tanto que, para ele, a noção de valor era para a economia o que a noção de energia era para a mecânica.

A Revolução Marginalista consolida, assim, o entendimento mecânico do sistema econômico. A ideia era que existe no mundo social um ponto em que todas as forças que agem no sistema se cancelam, de modo que as trocas entre os indivíduos auto interessados levariam a economia ao equilíbrio, em que todos estariam maximizando sua utilidade183.

Tal visão, no entanto, é irreal, pois não considera absorção de materiais e a ejeção de resíduos, contradizendo uma das principais leis da física: a lei da entropia, conforme formulou Nicholas Georgescu-Roegen184.

síntese neoclássica aceitava o status quo no que diz respeito à estrutura da economia. Assim, tal sistema teórico se ajustava bem ao clima de debate que prevaleceu na décadas subseqüentes à Segunda Guerra. Faltava, contudo, uma teoria do crescimento que fosse compatível com a idéia de equilíbrio estável dos neoclássicos. 180Ibidem, p.32.

181Ibidem, p.33.

182Explica Andrei Cechin, Ibidem, p. 33. “Para prever como um objeto se moverá num campo gravitacional, é preciso saber a direção para a qual a gravidade está agindo e o formato de qualquer restrição ao movimento do objeto.”

183Ibidem, p. 35.

63 A economia não pode ser analisada como uma totalidade em si, isto é, como uma ciência exata dissociada do mundo, justamente porque ela é um subsistema de um sistema maior denominado meio ambiente185. Até meados da década de 1960, nenhuma escola de pensamento econômico considerava explicitamente a entrada de recursos naturais necessários para a produção e a saída necessária de resíduos da produção.

De acordo com a teoria de Georgescu, a economia é um sistema aberto e não pode estar dissociada do tempo histórico, pois a produção econômica é uma transformação entrópica, ou seja, está fundamentada na segunda lei da termodinâmica – a lei da entropia – segundo a qual a degradação energética tende a atingir um máximo em sistemas isolados e não é possível reverter esse processo, isto é, o calor tende a se distribuir de maneira uniforme por todo o sistema e não pode ser aproveitado para gerar trabalho, de modo que as mudanças no caráter da energia tendem a torná-la inutilizável. A entropia é justamente a relação entre a energia desperdiçada ou “perdida” – que não poder ser mais usada para realizar trabalho – e a energia total do sistema186 .

Em suma, Georgescu concluiu que o que entra no processo econômico são recursos da natureza e que há uma saída inevitável de lixo, o qual, ainda que possivelmente reciclável num primeiro momento, tornar-se-á lixo não reciclável num segundo momento, o que significa que este lixo será devolvido à natureza, que por sua vez será degradada e, por conseguinte, deixará de produzir os recursos naturais necessários para ingresso no sistema produtivo.

Este ciclo demonstra um declínio natural do modo de produção capitalista. Para Georgescu187, resta saber se a humanidade quer continuar usando rapidamente os estoques de recursos naturais terrestres, comprometendo assim a possibilidade de reprodução material das gerações futuras, ou se, ao contrário, admite evitar qualquer uso desnecessário de recursos a fim de prolongar sua existência.

E assim Cechin188 pontua o cerne do problema ecológico:

“(...) a utilização dos recursos energéticos e materiais terrestres no processo produtivo e a acumulação dos efeitos prejudiciais da poluição no ambiente revelam que a atividade econômica de uma geração tem influência na atividade das gerações futuras. Assim, está

185In CECHIN, Andrei. “A Natureza como Limite da Economia. A contribuição de Nicholas Georgescu- Roegen”, Ed. SENAC/EDUSP, São Paulo, 2010, p. 41.

186Ibidem, pp. 59/66.

187In “Energy and Economic Myths”. Institutional and Analytical Economic Essays. New York: Pergamon Press, 1976, apud, CECHIN, Andrei. “A Natureza como Limite da Economia. A contribuição de Nicholas Georgescu- Roegen”, Ed. SENAC/EDUSP, São Paulo, 2010, pp. 86/87.

64 em jogo a possibilidade de que estas tenham qualidade de vida igual ou maior que a da atual geração.”

O relatório “The Limits to Growth” lançado em 1972 por uma equipe do Instituto de Massachussetts (MIT)189 a pedido do Clube de Roma190, apontou para o colapso econômico no século 21191, através de um modelo computacional192, que apontou as consequências do modo de produção atual, considerando cinco variáveis: população mundial, industrialização, poluição, produção de alimentos e esgotamento de recursos.

A questão central, tal como aponta Gilberto Dupas193, é saber:

“como equilibrar os benefícios dos novos vetores tecnológicos definidos pelo setor privado, incluindo agora genética, robótica e nanotecnologia, com os seus riscos – que incluem graves alterações no clima e envenenamento ambiental –, os quais podem desencadear um desastre que comprometerá irremediavelmente a existência terrena de muitas gerações futuras.”

A solução para esta questão, que envolve o problema da distribuição de recursos naturais entre as gerações, não será dada pela economia, mas sim por valores éticos que devem ser absorvidos pela sociedade atual, de modo que a economia e os recursos naturais devem ser pensados de forma a maximizar as utilidades, pois, como bem afirma Cechin194, “a sociedade é uma entidade virtualmente imortal, e por essa razão não pode ser aplicado o mesmo raciocínio econômico que se aplica ao indivíduo”.

Pautado numa nova ótica da economia, a qual é vista de forma integrada ao meio ambiente, foi institucionalizada a denominada “economia ecológica”195. De acordo com essa

corrente de pensamento a economia é analisada como um subsistema aberto de um sistema bem maior, que é finito e não aumenta, enquanto que o pressuposto da economia convencional (corrente neoclássica) é que não há limites, postos pelo ambiente, à expansão da

189Os autores foram Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers, and William W. Behrens III. 190Organização não-governamental, fundada em 1968, formada por economistas, industriais, banqueiros, chefes de Estado, lideres políticos e cientistas de vários países, que tem por objetivo analisar a situação mundial e apresentar previsões e soluções para o futuro.

191Em 2008 Graham Turner da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO) na Austrália, publicou o artigo entitulado "A Comparison of `The Limits to Growth` with Thirty Years of Reality", onde comparou a realidade dos 30 anos posteriores à publicação relatório “The Limits to Growth” com as previsões nele feitas e pode concluir ser coerente a previsão de um colapso econômico e social no século 21. 192O modelo World3 foi criado pela equipe do MIT para simular as consequencias da interação entre os sistemas do planeta Terra com os sistemas humanos.

193Ibidem, pp. 21/22.

194Ibidem, p. 102. Um indivíduo é mortal e por isso escolhe entre consumir no presente ou consumir no futuro. 195Ibidem, pp. 138/146. Segundo Cechin, a institucionalização da “economia ecológica” se deu com o estabelecimento da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (International Society for Ecological Economics – ISEE) em 1989 e com o periódico Ecological Economics, cujo primeiro número surgiu em 1989. E a consolidação do pensamento desta corrente de pensamento deve tributo às contribuições independentes de Kenneth E. Boulding, Nicholas Georgescu-Roegen, Herman E. Daly, Robert U. Ayres e Allen Kneese, na década de 1960.

65 atividade humana. As duas maiores distorções da abordagem convencional da economia são: ignorar o fluxo inevitável de resíduos e apostar na substituição sem limites dos fatores de produção (capital natural/ecológico, capital humano/social e capital físico/construído)196.

O fundamento central da “economia ecológica” segundo Andrei Cechin e José Eli da Veiga197 reside na constatação de que o crescimento econômico não ocorre no vazio, muito menos é gratuito, mas sim tem um custo que pode se tornar mais alto que o benefício, gerando um “crescimento antieconômico”, o que é inconcebível para qualquer economista convencional (da corrente de pensamento neoclássica). Em síntese, o fundamento central da “economia ecológica” decorre da ideia de que o crescimento pode ser econômico e antieconômico.

A ideia do crescimento antieconômico coincide justamente com a ideia da sociedade de risco, na medida em que se passa a admitir que o modo de produção atual produz resíduos e que estes resíduos geram impactos ao meio ambiente, que por sua vez pode deixar de produzir os recursos naturais necessários para a própria produção, e mais, pode ser alterado a ponto de comprometer a própria sobrevida da espécie humana no planeta Terra.

Traduzindo esta relação para o mercado de agrotóxicos, temos que o emprego de agrotóxicos na agricultura compromete a diversidade biológica, além de produzir alimentos contaminados com resíduos tóxicos, os quais geram problemas à saúde dos seres humanos198. Em longo prazo, as terras e a diversidade do bioma terrestre e aquático estarão comprometidas em virtude desse emprego maciço de agrotóxicos, sem falar nos problemas de saúde pública advindos da contaminação dos seres humanos em decorrência do consumo contínuo de alimentos originários desse modo de produção.

A natureza se converteu num problema ético. Os riscos advindos do emprego de