Uma jovem nobre da Andaluzia (Catalina) resolve disfarçar-se de homem e partir para a guerra, para honrar o nome do seu pai. Conhecida como D. Martín, destaca-se pela valentia e bondade. Cuida com tanto esmero do príncipe ferido, que este fica confuso com a sua sexualidade. Chamada de urgência a casa pela doença do pai, Catalina é recebida com orgulho e, seguida pelo príncipe, que percebeu o disfarce, acaba por casar com ele e ser feliz para sempre.
Encontramos aqui um leque de personagens, das quais se destaca a Catalina, a mais jovem e bonita das irmãs e cujas mãos eram brancas e delicadas. Durante o período em que vive disfarçada de Martín, é valente e dura, corajosa, solidária e dedicada. Ao mesmo tempo, vive torturada pelo segredo que esconde, mas sabe ser discreta e no final mostra-se orgulhosa pelos seus atos, atingindo o direito à felicidade eterna (l. 46, 55). Catalina é claramente personagem principal, enquanto todas as restantes são secundárias, bem como personagens tipificadas. A protagonista demonstra mais densidade psicológica, apesar de representar todas as moças corajosas e destemidas, que eram obrigadas a manter-se na sombra devido ao preconceito sexual. Funciona como um símbolo, o que poderá estender-se, de certa forma, aos restantes actantes: o rei era bom, corajoso e guerreiro, como compete a um governante. Já o conde, como tinha sete filhas, vivia preocupado por não poder cumprir o seu dever para com o rei (l. 4 e 10). No final, mostra-se feliz e orgulhoso (l. 51). A rainha mostra-se sábia e discreta, como tinha de ser uma boa mãe e esposa do mais alto representante de um país. E não esqueçamos o filho do rei, que se mostra corajoso, mas é ferido em combate e perante os cuidados de Martin, fica perturbado e confuso, mas também curioso (l. 29, 30 e 49). Mostra- se apaixonado, mesmo antes de conseguir comprovar a identidade da amada, num simbolismo claro à (in) definição sexual da adolescência. Só depois de perceber que Martin afinal era mulher decide declarar as suas intenções. Todas estas considerações sobre os actantes mostram que a caracterização é feita de modo direto, pelo narrador, no que ao aspeto físico diz respeito. Já os traços psicológicos são captados de forma indireta, o caráter é confirmado pelos atos praticados.
No que respeita às coordenadas espaciotemporais, notamos que a fórmula inicial “hace muchísimos años” (l. 1) remete para a fórmula inicial dos contos de fadas. Trata-se de um
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pacto com o leitor, que sabe que vai viajar até um tempo indefinido, intemporal, e melhor se identifica com a magia da história. A ideia da passagem do tempo é visível, mas sempre de forma diluída, pouco clara, reenviando para uma intemporalidade já esperada neste género de sintagmática. Também o espaço não é de clara demarcação, a ação decorre na zona de Andaluzia, embora não se saibam outros detalhes. Mantém-se a indeterminação característica dos contos. Nunca é descrita a realidade exterior, nem quando se trata do cenário de guerra, nem quando falamos do espaço fechado configurado pelo palácio e pela tenda. De salientar, ainda, a presença do espaço social, na medida em que esta história permite estudar um pouco da sociedade andaluza da Idade Média.
Outra das entidades a ter em conta na análise narrativa, como aponta Carlos Reis (Reis 2002: 357-367), é o narrador que, neste caso, pode definir-se como heterodiegético, na medida em que a narração é feita em terceira pessoa, num tom de certo modo paternalista, de quem nutre carinho por Catalina disfarçada. É, pois, um narrador subjetivo, como comprovam os adjetivos valorativos espalhados ao longo da sintagmática. A focalização é omnisciente, dado que conhece os detalhes da ação, incluindo o pensamento das personagens.
Passando, depois, a uma leitura da dinâmica narrativa, notamos pelo esquema actancial que se segue, o sincretismo típico dos contos de tradição oral, que é aqui conseguido pelo facto de Catalina desempenhar diversas funções dentro da narrativa, pondo-a em movimento com as suas decisões e sendo, ao mesmo tempo, sujeito e destinatário da ação.
Destinador: Catalina, Príncipe
Objeto:
Honrar o pai, atingir a maturidade Destinatário: Catalina Adjuvante: Pai (por conivência) Sujeito: Catalina Oponente: Não aparece textualmente, embora possa ligar-se à dúvida sobre a sexualidade
Cumpre-se claramente o esquema canónico do relato contista, como aliás se pode igualmente comprovar pela própria dinâmica narrativa, que passamos a analisar, seguindo as propostas de Courtès e Macário Lopes, retomados por Luísa Soares (Soares 2013: 13-20). A prova qualificadora dá-se no momento em que Catalina se disfarça para ir servir o país na
guerra e honrar o nome do pai. Incluem-se aqui o estado inicial e a perturbação. A prova decisiva mostra que, ao cuidar do príncipe, deixa transparecer a sua graça, o que confunde o jovem e o leva a segui-la, o que engloba o momento da transformação. Por fim, a prova glorificadora está no regresso a casa, em que assume perante o príncipe a sua verdadeira identidade e alcança a verdadeira felicidade ao seu lado. Temos aqui a resolução e o estado final.
Notamos que, pela sua dinâmica, esta narrativa é fechada e a circularidade é cumprida, dá-se o regresso ao estado inicial modificado, através de uma felicidade mais consciente. Em termos psicanalíticos, podemos arriscar que Catalina simboliza o crescimento, a necessidade de amadurecer antes de assumir a sua sexualidade e casar. Poderia ser muito interessante para o trabalho em sala de aula, até pelo facto de existirem nos manuais, em diversos níveis de ensino, temáticas culturais e sociais passiveis de serem estudadas a partir deste texto.
E uma vez concluídas as possíveis leituras aos contos selecionados para este trabalho, iremos, agora, centrar-nos na aplicação prática dos mesmos, em contexto de sala de aula, com unidades didáticas estruturadas ou simplesmente com sugestões de aplicação.