CAPÍTULO I. PAUL EVDOKIMOV: VIDA E PRINCIPAIS REFERÊNCIAS
I. 2.3.1.1 Nicolas Gogol
II. 4. Lars Thunberg: o ecumenismo interiorizado
Professor da Universidade de Uppsala, o scholar sueco Lars Thunberg interessa-se por Paul Evdokimov enquanto teólogo ecumênico, qualificando-o de um “verdadeiro profeta”156 neste campo. Segundo ele, os estudos empreendidos por
Evdokimov acerca do ecumenismo, em razão de sua grande originalidade, foram o legado mais importante do teólogo e filósofo russo.
Buscando transcender o tradicional enfoque histórico-sociológico dispensado, pelos estudiosos, ao cisma entre Ocidente e Oriente, Paul Evdokimov qualifica a desunião dos cristãos como um mistério estreitamente ligado a outro mistério, qual seja o da união da Igreja.
Como pondera Thunberg, em Evdokimov:
[...] os dois Mistérios são as duas faces da mesma realidade eclesial, já que o segredo da Igreja está no mistério trinitário de Deus. A Igreja não é apenas uma instituição exterior, mas também uma realidade interior dos cristãos batizados, cujos limites são incognoscíveis pela faculdade que nos vê como seres racionais. 157
154 Cf. Jean-
François Roussel, Évidence et indicibilité dans l’apologétique de Paul Evdokimov.
Contacts, vol. 47, n. 172, 1995, p. 289.
155 Ibid., p. 298.
156 Cf. Lars THUNBERG, Paul Evdokimov, théologien oecuménique. Contacts, 1949, p. 270. 157 Ibid., p. 270.
Pondo a claro, pois, os limites da razão para sondar os mistérios que permeiam a união e a desunião da Igreja, Paul Evdokimov afirma que é justamente o fato de discorrermos, conceitualmente, sobre Deus, que nos faz – cristãos latinos, cristãos protestantes e cristãos ortodoxos – separados uns dos outros. Para ele, com efeito, o fato de Deus ter falado a nós nos une; já o fato de termos falado – e continuarmos falando - sobre Deus nos desune.
Lars Thunberg observa, com razão, que, para Evdokimov, não somos, nós, uns contra os outros, mas, sim, uns ao lado dos outros e diante do Mistério de Deus, o qual, por sua vez, jamais poderá ser enclausurado em uma única forma.
Neste horizonte, a solução para o problema da desunião da Igreja virá não dos eruditos – mediante o aplainamento conceitual de arestas doutrinárias – mas, sim, dos santos, daqueles homens e mulheres capazes de testemunhar, por suas vidas, o mistério da presença de Deus no mundo.
É importante não perder de vista que, em tempo algum, Paul Evdokimov propõe algo como um igualitarismo insípido criador de uma zona árida e amorfa na qual possam transitar as partes em litígio porquanto lá nada haja, de relevante, para crer ou testemunhar. Para ele – como anota Thunberg – o pluralismo teológico é legítimo, já que, nele, tradições diferentes representam, segundo seus próprios modos, a Tradição. O problema, segundo Evdokimov, não está, pois, na existência destes variados pontos de vista, mas, sim, na “dogmatização” de tais diferenças, a qual acaba por contribuir para a transmudação do pluralismo em separação. Daí porque seja necessária, na visão de Evdokimov, uma “desdogmatização” ou mesmo uma “transdogmatização” dos pontos conflituosos.
Este processo, porém, não é, em Evdokimov, uma empreitada a cargo, somente, do intelecto humano. Segundo ele, as divisões existentes entre os homens de modo algum impedem a ação de Deus no coração destes mesmos homens desunidos, ação, esta, que ele denomina “epiclese ecumênica”. Entretanto, a suplicação pela presença do Espírito Santo demanda transparência e pureza de coração ou, na terminologia evdokimoviana, uma conversão ao “estilo patrístico” de viver e buscar a Deus. Tal “estilo”, em Evdokimov, como bem pontua Thunberg, é, essencialmente, uma forma monástica e teológica (no sentido oriental) de levar a própria existência. Não se cogita aqui somente do monaquismo estrito, mas, também e sobretudo, do “monaquismo interiorizado” - um dos pilares do pensamento teológico de Evdokimov -, no âmbito do qual os laicos são portadores
da mesma “dignidade” dos clérigos e com eles compartilham votos e obrigações semelhantes.
Realizando a distinção entre ecumenismo exterior e interior, Paul Evdokimov observa que, sem a convicção íntima, por parte do cristão, de que o ecumenismo, mais do que um problema político, é uma exigência teológica (a vida da Igreja não pode ser fragmentada), o ecumenismo dito “oficial” ou “protocolar” permanece inteiramente vazio e inoperante. Neste horizonte, o engajamento de todo cristão em prol do ecumenismo justifica-se pela necessidade de dar testemunho ao mundo, para que o mundo creia na existência do Reino. O cristão, neste horizonte, deve, ele próprio, ser uma oração ativa, um ícone de Cristo, já que, na visão de Evdokimov, a Igreja fala melhor, reza melhor e se exprime adequadamente através de seus santos.
Esta percepção está na base do que Paul Evdokimov denominava “ecumenismo interior”, verdadeira “espécie” do “gênero” monaquismo interiorizado. Este último, como já se disse, é a forma monástica de viver aplicada, a plena força, aos cristãos leigos: viver segundo os três votos monásticos – pobreza, castidade e obediência – em um ambiente secular, é, segundo Evdokimov, o maior testemunho que o cristão pode dar a um mundo fragmentado e hostil a Deus.
Como pondera Thunberg:
É pela mesma perspectiva que se deve compreender a ideia de um ecumenismo interiorizado. Em meio ao mistério da desunião, que é uma negação (embora de certa forma providencial) do Mistério decisivo da união, encontra-se a possibilidade de viver interiormente uma união, que parece ter sido negligenciada nas manifestações das Igrejas separadas. O testemunho que é dado com humildade, é de cunho carismático. Paul Evdokimov fala de uma “dialética interna da fé”, na qual a solução não se encontra no final de uma batalha, mas no coração de um testemunho carismático pleno, livre e como exercício recíproco da caridade. Nesta perspectiva, toda atitude proselitista mostra-se deslocada, porque, no fundo, trata-se de um silêncio comum para com o Mistério: devemos, juntos, nos calar e nos unirmos no silêncio do arrependimento recíproco...
O ecumenismo interiorizado é, pois, uma atitude de arrependimento, mas é, também, uma espera da parusia do Espírito, enquanto Pessoa da Trindade, que é o modelo, por excelência, de toda verdadeira união. Por suas características universais, a espiritualidade monástica pode ser interiorizada, na mesma medida em que a verdadeira espiritualidade de um ecumenismo sério pode e deve ser interiorizada. Tal constitui-se em um dever para todos os
cristãos, e não somente para os teólogos especializados nas questões discutidas, ou para os dirigentes das Igrejas separadas158. Paul Evdokimov não vislumbra, assim, solução para o problema ecumênico que prescinda de uma interiorização penitente e humilde, a ser levada a efeito por todos os cristãos, “única forma de transcender, definitivamente, a desunião dos cristãos, seu mistério, ao mesmo tempo trágico e providencial, na história divina da Salvação”.159