CAPÍTULO IV. A EVIDÊNCIA APOFÁTICA: A INDISTINÇÃO
IV. 1. O Conhecimento de Deus: conceitos versus experiência
Paul Evdokimov observa, em diversas passagens, que a tradição ortodoxa em geral, e patrística em particular, nega-se, resolutamente, a formular um conceito de Deus, porquanto O considere não passível de ser descrito, apreendido, expresso ou definido por qualquer palavra saída da boca de um homem.
Para Gregório de Nissa, por exemplo, os conceitos apenas criam ídolos de Deus; somente a admiração - o espanto, o maravilhamento, a estupefação – é capaz de conhecer algo.223 São Máximo, o Confessor, por sua vez, vê, no conceito, a imagem de uma coisa, evocada pelo intelecto, mediante alguma participação da fantasia. Para ele, ainda, o conceito é “simples” quando livre de paixão, e complexo quando combinado com ela. Este último tem uma grande capacidade de desestruturação do ser, mas, mesmo o primeiro atua no sentido de anular a contemplação pura das realidades espirituais.224
Evdokimov, de sua parte, registra que a advertência contida em Ex 33,20 - a de que não se pode ver a Deus e continuar vivendo -, significa que “não se pode ver Deus com a luz de nossa razão, jamais se pode definir Deus, porque toda definição supõe uma limitação”.225 “Deus é incomparável no sentido absoluto pela radical
ausência de qualquer escala de comparação”226, daí porque o Oriente Cristão
negue, com veemência, a possibilidade de qualquer homem ver a essência de Deus, a qual permanece envolvida, eternamente, por um círculo de silêncio, transcendente a tudo o mais.
Isto não quer dizer, entretanto, que todo conhecimento de Deus esteja interditado ao ser humano. Se a essência de Deus permanece inacessível ao homem, as energias de Deus lhe são participáveis. Esta é a doutrina patrística e palamita dos dois modos de existência de Deus: em Si mesmo (em sua indevassável Essência) e fora de si mesmo (em Suas energias incriadas). Tal
223 Cf. San GREGORIO DE NISSA, Vida de Moises, II, 165, p. 82. 224 Cf. FILOCALIA, vol.2, p. 34.
225 Paul EVDOKIMOV, Las edades de la vida espiritual, p. 16. 226 Paul EVDOKIMOV, O silêncio amoroso de Deus, p. 43.
“doutrina” - pedra basilar da teologia ortodoxa – não é, como nos adverte Paul Evdokimov, uma abstração ou o fruto de um exercício lógico-conceitual, mas, sim, algo que deflue da vivência mística, como se depreende da longa, porém fundamental, citação abaixo:
De São Basílio a Gregório Palamas, a tradição é unânime e firme: ela distingue entre a radical transcendência de Deus em si e a imanência de suas manifestações no mundo. Deus “sai à frente” em Suas energias e nelas Ele está totalmente presente. A energia de modo algum é uma parte de Deus, mas é Deus em Sua revelação, sem que Ele nada perca da “não saída” radical de Sua essência. São dois modos de existência de Deus: em Si mesmo e fora de Si mesmo. Comuns a todas as hipóstases da Trindade, as energias são incriadas. Elas, de modo nenhum atingem a unidade, a indivisibilidade e a simplicidade divinas, assim como as distinções entre as hipóstases e a natureza não fazem de Deus um composto. Comentando Êxodo 3,14, Palamas escreve: Deus não disse: “Eu sou essência”, mas: “eu sou Aquele que é”, e recusa identificar todo o Ser com a essência – a existência prima sobre a essência. Permanecendo não participável em Sua essência, Deus pode manifestar-se em Seu próprio Ser. A simplicidade de Deus é totalmente diferente da nossa ideia de simplicidade; Deus transcende toda forma lógica, pois Ele é criador de toda forma e, por isso, está além de todo conceito. Todo dogma é antinômico, metalógico, mas nunca contraditório. A lógica simplesmente não se aplica a esse plano, pois nesse nível ela é inoperante.
É portanto essa distinção fundamental entre Essência de Deus e Suas Operações, Suas Energias ou Sua Graça, que determina a tradição oriental. De modo algum se trata de uma abstração, mas da própria realidade da comunhão entre Deus e o homem, e da própria possibilidade da experiência mística. Com efeito, o homem não pode participar da Essência de Deus (nesse caso, ele seria Deus); por outro lado, toda comunhão com um elemento criado (graça criada) jamais é a comunhão com Deus. O homem entra na comunhão mais real com as “operações” em que Deus está presente e, assim como no mistério eucarístico, aqueles que receberam uma “operação” divina receberam Deus inteiro. A comunhão não é nem substancial (no caso do panteísmo), nem hipostática (exceto o caso do Cristo), mas energética e, me suas energias-operações, Deus está totalmente presente.227
Se Deus transcende toda lógica, como poderá o homem ter algum conhecimento Dele? Paul Evdokimov, a partir do ensinamento dos Padres, realiza a oportuna e necessária distinção entre razão e intelecto. Enquanto a razão, por meio do discurso, se move em direção ao múltiplo e aos contrários, o intelecto, por meio da intuição mística, se move em direção ao Um, à superação e integração dos
opostos; enquanto a razão (pensamento) reside no cérebro, a inteligência reside no coração; enquanto a razão é deífuga (realiza um movimento centrífugo com relação a Deus, afastando-se, pois, Dele), o intelecto é “deípeto” (realiza um movimento centrípeto com relação a Deus, aproximando-se, destarte, Dele). A razão, em síntese,
[...] é a faculdade intelectiva que opera mediante processos lógicos de caráter discursivo, processos dedutivos e indutivos que partem de dados que lhe são trazidos pelos sentidos ou pela revelação (contrariamente àquela outra que é a operação intuitiva e sintética do intelecto).228
O intelecto ou nous, por sua vez,
É a suprema faculdade humana e órgão da contemplação; é a parte do espírito humano que, diferentemente da razão, não procede de forma discursiva, mas percebe intuitiva e sinteticamente a verdade divina na iluminação pela graça. Por meio do intelecto, através de graus sucessivos, o homem avança no conhecimento espiritual até os estádios supremos da contemplação.229
O coração, aqui, não tem o sentido que o senso comum, ao menos no Ocidente, lhe empresta, qual seja, o de ser, apenas, o centro emocional da pessoa, em contraposição ao cérebro, este o centro “racional” do indivíduo. Fundado na patrística e na tradição bíblica, Evdokimov concebe o coração como o centro de irradiação da pessoa humana, a profundeza indizível do homo absconditus, em cuja escuridão luminosa o amor conhece e o conhecimento ama:
O coração (...) é a sede da inteligência no sentido da mente-nous. Não se trata de negar o pensamento discursivo mas sim de reconhecer os limites deste e promover sua integração na inteligência renovada. Esta integração não é uma simples convergência, mas uma coincidência no ponto de partida, porque o conhecimento é caritativo e o amor é intelectivo e receptivo aos mistérios celestiais. A patrística oriental ignora a distinção entre uma via do amor e uma via do conhecimento, centrada, como sempre esteve e tal qual demonstram a liturgia e o ícone, na contemplação da beleza divina, na qual o Espírito da Verdade é um resplendor fulgurante da divina beleza, segundo São Basílio.
O intelecto, uma vez recolhido no coração, significa a unificação de todo o ser, espírito, alma e corpo, chamado, este ser, integralmente, ao conhecimento luminoso e a amor unitivo.230
228 FILOCALIA, vol. 2, p. 41. 229 Ibid., p. 37-38.
O denominado “pecado original” é, nesta linha, a quebra da unidade entre amor e conhecimento. O que antes da “Queda” compunha uma unidade indistinta acabou por fragmentar-se. Cativo de sua flagrante incapacidade de “conhecer” Deus, o pensamento lógico-discursivo passou a depender, para este fim, de um instrumento que o ultrapassasse, qual seja a intuição suprarracional, capaz de lhe proporcionar não a prova, mas a evidência, da existência de Deus. Segundo Evdokimov,
[...] o pecado original, antes de qualquer coisa, rompeu esta unidade, separando a razão do coração, o conhecimento da axiologia, o que falseou todo o discernimento e toda a capacidade de apreciação (do homem). Desde então, o pensamento discursivo é, somente, uma perda ou diminuição de ser que reclama a intuição suprarracional, isto é, o ato de fé. Evidência do invisível, segundo São Paulo, a fé é uma intuição pré-conceitual, uma apreensão direta da realidade; promove a integração de todas as faculdades do espírito humano – mental, volitiva e afetiva - no coração.
A fé, aqui, pressupõe não a singela adesão intelectual a determinado conteúdo doutrinário, mas, ao contrário, a transformação integral do ser – a metanóia.
O coração-espírito é, pois, a um só tempo, o vértice físico e espiritual da pessoa, no qual a natureza que almeja a graça pode encontrá-la, encontro, este, que, no universo ortodoxo, é denominado “transfiguração” ou “taborização”. Como nos diz Evdokimov:
Semelhante conexão constitutiva ou de continuidade entre as modalidades corporais da consciência e suas modalidades espirituais está condicionada pela convergência entre a natureza e a graça. A implicação da graça, na criação, significa que a graça é “sobrenaturalmente natural” e que a verdadeira natureza é boa. Segundo os Padres, seguir a verdadeira natureza é trabalhar no sentido da graça: há uma complementaridade entre a natureza e a graça. Assim, o “coração-espírito” é, ao mesmo tempo, o centro físico e espiritual e, como tal, lugar de união entre a natureza e a graça deificante. O corpo se encontra naturalmente ordenado para a “transmutação dos sentidos” que principiam, nos santos, a transformação do “corpo psíquico” em “corpo espiritual”.231
Tal conexão corpo-espírito está a demonstrar, a plena força, o caráter fortemente experimental do qual se reveste e pelo qual se pauta a ortodoxia, uma
espécie de cristianismo que não se define em termos de adesão intelectual, por parte do crente a um artigo de fé, “mas que brota da metanóia radical do nous, da ‘mente’, por conta da evidência e da certeza vividas em certa e paradoxal ‘sensação do transcendente’”.232
Mas não teria esta “percepção de Deus” o mesmo status e a mesma qualidade de um arroubo emocional qualquer? De acordo com Paul Evdokimov tal “sensação do transcendente” nada tem em comum com a sensibilidade puramente psíquica e emotiva, mas, sim, com a sensibilidade do nous, do espírito que brota da experiência mística das energias incriadas.
Entretanto, o corpo físico participa, conscientemente, desta experiência, através da transfiguração de suas faculdades receptivas, tal qual se deu com os apóstolos no Monte Tabor. O coração, na condição de centro do ser humano, é o órgão pelo qual a graça penetra na alma e também em todos os membros corporais. Morada do “homem interior”, o coração, assim, embora seja, por assim dizer, o núcleo irradiador dos sentimentos e emoções, não tem neste – de acordo com a antropologia bíblica – o seu único atributo.
Paul Evdokimov afirma que o homem é um “ser visitado”, sendo, seu coração, o local, por excelência, da habitação divina. Ora, é justamente esta “visitação” que capacita alguém a falar de Deus; somente o theodidaktos, o ensinado por Deus, tem condições de, a partir de sua experiência sublime – e não de suas abstrações – falar, ainda que limitadamente, das coisas divinas.