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Legitimidade e ampliação do debate

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Apesar dos esforços para organizar e mobilizar a categoria, os avanços não eram significativos, levando a coordenação do MONAPE a priorizar esse objetivo e adotar novas estratégias (MONAPE, 1991). A partir de 1991, estruturou as comissões regionais e dividiu os trabalhos em áreas temáticas, de acordo com as conclusões do 5º Encontro Nacional: Política Pesqueira, Meio Ambiente, Organização da Categoria, Política Sindical e Previdência Social (MONAPE 1991, 1994). Para atender às necessidades dos pescadores em todo o país, a estrutura do MONAPE ficou disposta em Assembléia Geral; Conselho de Representantes (composto pela coordenação e representantes das regionais) e Coordenação.

O Conselho de Representantes passou a atuar em sete regionais: Norte 1: Pará, Amapá e Tocantins; Norte 2: Rondônia, Amazonas e Roraima; Nordeste Central 1: Bahia, Sergipe, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Nordeste 2: Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão; Centro-Oeste: Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Região Sudeste: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Sul da Bahia. Sul: São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. (CCFD; MONAPE, 1997, 1991, 1994). Em entrevista concedida para esta pesquisa o pescador e ex-presidente do MONAPE, José Carlos Diniz (fev, 2010), destacou que os resultados alcançados pelo movimento, nos primeiros anos de atuação, centraram-se bastante na “tomada de várias direções de colônias e direção de algumas federações, além da discussão política da categoria”.

A falta de experiência do movimento na promoção de uma articulação nacional também tentou ser minimizada através do projeto “Organização e Estruturação do Movimento Nacional dos Pescadores”. Em vigor de 1993 a 1998, a iniciativa foi avaliada e reformulada, de acordo com os objetivos e necessidades do movimento, a cada dois anos. (MONAPE, 1994, 1996). A finalidade era encontrar soluções para organizar nacionalmente os pescadores e atender aos seus interesses econômicos, políticos e organizativos. (MONAPE, 1993). Tarefa nada fácil devido à própria complexidade do setor pesqueiro brasileiro, conforme relatado

pelo movimento: “Uma das dificuldades que enfrentamos foram as enormes diversidades das atividades praticadas pelos pescadores e um vasto campo territorial que os mesmo habitavam, colocando a nu uma pluralidade de inserções no processo de produção e de condições de vida”. (MONAPE, 1994, p. 11).

Para o Comitê Católico contra a Fome e pelo Desenvolvimento (CCFD, 1997) esses dados revelam o esforço de regionalização do MONAPE, além de demonstrar sua origem nordestina e a dificuldade para se implantar no Sul e numa parte do Norte do país. Para se ter uma idéia, as regionais Norte 2 e Centro-Oeste não tinham sequer um representante na coordenação ampliada e a representação do Sul era quase simbólica se comparada à do Nordeste. Avaliação esta corroborada pelo próprio movimento em um de seus relatórios:

Esta classificação – dos diversos níveis de organização estadual – guarda estreita correspondência com as várias regiões brasileiras. Em termos gerais podemos dizer que as regiões Norte e Nordeste são as que apresentam o movimento melhor estruturado. Nas regiões Sudeste / Sul possuímos apenas contatos e pessoas de referência. No Centro-oeste não possuímos pessoas de referência. Podemos assim fazer uma relação entre os diversos níveis de organização com as diversas regiões do país (MONAPE, 1994, p. 20).

A dificuldade de adesão pode ser atribuída tanto às divergências de opiniões, no que se refere à representatividade do sistema de colônias, como também ao fato da pesca embarcada48 ter maior penetração nas regiões Sul e Centro-Sul do Brasil – aspectos já estudados por autores como Silva (2004), para quem a própria diversidade da produção pesqueira nacional e de seu meio natural explica essa situação:

É ilustrativo nessa direção o fato de que são as regiões Norte e Nordeste aquelas onde as colônias de pescadores têm maior representatividade política e melhor organização. Nestas regiões, as colônias e muitas federações estaduais já são dirigidas por pescadores [...] desde início da década de 1980. Não por acaso, predomina nestas áreas a pequena pesca, efetuada por pescadores independentes ou por róis articulados por um mestre ou por um proprietário de embarcação (SILVA, 2004, p. 72).

Mais adiante, o autor continua argumentando da seguinte forma:

Nas regiões Sul e Sudeste, a luta pela conquista das colônias ainda se encontra em fase inicial, e a maioria destas instituições ainda se encontram sob a tutela de militares, comerciantes de pescado e outros sujeitos alheios aos interesses dos produtores diretos – tal como ocorria nos anos iniciais de formação do sistema de representação, na década de 1920. Acresce-se a isto o fato de a pesca embarcada ter se desenvolvido mais extensivamente no Centro-Sul e no Sul do país (SILVA, 2004, p. 72).

48 A pesca embarcada trouxe consigo o sindicato dos trabalhadores e os sindicatos patronais. O primeiro revela-

se mais apropriado para encaminhar as lutas e reivindicações dos pescadores das regiões Sul e Sudeste e, inclusive, esse embate político ganha relevância nos próprios ecossistemas, pois essas regiões permitem o uso de rede de arrasto, utilizada pela pesca embarcada. Por isso, o sindicato parece ser a melhor expressão das regiões nas quais esse tipo de pesca inspira os pequenos pescadores a articularem suas lutas. Cf. SILVA, 2004.

Apesar das divergências políticas e diferenças geográficas e culturais, em 1995, o MONAPE já atuava junto a 99 colônias e quatro sindicatos em 11 estados, com 37 associações em cinco estados e 42 grupos de oposição em nove estados. Tinha, ainda, forte presença em três federações e três articulações estaduais. (CCFD, 1997). Embora caminhasse a passos lentos, o movimento tentava galgar ano após ano legitimidade nas próprias bases e nos órgãos governamentais e, ainda, ampliar o debate em torno de suas reivindicações. Além de ações focadas em parcerias, negociação e divulgação, o MONAPE passou a elaborar propostas para o setor pesqueiro. Essa postura lhe possibilitou sair do nível reivindicativo para um nível mais operacional e propositivo, conforme constatado em diversos relatórios do movimento:

Elaborar e manter um Diagnóstico atualizado das diversas realidades locais (Federação, Movimento Estadual e/ou Articulação Regional), levando em consideração os seguintes aspectos e condições potenciais: organização da categoria [...] organização e condições de produção e comercialização; políticas públicas locais para os diversos problemas. Divulgar os objetivos e princípios do MONAPE (marketing): material de divulgação (cartaz, folder). Melhorar e/ou elaborar planos de ação em cada local [...] (MONAPE, 1997, p. 5).

O resultado desse processo foi “a progressiva aceitação do MONAPE como principal referência dos pescadores e como seu principal interlocutor perante a sociedade” (MONAPE, 1994, p. 15), pelo menos no que diz respeito à sua representatividade junto ao Estado. No que se refere à linha de trabalho, o movimento procurava atuar nas Colônias de Pesca. Nas colônias não pelegas, estabelecia contatos na sede do município e nas comunidades de pescadores, criando secretarias, onde elegia três membros, no lugar dos capatazes.

Já nas localidades onde não existiam colônias, o contato era realizado com pescadores e grupos para que eles estudassem a possibilidade de criar uma colônia. E, naqueles lugares onde tinha colônia pelega promovia-se o surgimento de grupos de oposição ou associações, as quais podiam coordenar todas as atividades que a Federação não assumia, como era o caso do Pará, Maranhão e Ceará. Para facilitar esses contatos, o MONAPE se valia da “intermediação das paróquias, diversas pastorais, sindicatos rurais, alguns partidos e parlamentares de esquerda” (CCFD, 1997, p. 9).

Mais uma vez é possível constatar, nesses dados, o contínuo esforço do MONAPE no sentido de ancorar seu trabalho, ações e divulgação em um sistema de comunicação informal de redes internas e externas, nos parâmetros atribuídos por Kunsch (2003, p. 83), ou seja, baseado em relações sociais entre pessoas, no qual se destaca “a importância da formação de lideranças e comissões de trabalhadores, que, sem aparecer na estrutura formal, desempenham relevante papel dentro da organização”

Partindo da diversidade de atividades praticadas pelos pescadores e do imenso território em que os mesmos habitam, o movimento decidiu regionalizar ainda mais a sua estrutura e articulação (MONAPE, 1994, p. 11). Dividiu-se então em: comissões de base; coordenações estaduais; coordenações regionais; coordenação ampliada, com dez membros e, ainda, coordenação nacional, com quatro membros. Todas as coordenações eram eleitas no seu respectivo âmbito.

As comissões de base “tornaram possíveis os trabalhos de base, servindo como interlocutor das mesmas e a Coordenação Nacional. Através destas lideranças resultaram encontros estaduais e regionais [...]” (MONAPE, 1994, p. 13). Com base em Kunsch (2003) parece pertinente afirmar que essas comissões eram canais ou meios que funcionavam dentro do sistema formal de comunicação do MONAPE, pois foram estabelecidos pela organização de forma consciente e deliberada.

Esse foi o caso de Pernambuco, onde o movimento contava com uma comissão estadual organizada, onde se destacavam lideranças, colônias e associações das cidades de Itapissuma, Itamaracá, Olinda, Barra de Sirinhaém, São José da Coroa Grande, Tijucopapo, Ponta de Pedras, Goiana, Pau Amarelo, Pontezinha, Porto de Galinhas e Paulista, além da Federação Estadual. Entretanto, como discutido anteriormente e constatado pelo próprio MONAPE ainda não podia ser caracterizado como um movimento orgânico de cunho estadual (MONAPE, 1994).

Para além das avaliações positivas nos relatórios do movimento e das constatações teóricas, fato é que, desde que se instituiu o MONAPE, os pescadores pernambucanos não conseguiam se organizar a ponto de formar um movimento estadual. A participação se restringia à atuação pontual das lideranças à frente das colônias de pesca e da federação estadual, o que em alguns casos acarretava numa falta de identidade com o MONAPE como se confirma no seguinte depoimento:

O movimento em Pernambuco e em Alagoas não criou identidade de movimento, porque sempre esteve atrelado à organização oficial, à Federação. Então isso pesa porque as pessoas mesmo que vão para assembléia, mas como não teve essa estrutura de potencializar o alicerce nos estados. Aí o que acontece? Vai pra lá, participa de uma assembléia, então se elege, faz parte da coordenação, da diretoria, seja lá o que for. Mas qual é o princípio que faz com que tu faça parte dessa coordenação? Tem que ter princípios, o movimento não tinha os princípios. Como é que eu faço parte de um movimento se eu não tenho a base? (LAURINEIDE SANTANA, jan, 2010)

A ideia local de que a organização, participação e força dos pescadores artesanais pernambucanos se limitavam à representatividade política da colônia, da federação estadual

ou da Confederação – frente à comunidade, à sociedade e a outros órgãos – parece persistir até hoje na visão das principais lideranças de pescadores Pernambuco, como exemplifica a seguinte fala: “Jorge sempre participou, ele era presidente da colônia de Porto de Galinhas. Josefa [de Suape] não, ela veio começar depois. Edinho, que era presidente da colônia de Pau Amarelo e que foi presidente da Federação de Pescadores. Edinho também estava à frente dos trabalhos” (JOANA MOUSINHO, jan. 2010, interpolação nossa).

É uma visão que, como comentado anteriormente, se alastra desde o início dos anos 1990 e, de certa maneira, vem inviabilizando a formação não só de novas lideranças como também de um movimento orgânico que represente os interesses de todos os pescadores artesanais pernambucanos, quer seja à frente de entidades governamentais ou do próprio MONAPE.

Retomando a discussão sobre a organização das bases estabelecida pelo MONAPE, a partir da formação de comissões estaduais, nota-se que essa sistematização representava um esforço do movimento no sentido de acompanhar, apoiar e dar suporte a atividades e mobilizações locais (MONAPE, 1994). Exemplo disso foi a ação promovida pelo Comitê Comunitário de Meio Ambiente de Ponte dos Carvalhos-PE (CCMAPC) que, em 1991, encaminhou à Assembléia Legislativa de Pernambuco uma carta ofício denunciando o despejo de resíduos industriais, lixo hospitalar e a falta de saneamento nos rios Pirapama, Jaboatão e Gujaú. Segundo os pescadores, a poluição ambiental estaria provocando doenças de pele, aumento da mortalidade infantil e extinção de diversas espécies de peixes. Solicitaram, então, o acompanhamento rigoroso das ações da Companhia de Recursos Hídricos (CPRH), considerada ineficaz (CCMAPC, 1991).

Essa correspondência foi enviada junto com uma carta do MONAPE, que apresentava sua irrestrita solidariedade e apoio à luta do comitê: “Entendemos que a questão ecológica encontra-se abandonada pelos órgãos fiscalizadores [...], o que vem causando sérios prejuízos a população daquela região e, sobretudo, aos pescadores [...] Solicitamos dos parlamentares de Pernambuco especial atenção a questão ecológica e permanente vigilância nas atividades desenvolvidas pela CPRH e pelo IBAMA (MONAPE, 1991b, p. 1). A ação coletiva local, apoiada pelo MONAPE, demonstra como diz Jara (2001, p. 100) que “é possível formular políticas de desenvolvimento nas quais a equidade seja o princípio do progresso econômico, e a satisfação das necessidades humanas e o cuidado com a natureza sejam os principais objetivos”.

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