2 ESTADO, CIDADANIA E POLÍTICAS PÚBLICAS: TRATANDO O GERAL PARA A COMPREENSÃO DO ESPECÍFICO
2.1.1 O Estado Liberal, o Estado Social e o Neoliberalismo
Antes de pensar o Estado liberal propriamente dito é importante pontuarmos as concepções que fundamentam o liberalismo: a concepção filosófica defende essencialmente o individualismo, as liberdades individuais; a concepção política defende o direito à participação na vida política; por fim, a vertente econômica trata da não intervenção Estatal no mercado. São esses três pilares que sustentam o liberalismo.
A ideologia liberal nasceu na Europa do século XVIII. Naquele tempo as classes sociais (nobreza cleral, burguesia e campesionato) eram as proprietárias e o proletariado não era detentor de grandes bens, sendo considerado desgarrado da ordem social. Assim o liberalismo parte do princípio de racionalização e limitação do poder do Estado, que deve ter uma função subsidiária frente à sociedade. Os pressupostos são autonomia individual, economia de mercado e os valores do individualismo possessivo.
Na perspectiva liberal, o Estado extravasa a definição de um território17, e corresponde a uma organização política, social e jurídica. Para sua efetivação, três elementos devem estar presentes: poder político, povo e território, sendo uma característica fundamental do Estado moderno sua autonomia em relação a qualquer outro tipo de poder (AREIAS, 2011).
De acordo com Bonavides (2000), para Max Weber só um instrumento consente definir sociologicamente o Estado moderno, bem como toda associação política: a força e não o seu conteúdo. Corroborando com Bonavides (2000), Quintaneiro e outros (2002) esclarecem que de acordo com Weber, o Estado possui
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A partir de “O Príncipe” de Maquiavel, a palavra “Estado” passa a se difundir com o significado de posse permanente e exclusiva de um território sob o comando de seus respectivos habitantes. Para Weber, o Estado moderno surge a partir da crise do feudalismo e passa a significar um aparato administrativo com a função de prover serviços públicos e monopólio legítimo da força (BOBBIO, 2007).
o monopólio da violência legítima através da coerção. Essa é uma concepção que nos ajuda a entender de modo diferenciado como se caracteriza e como se organiza o Estado na perspectiva liberal.
Behring e Boschett (2001, p.62) defendem que para os liberais, o Estado deve assumir o papel “neutro” de legislador e árbitro, e desenvolver apenas ações complementares ao mercado. “Sua intervenção deve restringir-se a regular as relações sociais com vistas a garantir a liberdade individual, a propriedade privada e assegurar o livre mercado”.
Historicamente colocado, o século XIX foi o tempo em que a filosofia e a prática do liberalismo tiveram sua expressão áurea. Naquela época, o Estado praticamente não tinha um papel a exercer em relação à economia, e
[...] não havia política pública para estabelecer contornos e condicionar as ações econômicas, que dependiam, pois, quase exclusivamente de um mercado auto-regulado. Para poder funcionar, o mercado como expressão econômica da esfera privada dependia da liberdade dos indivíduos, também conhecida como liberdade negativa. O chamado Estado mínimo garantia ao indivíduo plena liberdade de iniciativa em todos os campos de ação, pois o Estado não interferia ou interpunha entraves em seu caminho, na forma de leis e regulamentações ou políticas governamentais ou públicas (HEIDEMANN, 2009, p. 25).
O advento do Estado liberal foi significativo apenas na mudança de perspectiva nas relações políticas, ou seja, no horizonte dos direitos dos cidadãos e não mais nos deveres dos súditos. A liberdade pela qual a burguesia lutou tem a ver com os direitos civis, e o discurso liberal tem a ver com o mérito pessoal.
O Estado social (Welfare State, Estado intervencionista, Estado do bem-estar social, ou Estado Assistencial) desenvolveu-se devido aos problemas causados pelo excesso de liberdade do Estado liberal. Mais do que uma concepção filosófica, o Estado social é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado como agente da promoção social além de organizador da economia. Ele foi uma resposta à demanda social pelo excesso de exploração resultante do capitalismo.
Nesse sentido, o Estado do bem-estar, pode ser definido, a principio, como Estado que garante “tipos mínimos de renda, alimentação, saúde, habitação,
educação, assegurados a todo o cidadão, não como caridade, mas como direito político (WILENSKY apud BOBBIO et al, 2002, p. 416).
Atualmente poucos países europeus ainda mantêm um Estado intervencionista, e uma das principais causas é o advento feroz do neoliberalismo. A esse respeito, Behring e Boschett (2001, p. 156) pontuam que
[...] a tendência geral tem sido a de restrição e redução de direitos, sob o argumento da crise fiscal do Estado, transformando as políticas sociais – a depender da correlação de forças entre as classes sociais e segmentos de classe e do grau de consolidação da democracia e da política social nos países – em ações pontuais e compensatórias direcionadas para os efeitos mais perversos da crise.
Se na Europa poucos países ainda vivenciam o Estado Social, Faleiros (1991) aponta que nos países pobres periféricos o Wefare State inexiste. A explicação está na profunda desigualdade de classes, resultando na ausência de políticas sociais universais. Nesses países são as políticas “categoriais” que predominam, “isto é, que têm como alvo certas categorias específicas da população, [...] através de programas criados a cada gestão governamental, segundo critérios clientelísticos e burocráticos” (FALEIROS, 1991, p. 28).
Para Coutinho (2008), pressionados pela queda da taxa de lucro provocada pela recessão que alcançou o capitalismo a partir dos anos 1970, os governantes burgueses buscaram (e continuam tentando) pôr fim ao Estado do bem-estar, ao conjunto dos direitos sociais conquistados duramente pelos trabalhadores, “propondo devolver ao mercado a regulação de questões como a educação, a saúde, a habitação, a previdência, os transportes coletivos etc. Essa é uma prova de que os direitos sociais não interessam à burguesia” (COUTINHO, 2008, p. 67).
Do fim do Estado social surge o neoliberalismo, uma vertente ainda mais feroz do que o liberalismo. De acordo com Behring e Boschett (2001, p. 126), os neoliberais defendem “uma programática em que o Estado não deve intervir na regulação do comércio exterior nem na regulação de mercados financeiros, pois o livre movimento de capitais garantirá maior eficiência na redistribuição de recursos internacionais”.
São nos anos de 1980 que o modelo neoliberal se insere nas principais nações do mundo18, e apesar de seu domínio nos países capitalistas centrais, o neoliberalismo “não foi capaz de resolver a crise do capitalismo nem alterou os índices de recessão e baixo crescimento econômico, conforme defendia” (BEHRING e BOSCHETT, 2001, p.127). Pela supremacia do neoliberalismo ter a ver com a ideologia, algumas de suas ideias, planos e discursos foram aderidos inclusive por governos de esquerda (ANDERSON, 2000).
No capítulo 2, voltaremos a falar sobre o neoliberalismo ao tratarmos sobre as influências internacionais na educação brasileira. Cabe agora apenas a compreensão de que o mesmo se caracteriza por um Estado forte no combate ao poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, e fraco no que se refere aos gastos sociais e intervenções econômicas.