Capítulo II – Referencial teórico
3. Linguagem e Ideologia
No discurso podemos encontrar o campo de manipulação da forma consciente e da determinação inconsciente, de forma que o falante utiliza estratégias argumentativas e procedimentos da sintaxe discursiva com o objetivo de criar efeitos de sentido da realidade que pretende apresentar ao seu interlocutor, para convencê-lo dela. O falante deve organizar sua estratégia de acordo com a imagem que ele possuía do interlocutor, e a partir daí ele selecionará quais argumentos deseja transmitir ao interlocutor.
As determinações inconscientes são a semântica discursiva, composta por elementos semânticos que são utilizados no discurso de acordo com a época em que este é inserido, revelando a forma pela qual a formação social é vista naquele momento. Esses elementos surgem de outros discursos já existentes e presentes na cultura, sendo assimilados facilmente por já fazerem parte da consciência humana e da maneira de pensar. Sendo assim, a determinação ideológica se dá a partir da
semântica discursiva, mesmo que inconsciente, podendo se tornar consciente, já que mostra “(...) uma maneira de ver o mundo de uma dada sociedade numa determinada época” (FIORIN, 2006, p.21).
Na formação social, podemos encontrar dois níveis de realidade: a realidade de essência, que se refere ao profundo e não visível, e a realidade de aparência, referente ao superficial e fenomênico. Como explica Fiorin em seu trabalho, “a partir do nível fenomênico da realidade, constroem-se as ideias dominantes numa dada formação social. Essas ideias são racionalizações que explicam e justificam a realidade” (FIORIN, 2001, p.28), ou seja, a ideologia de uma sociedade se forma pelas relações pessoais dos indivíduos que a formam, se pondo a realidade invertida nesse nível fenomênico, se afirmando nesse nível e se negando no nível profundo.
Os discursos apresentados nos três álbuns de Tintin possuem como ideias dominantes as diferenças econômicas, sociais e raciais como algo normal, e a superioridade racial do europeu diante dos outros representados (o comunista, o colonizado e o nativo) é algo normal para a época em que foi produzido e que representa, porém, na atualidade, essa representação não é vista de forma positiva, já que hoje na sociedade trabalha-se para alterar as condições de desigualdade natural entre os homens. Os trechos selecionados a seguir permitem visualizar essa questão.
Figura 13: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.36).
Figura 14: Sequência do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006. p.16).
Figura 15: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin- Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.20).
As ideias e as representações que explicam a ordem social, as condições em que os homens se relacionam dentro da sociedade em que vivem comumente forma e se conhece como a ideologia daquela sociedade naquele momento. A ideologia é estruturada por formas fenomênicas da realidade, que omitem a essência da ordem social. Podemos dizer que a ideologia se baseia na falsa consciência, ou seja, na realidade da aparência e no superficial, como explica Fiorin:
Se há inversão da realidade, a ideologia está contida no objeto, no social, não podendo, portanto, ser reduzida à consciência. Ela existe independentemente da consciência dos agentes sociais. É uma forma fenomênica da realidade, oculta as relações mais profundas e expressa-as de um modo invertido. A inversão da realidade é ideologia. (FIORIN, 2001, p.28)
A ideologia é uma visão de mundo que se relaciona e se compromete pelos interesses sociais da ordem social em que estes estão inseridos, e, por isso, podemos dizer que existem várias formas de ideologia, de acordo com classes sociais presentes em uma sociedade e de acordo com cada realidade, já que “a ideologia é constituída pela realidade e constituinte da realidade” (FIORIN, 2001, p.30), estruturando, assim, uma formação ideológica.
A formação ideológica, por conter ideias, não pode existir sem a linguagem, que será responsável por dar o sentido e ser instrumento de comunicação verbal e não verbal entre o transmissor da ideologia e o interlocutor. Portanto, a formação ideológica também corresponde a uma formação discursiva, e essa última se baseia em um conjunto de temas e figuras materializados de acordo com uma visão de mundo escolhida. É a partir dessa formação discursiva que podemos construir discursos, a partir de sua reação aos acontecimentos de sua sociedade e por isso “(...) o discurso é mais o lugar da reprodução que o da criação” (FIORIN, 2001, p.31), ou seja, o discurso se relaciona com a ideologia por, através da linguagem, transmiti-la e refletir a realidade desejada de acordo com os interesses de uma ordem social.
4. Temas e Figuras
As formações ideológicas estão na base da construção do discurso e do Ethos, o que permite uma classificação do simbolismo para transmiti-las, tanto no plano textual quanto no verbal, e o discurso se materializa “por meio não apenas do recorte temático e figurativo do mundo, mas também pelo modo de usar o tema e as figuras.”
(DISCINI, 2015, p. 60).
O texto possui uma unidade de sentido, baseado em momentos históricos e sociedades de uma época, e precisa possuir uma representação cultural preexistente, que seja reconhecida por imagens coletiva fixas que são reconhecidas pelos destinatários dos discursos. É esse ponto inicial do que é discursivizado e que possibilita um dinamismo comunicativo que se denomina como Tema.
Quando um mesmo tema é retomado por associações no decorrer do enunciado, podemos classificar como uma progressão constante. E quando esse tema é descontinuado do decorrer do enunciado é chamado de progressão linear simples.
Há situações em que um tema é desenvolvido em diferentes subtemas. Podemos classificar nosso objeto de análise como uma progressão constante, já que em cada discurso, no caso das HQs em cada cena, o tema é retomado a fim de manter um foco
na história para o leitor. A partir daí, posteriormente poderemos identificar temas tratados em cada álbum com maior profundidade, mas já podemos exemplificar com o primeiro álbum (“Tintin au Pays des Soviets”), o tema da liberdade x opressão, em
“Tintin au Congo”, o tema colonizado x colonizador, e em “Tintin en Amérique”, o tema europeu x americano, que são apresentados tanto pelo verbal quanto pelo visual.
Na cena 16, o tema de liberdade x opressão é retratado através do discurso imagético, pela posição dos soldados soviéticos, com expressões faciais carrancudas, sentados em um palanque acima da população e com armas na mão para persuadi-los a agirem como desejam. As pessoas do povo não possuem balões de fala e abaixam suas cabeças diante dos soldados, o que as colocam na posição de oprimidas.
Neste trabalho, os temas serão indicados por meio das oposições de base, que estão no nível fundamental, de acordo com José Luiz Fiorin (2013), que define as oposições como “ (...) termos opostos de uma categoria semântica e mantem entre si uma relação de contrariedade. São contrários os termos que estão em relação de pressuposição recíproca.” (FIORIN, 2013, p. 22), e esta semântica, que se fundamenta em uma oposição, é abrigada no nível fundamental, pois se encontra na base do texto.
No entanto, a nomeação de cada capítulo indicará o tema selecionado nas análises.
Figura 16: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.36).
Na figura 17, o tema colonizador x colonizado é visto pelo discurso imagético, em que Tintin possui um meio de transporte mais desenvolvido que os nativos do Congo, e está disposto a ajudá-los. Sua vestimenta de explorador também se diferencia daquelas usadas pelos congoleses, que são ultrapassadas e desnecessárias para o ambiente em que vivem (como casacos de pele, por exemplo). Ao final da
sequência, vemos Tintin sendo carregado por quatro congoleses em um assento suspenso, e não demonstra preocupação com o gesto, o que apresenta a naturalidade da superioridade do colonizador sobre o colonizado na visão do europeu capitalista belga daquela época.
Figura 17: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Na figura 18, o tema europeu x americano é exposto pela relação de Tintin com os nativos norte-americanos, em seu primeiro encontro. Tintin não acredita que eles são perigosos, apesar de Milou, como fiador do Ethos do europeu, demonstrar medo. O europeu, representado em Tintin, não acredita que os nativos sejam
prejudiciais em um primeiro momento, entretanto, seriam os americanos que modificariam suas ações, os tornando perigosos.
Figura 18: Sequência do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Essa representação é feita por meio da figuração, que é responsável pela reprodução, tanto no verbal quanto no visual, do imaginário social, construindo
sentidos e um discurso que confirma o Ethos transmitido, como explica Norma Discini (2015):
Temas e figuras, observados como componentes da semântica discursiva, reproduzem nos textos o imaginário social. Descrever mecanismos imanentes de construção do sentido supõe, entretanto, não apenas identificar temas e figuras, mas examinar o modo próprio de tratar temas e figuras, fundante de um modo próprio de presença no mundo, para o sujeito, o que confirma o Ethos. (DISCINI, 2015, p. 284)
É necessário saber que, pelo retórico, pode-se explorar as paixões (o Pathos7 na retórica de Aristóteles) do público para saber como utilizar cada tipo de figura com traços aptos para produzir os efeitos necessários, com a argumentação para gerar persuasão. A partir dessa premissa, percebemos que a forma de aplicar a figuração é ampla e pode partir tanto de uma metáfora explicativa quanto de uma argumentação baseada em associações, o que permite afirmar que “(...) a rede figural substitui, de algum modo, o processo analítico.” (AMOSSY, 2018, p.237).
Usaremos a figuração para confirmar o Ethos de Tintin dentro das temáticas identificadas dentro dos álbuns, e iremos explicá-la mais adiante, porém já podemos exemplificar com a figuração pela representação de Tintin, no álbum “Tintin au Pays des Soviets”, como o repórter investigador, o explorador em “Tintin au Congo” e o cowboy em “Tintin en Amérique”, comprovando em todos os casos a presença do Ethos de herói em temáticas diferentes.
Na figura 19, Tintin possui em seu discurso imagético o gestual do repórter investigador, com a mão abaixo do queixo e o cotovelo apoiado em sua outra mão, com uma linguagem corporal de reflexão e uma conclusão sobre o que ele descobriu, ao dizer “E é assim que os sovietes enganam os coitados que acreditam ainda no
‘paraíso vermelho’.”8.
7 “(...) a palavra Pathos é assumida atualmente no sentido de transbordamento emocional, geralmente sem sinceridade, acepção que não afeta seu derivado “patético”. Em retórica, o termo remete a um dos três tipos de argumentos, ou provas, destinados a produzir persuasão.” (CHARAUDEAU, MAINGUENEAU, 2012, p.371)
8 “Et voila comment les soviets roulent ces malhereux qui croient encore au ‘paradis rouge’.” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.30, tradução livre)
Figura 19: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.30).
Na cena 20, Tintin representa a figura do explorador pelo discurso imagético, com um vestuário (chapéu, camisa, calça, meias longas e sapatos) comum utilizado pelos exploradores franceses, belgas e ingleses no século XIX e XX (período do neocolonialismo) na África colonizada. A presença da arma em sua mão também reflete suas intenções de caça animal no território em que está, em contraste com o guia nativo com um escudo de pele de leopardo e uma lança.
Figura 20: Cena do álbum do Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Na cena 21, para reafirmar seu Ethos de herói, as vestes europeias que Tintin usava ao chegar aos Estados Unidos são trocadas por um vestuário típico dos cowboys retratados nos filmes americanos, e que representavam os “mocinhos” no Velho Oeste. Para comprovar essa figura, Tintin até se arrisca com o laço para laçar o bandido durante uma perseguição.
Figura 21: Cena do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006. p.18).