• Nenhum resultado encontrado

Metodologia

No documento “AS AVENTURAS DE TINTIN” (páginas 23-35)

Este trabalho tem como tema a construção do Ethos na trilogia Noir et Blanc [“Tintin au Pays des Soviets” (1929), “Tintin au Congo” (1931) e “Tintin en Amérique” (1932)] da série de História em Quadrinhos “Les aventures de Tintin”.

Essa escolha do tema partiu do interesse desperto após, em primeiro, a repercussão do processo de “Tintin au Congo” durante 2011 sobre racismo, e, posteriormente, a construção do personagem Tintin na produção cinematográfica, dirigida por Steven Spielberg, em 2011, para a aceitação do público, tanto o infantil quanto o adulto, mas adequado para ambos. Esses dois casos foram motivação para aplicar uma visão analítica sobre essa forma de comunicação, retirando do campo do entretenimento, para uma figuração de época, História e sociedade, dentro de uma linguagem própria das Histórias em Quadrinhos.

É feita a análise dos três primeiros álbuns em quadrinhos de “Les aventures de Tintin”, no idioma original de publicação, isto é, em francês, para captar com mais fidelidade o discurso verbal transmitido e produzido por Hergé, como, por exemplo, maneirismos e jogos de linguagem idiomáticos, que podem se perder durante a tradução. A partir das histórias, identificaremos o conflito entre identidades que se colocam em oposição no discurso em quadrinhos.

As histórias selecionadas foram produzidas pelo cartunista belga Hergé e publicadas pela primeira vez nos anos 1930, 1931 e 1938 em formato de tiras seriadas pelo jornal Le Petit Vingtième. Posteriormente, em 1934, os álbuns começaram a ser reunidos pela editora de origem alemã Casterman, que trouxe o processo de impressão Ofsset para a Europa e publicou Tintin com essa técnica. A editora é responsável até os dias atuais pelas publicações dos 24 álbuns de Tintin.

As primeiras tiragens foram de nove mil exemplares para “Tintin au Pays des Soviets” em 1930; depois 25.300 exemplares para “Tintin au Congo” entre os anos de

1931 até 1944; e 24.500 exemplares para “Tintin en Amérique” entre os anos de 1932 e 1942. Em suas primeiras edições, os álbuns eram em preto e branco, porém foram coloridos posteriormente, e apenas a primeira história se manteve sem cores.

No Brasil, as histórias de Tintin chegaram nos anos 1990, pela editora Companhia das Letras, que desde então se tornou responsável pelas publicações dos álbuns nacionalmente. Mas a editora Globo embarcou no projeto de fazer uma reedição dos álbuns nos formatos originais de 1930, produzidos pela editora Casterman, que estão sendo distribuídos desde 2016.

As edições utilizadas para análise na dissertação foram produzidas pela editora Casterman em francês, no ano de 2006, em formato A5, sendo o primeiro álbum em preto e branco e os dois seguintes, coloridos.

A escolha dos três álbuns foi feita levando em consideração, principalmente, os contextos histórico, social e político inseridos nos enredos dos álbuns, como serão apresentados posteriormente. Os álbuns são conhecidos como a trilogia Noir et Blanc (por terem sido feitos originalmente em preto e branco, e, posteriormente, coloridos), e entre os 24 álbuns de Tintin. Essa trilogia aborda temas mais políticos e sociais da época de forma mais evidente. Dentro desses contextos, a forma como o personagem principal é representado, o ideal de um europeu civilizado e culto, daquele que lhe é colocado em oposição, permite questões de análise e discussão.

Por serem os três primeiros álbuns e seus contextos de vertentes mais políticas e sociais, não foram adaptados, no caso de “Tintin au Pays des Soviets” e “Tintin au Congo”, para a série animada de 1991 (por Robert Réa, em parceria com França e Bélgica), ou não tiveram tanta repercussão, no caso de “Tintin en Amérique”.

Podemos perceber que as questões sociais e políticas em que os álbuns são inseridos foram amenizadas no decorrer dos anos, em prol de um público maior de leitores, o que nos faz buscar as origens de Tintin e a essência de seu Ethos.

1. Material de análise: descrição e seleção

“Tintin au Pays des Soviets” (“Tintin no país dos Sovietes”), 1929 a 1930:

O primeiro álbum foi produzido por Hergé e publicado como suplemento semanal no jornal belga Le Petit Vingtième após a sugestão do diretor de redação na época, Norbert Wallez, a fim da produção de um material que alcançasse o público juvenil e a inserção de um novo herói nacional. Em 5 de junho de 1930, começaram a ser publicadas as primeiras tiras seriadas semanalmente nas quintas-feiras no jornal, que relatariam as aventuras de um jovem repórter do próprio Petit Vingtième chamado Tintin, junto com seu fiel cãozinho, Milou, pela União Soviética, a fim de relatar o que ocorria no país comunista, que era uma incógnita para o restante da Europa e do mundo.

A Europa já havia enfrentado a Primeira Grande Guerra Mundial e presenciado a retirada da Rússia no período de 1917 e 1918, devido à guerra civil que acontecia no país. Depois das mudanças políticas e do isolamento dos demais países, havia uma curiosidade e um temor internacionais do que a ideologia comunista pregava na chamada União Soviética e sua funcionalidade. Hergé e Wallez cuidaram de todos os detalhes da publicação de “Les aventures de Tintin”, com uma leitura de como o mundo ocidental enxergava a política comunista.

Em 1934, após o primeiro sucesso da história de Tintin em formato de tiras seriadas, a editora Casterman, por quinze por cento dos direitos autorais e com uma tiragem modesta de seis mil exemplares aproximadamente, aceitou a publicação do material, reunido no formato de álbum da primeira aventura de Tintin, e com uma

“tirage de tête”1 em preto e branco, os primeiros quinhentos exemplares foram vendidos com um bônus: eram assinados por Tintin e por Milou.

Foi um sucesso imediato no país, aumentando a tiragem para 9.500 exemplares impressos. Posteriormente a essa primeira reação positiva, foi produzida uma edição de luxo, impressa em três cores primárias, “(...) belas dimensões, sólido, costurado com fio de linha, ele se distingue por uma capa de muito belo azul e uma magnífica ilustração em cores” (WILMET, 2011, p.16). Tornou-se um formato

ilustrada, além da qualidade da impressão. A primeira edição do primeiro álbum perdurou até 1930 e esgotou rapidamente.

Figura 1 : Capa do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006).

Figura 2: Ficha descritiva do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: WILMET, Marcel. Tintin Noir Sur Blanc L’aventure des aventures. 1 ed. Paris: Casterman, 2011, p.22)

“Tintin au Congo” (“Tintin no Congo”), 1931 a 1942:

O álbum mais popular e que teve complicações desde o começo da série “Les aventures de Tintin” contou com nove versões em preto e branco antes de ser impresso em cores, mas isso não impediu que se tornasse um best-seller e transformasse a história rentável para a editora Casterman. O momento histórico e social em que o personagem vive é o da presença da uma colônia africana pertencente à Bélgica, e assim o foi até o ano de 1960. Portanto, nesse álbum, o que é apresentado ao público leitor é a visão do Homem Branco evoluído, na visão do europeu dito culto e civilizado, que vai para os países da África para desenvolvê-los, e sua convivência com os nativos, considerados inferiores, naquela época.

Parte do sucesso do álbum “Tintin au Congo” se deve pelas ações comerciais de comunicação que Norbert Wallez investiu para a divulgação do material, já que

“Tintin au Pays des Soviets” havia se tornado um sucesso e ele, junto de Hergé, criam que o personagem teria uma receptividade ainda maior na continuação, em que Tintin parte para o Congo. As ações consistiam na personificação do personagem Tintin e Milou em um rapaz trajado com uma roupa típica de um explorador colonialista acompanhado de um cachorro branco em ocasiões específicas para a promoção do álbum, como na venda da história, quando o leitor comprava o álbum direto com a dupla, o preço aumentava de vinte francos para vinte e oito francos, além da estratégia já utilizada no álbum anterior em que alguns exemplares eram assinados por Tintin e Milou.

Os primeiros dez mil exemplares impressos nos anos de 1931 são considerados a edição original do álbum pela qualidade de sua produção: foi impresso com as ilustrações coloridas em papel demi-mat, mais resistente e sólido, além da menção na última página ao suplemento juvenil do jornal “Le Petit Vingtième”, caso que não ocorreu no primeiro álbum. Essa edição, atualmente, é considerada uma raridade pela dificuldade de serem encontrados exemplares em bom estado de conservação, o que a valoriza comparada aos outros álbuns (“Tintin au Pays des Soviets” e “Tintin en Amérique”), com suas primeiras edições consideradas valiosas.

Uma remessa dessa edição também foi vendida na França, porém consideradas edições à parte da remessa vendida na Bélgica, por possuírem declarações desatualizadas, pois posteriormente constaria a parceria “Éditions Casterman Paris-Tornai”.

A primeira edição considerada pelos dados da editora Casterman (WILMET, 2011, p.27) é datada de 1937, com uma capa diferente da anterior, composta de uma ilustração que a preenche por inteiro, em cores, e foi impressa ao mesmo tempo em que “Tintin en Amérique”, o que permitiu que ambos os álbuns tivessem um estilo e qualidade de impressão similares. Em 1941, três novas edições foram lançadas, e o sucesso de “Tintin au Congo” teve uma tiragem de 4.500 exemplares, e com diferenças de paginação e organização dos quadros, o que não ocorreu nas edições anteriores. O álbum em preto e branco foi produzido posteriormente, em 1941, e também possui um nível de raridade considerável, sendo que são conhecidos apenas mil exemplares ainda existentes de uma possível tiragem de vinte mil exemplares, e um deles pode ser encontrado sob cuidados da Fundação Hergé. Nesse período, entre 1931 e 1942, o álbum teve uma tiragem total com todas as edições de 25.300 exemplares, consolidando o sucesso de Tintin, não só na Bélgica, mas também alcançando a França.

Figura 3: Capa do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006).

Figura 4: Ficha descritiva do álbum Tintin au Congo (Fonte: WILMET, Marcel. Tintin Noir Sur Blanc L’aventure des aventures. 1 ed. Paris: Casterman, 2011, p.31)

“Tintin en Amérique” (“Tintin na América”) , 1932 a 1942:

O terceiro álbum de Tintin foi um marco para o futuro das aventuras do personagem de Hergé, apesar de não ter alcançado o mesmo sucesso inicial dos dois primeiros álbuns, o momento vivido pelo quadrinista e a transição que foi vivida para a publicação dos álbuns o tornam relevante para o futuro de Tintin naquela época.

O enredo é uma continuação indireta do álbum “Tintin au Congo”, por conter alguns elementos que se relacionam entre si em ambas as histórias. Aqui Tintin é enviado para Chicago, Estados Unidos, e se relaciona com dois tipos de antagonistas:

os gângsteres da máfia italiana, que se espalham pelo país, e os índios do velho oeste americano; os últimos são representados de forma estereotipada, uma vez que o personagem principal será representado como o cowboy “herói” (já que suas vestes europeias são vistas de forma estranha no Novo Mundo) que combaterá os “peles-vermelhas”. O objetivo inicial de Hergé era retratar a opressão dos índios no território americano, mas Wallez discorda e prefere algo que mostre o sindicato criminoso de Chicago e exponha a corrupção dos Estados Unidos, então Hergé acabou por fundir as duas ideias neste álbum.

A primeira tiragem de “Tintin en Amérique” em 1932 foi de 5.500 exemplares, e manteve a parceria de Hergé com a editora Casterman, no formato dos álbuns anteriores. Em 1933 foram produzidos mais dois mil exemplares especialmente encomendados para as vendas de Natal daquele ano, totalizando sete mil exemplares em dois anos de publicação. Nesse período, partindo da ideia do colaborador e antigo redator do jornal “Vingtième Siècle” Charles Lesne, a editora Casterman sugere reforçar a divulgação dos álbuns de Tintin produzidos por Hergé, tanto o novo quanto os dois anteriores.

Devido aos problemas comerciais e direitos autorais, em meados de 1934, Hergé pede demissão do jornal e atua apenas como colaborador com o material das histórias de Tintin, rompe sua parceria com Wallez e opta por colocar Lesne como seu diretor, porém antes Wallez negocia com Hergé e a editora Casterman seus direitos sobre a última edição do último álbum de Tintin. Fica decidido imprimir mil exemplares que foram vendidos ao preço de revendedor e comercializados por eles mesmos, a editora não se opôs, desde que cinquenta por cento do valor de vendas da remessa lhe fosse transmitido, além de que Hergé aceitou três francos de direitos autorais por exemplar vendido até o fim da tiragem.

A partir desse momento, Hergé decidiu se consolidar pela comercialização dos álbuns de Tintin e não se ocupou tanto com as tiras seriadas do jornal. Entretanto, seriam enfrentadas dificuldades quanto a impressão da capa da nova edição de “Tintin en Amérique”, que precisou ser refeita às pressas sob supervisão de Lesne. A responsabilidade do erro foi colocada na editora, que utilizou material de qualidade inferior. A editora assumiu o erro, porém não alterou o valor da comissão que receberia sobre os exemplares.

Em 1935, após as relações já serem quase nulas com o jornal “Le Petit Vingtième”, é alterada a informação no material “Tintin, repórter do Petit Vingtième”, substituindo pelo nome da editora e a formação da série “Les aventures de Tintin”

seguido do nome do álbum. Uma nova edição é produzida, e apesar do tamanho e da qualidade inferior aos anteriores, é impresso em cores. Em 1937, a editora Casterman produz uma edição de qualidade semelhante à última de “Tintin au Congo”, com uma imagem de Tintin a galope trajado de cowboy na capa, e inserem a palavra “repórter”

no título. O retorno da referência ao começo no jornal faz as vendas do álbum dispararem.

Em 1942, a última edição publicada é impressa com tecnologias novas para a impressão em cores, além de manter uma qualidade equivalente aos dois álbuns anteriores. A capa é alterada completamente, retirando a imagem de Tintin cowboy montado em um cavalo. Em substituição, há uma ilustração em que o herói é refém amarrado em um tronco de uma tribo indígena, e a figura do índio é colocada em primeiro plano com uma expressão mais violenta. Em um intervalo de dez anos, foram totalizadas onze edições do álbum “Tintin en Amérique”, que totalizam 24.500 exemplares produzidos.

Figura 5: Capa do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006).

Figura 6: Ficha descritiva do álbum Tintin en Amérique (Fonte: WILMET, Marcel. Tintin Noir Sur Blanc L’aventure des aventures. 1 ed. Paris: Casterman, 2011, p.44 e 45).

2. Etapas de análise do material

A análise do material se orientou por meio da realização das seguintes etapas:

1-) Após uma leitura inicial dos álbuns, para a seleção dos trechos de análise, foram realizadas as leituras dos referenciais teóricos, tendo em vista o estabelecimento do suporte conceitual de análise;

2-) Em seguida, procedeu-se à descrição do material e dos trechos selecionados para a análise;

3-) Foram realizadas as análises das capas, nos seus aspectos linguísticos e não verbais, tendo em vista a depreensão de temas e figuras que pudessem apontar vieses ideológicos presentes nos álbuns;

4-) Posteriormente, foram feitas as análises discursivas dos trechos selecionados de cada álbum, a partir dos direcionamentos teórico-metodológicos definidos como diretriz;

5-) Por último, se procurou uma síntese interpretativa das análises discursivas realizadas.

No documento “AS AVENTURAS DE TINTIN” (páginas 23-35)