O momento histórico vivido e abordado por Hergé durante a criação de “Tintin au Congo” se trata do período de colonização do Congo pela Bélgica, que perdurou até o ano de 1960, apresentando a visão social do país pela visão do Homem Branco e Europeu sobre suas colônias africanas e os nativos que lá residiam. Apesar das críticas que o enredo recebeu pela forma com que representa o povo negro e sua cultura, assim como representa o colonizador, o álbum alcançou o mesmo auge que a produção anterior da série. Tintin é levando para o Congo, logo em seguida de seu retorno da União Soviética, e ele passa a história no reino fictício de Babaoro’m, e durante sua estada, o repórter enfrenta um gângster que pretende controlar a produção local de diamantes.
Depois do sucesso da primeira aventura de Tintin, Hergé ficou incumbido de continuar as histórias do jovem repórter. A aventura seguinte seguiu o mesmo formato da primeira história, começando com publicações semanais no encarte Le Petit Vingtième, e posteriormente reunido em formato de álbum. Inicialmente, as tiras foram publicadas em preto e branco, e colorizadas posteriormente para a publicação com as tiras reunidas. Além do enredo, como já dito anteriormente, houve o investimento realizado por parte de Norbert Wallez para a divulgação do material, por meio de ações que personificavam Tintin e Milou em ocasiões específicas de promoção em pontos de venda. Entre os anos de 1931 até 1941, foram produzidas nove edições do álbum. Em 1946, Hergé reestruturou o enredo do álbum, com o objetivo de colori-lo e amenizar a ideologia colonialista, como, por exemplo,
alterando falas que menosprezassem a capacidade do povo congolês colonizado pelos belgas, a capa trocada por uma cena de passeio em vez de caça, no caso da edição de 1931, e traços menos estereotipados e “animalescos” para representar os africanos.
Figura 45: Ilustração fora do texto de Tintin au Congo, 1937 (tinta e guache no papel para desenho) (Fonte: MARICQ, Dominique. Hergé, Tintin & Compagnie. 1 ed. Paris: Gallimard, 2016, p.12).
Mesmo com a revisão de Hergé, isso não poupou o álbum de sofrer um processo sob violação da lei Moureaux que trata de racismo, na Bélgica e no Congo.
O processo começou a ser julgado em setembro de 2011 (porém se iniciou em 2007), sob queixa do congolês Bienvenu Mbutu Mondondo, que acusou o álbum de fazer
apologia à colonização e insultar a população negra, o que ressaltou a polêmica de anos que essa história específica vem causando desde sua época de criação até a atualidade. O desenrolar do processo se deu sob cuidados do Tribunal Cível de Bruxelas, na Bélgica, e a fundação Moulinsart, dirigida pela família de Hergé, tomou a posição de defesa do legado do quadrinista, que em seu país de origem, é símbolo nacional. A HQ, no final do julgamento, não foi considerada racista, e o pedido de proibição de suas publicações posteriores foi negado. O tribunal levou em consideração o contexto da época, e que não seria proposital a expressão racista naquele momento histórico e social, o que inocentou tanto Hergé quanto Tintin.
A edição que será utilizada para análise possui as alterações realizadas por Hergé, e a capa que é o novo padrão da edição atual é mantida desde a edição de 1942. A imagem que preenche toda a capa traz o repórter e seu cãozinho Milou em um carro, acompanhados de um jovem nativo africano no banco do passageiro ao lado de um câmera, andando na savana, e sua fauna é trazida pela presença de uma girafa no canto esquerdo da ilustração. Já vemos na representação do exótico pelo animal (girafa) pouco conhecido na época pelos europeus, em especial os belgas, que não possuíam contato com suas colônias e pouco sabiam sobre elas. Tintin trajado com roupas de desbravador ou pesquisador traz duas possíveis representações: do ambiente selvagem que precisa ser civilizado e do observador que ensinará e aprenderá com o novo habitat. A presença do jovem africano, ao lado de Tintin apenas como auxiliador, já nos permite trabalhar a questão de imagens simbólicas consideradas em oposição.
Os trechos selecionados do álbum “Tintin au Congo” tratam da sequência das páginas 20 até 26, da edição publicada pela editora Casterman em 2006. O motivo da escolha desses trechos específicos é a demonstração da relação ente o europeu e o desconhecido (representado pelas imagens simbólicas do que se considerava, na perspectiva do europeu branco, como selvagem e primitivo), e a construção do Ethos do colonizador e do colonizado no cenário do Congo.
Figura 46: Sequência de análise do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.20-26).
É possível observar, na sequência selecionada, quais foram os temas e figuras privilegiados na elaboração do álbum como um todo.
Em “Tintin au Congo”, podemos perceber o tema do colonizado x colonizador, apresentados através da figuração, como exemplificaremos a seguir, da forma como Tintin é representado diante do povo nativo, como um homem civilizado, que se veste adequadamente para a selva, de acordo com a visão europeia, e do africano estereotipado com escudos de estampa de onça e lanças.
Figura 47: Cena do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Outro tema trabalhado nesse álbum seria em relação à superioridade europeia x inferioridade do colonizado, que é possível de ser exemplificado pela figura em que Tintin é carregado em uma cadeira por quatro africanos, com feição e postura corporal de satisfação, e igualmente os homens nativos não demonstram qualquer oposição, como se cumprissem seu dever para com alguém de maior importância.
Figura 48: Cena do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.20).
Outro tema trazido no álbum é do colonizador eficiente x colonizado ineficiente, que é visto em especial com figuração na dimensão verbal, em que Tintin e Milou se dirigem ao povo congolês por adjetivos negativos, como, por exemplo, durante o acidente com o trem, os mandando “ao trabalho” e os definindo como
“bando de preguiçosos”, na fala de Milou na tira apresentada abaixo.
Figura 49: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21 e 24.
O tema do civilizado x selvagem é mais evidenciado no decorrer da sequência, que é trazido pelas figurações das vestimentas utilizadas pelos africanos,
desatualizadas, descombinadas e desnecessárias na época e no local em que vivem, o trem antigo, a crença no misticismo sem comprovação, em contraponto com Tintin, com roupas de explorador, disposto a ajudá-los a rebocar o trem com um carro moderno e ajudar a tribo a desmascarar o feiticeiro oportunista.
Figura 50: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Figura 51: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 24).
Outra figuração interessante que ocorre na sequência sobre o tema o selvagem x o civilizado é durante o embate do cãozinho Milou, que representaria o animal
doméstico, de origem europeia e civilizada, contra um leão africano, que tenta atacar a tribo congolesa e Tintin. Milou consegue vencer o leão, arrancando a ponta de seu rabo e o amansando, o que evidencia que a civilidade trazida pelo colonizador é capaz de domar a selvageria do colonizado.
Figura 52: Cena do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 24).
Os quadrinhos e sua dimensão verbal
Após o sucesso de “Tintin au Pays des Soviets”, a abordagem de desvendar lugares e sociedades pouco conhecidas pela Europa continuou na segunda história produzida por Hergé. Em “Tintin au Congo”, o objetivo da aventura era desbravar e mostrar como viviam os congoleses na colônia africana, levando em consideração as condições sócio-históricas para a construção da temática, dos personagens e da linguagem empregada, de acordo com o pensamento europeu e belga, ou seja, do ponto de vista do colonizador.
O colonialismo belga se iniciou no Congo no ano de 1908 e se manteve até 1960. Sob ordens do rei Leopoldo II da Bélgica, o Congo sofreu exploração intensiva de seus recursos naturais, especialmente do marfim e da borracha, além da mão de obra escrava congolesa com o uso de violência abusiva e degradação da população.
Devido à situação em que o Congo era administrado, o rei belga sofreu críticas por
parte da imprensa e propagandas internacionais. O reinado de Leopoldo II perdurou até sua morte, em dezembro de 1909, porém não o colonialismo belga. A história
“Tintin au Congo” foi produzida em 1931, e, ao mesmo tempo em que tenta amenizar a presença do europeu belga no Congo depois do reinado de Leopoldo II, retrata a visão colonialista belga sobre a colônia.
Como já visto na análise anterior, Tintin representa o Ethos do Herói, em que suas ações e seu discurso têm como objetivo serem exemplos a serem seguidos e considerados socialmente como a melhor atitude possível. Isso não se altera em
“Tintin au Congo”. Porém, diferentemente das ações do europeu capitalista, nesse álbum, o protagonista é colocado como o europeu colonizador, com a missão de civilizar e instruir o considerado, na visão europeia capitalista ocidental, como selvagem e primitivo, e como padrão, combater o vilão que o atrapalhará em cumprir seus objetivos, que naquela época, era visto como heroico o colonizador civilizar o selvagem.
Na primeira sequência do trecho selecionado, Tintin, logo ao chegar ao Congo, se envolve em um acidente de trem ao atravessar a estrada de ferro com seu carro, o que acaba tombando a locomotiva com os passageiros africanos. Tintin sugere que arrumem o transporte ao dizer “vamos reparar seu ‘velho Tchouk-Tchouk’.”23, entretanto, em vez de utilizar a palavra “train” em francês, para se referir ao trem, ele opta por utilizar a sonoplastia para mencionar o transporte, demonstrando a construção do Ethos do Outro como atrasado e ignorante, na visão do colonizador, já que o colonizado seria incapaz de ter um transporte de qualidade ou conseguir reconhecer ou expressar palavras de forma correta do idioma de seu colonizador, no caso, o francês.
24 “Allons, au travail!” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.20, tradução livre)
25 “Allons, tas de paresseux, à l’ouvrage!” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.20, tradução livre)
26 “Allez-vous vous mettre à l’oubrage, oui ou non?...” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.20, tradução livre)
respostas dos africanos que “vão se cansar!”27 e “se sujar!”28. A ordem expressa em combinação com o adjetivo empregado pode nos apresentar também a imagem de preguiçoso por parte do Ethos do selvagem, e que o que o colonizador pode fazer é lhes ordenar as atitudes mais sensatas, e não se submeter ao colonizado.
Figura 53: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 20).
27 “Moi y en a fatiqué!” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.20, tradução livre)
28 “Mais… mais… moi va salir moi…” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.20, tradução livre)
Figura 54: Sequência do álbum Tintin au Congo com marcações (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin Au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 20).
A escolha da utilização do idioma francês para a análise se deve, em parte, a este álbum, devido à estratégia optada pelo quadrinista para representar o linguajar do povo congolês, como o chefe da tribo congolesa chamar Tintin de “Bom branco”, convidá-lo para “perseguir o senhor leão”, tratá-lo erroneamente por “Missié blanc”
(o que seria equivalente ao nosso tratamento colonial “sinhozinho” por parte dos escravos). O nativo, por não ser considerado superior e incapaz de reproduzir o idioma colono, ele é falado de forma equivocada quanto à estrutura gramatical e às conjugações verbais, tal como, por exemplo, o uso do “y en” entre o sujeito e o verbo a ser utilizado, ou como a construção “mais moi va salir moi”. Além disso, o francês falado pelos africanos não possui a pronúncia final da letra “r”, o que comprova uma marca para causar o estereótipo desejado do congolês colonizado, e é uma figuração negativa do tema do civilizado x selvagem.
Figura 55: Cena do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 23).
Figura 56: Cena do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 23).
Essa construção e utilização seria uma forma de estereotipar os congoleses colonizados, pois, apesar de aprenderem o idioma francês, não são capazes o
suficiente para saber como falar corretamente, de acordo com uma norma de uso de uma variedade considerada socialmente como superior. O sentido é compreendido, mas o equívoco é rudimentar. Uma comparação equivalente seria o uso de trejeitos como “ara, vosmicê” e o erre em evidência para representar o português falado pelo brasileiro interiorano, ou “mim ser, mim vai” para representar o português falado pelo povo indígena. É uma estratégia de representação linguística para diferenciar dos demais considerados falantes padrão, e estereotipar o Ethos do colonizado como incapaz, enquanto o do colonizador de Tintin é visto como civilizado e capaz.
A relação colonizado e colonizador também é apresentada na sequência em que Milou entra em combate com um leão para salvar Tintin. A posição de fiador de Milou, o que o personifica humanamente, também o torna superior ao leão, que apenas emite o som de seu rugido, enquanto o cãozinho possui balões de fala. Durante o confronto, Milou arranca o rabo do leão e sai vitorioso, e ao ser questionado por Tintin “Como você ousou atacar essa fera?”, Milou afirma “Oh! Você sabe, um leão não é tão terrível quanto parece.”, representando que um ser selvagem, por maior que seja ou por mais assustador que pareça, pode ser vencido pelo ser civilizado, com bravura e ousadia maior que o considerado como selvagem (a estratégia linguística da comparação é emprega para dar ênfase ao embate das representações ideológicas, dentro da temática colonizado x colonizador). Podemos dizer que o leão representaria a África selvagem, que, a princípio, amedrontaria o Eu Europeu, entretanto, pode ser domado. Isso pode ser confirmado ao final da sequência, em que após Milou dar uma lição ao leão, Tintin o amarra em uma coleira e, conversando com seu cachorro, questiona “Será que podemos domesticá-lo?”29, representando a intenção do colonizador: domesticar o Eu selvagem.
29 “Peut-être pourrons-nous l’apprivoiser?” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.24, tradução livre)
Figura 57: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 23).
É possível analisar a manipulação do misticismo dentro da cultura africana, em que o feiticeiro da tribo se utiliza de um pseudorroubo de um ídolo, e que espíritos lhe revelam que o criminoso foi Tintin, com a intenção de se livrar do repórter e virar a tribo, que já considerava o herói um amigo, contra o protagonista. Entretanto, tudo não passa de uma armação com um gângster, que se dirige ao feiticeiro na sequência da página 24 “Esse pequeno branco é meu inimigo também. Se você quiser, vamos nos livrar dele”30, e essa parceria entre os dois vilões coloca que o homem branco e o africano só se relacionam para atos ilícitos. O ato é chamado de golpe do ídolo, mostrando a visão ocidental sobre a cultura africana: enganosa e para controle dos demais da tribo. Quando o feiticeiro afirma em sua fala na página 26 “Eu, o feiticeiro dos Babaorom’s, tenho por muito tempo esse povo ignorante e estúpido sob meu domínio...”31 e “Se eles soubessem como me sinto sobre eles e aquele estúpido
30 “Ecoute-moi sorcier… Ce petit Blanc est mon ennemi, à moi aussi. Si tu veux, nous allons nous en débarrasser…” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.24, tradução livre)
31 “Et moi, sorcier des Babaoro’m, moi tenir enconre longtemps ce peuple ignorant et stupide sous domination de moi...” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.26, tradução livre)
ídolo!”32, demonstra que nem mesmo ele, como representante, acredita em sua crença, e que o faz movido por corrupção.
Figura 58: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p. 24).
O Ethos que é construído na dimensão verbal é formado pelo Ethos de Tintin, que, ao mesmo tempo em que traz o herói, também trabalha essas características inseridas no Ethos do colonizador europeu, de acordo com a visão que o belga possuía de sua colônia no Congo, e a sua função de levar civilidade ao povo africano e domesticar o Ethos do selvagem, apesar de tentar amenizar essa função como estava sendo feita pelo reinado de Leopoldo II, demonstrando que a situação de abuso de poder e violência havia se alterado, e que agora o colonizador belga era civilizado o bastante para apenas guiar o congolês para a capacidade de evoluir e combater a corrupção de suas crenças com informação.
Na dimensão verbal, a intenção de reconstruir o Ethos europeu do colonizador se faz evidente, por conta do histórico no Congo do antigo rei belga. A tentativa busca ressaltar a necessidade de trazer informação e capacidade ao povo congolês, que é apresentado com o Ethos do selvagem incapaz. A essência de “Tintin au Congo” não é apenas o combate do antagonista, mas a aventura de interagir com os congoleses e lhes ensinar sobre os modos padrões da civilização de seu colono, assim como
32 “Si eux savoir comme moi me moquer d’eux et de leur stupide fétiche!” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.26, tradução livre)
apresentar ao leitor o exótico da África e de seu povo, desconhecido aos europeus ocidentais que consumiam as histórias de Hergé.
Os quadrinhos e sua dimensão não verbal
A edição escolhida para a análise se trata de versão colorizada posteriormente por Hergé. Porém, levando em consideração as características do estilo Linha Clara, não poderemos considerar as técnicas de sombreamento ou hachurado, pois a presença dessas técnicas na história é mínima. Isso não neutraliza, entretanto, a cor como indicativo de signos plásticos ou sua utilização como composição da linguagem. No estilo Linha Clara, as cores são chapadas para ressaltar a definição visual, contorno e signos icônicos.
Em “Tintin au Congo”, a visão europeia sobre a África era de florestas na maior parte do território, e por isso o uso de verde é predominante para colorir os traços da grama e da copa das árvores, mesmo em cenas de uma possível estação de trem (página 21), a estrada de ferro se localiza no meio da selva, assim como a
“plataforma” onde os passageiros esperam. Outro signo plástico que a cor ressalta é o tom de pele dos congoleses: o uso é totalmente do preto, sem sombreamento ou distinção de tons mais escuros e claros ou marrons. Essa utilização seria o início do estereótipo da cor escura na pele do congolês, que o difere da representação clássica do europeu ocidental do século XX como branco. Tanto Tintin quanto Milou possuem cores claras, inclusive nas vestes de explorador que o repórter usa. Já as cores das vestes usadas pelos africanos são de tons fortes e chamativos, tal como azul-escuro, vermelho e amarelo-mostarda, e eles são utilizados sem equilíbrio ou sintonia.
Figura 59: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Destaca o exótico, a partir do ponto de vista do europeu. Como dito na análise anterior, é comum que os personagens mantenham seus traços físicos sempre os mesmos, inclusive suas vestes, para que o leitor memorize e reconheça a aparência do personagem focado na história. Tintin, em suas primeiras aventuras, costumava trocar seu modelo de roupa para cada local que visitava. Na União Soviética, o repórter utilizou roupas tradicionais russas, e no Congo ele utiliza uma espécie de roupa de explorador de cor cáqui, que por si só já é um estereótipo do Ethos do Herói de aventura.
Os congoleses, por outro lado, possuem roupas que não se encaixam no ambiente em que vivem. Trajam vestidos longos, casacos de pele, chapéus com penas, luvas, casacas, blazer e boinas, roupas de origem europeia, que já não eram de uso tão frequente depois da Primeira Guerra Mundial, e são combinadas de maneira aleatória, e usadas em um clima que não condiz com a necessidade de tais vestimentas, e o traço retrô comum ao estilo Linha Clara, nesse caso, é usado para agregar um humor estereotipado. Isso se deve à construção do Ethos do selvagem, que tenta se tornar civilizado e se modernizar, porém, sem sucesso. Também apresenta o Ethos domesticado, que perde sua identidade cultural em prol daquele que se sobrepõe,
impondo novas formas de definir sua imagem, com o Ethos do incapaz, que não consegue se igualar ao outro, e por isso adquire uma estética cômica em sua representação, tanto em seus hábitos, quanto em seus traços caricaturados do Blackface, palavra do inglês que surgiu nos meios teatrais para definir o físico do
impondo novas formas de definir sua imagem, com o Ethos do incapaz, que não consegue se igualar ao outro, e por isso adquire uma estética cômica em sua representação, tanto em seus hábitos, quanto em seus traços caricaturados do Blackface, palavra do inglês que surgiu nos meios teatrais para definir o físico do