Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo
MARIANA SEMINATI PACHECO
ETHOS E IDEOLOGIA NOS QUADRINHOS
“AS AVENTURAS DE TINTIN”
(TRILOGIA NOIR ET BLANC)
SÃO PAULO, SP 2019
P116e Pacheco, Mariana Seminati
Ethos e ideologia nos quadrinhos: "As aventuras de Tintin"
(Trilogia Noir et Blanc) / Mariana Seminati Pacheco.
162 f. : il. ; 30 cm + 1 CD ROM
Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2018.
Orientador: Ronaldo de Oliveira Batista.
Referências bibliográficas: f. 162
1. Discurso. 2. Ideologia. 3. Ethos. 4. Tintin. 5. Bélgica. I. Batista, Ronaldo de Oliveira, orientador. II. Título.
CDD 401.41
Bibliotecária Responsável: Andrea Alves de Andrade - CRB 8/9204
Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo
MARIANA SEMINATI PACHECO
ETHOS E IDEOLOGIA NOS QUADRINHOS
“AS AVENTURAS DE TINTIN”
(TRILOGIA NOIR ET BLANC)
Mestrado em Letras
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, como exigência para a obtenção do título de Mestre em Letras, sob orientação do Prof. Dr.
Ronaldo de Oliveira Batista.
Agradecimentos
Primeiramente, agradeço a Deus por me sustentar todos os dias durante esta etapa, me fortalecendo para superar cada desafio.
À minha família que me encorajou a embarcar nesta jornada, e foi meu apoio constante para seguir em frente, com paciência e compreensão em cada momento que precisei.
Aos amigos e aos mestres pela confiança em mim e por estarem ao meu lado.
“Se você liga para alguma coisa, lute por ela! Se bater em uma parede, atravesse ela! Tem uma coisa que você precisa saber sobre fracasso, Tintin: não pode nunca deixar ele te derrotar.”
Capitão Haddock
(“The adventures of Tintin”, Steven Spielberg, 2011)
Resumo e Palavras-Chave
Este trabalho propõe uma análise da construção discursiva do gênero Histórias em Quadrinhos, especificamente a Trilogia Noir et Blanc das “Les Aventures de Tintin”. Para isso, primeiramente serão definidos os conceitos que foram aplicados como critérios durante a análise, de acordo com elementos teórico-metodológicos da Análise do Discurso (Dominique Maingueneau) e da Semiótica Discursiva francesa. Trechos foram selecionados dos três primeiros álbuns da Banda Desenhada belga, conhecida como “Trilogia Noir et Blanc”, para serem objeto de uma análise dos discursos verbal e imagético. Privilegiou-se na dissertação a análise do Ethos e das imagens simbólicas veiculadas por meio dos discursos. No processo de análise, pretende-se perceber como são depreendidos valores ideológicos e sociais no discurso dos álbuns e sua relação histórica.
Palavras-chave: Discurso; Ideologia; Ethos; Tintin; Bélgica.
Resumé et Mots-clé
Ce projet de recherche de master vise à proposer une analyse de la construction discoursive du genre Bande Dessinée, spécifiquement concernant de la Trilogie du Noir et Blanc des « Aventures de Tintin ». Pour cela, dans un premier moment seront définis les concepts qui ont été appliqués comme critères pendant l´analyse en accord avec des éléments théoriques-métodologiques de l´Analyse du Discours (Dominique Maingueneau) et de la Sémiotique discoursive française. Des extraits ont été sélectionnés des trois premiers albums de la Bande Dessinée Belge, plus connus comme « Trilogie Noir et Blanc », lesquels feront l´objet d´une analyse de discours verbal et imagétique. Pour ce mémoire nous avons privilégié l´analyse de l´Ethos et des images symboliques véhiculées à atravers les discours. Dans le processus de l´analyse notre intention est de comprendre comment sont considérées les valeurs idéologiques et sociales dans le discours des albums, ainsi que leur rapport historique.
Palavras-chave: Discours; Idéologie; Ethos; Tintin; Belgique.
Lista de Ilustrações
Figura 1: Capa do álbum Tintin au Pays des Soviets ...27
Figura 2: Ficha descritiva do álbum Tintin au Pays des Soviets ...27
Figura 3: Capa do álbum Tintin au Congo ...30
Figura 4: Ficha descritiva do álbum Tintin au Congo...30
Figura 5: Capa do álbum Tintin en Amérique...33
Figura 6: Ficha descritiva do álbum Tintin en Amérique ...33
Figura 7: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets ...36
Figura 8: Cena do álbum Tintin au Congo ...37
Figura 9: Cena do álbum Tintin en Amérique ...37
Figura 10: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets ...41
Figura 11: Cena do álbum Tintin au Congo ...41
Figura 12: Cena do álbum Tintin en Amérique ...42
Figura 13: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets ...44
Figura 14: Sequência do álbum Tintin en Amérique ...45
Figura 15: Sequência do álbum Tintin au Congo ...45
Figura 16: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets...48
Figura 17: Sequência do álbum Tintin au Congo...49
Figura 18: Sequência do álbum Tintin en Amérique ...50
Figura 19: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets...52
Figura 20: Cena do álbum Tintin au Congo...52
Figura 21: Cena do álbum Tintin en Amérique ...53
Figura 22: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets...56
Figura 23: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets...58
Figura 24: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets...58
Figura 25: Cena do álbum Tintin au Congo...60
Figura 26: Sequência do álbum Tintin en Amérique...62
Figura 27: Mapa dos Países Baixos após a separação em 1830…...71
Figura 28: Sequência de análise do álbum Tintin au Pays des Soviets…...78 a 85 Figura 29: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...86
Figura 30: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...86
Figura 31: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...87
Figura 32: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...87
Figura 33: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...87
Figura 34: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets…...90
Figura 35: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...91
Figura 36: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...92
Figura 37: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...93
Figura 38: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...94
Figura 39: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets…...95
Figura 40: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...97
Figura 41: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets…...98
Figura 42: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets…...99
Figura 43: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...92
Figura 44: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets…...100
Figura 45: Ilustração fora do texto de Tintin au Congo,1937…...103
Figura 46: Sequência de análise do álbum Tintin au Congo…...105 a 111 Figura 47: Cena do álbum Tintin au Congo…...112
Figura 48: Cena do álbum Tintin au Congo…...113
Figura 49: Sequência do álbum Tintin au Congo…...113
Figura 50: Sequência do álbum Tintin au Congo…...114
Figura 51: Sequência do álbum Tintin au Congo…...114
Figura 52: Cena do álbum Tintin au Congo…...115
Figura 53: Sequência do álbum Tintin au Congo…...117
Figura 54: Sequência do álbum Tintin au Congo com marcações…...118
Figura 55: Cena do álbum Tintin au Congo…...119
Figura 56: Cena do álbum Tintin au Congo…...119
Figura 57: Sequência do álbum Tintin au Congo…...121
Figura 58: Sequência do álbum Tintin au Congo…...122
Figura 59: Sequência do álbum Tintin au Congo…...124
Figura 60: Cena do álbum Tintin au Congo…...125
Figura 61: Cena do álbum Tintin au Congo…...126
Figura 62: Cena do álbum Tintin au Congo…...127
Figura 63: Cena do álbum Tintin au Congo…...127
Figura 64: Sequência do álbum Tintin au Congo…...128
Figura 65: Sequência de análise do álbum Tintin en Amérique…...132 a 139 Figura 66: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...140
Figura 67: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...140
Figura 68: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...141
Figura 69: Cena do álbum Tintin en Amérique…...141
Figura 70: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...142
Figura 71: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...144
Figura 72: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...144
Figura 73: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...145
Figura 74: Cena do álbum Tintin en Amérique…...146
Figura 75: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...147
Figura 76: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...147
Figura 77: Cena do álbum Tintin en Amérique…...148
Figura 78: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...149
Figura 79: Cena do álbum Tintin en Amérique…...150
Figura 80: Cena do álbum Tintin en Amérique…...151
Figura 81: Cena do álbum Tintin en Amérique…...151
Figura 82: Cena do álbum Tintin en Amérique…...152
Figura 83: Cena do álbum Tintin en Amérique…...152
Figura 84: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...153
Figura 85: Cena do álbum Tintin en Amérique…...154
Figura 86: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...155
Figura 87: Sequência do álbum Tintin en Amérique…...155
Figura 88: Cena do álbum Tintin en Amérique…...156
Sumário
Introdução ...19
Capítulo I – Metodologia...23
Capítulo II – Referencial teórico...35
1. Discurso...35
2. Ethos...38
3. Linguagem e Ideologia...43
4.Temas e Figuras...46
5. Histórias em Quadrinhos (HQs) ...53
5.1. Linha Clara (Ligne Claire): um estilo Hergé de Histórias em Quadrinhos...63
Capítulo III – A Bélgica de Hergé...66
1. Hergé e o começo de Tintin ...66
2. A História da Bélgica (1830 até 1951)...70
Capítulo IV Tintin au Pays des Soviets ...76
Capítulo V Tintin au Congo ...102
Capítulo VI Tintin en Amérique ...130
Considerações Finais ...158
Referências Bibliográficas e Anexos ...162
Introdução
Este trabalho visa à compreensão da representação do Ethos no discurso dos quadrinhos “Les aventures de Tintin”, e por meio dessa compreensão procura-se também interpretar uma visão presente em camadas da sociedade europeia da época de produção das Histórias em Quadrinhos.
Esta dissertação relaciona-se com uma necessidade de compreender a influência no social-histórico para a construção do Ethos nas Histórias em Quadrinhos, em especial, as Histórias em Quadrinhos de origem belga “Les Aventures de Tintin” criada pelo quadrinista Hergé. O cenário em que o personagem Tintin vive foi criado de acordo com sua época, mas sobrevive até os dias de hoje na cultura popular, principalmente a europeia, e prova disso são as produções para a série animada datada de 1991, e, mais recentemente, a cinematográfica do ano de 2011, dirigida pelo diretor Steven Spielberg.
Diante das preocupações sociais que se enfrenta em escala mundial, é preciso rever o discurso presente nas histórias de Tintin, que já enfrentou problemas devido a fatores não aceitos em nossa sociedade hoje em dia, tal como, por exemplo, a acusação de racismo em “Tintin au Congo”, que levou o álbum ao tribunal belga, em 2011. O interesse desta proposta de pesquisa se encontra em evidenciar a validade e a legitimidade dos estudos do discurso em procurar desvelar o histórico e o ideológico por trás de discursos que elaboram e transmitem imagens simbólicas que representam ideais e valores de uma época.
Com base nos conceitos de Dominique Maingueneau sobre formação de Ethos e de Discurso (2008, 2013, 2015), e com o auxílio dos trabalhos de José Luiz Fiorin sobre linguagem e ideologia (2001 e 2013), Ruth Amossy (2018), Patrick Charaudeau (2012) e Norma Discini (2015), pretende-se compreender a construção discursiva das
histórias, sua ideologia, identificar seus Temas e Figuras, e a presença de Ethe construídos tanto em Tintin quanto naqueles que interagem com o personagem principal, a partir dos três primeiros álbuns das histórias de Tintin: “Tintin au Pays des Soviets”, publicado em 1929; “Tintin au Congo”, publicado em 1931; “Tintin en Amérique”, publicado em 1932.
Além disso, para compreender a linguagem específica empregada nas Histórias em Quadrinhos, serão utilizados como referencial os trabalhos de Paulo Ramos (2009) e de Daniele Barbieri (2017), que nos trazem uma análise da construção da comunicação aplicada nesse gênero, e, assim, nos servem de auxílio para a leitura dos álbuns de Tintin de forma mais detalhada, e o trabalho de Arthur Garcia sobre o estilo de desenho “Linha Clara”, inicializado e utilizado por Hergé, que traz características diferentes das Histórias em Quadrinhos americanas e específicas das Histórias em Quadrinhos europeias.
Com o auxílio, ainda, do trabalho de Barthes “O óbvio e o obtuso: ensaios críticos lll” (1990), analisaremos discursivamente esse Ethos a partir do discurso imagético e verbal, apresentando o social e o ideológico presentes nos objetos de análise.
Para compreender a contextualização em relação à produção dos álbuns de Tintin, será utilizado o trabalho de Marcel Wilmet (2011), que explica o processo de produção e publicação das primeiras histórias de Tintin, o jovem jornalista belga.
Diante disso, foram analisados os três primeiros álbuns da série em quadrinhos de 24 volumes. As três primeiras histórias que são analisadas no trabalho em questão não foram adaptadas para série animada nem cogitadas para a produção cinematográfica. É possível que o motivo seja justamente a presença de aspectos tão particulares e ideológicos em relação ao histórico e sociológico (representados discursivamente nos álbuns) em contraste com o público atual.
Buscamos compreender como o contexto histórico-social influenciou na construção do Ethos presente na imagem do personagem Tintin em seus três primeiros álbuns na época em que foram publicados, e, a partir desse problema, é possível pensar nas hipóteses de que, por conta desse discurso imagético e verbal, sua aceitação ainda hoje seja discutível, pois não se considera o contexto vivido pelo personagem da série em quadrinhos, resultando no esquecimento dos objetos analisados.
Assim, é objetivo geral deste trabalho contextualizar histórica e socialmente as Histórias em Quadrinhos “Les aventures de Tintin”, e a construção do Ethos do personagem Tintin dentro do cenário em que foi produzido.
Os objetivos específicos deste trabalho foram:
- Analisar a produção discursiva – em especial a relação sujeito, história, linguagem – em trechos selecionados dos objetos estudados;
- Analisar a elaboração discursiva do Ethos (Maingueneau) em relação ao embate entre diferentes identidades culturais e nacionais no material selecionado, levando-se em consideração o imagético e verbal;
- Refletir, em termos de síntese, como o ideológico e o histórico estão presentes na elaboração discursiva das três histórias de Tintin selecionadas para a execução do trabalho.
Os álbuns foram escolhidos pelo contexto histórico em que foram produzidos, que se tratava de um momento conturbado na Europa, entre o fim da Primeira Guerra Mundial e os primeiros indícios de uma Segunda Guerra Mundial, em que se discutia o surgimento das ideologias comunistas na URSS, após a queda da monarquia no antigo país, o despontamento dos Estados Unidos na América como uma superpotência mundial e o relacionamento com as colônias na África. Dentro desses cenários, Tintin era a figura que apresentava uma visão de parte da sociedade europeia diante dessas situações.
A receptividade desses álbuns em questão ainda é questionável. A forma como os temas políticos e sociais são abordados já geraram discussões e até problemas jurídicos para a Fundação Moulinsart (grupo familiar de Hergé responsável pelos direitos autorais de Tintin), no caso de “Tintin au Congo”, onde foi movida uma ação judicial por um congolês, em 2011, contra a obra, sob acusação de racismo. Diante disso, vemos a necessidade de analisar o discurso presente em Tintin, levando em consideração as diferenças históricas e da época em que a coletânea foi produzida e publicada.
Este trabalho se organiza, posteriormente a esta introdução, em sete partes:
a-) o primeiro capítulo tem como objetivo justificar a escolha do tema desta dissertação, assim como seu objeto de análise, escolha da bibliografia e sua utilização no decorrer do trabalho, a estrutura de organização e o processo da pesquisa;
b-) o segundo capítulo visa à apresentação do referencial teórico que será utilizado para as análises dos álbuns selecionados, conceituando Discurso, Ethos, Linguagem e Ideologia, Temas e Figuras. Também apresentamos nesse primeiro momento o conceito e as características principais na formação das Histórias em Quadrinhos, que classificamos como um gênero discursivo. Dentro das Histórias em Quadrinhos, precisamos diferenciar o estilo criado e empregado por Hergé, a Linha Clara, aplicado nas Histórias em Quadrinhos europeias e que possuem pontos divergentes das Histórias em Quadrinhos de origens americanas;
c-) o terceiro capítulo é voltado para a apresentação do cenário em que tanto o quadrinista Hergé começou seu trabalho e a criação do personagem Tintin, quanto a História da Bélgica, dentro do período de 1830 até 1951, e sua influência no contexto social que estruturou o público leitor do personagem que foi publicado primeiramente no jornal conservador “Le Petit Vingtième”;
d-) os capítulos III, IV e V destinam-se às análises dos álbuns “Tintin au Payse des Soviets”, “Tintin au Congo” e “Tintin en Amérique”, respectivamente. As análises foram iniciadas com uma apresentação de cada álbum, estudo da capa e identificação dos Temas e Figuras encontrados em cada um, para posteriormente serem feitas análises dos trechos escolhidos, começando pela dimensão verbal, que visa à linguagem escrita empregada nas falas dos personagens, e mesclando com a dimensão não verbal, que considera a linguagem imagética para confirmar a linguagem visual e seus significados. A partir de ambas, apresentaremos o Ethos que Tintin possui em cada álbum e como um todo na construção na visão do Europeu;
e-) a conclusão procura apresentar uma síntese interpretativa do trabalho realizado e as observações finais obtidas.
Capítulo I: Metodologia
Este trabalho tem como tema a construção do Ethos na trilogia Noir et Blanc [“Tintin au Pays des Soviets” (1929), “Tintin au Congo” (1931) e “Tintin en Amérique” (1932)] da série de História em Quadrinhos “Les aventures de Tintin”.
Essa escolha do tema partiu do interesse desperto após, em primeiro, a repercussão do processo de “Tintin au Congo” durante 2011 sobre racismo, e, posteriormente, a construção do personagem Tintin na produção cinematográfica, dirigida por Steven Spielberg, em 2011, para a aceitação do público, tanto o infantil quanto o adulto, mas adequado para ambos. Esses dois casos foram motivação para aplicar uma visão analítica sobre essa forma de comunicação, retirando do campo do entretenimento, para uma figuração de época, História e sociedade, dentro de uma linguagem própria das Histórias em Quadrinhos.
É feita a análise dos três primeiros álbuns em quadrinhos de “Les aventures de Tintin”, no idioma original de publicação, isto é, em francês, para captar com mais fidelidade o discurso verbal transmitido e produzido por Hergé, como, por exemplo, maneirismos e jogos de linguagem idiomáticos, que podem se perder durante a tradução. A partir das histórias, identificaremos o conflito entre identidades que se colocam em oposição no discurso em quadrinhos.
As histórias selecionadas foram produzidas pelo cartunista belga Hergé e publicadas pela primeira vez nos anos 1930, 1931 e 1938 em formato de tiras seriadas pelo jornal Le Petit Vingtième. Posteriormente, em 1934, os álbuns começaram a ser reunidos pela editora de origem alemã Casterman, que trouxe o processo de impressão Ofsset para a Europa e publicou Tintin com essa técnica. A editora é responsável até os dias atuais pelas publicações dos 24 álbuns de Tintin.
As primeiras tiragens foram de nove mil exemplares para “Tintin au Pays des Soviets” em 1930; depois 25.300 exemplares para “Tintin au Congo” entre os anos de
1931 até 1944; e 24.500 exemplares para “Tintin en Amérique” entre os anos de 1932 e 1942. Em suas primeiras edições, os álbuns eram em preto e branco, porém foram coloridos posteriormente, e apenas a primeira história se manteve sem cores.
No Brasil, as histórias de Tintin chegaram nos anos 1990, pela editora Companhia das Letras, que desde então se tornou responsável pelas publicações dos álbuns nacionalmente. Mas a editora Globo embarcou no projeto de fazer uma reedição dos álbuns nos formatos originais de 1930, produzidos pela editora Casterman, que estão sendo distribuídos desde 2016.
As edições utilizadas para análise na dissertação foram produzidas pela editora Casterman em francês, no ano de 2006, em formato A5, sendo o primeiro álbum em preto e branco e os dois seguintes, coloridos.
A escolha dos três álbuns foi feita levando em consideração, principalmente, os contextos histórico, social e político inseridos nos enredos dos álbuns, como serão apresentados posteriormente. Os álbuns são conhecidos como a trilogia Noir et Blanc (por terem sido feitos originalmente em preto e branco, e, posteriormente, coloridos), e entre os 24 álbuns de Tintin. Essa trilogia aborda temas mais políticos e sociais da época de forma mais evidente. Dentro desses contextos, a forma como o personagem principal é representado, o ideal de um europeu civilizado e culto, daquele que lhe é colocado em oposição, permite questões de análise e discussão.
Por serem os três primeiros álbuns e seus contextos de vertentes mais políticas e sociais, não foram adaptados, no caso de “Tintin au Pays des Soviets” e “Tintin au Congo”, para a série animada de 1991 (por Robert Réa, em parceria com França e Bélgica), ou não tiveram tanta repercussão, no caso de “Tintin en Amérique”.
Podemos perceber que as questões sociais e políticas em que os álbuns são inseridos foram amenizadas no decorrer dos anos, em prol de um público maior de leitores, o que nos faz buscar as origens de Tintin e a essência de seu Ethos.
1. Material de análise: descrição e seleção
“Tintin au Pays des Soviets” (“Tintin no país dos Sovietes”), 1929 a 1930:
O primeiro álbum foi produzido por Hergé e publicado como suplemento semanal no jornal belga Le Petit Vingtième após a sugestão do diretor de redação na época, Norbert Wallez, a fim da produção de um material que alcançasse o público juvenil e a inserção de um novo herói nacional. Em 5 de junho de 1930, começaram a ser publicadas as primeiras tiras seriadas semanalmente nas quintas-feiras no jornal, que relatariam as aventuras de um jovem repórter do próprio Petit Vingtième chamado Tintin, junto com seu fiel cãozinho, Milou, pela União Soviética, a fim de relatar o que ocorria no país comunista, que era uma incógnita para o restante da Europa e do mundo.
A Europa já havia enfrentado a Primeira Grande Guerra Mundial e presenciado a retirada da Rússia no período de 1917 e 1918, devido à guerra civil que acontecia no país. Depois das mudanças políticas e do isolamento dos demais países, havia uma curiosidade e um temor internacionais do que a ideologia comunista pregava na chamada União Soviética e sua funcionalidade. Hergé e Wallez cuidaram de todos os detalhes da publicação de “Les aventures de Tintin”, com uma leitura de como o mundo ocidental enxergava a política comunista.
Em 1934, após o primeiro sucesso da história de Tintin em formato de tiras seriadas, a editora Casterman, por quinze por cento dos direitos autorais e com uma tiragem modesta de seis mil exemplares aproximadamente, aceitou a publicação do material, reunido no formato de álbum da primeira aventura de Tintin, e com uma
“tirage de tête”1 em preto e branco, os primeiros quinhentos exemplares foram vendidos com um bônus: eram assinados por Tintin e por Milou.
Foi um sucesso imediato no país, aumentando a tiragem para 9.500 exemplares impressos. Posteriormente a essa primeira reação positiva, foi produzida uma edição de luxo, impressa em três cores primárias, “(...) belas dimensões, sólido, costurado com fio de linha, ele se distingue por uma capa de muito belo azul e uma magnífica ilustração em cores” (WILMET, 2011, p.16). Tornou-se um formato marcante para álbuns em quadrinhos, por ser uma história que ultrapassava as cem páginas (originalmente impresso com 137 páginas), pela utilização de capa dura e
1 Termo utilizado em francês para descrição gráfica de uma primeira tiragem da obra para teste de receptividade do público leitor.
ilustrada, além da qualidade da impressão. A primeira edição do primeiro álbum perdurou até 1930 e esgotou rapidamente.
Figura 1 : Capa do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006).
Figura 2: Ficha descritiva do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: WILMET, Marcel. Tintin Noir Sur Blanc L’aventure des aventures. 1 ed. Paris: Casterman, 2011, p.22)
“Tintin au Congo” (“Tintin no Congo”), 1931 a 1942:
O álbum mais popular e que teve complicações desde o começo da série “Les aventures de Tintin” contou com nove versões em preto e branco antes de ser impresso em cores, mas isso não impediu que se tornasse um best-seller e transformasse a história rentável para a editora Casterman. O momento histórico e social em que o personagem vive é o da presença da uma colônia africana pertencente à Bélgica, e assim o foi até o ano de 1960. Portanto, nesse álbum, o que é apresentado ao público leitor é a visão do Homem Branco evoluído, na visão do europeu dito culto e civilizado, que vai para os países da África para desenvolvê-los, e sua convivência com os nativos, considerados inferiores, naquela época.
Parte do sucesso do álbum “Tintin au Congo” se deve pelas ações comerciais de comunicação que Norbert Wallez investiu para a divulgação do material, já que
“Tintin au Pays des Soviets” havia se tornado um sucesso e ele, junto de Hergé, criam que o personagem teria uma receptividade ainda maior na continuação, em que Tintin parte para o Congo. As ações consistiam na personificação do personagem Tintin e Milou em um rapaz trajado com uma roupa típica de um explorador colonialista acompanhado de um cachorro branco em ocasiões específicas para a promoção do álbum, como na venda da história, quando o leitor comprava o álbum direto com a dupla, o preço aumentava de vinte francos para vinte e oito francos, além da estratégia já utilizada no álbum anterior em que alguns exemplares eram assinados por Tintin e Milou.
Os primeiros dez mil exemplares impressos nos anos de 1931 são considerados a edição original do álbum pela qualidade de sua produção: foi impresso com as ilustrações coloridas em papel demi-mat, mais resistente e sólido, além da menção na última página ao suplemento juvenil do jornal “Le Petit Vingtième”, caso que não ocorreu no primeiro álbum. Essa edição, atualmente, é considerada uma raridade pela dificuldade de serem encontrados exemplares em bom estado de conservação, o que a valoriza comparada aos outros álbuns (“Tintin au Pays des Soviets” e “Tintin en Amérique”), com suas primeiras edições consideradas valiosas.
Uma remessa dessa edição também foi vendida na França, porém consideradas edições à parte da remessa vendida na Bélgica, por possuírem declarações desatualizadas, pois posteriormente constaria a parceria “Éditions Casterman Paris- Tornai”.
A primeira edição considerada pelos dados da editora Casterman (WILMET, 2011, p.27) é datada de 1937, com uma capa diferente da anterior, composta de uma ilustração que a preenche por inteiro, em cores, e foi impressa ao mesmo tempo em que “Tintin en Amérique”, o que permitiu que ambos os álbuns tivessem um estilo e qualidade de impressão similares. Em 1941, três novas edições foram lançadas, e o sucesso de “Tintin au Congo” teve uma tiragem de 4.500 exemplares, e com diferenças de paginação e organização dos quadros, o que não ocorreu nas edições anteriores. O álbum em preto e branco foi produzido posteriormente, em 1941, e também possui um nível de raridade considerável, sendo que são conhecidos apenas mil exemplares ainda existentes de uma possível tiragem de vinte mil exemplares, e um deles pode ser encontrado sob cuidados da Fundação Hergé. Nesse período, entre 1931 e 1942, o álbum teve uma tiragem total com todas as edições de 25.300 exemplares, consolidando o sucesso de Tintin, não só na Bélgica, mas também alcançando a França.
Figura 3: Capa do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006).
Figura 4: Ficha descritiva do álbum Tintin au Congo (Fonte: WILMET, Marcel. Tintin Noir Sur Blanc L’aventure des aventures. 1 ed. Paris: Casterman, 2011, p.31)
“Tintin en Amérique” (“Tintin na América”) , 1932 a 1942:
O terceiro álbum de Tintin foi um marco para o futuro das aventuras do personagem de Hergé, apesar de não ter alcançado o mesmo sucesso inicial dos dois primeiros álbuns, o momento vivido pelo quadrinista e a transição que foi vivida para a publicação dos álbuns o tornam relevante para o futuro de Tintin naquela época.
O enredo é uma continuação indireta do álbum “Tintin au Congo”, por conter alguns elementos que se relacionam entre si em ambas as histórias. Aqui Tintin é enviado para Chicago, Estados Unidos, e se relaciona com dois tipos de antagonistas:
os gângsteres da máfia italiana, que se espalham pelo país, e os índios do velho oeste americano; os últimos são representados de forma estereotipada, uma vez que o personagem principal será representado como o cowboy “herói” (já que suas vestes europeias são vistas de forma estranha no Novo Mundo) que combaterá os “peles- vermelhas”. O objetivo inicial de Hergé era retratar a opressão dos índios no território americano, mas Wallez discorda e prefere algo que mostre o sindicato criminoso de Chicago e exponha a corrupção dos Estados Unidos, então Hergé acabou por fundir as duas ideias neste álbum.
A primeira tiragem de “Tintin en Amérique” em 1932 foi de 5.500 exemplares, e manteve a parceria de Hergé com a editora Casterman, no formato dos álbuns anteriores. Em 1933 foram produzidos mais dois mil exemplares especialmente encomendados para as vendas de Natal daquele ano, totalizando sete mil exemplares em dois anos de publicação. Nesse período, partindo da ideia do colaborador e antigo redator do jornal “Vingtième Siècle” Charles Lesne, a editora Casterman sugere reforçar a divulgação dos álbuns de Tintin produzidos por Hergé, tanto o novo quanto os dois anteriores.
Devido aos problemas comerciais e direitos autorais, em meados de 1934, Hergé pede demissão do jornal e atua apenas como colaborador com o material das histórias de Tintin, rompe sua parceria com Wallez e opta por colocar Lesne como seu diretor, porém antes Wallez negocia com Hergé e a editora Casterman seus direitos sobre a última edição do último álbum de Tintin. Fica decidido imprimir mil exemplares que foram vendidos ao preço de revendedor e comercializados por eles mesmos, a editora não se opôs, desde que cinquenta por cento do valor de vendas da remessa lhe fosse transmitido, além de que Hergé aceitou três francos de direitos autorais por exemplar vendido até o fim da tiragem.
A partir desse momento, Hergé decidiu se consolidar pela comercialização dos álbuns de Tintin e não se ocupou tanto com as tiras seriadas do jornal. Entretanto, seriam enfrentadas dificuldades quanto a impressão da capa da nova edição de “Tintin en Amérique”, que precisou ser refeita às pressas sob supervisão de Lesne. A responsabilidade do erro foi colocada na editora, que utilizou material de qualidade inferior. A editora assumiu o erro, porém não alterou o valor da comissão que receberia sobre os exemplares.
Em 1935, após as relações já serem quase nulas com o jornal “Le Petit Vingtième”, é alterada a informação no material “Tintin, repórter do Petit Vingtième”, substituindo pelo nome da editora e a formação da série “Les aventures de Tintin”
seguido do nome do álbum. Uma nova edição é produzida, e apesar do tamanho e da qualidade inferior aos anteriores, é impresso em cores. Em 1937, a editora Casterman produz uma edição de qualidade semelhante à última de “Tintin au Congo”, com uma imagem de Tintin a galope trajado de cowboy na capa, e inserem a palavra “repórter”
no título. O retorno da referência ao começo no jornal faz as vendas do álbum dispararem.
Em 1942, a última edição publicada é impressa com tecnologias novas para a impressão em cores, além de manter uma qualidade equivalente aos dois álbuns anteriores. A capa é alterada completamente, retirando a imagem de Tintin cowboy montado em um cavalo. Em substituição, há uma ilustração em que o herói é refém amarrado em um tronco de uma tribo indígena, e a figura do índio é colocada em primeiro plano com uma expressão mais violenta. Em um intervalo de dez anos, foram totalizadas onze edições do álbum “Tintin en Amérique”, que totalizam 24.500 exemplares produzidos.
Figura 5: Capa do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006).
Figura 6: Ficha descritiva do álbum Tintin en Amérique (Fonte: WILMET, Marcel. Tintin Noir Sur Blanc L’aventure des aventures. 1 ed. Paris: Casterman, 2011, p.44 e 45).
2. Etapas de análise do material
A análise do material se orientou por meio da realização das seguintes etapas:
1-) Após uma leitura inicial dos álbuns, para a seleção dos trechos de análise, foram realizadas as leituras dos referenciais teóricos, tendo em vista o estabelecimento do suporte conceitual de análise;
2-) Em seguida, procedeu-se à descrição do material e dos trechos selecionados para a análise;
3-) Foram realizadas as análises das capas, nos seus aspectos linguísticos e não verbais, tendo em vista a depreensão de temas e figuras que pudessem apontar vieses ideológicos presentes nos álbuns;
4-) Posteriormente, foram feitas as análises discursivas dos trechos selecionados de cada álbum, a partir dos direcionamentos teórico-metodológicos definidos como diretriz;
5-) Por último, se procurou uma síntese interpretativa das análises discursivas realizadas.
Capítulo II: Referencial Teórico
1. Discurso
A transmissão de uma ideia ou valores de um interlocutor para um público é feita por meio de um discurso. Sua definição, em um primeiro momento, de acordo com Maingueneau e Charaudeau (2012), está relacionada com a dimensão verbal e social, e tem como objetivo comunicar opiniões e desejos sobre assuntos ou coisas, além de apresentar um posicionamento por meio de um sistema produzido por um conjunto enunciativo, como também um conjunto de textos, dentro de uma unidade linguística. É importante comentar que o discurso é orientado, isto é, “(...) se constrói, com efeito, em função de um fim, considera-se que vai chegar a alguma parte.”
(CHARAUDEAU, MAINGUENEAU, 2012, p.170).
Esse conceito também é apresentado por Maingueneau como interativo, e relaciona-se à necessidade da interação para acontecer efetivamente, já que é necessária a relação entre interlocutores para transmissão de enunciados (por formas de manifestação oral, escrita ou visual), por uma troca explícita ou implícita, virtual ou real.
Para que o discurso seja transmitido por um interlocutor com sucesso, ele precisa estar circunscrito a um contexto social e histórico que lhe atribua um sentido reconhecível na prática discursiva. Esse contexto está ancorado no social e no histórico, e, presente em um discurso, pode ser modificado de acordo com os objetivos do interlocutor. Por isso, se põe como um ponto de referência pessoal,
temporal e espacial, e permite noção de ação adotada pelo interlocutor que o empregou.
Podemos exemplificar pelo objeto de análise. Neles, já podemos encontrar como era um ponto de vista da maioria da população belga capitalista em relação à União Soviética (URSS) (Ethos comunista), aos Estados Unidos (Ethos capitalista) e ao Congo (Ethos do colonizado). O discurso de Tintin permite compreender a sociedade de sua época, social e historicamente, e sua interatividade com o restante do mundo, e qual o posicionamento ideológico do jornal Le Petit Vingtième, responsável pela publicação das tiras semanais em seu encarte.
As figuras abaixo exemplificam esses recortes ideológicos, demonstrando a visão da maioria da população belga capitalista em relação aos três Ethe em contraponto com Tintin. A figura 7 demonstra a repressão imposta pelo governo comunista da URSS diante do povo russo; a figura 8 apresenta a submissão do selvagem colonizado diante do colonizador, representados pelo leão e o cãozinho Milou; a figura 9 coloca Tintin em seu primeiro encontro com os nativos norte- americanos, e não os considera perigosos, porém, ainda assim, causam preocupação em Milou, e, posteriormente, em Tintin.
Figura 7: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.36).
Figura 8: Cena do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.24).
Figura 9: Cena do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006. p.21).
O interdiscurso está presente no discurso, que é o universo em que este acontece e no qual o interlocutor interage. No caso de Tintin, o interdiscurso dentro do universo das Histórias em Quadrinhos, de acordo com as regras e as características que definem esse gênero (tipologias comunicacionais), explicado mais adiante. E dentro de suas histórias, o personagem é colocado nos cenários de suas viagens como repórter (Rússia, África e Estados Unidos), e buscando, em suas aventuras, apresentar ao seu público leitor a realidade que presencia em cada lugar, ou seja, o discurso que deseja transmitir de acordo com o ponto de vista europeu capitalista da maioria da sociedade naquele momento histórico.
A análise do discurso possui função importante sobre a reflexão do que é enunciado por interlocutores e suas distinções e os gêneros possíveis de classificar o discurso, além de compreendermos os objetivos que se apresentam para um público.
Esse procedimento será aplicado ao discurso, tanto verbal quanto não verbal, dentro dos três álbuns escolhidos de “Les aventures de Tintin”, para assim compreendermos o Ethos construído a partir desse discurso do personagem principal das histórias.
Quanto ao conceito de Ethos, traremos a seguir.
2. Ethos
A apresentação de uma ideia (ou sentido) deve ser feita levando em consideração a situação de enunciação e a relação com a linguagem, e a adesão ao universo de sentido em que essa ideia está inserida. Essa apresentação deve trazer uma maneira de dizer e de ser, associando com as representações e normas de disciplina do corpo. A partir daí se terá uma primeira impressão da ideia, dentro de uma perspectiva pragmática, teremos a construção retórica do Ethos2: o enunciador será percebido pelo que é transmitido em seu discurso para o mundo em que está inserido. A corporalidade e a articulação do discurso serão responsáveis por legitimar o enunciado passado.
A noção do Ethos pode ser, inicialmente, definida como “(...) a imagem de si que o locutor constrói em seu discurso para exercer uma influência sobre seu alocutário.” (CHARAUDEAU, 2012, p.220). Maingueneau em seu trabalho (2008) parte da visão da Retórica de Aristóteles, em que o objetivo é a persuasão para tipos diferentes de interlocutores. E essa persuasão é formada pela boa impressão construída pelo discurso e transmitida para o interlocutor ou um grupo de interlocutores, para conquistar a confiança destes. A prova pelo Ethos consegue demonstrar a construção da imagem por meio da fala do locutor, de forma dinâmica.
O Ethos implica uma experiência no discurso, e mobiliza afetividade no destinatário, o que demonstra uma ação lateral. Somos movidos pelas paixões e por argumentações, o que traz o triângulo da retórica de Aristóteles de volta à tona – Ethos, Logos e Pathos – e o Ethos se constrói por dois mecanismos: um que se encarrega da decodificação linguística e da compreensão das informações passadas;
outro que se move pela empatia que temos pelo que nos é transmitido, por recursos
2Será utilizada a escrita de Ethos sem a utilização de Itálico, como já é aplicado em trabalhos linguísticos atuais escritos no Brasil.
cognitivos. É possível afirmar, então, que o Ethos necessita do Logos e do Pathos para ser estruturado, e essa combinação torna o Ethos eficiente na argumentação. Para a produção do Ethos, o orador pode utilizar três estratégias, que também podem ser nomeadas como qualidades fundamentais: a phromesis (prudência), a areté (virtude) e a eunoia (benevolência). Seriam essas três qualidades responsáveis por inspirar a confiança necessária no orador e a credibilidade do interlocutor neste.
O Ethos retórico se refere a um Ethos percebido por um público, e se relaciona com a enunciação, algo informado pelo locutor fora de seu discurso (não sendo objeto principal deste) e não explicitado no enunciado. O locutor recebe suas características intradiscursivas no universo exterior e extradiscursivo. Assim, é possível relacionar o Ethos à construção da identidade do locutor pelo destinatário.
A noção do Ethos em um primeiro momento é simples de compreender, entretanto, acarreta alguns problemas quando estudada mais a fundo, tal como a presença do Ethos pré-discursivo3, que se forma com as impressões prévias do interlocutor, e o Ethos discursivo, que se constitui por meio do discurso, e não pela linguagem imagética que o locutor constrói, sendo um processo interativo de influência sob o destinatário, e um comportamento que é julgado socialmente, não podendo estar fora de uma situação de comunicação e atrelada a uma conjuntura sócio-histórica específica. Essa perspectiva é a que especifica o posicionamento de Maingueneau (2008) sobre o Ethos.
Outra situação recorrente é a percepção afetiva e informativa do intérprete após retirar informações do ambiente em que está inserido. Há elementos durante a comunicação que se tornaram difíceis de identificar sua presença e influência no discurso, porém estão relacionados diretamente com o Ethos. É mais uma decisão teórica se devemos relacionar o Ethos ao verbal e atribuir ao que é dito, ou se devemos levar em consideração fatores mais comportamentais no conjunto comunicacional. A questão é que o Ethos é um comportamento que articula verbalmente e não verbalmente, indo além das palavras para atingir seu destinatário, e em algumas situações, pode ocorrer que “o Ethos visado não é o Ethos produzido”
(MAINGUENEAU, 2008, p.61).
Maingueneau trabalha o Ethos em um quadro de análise do discurso decorrente dos gêneros conversacionais. Nos gêneros “constituídos”, os participantes
3O conceito de Ethos pré-discursivo é polêmico nos estudos discursivos. Seguimos aqui Dominique Maingueneau (2008), que adota o conceito.
possuem papéis já estabelecidos e que assim permanecem durante a conversa, seguindo um padrão no desenvolvimento da organização textual. Nos gêneros conversacionais, diferentemente, o desenvolvimento do texto não possui restrições em sua estrutura e os participantes revezam em suas funções. Atravessando essa perspectiva, Maingueneau coloca que o Ethos, além da persuasão pela argumentação, reflete o processo geral da adesão dos sujeitos a um posicionamento, sendo um processo claro quando presente em alguns gêneros do discurso que possuem o objetivo de convencer um público.
O Ethos possui uma ligação com a oralidade (mas não exclusivamente), e pode-se pensar que o texto escrito possui uma vocalidade que se relaciona com uma caracterização do corpo do enunciador. Aqui nos é apresentada a imagem do fiador, que, pela forma com que sua voz é dada, é responsável por comprovar o que diz. A figura do fiador é uma visão mais “humana” do Ethos que, não apenas se forma pela linguagem verbal, mas também por suas características físicas e psíquicas associadas pelas representações coletivas. Assim, o fiador possui um caráter e um corpo, que o permite se mover dentro do espaço social em que está inserido, e ser um apoio para que o destinatário se identifique em um conjunto de representações presentes em um mundo estereotipado cultural e socialmente, que serão avaliadas positiva ou negativamente.
Em seus álbuns, Tintin é sempre representado como a figura do herói europeu.
Em “Tintin au Pays des Soviets” ele é o repórter do país capitalista que se propõe a desmascarar o desconhecido no país comunista; em “Tintin au Congo”, o Ethos a ser transmitido é do bom colonizador que quer ajudar os nativos a se desenvolverem; em
“Tintin en Amérique” o Ethos é do bom europeu que combate a corrupção dos americanos como se pode observar nos trechos abaixo.
Na figura 10, vemos a presença do repórter investigativo, por sua posição, colocado entre uma porta semiaberta observando a cena do russo trabalhando, e sua afirmação ao associar a cena com “cenários de teatro... para queimar a palha e fazer a fumaça das falsas lareiras”4, revelando sua descoberta para o leitor.
4 “Ce sont de simples decors de theatre… derrière lesquels on brule de la paille pour faire fumer les simili-cheminées.” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.30, tradução livre)
Figura 10: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.30).
Na figura 11, temos a presença do educador, colocando Tintin como o europeu civilizado e capaz de transmitir para os nativos do Congo o conhecimento necessário.
No caso da cena da edição escolhida, Tintin se dispõe a ensinar matemática, e com conceito simples, a adição. Apesar de ser um processo simples, ele não obtém resposta dos alunos, que na cena não tem balões de fala. Em contraste, Milou, ao lado de seu parceiro, esbraveja ao dizer que “tem dois alunos conversando lá atrás.”5, retornando ao Ethos do colonizador através do fiador animal.
Figura 11: Cena do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006.p.36).
5 “Tintin, il y en a deux qui bavardent, lá-bas...” (HERGÉ, Tintin au Congo, 2006, p.36, tradução livre)
Na figura 12, Tintin é representado como o herói americano, ao trocar suas roupas europeias pela vestimenta do cowboy dos Estados Unidos, também visto como o explorador do Velho Oeste. Pelo discurso verbal, isso também é confirmado, já que ele diz para ser “Conduzido ao covil dos bandidos!”.6
Figura 12: Cena do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006.p.17).
O Ethos coloca o destinatário em uma cena de enunciação implicada no texto.
Das três cenas presentes na cena de enunciação já apresentadas neste trabalho, o Ethos se relaciona em especial com a cenografia, onde a cena de fala que o discurso propõe é apresentada e validada pela enunciação.
A cenografia com o Ethos do qual ele participa implica um processo de enlaçamento: desde sua emergência, a fala é carregada de certo Ethos, que, de fato, se valida progressivamente por meio da própria enunciação. A cenografia é, assim, ao mesmo tempo aquilo de onde vem o discurso e aquilo que aquele discurso engendra [...] (MAINGUENEAU, 2008, p.71).
6 “Vas-y Milou! Conduis-moi au repaire des bandits!.” (HERGÉ, Tintin en Amérique, 2006, p.17, tradução livre)
A cenografia legitima o enunciado, e este, por sua vez, deve legitimar a cenografia dentro da circunstância colocada. Os conteúdos presentes do discurso irão permitir a validação do Ethos dentro da cenografia. Esse Ethos presente no discurso é resultado, de acordo com Maingueneau (2008), do Ethos pré-discursivo e discursivo (Ethos mostrado) e de informações textuais trazidas pelo enunciador (Ethos dito). O resultado é o Ethos efetivo, construído pelo destinatário e da interação dos elementos anteriormente falados, produzindo uma perspectiva sob o discurso dentro de seus gêneros.
As ideias construídas irão definir se o destinatário será suscetível ao Ethos proposto ou não, por meio da maneira de ser e de dizer da figura do fiador, inserido em um mundo configurado pela enunciação e com uma identidade própria.
O poder da persuasão de um discurso decorre em parte do fato de que ele leva o destinatário a identificar-se com o movimento de um corpo, por mais esquemático que seja, investido de valores historicamente especificados. (MAINGUENEAU, 2008, p.72)
O locutor deve estimular no destinatário, por meio do seu discurso, a representação de si mesmo e do que está querendo propor em sua fala, e para isso deve saber lidar com os signos que irá produzir.
3. Linguagem e Ideologia
No discurso podemos encontrar o campo de manipulação da forma consciente e da determinação inconsciente, de forma que o falante utiliza estratégias argumentativas e procedimentos da sintaxe discursiva com o objetivo de criar efeitos de sentido da realidade que pretende apresentar ao seu interlocutor, para convencê-lo dela. O falante deve organizar sua estratégia de acordo com a imagem que ele possuía do interlocutor, e a partir daí ele selecionará quais argumentos deseja transmitir ao interlocutor.
As determinações inconscientes são a semântica discursiva, composta por elementos semânticos que são utilizados no discurso de acordo com a época em que este é inserido, revelando a forma pela qual a formação social é vista naquele momento. Esses elementos surgem de outros discursos já existentes e presentes na cultura, sendo assimilados facilmente por já fazerem parte da consciência humana e da maneira de pensar. Sendo assim, a determinação ideológica se dá a partir da
semântica discursiva, mesmo que inconsciente, podendo se tornar consciente, já que mostra “(...) uma maneira de ver o mundo de uma dada sociedade numa determinada época” (FIORIN, 2006, p.21).
Na formação social, podemos encontrar dois níveis de realidade: a realidade de essência, que se refere ao profundo e não visível, e a realidade de aparência, referente ao superficial e fenomênico. Como explica Fiorin em seu trabalho, “a partir do nível fenomênico da realidade, constroem-se as ideias dominantes numa dada formação social. Essas ideias são racionalizações que explicam e justificam a realidade” (FIORIN, 2001, p.28), ou seja, a ideologia de uma sociedade se forma pelas relações pessoais dos indivíduos que a formam, se pondo a realidade invertida nesse nível fenomênico, se afirmando nesse nível e se negando no nível profundo.
Os discursos apresentados nos três álbuns de Tintin possuem como ideias dominantes as diferenças econômicas, sociais e raciais como algo normal, e a superioridade racial do europeu diante dos outros representados (o comunista, o colonizado e o nativo) é algo normal para a época em que foi produzido e que representa, porém, na atualidade, essa representação não é vista de forma positiva, já que hoje na sociedade trabalha-se para alterar as condições de desigualdade natural entre os homens. Os trechos selecionados a seguir permitem visualizar essa questão.
Figura 13: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.36).
Figura 14: Sequência do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006. p.16).
Figura 15: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin- Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.20).
As ideias e as representações que explicam a ordem social, as condições em que os homens se relacionam dentro da sociedade em que vivem comumente forma e se conhece como a ideologia daquela sociedade naquele momento. A ideologia é estruturada por formas fenomênicas da realidade, que omitem a essência da ordem social. Podemos dizer que a ideologia se baseia na falsa consciência, ou seja, na realidade da aparência e no superficial, como explica Fiorin:
Se há inversão da realidade, a ideologia está contida no objeto, no social, não podendo, portanto, ser reduzida à consciência. Ela existe independentemente da consciência dos agentes sociais. É uma forma fenomênica da realidade, oculta as relações mais profundas e expressa-as de um modo invertido. A inversão da realidade é ideologia. (FIORIN, 2001, p.28)
A ideologia é uma visão de mundo que se relaciona e se compromete pelos interesses sociais da ordem social em que estes estão inseridos, e, por isso, podemos dizer que existem várias formas de ideologia, de acordo com classes sociais presentes em uma sociedade e de acordo com cada realidade, já que “a ideologia é constituída pela realidade e constituinte da realidade” (FIORIN, 2001, p.30), estruturando, assim, uma formação ideológica.
A formação ideológica, por conter ideias, não pode existir sem a linguagem, que será responsável por dar o sentido e ser instrumento de comunicação verbal e não verbal entre o transmissor da ideologia e o interlocutor. Portanto, a formação ideológica também corresponde a uma formação discursiva, e essa última se baseia em um conjunto de temas e figuras materializados de acordo com uma visão de mundo escolhida. É a partir dessa formação discursiva que podemos construir discursos, a partir de sua reação aos acontecimentos de sua sociedade e por isso “(...) o discurso é mais o lugar da reprodução que o da criação” (FIORIN, 2001, p.31), ou seja, o discurso se relaciona com a ideologia por, através da linguagem, transmiti-la e refletir a realidade desejada de acordo com os interesses de uma ordem social.
4. Temas e Figuras
As formações ideológicas estão na base da construção do discurso e do Ethos, o que permite uma classificação do simbolismo para transmiti-las, tanto no plano textual quanto no verbal, e o discurso se materializa “por meio não apenas do recorte temático e figurativo do mundo, mas também pelo modo de usar o tema e as figuras.”
(DISCINI, 2015, p. 60).
O texto possui uma unidade de sentido, baseado em momentos históricos e sociedades de uma época, e precisa possuir uma representação cultural preexistente, que seja reconhecida por imagens coletiva fixas que são reconhecidas pelos destinatários dos discursos. É esse ponto inicial do que é discursivizado e que possibilita um dinamismo comunicativo que se denomina como Tema.
Quando um mesmo tema é retomado por associações no decorrer do enunciado, podemos classificar como uma progressão constante. E quando esse tema é descontinuado do decorrer do enunciado é chamado de progressão linear simples.
Há situações em que um tema é desenvolvido em diferentes subtemas. Podemos classificar nosso objeto de análise como uma progressão constante, já que em cada discurso, no caso das HQs em cada cena, o tema é retomado a fim de manter um foco
na história para o leitor. A partir daí, posteriormente poderemos identificar temas tratados em cada álbum com maior profundidade, mas já podemos exemplificar com o primeiro álbum (“Tintin au Pays des Soviets”), o tema da liberdade x opressão, em
“Tintin au Congo”, o tema colonizado x colonizador, e em “Tintin en Amérique”, o tema europeu x americano, que são apresentados tanto pelo verbal quanto pelo visual.
Na cena 16, o tema de liberdade x opressão é retratado através do discurso imagético, pela posição dos soldados soviéticos, com expressões faciais carrancudas, sentados em um palanque acima da população e com armas na mão para persuadi-los a agirem como desejam. As pessoas do povo não possuem balões de fala e abaixam suas cabeças diante dos soldados, o que as colocam na posição de oprimidas.
Neste trabalho, os temas serão indicados por meio das oposições de base, que estão no nível fundamental, de acordo com José Luiz Fiorin (2013), que define as oposições como “ (...) termos opostos de uma categoria semântica e mantem entre si uma relação de contrariedade. São contrários os termos que estão em relação de pressuposição recíproca.” (FIORIN, 2013, p. 22), e esta semântica, que se fundamenta em uma oposição, é abrigada no nível fundamental, pois se encontra na base do texto.
No entanto, a nomeação de cada capítulo indicará o tema selecionado nas análises.
Figura 16: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.36).
Na figura 17, o tema colonizador x colonizado é visto pelo discurso imagético, em que Tintin possui um meio de transporte mais desenvolvido que os nativos do Congo, e está disposto a ajudá-los. Sua vestimenta de explorador também se diferencia daquelas usadas pelos congoleses, que são ultrapassadas e desnecessárias para o ambiente em que vivem (como casacos de pele, por exemplo). Ao final da
sequência, vemos Tintin sendo carregado por quatro congoleses em um assento suspenso, e não demonstra preocupação com o gesto, o que apresenta a naturalidade da superioridade do colonizador sobre o colonizado na visão do europeu capitalista belga daquela época.
Figura 17: Sequência do álbum Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Na figura 18, o tema europeu x americano é exposto pela relação de Tintin com os nativos norte-americanos, em seu primeiro encontro. Tintin não acredita que eles são perigosos, apesar de Milou, como fiador do Ethos do europeu, demonstrar medo. O europeu, representado em Tintin, não acredita que os nativos sejam
prejudiciais em um primeiro momento, entretanto, seriam os americanos que modificariam suas ações, os tornando perigosos.
Figura 18: Sequência do álbum Tintin en Amérique (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin en Amérique. Paris: Casterman, 2006. p.21).
Essa representação é feita por meio da figuração, que é responsável pela reprodução, tanto no verbal quanto no visual, do imaginário social, construindo
sentidos e um discurso que confirma o Ethos transmitido, como explica Norma Discini (2015):
Temas e figuras, observados como componentes da semântica discursiva, reproduzem nos textos o imaginário social. Descrever mecanismos imanentes de construção do sentido supõe, entretanto, não apenas identificar temas e figuras, mas examinar o modo próprio de tratar temas e figuras, fundante de um modo próprio de presença no mundo, para o sujeito, o que confirma o Ethos. (DISCINI, 2015, p. 284)
É necessário saber que, pelo retórico, pode-se explorar as paixões (o Pathos7 na retórica de Aristóteles) do público para saber como utilizar cada tipo de figura com traços aptos para produzir os efeitos necessários, com a argumentação para gerar persuasão. A partir dessa premissa, percebemos que a forma de aplicar a figuração é ampla e pode partir tanto de uma metáfora explicativa quanto de uma argumentação baseada em associações, o que permite afirmar que “(...) a rede figural substitui, de algum modo, o processo analítico.” (AMOSSY, 2018, p.237).
Usaremos a figuração para confirmar o Ethos de Tintin dentro das temáticas identificadas dentro dos álbuns, e iremos explicá-la mais adiante, porém já podemos exemplificar com a figuração pela representação de Tintin, no álbum “Tintin au Pays des Soviets”, como o repórter investigador, o explorador em “Tintin au Congo” e o cowboy em “Tintin en Amérique”, comprovando em todos os casos a presença do Ethos de herói em temáticas diferentes.
Na figura 19, Tintin possui em seu discurso imagético o gestual do repórter investigador, com a mão abaixo do queixo e o cotovelo apoiado em sua outra mão, com uma linguagem corporal de reflexão e uma conclusão sobre o que ele descobriu, ao dizer “E é assim que os sovietes enganam os coitados que acreditam ainda no
‘paraíso vermelho’.”8.
7 “(...) a palavra Pathos é assumida atualmente no sentido de transbordamento emocional, geralmente sem sinceridade, acepção que não afeta seu derivado “patético”. Em retórica, o termo remete a um dos três tipos de argumentos, ou provas, destinados a produzir persuasão.” (CHARAUDEAU, MAINGUENEAU, 2012, p.371)
8 “Et voila comment les soviets roulent ces malhereux qui croient encore au ‘paradis rouge’.” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.30, tradução livre)
Figura 19: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.30).
Na cena 20, Tintin representa a figura do explorador pelo discurso imagético, com um vestuário (chapéu, camisa, calça, meias longas e sapatos) comum utilizado pelos exploradores franceses, belgas e ingleses no século XIX e XX (período do neocolonialismo) na África colonizada. A presença da arma em sua mão também reflete suas intenções de caça animal no território em que está, em contraste com o guia nativo com um escudo de pele de leopardo e uma lança.
Figura 20: Cena do álbum do Tintin au Congo (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin au Congo. Paris: Casterman, 2006. p.21).