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Tintin au Pays des Soviets

No documento “AS AVENTURAS DE TINTIN” (páginas 76-102)

Como já foi dito, Hergé, um quadrinista que começava sua carreira no jornal Vingtième Siècle, criou seu personagem de maior destaque por motivos contratuais, que definiam que a primeira aventura do jovem repórter Tintin deveria se passar na União Soviética, com o objetivo de revelar o que acontecia no país recluso do contato das demais nações europeias. Para Hergé, não seria difícil criar o conflito entre o idealismo comunista e o homem europeu capitalista, pois era conhecimento do autor e do restante da Europa o que ocorreu durante a Revolução Russa e o assassinato da família imperial, que, por si só, já era um motivo para gerar revolta e estabelecer críticas à União Soviética.

A história era publicada no formato de tiras seriadas semanalmente no encarte juvenil Petit Vingtième, e em seu primeiro quadro traz a apresentação do novo personagem: “O Petit Vingtième sempre ansioso em satisfazer seus leitores e mantê-los atualizados do que se passa no estrangeiro, acaba de enviar para a Rússia Soviética um de seus melhores repórteres: Tintin!”13 (HERGÉ, 2006, p.4). A partir desse momento, Tintin e seu cãozinho Milou embarcam em um trem rumo à Rússia, porém desde o começo, o serviço secreto russo tem como objetivo impedi-lo de relatar o que acontece dentro da União Soviética em seu artigo no jornal. Durante a história,

13 “Le Petit Vingtième, toujours désireux de satisfaire ses lecteurs et de les tenir au courant de ce qui se passe a l’etranger, vient d’envoter en Russie Sovietique un de ses meilleurs reporters: Tintin!”

(HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.4, tradução livre)

se observar as críticas políticas e sociais feitas dentro de uma visão europeia capitalista ao universo comunista da União Soviética, levando em consideração os antecedentes (1ª Guerra Mundial) e o que se sabia sobre a Revolução Russa.

A capa da edição que utilizamos para a análise se mantém fiel à primeira edição feita pela editora Casterman em seu ano de publicação. A capa apresenta Tintin, em trajes típicos dos cossacos russos (conhecidos pelo Ocidente antes do fechamento da Rússia para o mundo), em companhia de seu cãozinho Milou, com as torres do Kremlin, em Moscou, ao fundo. Essa representação já demonstra que Tintin, mesmo sendo retratado como a imagem do Europeu civilizado, através do discurso imagético e verbal, pode se adaptar aos hábitos de um ambiente distinto ao seu a fim de cumprir seu trabalho para desmascarar o desconhecido, representado pela silhueta acinzentada do Kremlin como, não apenas a Rússia, mas o governo soviético que mantém sua sede nesse local em Moscou. Entretanto, mesmo com esse disfarce, Tintin não perde sua essência europeia ocidental.

Os trechos selecionados do álbum “Tintin au Pays des Soviets” tratam da sequência das páginas 29 até 36, da edição publicada pela editora Casterman em 2006. O motivo da escolha desses trechos específicos é a presença mais clara da relação entre uma representação do Europeu branco culto “civilizado” (nos padrões legitimados pela construção discursiva do personagem Tintin) e outra representação que se coloca em contraponto às imagens discursivas elaboradas para Tintin como representante de uma Europa clássica, capitalista e hegemônica no desenho de relações político-sociais, tais como a visão sobre monarquias e outras formas de governo, a representação das cidades e da descrição da população local, além da construção do Ethos do personagem Tintin em sua primeira história.

Figura 28: Sequência de análise do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.29-36).

É possível observar na sequência selecionada, temas e figuras privilegiados na elaboração do álbum como um todo.

Em “Tintin au Pays des Soviets”, podemos perceber o tema da diferenciação capitalista x massificação comunista, apresentados pela figuração, como exemplificaremos a seguir, das feições de Tintin, que mesmo ainda em um território europeu, possui seus traços diferentes dos demais daqueles que são identificados russos, dos militares soviéticos, com faces carrancudas e negativas. Assim como podemos ver a massificação comunista pela representação do cenário fabril que se acreditava prevalecer no cenário soviético.

Figura 29: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p. 35 e 36).

Figura 30: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. P. 36).

Outros temas trabalhados nesse álbum seriam em relação à verdade x mentira e à liberdade x opressão. A figuração desses dois temas se dá em relação ao governo

soviético e à estratégia de convencimentos de repórteres estrangeiros sobre a evolução do país, e Tintin que revela ser uma enganação. No segundo caso, é o uso de violência para persuadir o povo russo, sem voz, para fazer a vontade do governo. Em ambos os casos, também podemos identificar a figuração do tema justiça x injustiça.

Figura 31: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.29).

Figura 32: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.30).

Figura 33: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.36).

Os quadrinhos e sua dimensão verbal governo comunista da Rússia (na época União Soviética), recordado pelo assassinato dos membros da família imperial russa em 1918 e por uma revolução brutal contra o antigo regime monárquico, além de sua reclusão econômica do restante do continente.

O regime comunista não era aprovado pelos países monárquicos (como a Bélgica, que atualmente é uma monarquia constitucional) e pelas democracias capitalistas, que reprovavam um isolamento econômico e a falta de clareza quanto ao que de fato era realizado dentro da União Soviética, inclusive em questões militares.

Não seria difícil para Hergé produzir uma história crítica ao regime comunista, já que, como visto anteriormente, a sociedade da época possuía uma mentalidade de oposição, de acordo com a sociedade belga em que vivia. Levando em consideração a vida do quadrinista e o público para o qual era destinado o novo personagem das tiras semanais do Petit Vingtième, o foco em construir uma imagem negativa do regime comunista e uma imagem positiva do estilo cultural europeu capitalista era compreensível no contexto de produção e circulação dos quadrinhos de Hergé e o discurso empregado por hipótese seria aceito por parte dos leitores naquele momento.

É importante ressaltar que Tintin apresenta primeiramente o Ethos do Herói, como estabelece Maingueneau:

[...] o Herói é o indivíduo cujos gestos verbais ou não verbais se universalizam: o herói não realiza atos, realiza aqueles atos que o Homem por excelência realiza, que, nessa situação, todo homem, se é plenamente homem, deve realizar. Ao proferir essas fórmulas, o herói realiza então discursivamente a exemplaridade heroica, ele exprime a universalidade do Sujeito Universal na singularidade do Eu enunciador. (MAINGUENEAU, 2008, p. 79)

As ações do personagem têm como objetivo ser exemplares e o que é considerado socialmente como a melhor atitude possível, dentro da situação em que o

enunciador Tintin14 é inserido. No caso de “Tintin au Pays des Soviets”, Tintin, sendo o herói que representa o imaginário do europeu capitalista (de acordo com uma visão de parte dessa sociedade), com ações e padrões presentes na sociedade europeia do século XX, não seria concebível que demonstrasse afeição pelo regime comunista da Rússia, de forma que sua missão como repórter é de desmascarar o vilão de sua história, assim como sobreviver e se mostrar superior a este.

Na dimensão verbal, observa-se que na ausência de outros enunciatários a conversa é encenada por Tintin e seu cãozinho Milou, que possui um papel de responder às ideias de Tintin ou de apresentar ideias que o herói não manifesta, sendo uma possível extensão do Ethos que representa o ideal heroico do europeu dito civilizado, porém não demonstra semelhanças com o Ethos do Herói, como podemos ver em um primeiro momento nos dois primeiros quadros iniciais do trecho escolhido, em que as primeiras falas do cãozinho Milou se expressam negativamente, ao demonstrar insatisfação com a viagem (“Eu deveria ter ficado em Bruxelas”15) e sua impressão quanto a um grupo de russos (“Essas pessoas não possuem um ar tranquilizador”16). Milou possui a função de agir também como a figura de um fiador:

Milou possui a visão mais “humana” e de amigo fiel e verdadeiro, que só quer proteger seu dono, e que, por possuir um caráter e representações coletivas, serve como apoio para o leitor se identificar com as representações e confirmar o discurso empregado.

Na sequência, Tintin demonstra a desconfiança do Ethos do europeu dito civilizado (no contexto da obra de Hergé), ao falar: “Essas fábricas funcionam muito bem... vamos tirar isso a limpo”17, demonstrando que é estranha a representação do Comunista ser sendo bom, e, por esse motivo, deveria ser investigado. Quando Tintin descobre provas, o Comunista não poderia ser bom (contraponto discursivo da imagem do europeu civilizado capitalista), ele apresenta sua conclusão sobre o comunismo no balão de fala ao final da página 30: “E é assim que os sovietes

14 Está se considerando Tintin como o enunciador e os demais personagens como coenunciatários, de acordo com o referencial teórico de Dominique Maingueneau de que este “(…) possui um valor instável, segundo as relações que mantém com noções próximas, como aquelas de locator, de sujeito falante ou de ponto de vista.” (CHARAUDEAU, MAINGUENEAU, 2012, p. 197).

15 “J’aurais mieux fait en restant a Bruxelles.” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.29,

enganam os coitados que acreditam ainda no ‘paraíso vermelho’.”18. Nessa sequência, temos uma cena da enunciação que apresenta um ponto de vista sócio-histórico e ideológico discursivo do europeu representado no Ethos de Tintin, e que pode ter como objetivo legitimar o discurso europeu capitalista contra o soviético comunista, através de persuasão e argumentação pelo que é apresentado ao leitor. Assim, é possível dizer que Tintin é a figura do fiador principal, considerando as ações louváveis da sociedade em que vive, a visão mais humana do Ethos do Herói Europeu Capitalista do século XX, e possui uma função (repórter) que permite suas aventuras dentro do espaço social em que foi inserido, de forma a mostrar, no caso desse álbum, o que acontece na União Soviética de fato, o que era desconhecido para a Europa Ocidental, sempre a partir de uma perspectiva estabelecida pelo imaginário discursivo de um europeu branco capitalista do início do século XX.

Devido ao Ethos de Herói e sua função de fiador (como se observa nas tiras a seguir), Tintin não consegue demonstrar desconfiança de uma figura que se apresenta necessitada, o defendendo de um possível “inimigo”, tratando essa figura necessitada com cordialidade, como é de bom tom na sociedade em que vive. Quando esse personagem antagonista se define com um caráter oposto ao do primeiro momento, quem faz com que Tintin o reconheça é Milou, que se expressa novamente de modo mais direto ao desmascarar a representação simbólica do Comunista, e afirma em adjetivos o personagem “inimigo”, desvelado como um espião da GPU, um mentiroso e traidor. Os mesmos adjetivos são repetidos por Tintin ao final desta sequência, quando expulsa o espião do local onde estavam com o uso de força bruta.

Figura 34: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.31).

18 “Et voila comment les soviets roulent ces malhereux qui croient encore au ‘paradis rouge’.”

(HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.30, tradução livre)

Na dimensão verbal, o trecho selecionado apresenta mais falas dos personagens russos para a construção do Ethos do Comunista que Tintin para a noção do Ethos Europeu, demonstrando que é mais relevante a afirmação no discurso sobre quão prejudicial é o comunista. Na cena da página 29, percebemos um soldado comunista que afirma “ao contrário do que contam os países burgueses, nossas usinas trabalham em pleno rendimento!”, buscando apresentar que o governo comunista é eficiente através das palavras “pleno” e “rendimento” durante a apresentação das fábricas para um grupo de ingleses. Percebemos que esse grupo é estrangeiro através de falas em um idioma diferente daquele de Tintin (francês), e sua concordância com a afirmação do russo em inglês (very nice, beautiful) que mostra sua aprovação e espanto positivo pelos elogios exercidos por superlativos e adjetivos “muito bom, bonito”, como também pela observação de Tintin sobre o que vê: “são comunistas ingleses para quem ele mostra as belezas do Bolcheviquismo.”19, e a figura do fiador sinaliza a presença de comunistas não só na União Soviética, mas fora, nos fazendo notar que não apenas os russos são a favor do comunismo, mas que possuíam abertura de outras nações para espalhar sua ideologia, adversa ao que o universo de Tintin representa (europeu ocidental, conservador, heroico, capitalista). Na sequência seguinte, Tintin desmascara essa ideologia, quando vai investigar o funcionamento das fábricas e pode afirmar que “São simples cenários de teatro...”20, podendo então mostrar ao público leitor que se trata de uma farsa a ideologia que a União Soviética disseminava na época.

19“Ce sont des comunistes anglais a qu l’on montre les beutes du bolchevisme” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.29, tradução livre)

20 “Ce sont de simples decors de theatre…” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.29, tradução livre)

Figura 35: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.29).

Figura 36: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p. 30).

A sequência de cenas em que Tintin ajuda um homem necessitado também revela como é desejado construir o Ethos do Comunista da União Soviética. Através de um disfarce de homem pobre, o agente da GPU (polícia secreta soviética) relata os maus momentos que viveu no país, entretanto Milou o revela como espião e o trata como mentiroso. Depois de ter a identidade revelada, o espião afirma que, como Tintin havia falado mal da GPU, ele iria preso, o que mostra o Ethos novamente de mentira da União Soviética e de opressão e censura. Isso é visto com mais evidência na sequência de cenas em que Tintin observa uma comissão de eleições para os sovietes, e agora o leitor é apresentado primeiro à imagem dos sovietes em contraste com o povo russo. Enquanto três soldados russos impõem a votação por unanimidade dos candidatos comunistas, o povo não possui balões de fala, logo, não tem voz, apenas é submisso ao governo comunista.

O Ethos retórico que é construído na dimensão verbal é formado pelo Ethos de Tintin, o Ethos do Herói, constituído por meio do discurso do europeu, em que sua função deve ser revelar aos leitores europeus ocidentais o que ocorre de ruim e prejudicial na União Soviética, para que não se espalhe pelo Ocidente. Levando em consideração o momento em que Tintin foi produzido, o comunista era um inimigo em comum nas HQs, e o discurso construído era baseado no julgamento social e na conjuntura histórica do momento e do que a União Soviética representava política e socialmente. O primeiro inimigo de Tintin seria o comunismo, que era o inimigo do

mundo ocidental e da ideologia social europeia. O discurso verbal apresentado tem como objetivo ressaltar quão mentiroso e manipulador era o sistema do governo soviético, entretanto, inferior ao herói europeu ocidental, que além de conseguir escapar e derrotar esse inimigo, também revela a verdade para seus leitores para que não sejam enganados.

Na dimensão verbal, então, notamos que a elaboração discursiva, através do Ethos discursivo, afirmou a imagem de Herói do Tintin em sua aventura de estreia, demonstrando suas qualidades dentro da sociedade em que ele era inserido, e sua função de repórter o coloca como fiador para transmitir o que verdadeiramente ocorria na União Soviética, através de suas falas como “Eu irei a fundo!”21, na motivação de representar a verdade, na temática verdade x mentira, por exemplo. E do outro lado, também apresenta Tintin interagindo com o povo russo e os sovietes, que também possuem a construção de um Ethos antagonista, de um inimigo a ser combatido, por ser prejudicial à sociedade europeia ocidental, onde se origina a essência de Tintin, que vemos durante o combate do espião soviético disfarçado, que é tratado pelos adjetivos “bandido” e “traidor”22, na mesma temática anteriormente citada.

21 “(...)... J’en aurai le coeur net!” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.29, tradução livre)

22 “Bandit! Traitre!” (HERGÉ, Tintin au Pays des Soviets, 2006, p.34, tradução livre)

Figura 37: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.29).

Figura 38: Cena do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ Georges. Les aventures de Tintin – Tintin Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.34).

Os quadrinhos e sua dimensão não verbal

As Histórias em Quadrinhos possuem uma linguagem própria, que abrange tanto o verbal como o não verbal, que devem se completar de acordo com as características citadas no capítulo anterior, para estruturar essa forma de comunicação. Porém, para a análise das HQs de Tintin, é preciso não somente levar em consideração as características apresentadas por Paulo Ramos e Danieli Barbieri, que abrangem o universo das HQs em um panorama geral dentro da indústria de massa, mas também aquelas apontadas sobre a técnica de Linha Clara, desenvolvida por Hergé e estilo próprio das HQs de origem franco-europeia, que possuem algumas peculiaridades que não podem ser ignoradas, e que alteram a forma de análise.

No caso de “Tintin au Pays des Soviets”, os signos visuais plásticos relacionados à textura e à cor não serão considerados, já que o álbum foi produzido em preto e branco, e a edição escolhida para a análise se mantém fiel à edição original, e por conta do estilo Linha Clara não utilizar tons diferentes de cinza para texturas, somente a cor preta é presente nos traços desse álbum. Em compensação, o estilo Linha Clara nos permite desenvolver a análise sobre signos icônicos (seres ou objetos reconhecíveis) e de contorno (no caso de bordas e linhas das imagens da cena).

Os traços das HQs no estilo Linha Clara não possuem uma variedade em suas espessuras, em compensação, são bem definidos e têm um padrão quanto à forma de

representar os personagens, que possuem uma estética cômica, com características caricaturadas para melhor definir as origens e as formas físicas, já que esse estilo é usado apenas para inspiração nostálgica de épocas específicas, além de agregar uma dose de humor no gênero comum de aventura e ação.

É comum nas HQs que, para facilitar o reconhecimento e a memorização do público leitor, os personagens mantenham seus traços físicos sempre os mesmos, sem trocar a aparência ou mesmo as roupas com constância, evitando alterações em sua imagem. Tintin não possui seus traços logo no início como é retratado até o final do álbum “Tintin au Pays des Soviets”. Em sua primeira aparição, apesar de já utilizar as calças de golfe, pulôver e blazer (moda comum para os homens dos anos 1920), Tintin ainda não possuía seu famoso topete altivo nem seu porte de herói, tendo um formato um pouco arredondado e inicialmente prematuro. Depois de uma perseguição com carros nesse mesmo álbum, Tintin recebe seu topete, uma marca registrada. A figuração do topete pode ser associada à superioridade do personagem europeu capitalista do século XX, além de abordar as temáticas de diferenciação estética x padronização e o belo individual x massificação, referente aos contrapontos do europeu capitalista e o russo comunista. Quanto às roupas, no álbum em questão, a vestimenta que caracteriza o personagem principal ainda não é mantida, sendo trocada algumas vezes.

Figura 39: Sequência do álbum Tintin au Pays des Soviets (Fonte: HERGÉ, Georges. Les aventures de Tintin - Au Pays des Soviets. Paris: Casterman, 2006. p.4).

Esse processo é importante, pois faz parte da construção do Ethos de Tintin.

No trecho selecionado, Tintin já possui seu topete clássico, entretanto, suas roupas são de origem russa, de forma que ele, apesar de seu ponto de vista ser do capitalista Europeu, possa se disfarçar entre os demais sovietes e não ser reconhecido. Como vemos no decorrer do trecho selecionado, tal disfarce não funciona da forma devida, já que ele é facilmente reconhecido, talvez pela sua aparência diferenciada.

Os russos soviéticos são retratados de duas formas diferentes: temos os

Os russos soviéticos são retratados de duas formas diferentes: temos os

No documento “AS AVENTURAS DE TINTIN” (páginas 76-102)