CAPÍTULO I. A APROPRIAÇÃO DO CONCEITO DE LUGAR NO PROCESSO DO
1.2. O lugar
Ai daqueles e daquelas que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e com o agora, ai daqueles que, em lugar desta viagem constante ao amanhã, se atrelarem a um passado de exploração e rotina. (Paulo Freire)
Desde a implantação da Geografia como disciplina acadêmica - a partir de uma ideia positivista da ciência - o lugar foi eventualmente estudado pelos geógrafos, mas sempre em um plano secundário, quando no estudo e na confecção de mapas era um dos fundamentos da disciplina, o lugar em seu sentido locacional era utilizado para definir. A Geografia era vista como ciência dos lugares (espaço físico) e não dos homens. A busca crescente da objetividade praticamente inviabilizava qualquer consideração que extrapolasse o seu significado locacional. Segundo Holzer (1997) o estudo do lugar na Geografia só ganhou importância para a disciplina a partir da década de 1980.
Como explica Holzer (1997), Sauer talvez tenha sido o primeiro a desvincular o lugar deste sentido estritamente locacional. Isto porque ele via a disciplina geográfica como algo que estava "além da ciência", ou seja, que não devia necessariamente trilhar os caminhos preconizados pelos positivistas. O estudo da Geografia, para Sauer, estava vinculado ao conceito de "paisagem cultural", no qual "a cultura é o agente, a área natural é o meio, a paisagem cultural é o resultado."
(SAUER, 1983: 343, apud HOLZER, 1997). Estas ideias provavelmente influenciaram os geógrafos humanistas anos depois.
Na década de 1970, constituiu-se o conceito humanista de lugar, já destituído de suas conotações exclusivamente locacionais. A partir destas definições pode se concluir que o conteúdo dos lugares é o mesmo conteúdo do "mundo": ambos são produzidos pela consciência humana e por sua relação intersubjetiva. (HOLZER,1997). O autor propõe que se defina o lugar sempre como um centro de significados e, por extensão, um forte elemento de comunicação, de linguagem, mas que nunca seja reduzido a um símbolo despido de sua essência espacial, sem a qual se torna outra coisa inadequada para a Geografia.
Há uma discussão polêmica sobre conceitos de território-lugar que se coloca. Para Haesbaert; Limonad (2007), o território3 pode ser uma noção mais ampla que lugar e rede, mas pode também, em muitos casos, confundir-se com eles; a rede pode ser tanto uma forma de expressão/organização do território quanto um elemento constituinte do território; “o lugar, enquanto espaço caracterizado pela contiguidade e por ações de co-presença, é uma das formas de manifestação do território, e embora no lugar não se privilegiem os fluxos e as redes, estes não podem ser vistos em contraposição a ele”. (p.44).
Existe, assim, uma imensa gama de territórios sobre a superfície do globo terrestre e a cada qual corresponde uma igualmente vasta diversidade de territorialidades, com dimensões e conteúdos específicos. As conotações, que a territorialidade adquire, são distintas dependendo da escala, se enfocada ao nível local, cotidiano, ao nível regional ou ao nível nacional e supranacional. (HAESBAERT; LIMONAD 2007, p.44).
Assim, os territórios podem se entrecruzar ou se inserir no interior de outros, sendo que uma das características da tendência global é uma complexa superposição de territórios. Há uma característica relacionada aos processos de globalização/mundialização que, segundo Haesbaert; Limonad (2007, p. 48), diz
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“É uma construção histórica e, portanto, social, a partir das relações de poder (concreto e simbólico) que envolvem, concomitantemente, sociedade e espaço geográfico (que também é sempre, de alguma forma, natureza); o território possui tanto uma dimensão mais subjetiva, que se propõe denominar, aqui, de consciência, apropriação ou mesmo, em alguns casos, identidade territorial, e uma dimensão mais objetiva, que pode-se denominar de dominação do espaço, num sentido mais concreto, realizada por instrumentos de ação políticoeconômica”. (HAESBAERT, 2007, p. 42)
respeito ao “fortalecimento dos processos de âmbito local frente ao regional e ao nacional - seja como meio de fortalecer condições para competir no mercado, seja como forma de resistência cultural”.
Conforme analisa Holzer (1997), a territorialidade não pode ser reduzida ao estudo do sistema territorial; ela é a expressão dos comportamentos vividos ou, se preferirmos, da constituição dos mundos pessoal e intersubjetivo. “No caso do território caberia à Geografia, juntamente com outras ciências, delinear suas diferenças, a diversidade de suas identidades culturais”. (p.84).
As relações espaço/tempo, no mundo moderno, cuja mediação é dada pela técnica que implica em transformações profundas na reprodução das relações sociais, transformam as condições históricas do território, criando as relações sociais que ocorrem no seio do espaço mundial. O lugar é o espaço passível de ser vivenciado e apropriado para a vida através do corpo e dos sentidos daqueles que o ocupam e, segundo Carlos (2007) é, como exemplos, o bairro, é a praça, é a rua, a pequena cidade ou vila – vivida e conhecida.
Segundo Tuan (1983), na prática, o significado de espaço se confunde com o de lugar, porém, espaço é mais abstrato que lugar. O que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar, à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor. “As ideias de espaço e lugar não podem ser definidas umas sem as outras”.
A partir da segurança e da estabilidade do lugar, estamos cientes da amplidão, da liberdade e da ameaça do espaço, e vice-versa. Além disso, se pensarmos no espaço como algo que permite movimento, então lugar é pausa; cada pausa no movimento torna possível que localização se transforme em lugar. (TUAN, 1983, p. 6).
O lugar pode ser conhecido de modo íntimo ou conceitual. A experiência pode ser direta e íntima, como exemplo, a escola em que se estuda, ou pode-se conhecer, conceitualmente, um país, uma cidade, um bairro, etc.
Como afirma Santos (2002), hoje, os pós-modernistas sugerem, com base na aceleração contemporânea, que o espaço não existe, ou seja, que a região e o lugar não existem, devido à banalização, à homogeneização como condição para o
esvaziamento do lugar. Porém, de outra maneira considera-se que cada lugar é uma fração do espaço total, pois pode ser visto como um sistema complexo em que cada estrutura é alterada quando o espaço total se altera e que cada alteração de cada estrutura afeta a da totalidade.
Segundo Carlos (2002), ao contrário da ideia de ‘desterritorialização’ “cada vez mais o espaço se constitui numa articulação entre o local e o mundial, visto que, hoje, o processo de reprodução das relações sociais dá-se fora das fronteiras do lugar específico até a pouco vigente”. (p.13). Novos comportamentos e valores se constroem no cotidiano do lugar e dentro das estratégias da reprodução, que se realizam no espaço.
No passado, a região tinha as características territoriais evidentes de um grupo, com sua identidade e limites. Hoje, progressivamente, os lugares são condição e suporte de relações globais e segundo Santos (2002, p.156):
As regiões se tornaram lugares funcionais do Todo, espaços de conveniência. Mesmo considerando a vida curta da região, não muda a definição de recorte territorial. [...] nenhum subespaço do Planeta pode escapar ao processo conjunto de globalização e fragmentação, isto é, individualização e regionalização.
A Divisão Internacional do Trabalho é a energia básica desse movimento e, devido aos avanços da ciência, tecnologia e informação, o planeta encontra-se em constante processo de cisão e renovação. “O estudo da história dos modos de produção e das formações sociais nos permite reconhecer o valor real de cada coisa no interior da totalidade, ou seja, nos lugares”. (SANTOS, 2002, p.263).
Como explicam Haesbaert e Limonad (2007), a ideia de homogeneização sociocultural, econômica e espacial associada à globalização é falsa. Essa análise sobre a tendência a uma dissolução das identidades locais, tanto econômicas quanto culturais, em uma única lógica, e à despersonalização dos lugares, desconsidera que, em muitos casos, é obrigada a adaptar-se e/ou reelaborar processos políticos, econômicos e culturais ao nível local. Porém, há que se considerar que há uma homogeneização da pobreza e da miséria, porque à medida que a globalização avança, tende a aprofundar a exclusão sócio-espacial. Globalização e fragmentação são polos de uma mesma questão, numa lógica de
fragmentar para melhor globalizar, pois, em uma análise das territorialidades, pode contribuir para uma melhor compreensão do processo de globalização e “[...] ajudar a superar as visões dicotômicas (globalização versus fragmentação) através de uma perspectiva dialética, tanto no sentido de globalização que fragmenta como no de uma fragmentação que ao mesmo tempo se antepõe aos processos globais”. (2007, p. 42).
Segundo Carlos (2007), a noção de globalização revela, fundamentalmente, a dimensão econômica do processo, que, por isso, passa a ser vista como a construção do mercado mundial. Outra noção é da mundialização que aponta para outra direção ao permitir que se reflita sobre a sociedade urbana em constituição, bem como sobre o conteúdo da construção de novos valores, de um modo de vida e de outra identidade, agora mediada pela mercadoria.
A relação entre o local e o mundial torna-se, portanto, tarefa fundamental para entender o mundo atual. Pode-se entender o processo de acumulação e a consequente racionalidade homogeneizante a partir de se pensar o lugar, pois nele não se realiza apenas a partir da produção de mercadorias, mas “[...] liga-se cada vez mais à produção de um novo espaço, de uma nova divisão e organização do trabalho, além de produzir modelos de comportamento que induzem ao consumo e norteiam a vida cotidiana” (CARLOS, 2007, p.11).
Podemos considerar o lugar como o resultado do acontecer histórico e, com esse conhecimento, na dimensão do tempo o presente pode ser compreendido. Segundo Carlos (2007, p.17),
[...] significa pensar a história particular de cada lugar se desenvolvendo, ou melhor, se realizando em função de uma cultura/tradição/língua/hábitos que lhe são próprios, construídos ao longo da história e o que vem de fora, isto é o que se vai construindo e se impondo como consequência do processo de constituição do mundial.
O lugar é o espaço possível de ser sentido, pensado, vivido e de ser apropriado. É vivido através do uso pela locomoção, trabalho, lazer, consumo, como exemplos, a rua, a praça e o bairro. O lugar referido é o espaço mais imediato da vida, das vivências e do cotidiano; é campo de relações a partir do eu e do outro,
onde a história ocorre, onde se encontram as coisas, os outros e a nós mesmos e onde se deve analisar o meio e as nossas ações. Deste ponto de vista, na perspectiva do movimento contínuo da construção do espaço geográfico cada sujeito tem a responsabilidade pela sua própria vida e pela vida da coletividade.
A metrópole apresenta centralidade em relação ao resto do território, articulando áreas imensas, como locus da produção e de troca, consequência da hierarquização que regulariza a ação entre os lugares. Habitamos em uma hierarquia de lugares e em níveis de acordo às interações entre homens e entre homens e coisas. O ensino da disciplina Geografia, na educação básica, ganha sentido na formação dos educandos para transformação do mundo, pelo entendimento das vivências nos lugares e suas relações mundiais.
Carlos (2007, p.15) afirma que “[...] no lugar encontramos as mesmas determinações da totalidade sem com isso eliminarem-se as particularidades, pois cada sociedade produz seu espaço, determinam os ritmos da vida, os modos de apropriação expressando sua função social, seus projetos e desejos”.
Sobre a ideia de lugar, o professor pode trabalhar o cotidiano do aluno com toda a carga de afetividade e do seu imaginário, que nasce com a vivência dos lugares. Assim, ajudar o aluno a pensar historicamente a construção do espaço geográfico, não somente como resultado de forças econômicas e materiais, mas também pela força desse imaginário. Temas relacionados com a produção, o consumo dos espaços (no campo ou na cidade) e os movimentos migratórios podem abrir perspectivas de estudos entre as disciplinas no conceito da cidadania.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (BRASIL, 1998) afirmam que o ensino da Geografia tem por objetivo estudar as relações entre o processo histórico na formação das sociedades humanas e o funcionamento da natureza, por meio da leitura do lugar, a partir de sua paisagem, para entender os fenômenos sociais, culturais e naturais característicos e permitir uma compreensão processual e dinâmica de sua constituição.
Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)4 (2017), a educação geográfica contribui para a formação do conceito de identidade pela compreensão de que os lugares vividos ganham significado ao notar-se a vivência dos indivíduos e da coletividade, os costumes que resgatam a nossa memória social e, assim, a consciência de que somos sujeitos da história. Como afirma Santos (2008), a análise histórica é o indispensável suporte à compreensão da produção do objeto que se pretende estudar, permitindo compreender o processo e, por seu intermédio, a apreensão das tendências, que possibilitam vislumbrar o futuro possível e as suas linhas de força.
Estudar a realidade de um lugar, na Educação Básica, tem o objetivo do estudante reconhecer-se como cidadão, ao conhecer e interpretar criticamente o mundo em permanente transformação, relacionando componentes da sociedade e da natureza. Para isso, é necessário assegurar a apropriação de conceitos geográficos, como o de lugar, que é uma fração do espaço total, para a compreensão do movimento social global; entender processos que resultaram na desigualdade social e, assim, assumir a responsabilidade de transformação da atual realidade, fundamentando suas ações em princípios democráticos, solidários e de justiça.
4 A Base Nacional Comum Curricular cumpre a atribuição do Ministério da Educação (MEC) de
encaminhar ao Conselho Nacional de Educação (CNE) a proposta de direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para os alunos da Educação Básica, pactuada com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. A primeira versão do documento foi disponibilizada para consulta pública entre outubro de 2015 e março de 2016. Publicada em maio de 2016, a segunda versão da BNCC passou por um processo de debate institucional em seminários realizados pelas Secretarias Estaduais de Educação em todas as Unidades da Federação, sob a coordenação do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Em abril de 2017, considerando as versões anteriores do documento, o Ministério da Educação (MEC) concluiu a sistematização e encaminhou a terceira e última versão ao Conselho Nacional de Educação (CNE). A BNCC pôde então receber novas e foi lançada em dezembro de 2017 a versão definitiva para o Ensino Fundamental.