1. A respiração do pensamento
1.1 Alvéolos e vertigens do pensamento
1.1.3 Método e modo
A especulação sobre o problema do método remonta igualmente à questão do modo – que formaria aqui, na costura do nosso texto, uma outra vizinhança do
28 Tal como faz ver com a frase de Bataille “penso como uma moça retira seu vestido”, em La pensée dérobée, (2001) enfatizando a gratuidade do pensamento com relação ao chamado do outro.
problema que temos tratado, sob diferentes ângulos, a respeito do processo de pensamento de Nancy. A questão do modo é abordada como um dos pontos principais desenvolvidos em um dos primeiros livros de Nancy, Le discours de la syncope I.
Logodaedalus (1976), um estudo sobre os problemas de forma e estilo na filosofia. O
livro de Nancy data de 1976, tendo sido republicado na França mais recentemente, em 2008, e traduzido para o inglês em 2006. Nancy, inclusive, no prefácio redigido para a edição inglesa, ressalta que o problema que conduz o livro não perdeu em nada sua exigência na economia de sua obra29.
Mais especificamente, o que é nomeado neste livro através do modo, mas também de ato de discurso, ato de escrita, ou mesmo inscrição30, que chamamos aqui
anteriormente de apresentação e processo de pensamento, perduraria ao longo de sua obra. As questões, acrescenta, teriam não apenas se mantido como uma necessidade intelectual como esta teria se intensificado desde então. Segundo Nancy, seria pela linguagem, e ainda, pelas vozes, pelos modos de endereçamento, que podemos, ainda hoje, alcançar, reformular ou criar coisas como o “ser”, “princípio”, “verdade” ou “razão” (e não ao contrário, colocando estas coisas como um a priori a partir do qual o pensamento analítico, sistemático, viria a ser construído). Dito de outra forma, o autor estaria colocando, neste texto que representa uma nova abertura ao livro, 30 anos após a primeira publicação, que, em vez da fixidez trazida pela ideia do
método, seu pensamento seria muito mais conduzido através de uma ação viva do
pensamento e das relações com as quais ele traça ao ser tocado pelo outro. O pensamento, portanto, oferecendo-se como fonte de criação e como a própria criação, entre o desejo do discurso e da produção de sentido e a abertura para aquilo
29Seria no entanto importante frisar que o segundo volume do livro, previsto no projeto de Nancy sobre Kant e mencionado diversas vezes ao longo do livro, que se chamaria Kosmotheoros, nunca foi publicado. O tradutor, Saul Anton, que pontua seu trabalho com extensas notas sobre o livro de Nancy, explica, contudo, que “readers familiar with the broader arc of Nancy's work might well recognize the motif of the cosmological submerged underneath the notions of space, spacing, and world that figure so prominently in his later writings, especially in The Sens of the World and The Creation of the World: Or Globalisation. The term 'Cosmotheoros' appears in several of Kant's posthumous notes, but derives in Nancy's view from the fact that when he reduces the program of philosophy to the critical task of accounting for the conditions of the possibility of knowledge from experience alone, he effectively brackets all cosmological accounts of the universe.” (NANCY, 2008, p. 144) 30 Tal como Nancy no prefácio que escreve para a edição inglesa do livro: “the act os speaking is in turn nothing but the act of writing, if writing – a term thus promoted to the status of a regulative idea – designates nothing but cutting a path to the nongiveness of “sense”, to this not-yet-signified and to this not-yet-said which alone, in truth, opens language, which alone opens it to truth, and which knows itself from the outset to forever be unable to arrive at something like a goal, a conclusion, a Sense. Knowing itself to be so, this act also knows itself as the very inscription of truth, truth insofar as it is it’s inscription (...)”. (NANCY, 2008, p. xxii-xxiii).
que nesse discurso não pode ser sistematizado – em uma constante síncope dele mesmo (retornaremos em breve à palavra síncope).
O estudo é inspirado inicialmente pela necessidade, assim como pelo incômodo de Kant, sobre uma escrita que pudesse se constituir como o melhor canal para exposição de sua teoria. Não entraremos aqui na especificidade do pensamento de Kant através da empreitada de Nancy, o que, dada à densidade do trabalho minucioso de Nancy sobre Kant neste livro, melhor serviria para uma discussão voltada aos pormenores da obra do filósofo prussiano. Gostaríamos, por outro lado, de nos voltar ao livro de Nancy para ressaltar seu interesse e insistência em se aprofundar (partindo de Kant, mas se apoiando, através de breves referências ou citações, em uma imensa variedade de outros autores) nos problemas da produção do pensamento com a ênfase naquilo que salta enquanto incongruência nessa própria operação, em um movimento questionador de uma teoria do pensamento que se baseie na ideia de um esquema e de uma síntese (tal como o fundamenta a teoria de Kant).
Sob a mesma perspectiva, se poderia dizer que Nancy, a partir de sua leitura de Kant, está interessado em tornar visível uma lacuna, uma arritmia, um desfalecimento ou um furo no próprio pensamento metafísico ocidental (sem se colocar em tom opositivo com relação a esse pensamento, mas buscando dentro dele seus alargamentos), furo este que chamaria de síncope. Trata-se de pensar, com isso, o que se dá como o que explica ser um colapso sistemático, permanente e sintético do fundamento mesmo do discurso. Em toda síntese estaria implicada igualmente uma síncope, ou seja, aquilo que salta, que não se determina, não se “decide” a partir de um sistema, aquilo que está sujeito às variações, ao imprevisto, ao “caos”. A síncope, aliás, só poderia ocorrer a partir desse desejo de discurso e de completude que a síntese quer significar ao criar uma temporalidade, assim como uma finalidade, mas que ao falar, segundo Nancy, partilha sua existência com a inevitável possibilidade da síncope. Sempre teria partilhado.
Segundo Nancy, o discurso da síncope seria posto a partir de Kant justamente por tratar-se de um pensamento com exigências sistemáticas31, mas que ao mesmo tempo se confronta com o problema da “elegância do estilo”. Nancy, ao
31“On découvrira que ce problème ne se serait jamais posé à une pensée qui n’eût pas exige la théorie du schème. Mais on découvrira tout aussi bien que cette théorie n’aurait pas eu de place dans um discours que le souci de as présentation n’eût pas effleuré” (NANCY, 1976, p. 9).
longo do seu texto, cita uma série de exemplos, citações na obra do próprio Kant, que retratam o incômodo do filósofo com o fato de não escrever ou não poder escrever com “elegância”, “delicadeza”, “fineza”, dada a natureza de sua tarefa.
O que assume o caráter de um incômodo quase sistemático, poderíamos dizer, a partir da leitura de Nancy, mostraria que o discurso filosófico não tolera a síncope, o desencontro, a abertura para aquilo que não pode ser previsto na organização de um sistema que não implica o objeto na própria ação do pensamento e da linguagem. O problema dos limites do modo de apresentação experimentados por Kant, nesta leitura, seria igualmente um problema da negação da imprevisibilidade das coisas, do mundo.
Uma abertura para aquilo que foge a um sistema seria insustentável pelo discurso filosófico e teve de ser, desde sempre, negada por ele. Por isso, a filosofia pretende mesmo “pensar” e especular a respeito disto que lhe é insustentável, negando aquilo que abala fundamentalmente o seu próprio discurso. Em outras palavras, Nancy argumenta que o próprio discurso da filosofia nasceria justamente deste limite de um discurso direto, claro, ou transparente, ou seja, ao se colocar este limite e enquanto limite. Na medida em que Kant elege um vocabulário “sem mel”, explica Nancy, insere seu próprio discurso a partir da lógica da síncope, daquilo que, negando a variação, se constrói a partir dela. Concluindo o argumento, explica que o discurso filosófico kantiano (e o nascimento do discurso metafísico, por sua vez), ele mesmo, seria articulado a partir da síncope e pela síncope, “il est “tenu” par un indécidable moment de syncope (...) La fonction kantienne dans la philosophie est celle qui en exhibe – ou bien faudrait-il dire: qui en incise? – la syncope, malgré tout, malgré toute la volonté du discours” (NANCY, 1976, p.17-18).
Um dos exemplos da lista formada por trechos das leituras que Nancy faz de Kant para caracterizar o próprio “drama” experimentado por este filósofo (mas também, não poderíamos deixar de dizer, um drama que seria experimentado igualmente por Nancy) é publicado por Kant na Nova dilucidatio, em 1755: “je ne montre que les nerfs et les jointures de l’argumentation, et renonce à toute finesse et délicatesse de l’expression, comme à un vêtement mis de côté” (NANCY, 1976, p. 23). Exemplo especialmente interessante para iluminar o problema em questão, pois se reúne à apresentação que Nancy faz em outro momento do livro a respeito do que se coloca pela palavra modo.
la mode e le mode. Por um lado, coloca-se a variação do que se compreende como
moda, aquilo que é fashion e relativo à fugacidade do tempo, por outro, o modo como método, forma ou substância. Se a roupa é associada tanto à necessidade (seja climática, seja com relação às circunstâncias) quanto à variação, renunciar à roupa, que na citação de Kant se deixa de lado como renúncia à delicadeza da expressão, seria renunciar a essa suspensão que está no nascimento do próprio discurso filosófico, a suspensão que faz parte da sua própria fundamentação como “discurso”. Nancy, ao trazer o exemplo de Kant, faz uma comparação direta com outra referência, desta vez de Bataille, referência aliás constantemente citada por Nancy e tirada do texto que comentamos acima, “Méthode de méditation”: “je pense comme une fille enlève sa robe”. E acrescenta uma outra: “ce qui accomplit: c’est la joie, le joli dénudement, l’élégance de mouvements vifs: le luxe aussi. (...) La fille em se dénudand s’avilit, ele s’abandonne et moi aussi je deviens vil et animal assoifflé” (NANCY, 1976, p. 32).
A comparação coloca em vidência essa suspensão e essa abertura que Nancy está debatendo. Entre um pensar que coloca de lado o frívolo, o arbitrário e passageiro de uma roupa, mas que, segundo Nancy, apenas pode ser pensado a partir disso que se coloca de lado, e, por outro, um pensar que assume em seu fazer o seu próprio desnudamento, a sua própria falta de recursos com relação a si mesmo. Este último levaria em conta o próprio abandono, entre o pensamento e sua escrita, ao desejo em direção a essa mulher que se desnuda. Tal abandono seria impossível para Kant, ao mesmo tempo que sua teoria, segundo Nancy, apenas poderia partir desse próprio abandono, ou ainda, do medo desse abandono. Um medo que, se consideramos a citação de Antonin Artaud em Cahiers de Rodez, que Nancy traz 30 anos depois da publicação, se converteria na imagem de uma “menininha”: “Mr. Kant was a little girl who wanted to be a poet in his way and whose jealousy of beings forced him to limit himself exclusively to philosophy.” (ARTAUD, 1984, p. 450)
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As passagens implicadas nas variadas relações traçadas entre o “método”, como a demanda de verdade na filosofia e a necessidade de se aproximar daquilo que se dá na continuidade de um ato se reúne ainda a um outro par nessas reverberações do pensamento que aqui traçamos ‒ novo e velho eco que persiste
reformando as bordas daquilo que se nomeia filosofia ‒ a literatura. Neste sentido, a literatura funciona, assim como os outros termos que aqui evocamos para Nancy como horizonte sensível que convive estreitamente com suas preocupações filosóficas em relação a um cientificismo, a um positivismo da filosofia32. Literatura e filosofia, aliás, convivem estreitamente pois existem, ou coexistem, em um estado de
demanda, tal como explica na abertura do livro de mesmo nome.
O método ‒ como um dos nomes para a filosofia ‒ e a literatura, como o horizonte sensível ‒ existem a partir do que Nancy, em “Un jour, les dieux se retirent”, nomeia através da “ausência dos deuses”: “l’absence des dieux est la condition des deux, littérature et philosophie” (NANCY, 2015, p. 41). Pois, se o método está ligado ao que na ciência se relaciona a termos como totalitário, presencial, identitário, a literatura igualmente carrega o peso do mitológico. Tanto um quanto o outro convivem com uma demanda de verdade, uma vez que não há sentido possível, hoje, que seja ordenado, soprado, assimilado. Filosofia e literatura, então, uma vez funcionando neste registro de demanda da verdade e não de submissão a ela, exigem algo muito parecido, mas o fazem através de caminhos diferentes. A filosofia exige um discurso contínuo, ininterrupto em direção à verdade (discurso esse que Nancy busca igualmente “interromper” ao fazer circular um dado movimento do sentido em direção ao mundo), quando a literatura constitui por sua vez um discurso interrompido, fragmentário, dada à sua relação com a verdade.
Interessante é que, enquanto de alguma forma escrevendo a partir da filosofia (em textos assim denominados ou quando entrevistado enquanto filósofo), Nancy concentra seus esforços em direção a um pensamento que se quer espontâneo, bricoleur. Contudo, se o que escreve se aproxima do que efetivamente considera literário, o pensamento, por sua vez, lhe oferece outro desafio diante do mundo, o desafio da interrupção. Tal como a demanda de que fala em Demande (2015), é ele próprio que realiza uma démarche dessa demanda.
Deste modo, a literatura funciona como um horizonte sensível, porém isso aparentemente não implica investir-se tal e qual a literatura o faria. A demanda de “retenção” à qual nos referimos é encontrada na página de introdução da última
32Em inúmeros textos essa relação é inquirida na obra de Nancy, tendo sido publicado o volume Demande (2015), citado aqui já algumas vezes, pela primeira vez em 2015. Os textos, na sua maioria, lidam justamente com a borda entre literatura e filosofia, retomando textos antigos até outros mais atuais. Não podemos tomar o tema da literatura para Nancy em toda sua exaustão, mas não podemos tampouco deixar de considerá-lo na economia da obra do autor.
sessão de textos publicados no livro Demande (NANCY, 2015). Sessão esta que, intitulada Parodos33, não sem dificuldade, seria nomeada literária. Nancy ressalta que
tais textos “ne sont jamais (grifo nosso) nés du mouvement spontané, d´une voix qui raconte ou qui chante (quand bien même le mot ‘spontané’ pourrait appeler bien des commentaires et des réserves)”. O espontâneo, seja em literatura ou em filosofia, claramente não é visto de modo positivo. É preciso anunciar que o pensamento ali ne
va pas de soi, ou seja, não é “dado”, pois essa espontaneidade do “si mesmo” estaria
ligada à ênfase numa unidade, ao fato de que a voz que ali fala não é uma voz incorporada, soprada, enunciada a partir de uma instância mítica, divina ou representativa, mas apenas uma dentre outras vozes.
O universo conceitual do sopro, daquilo que se dá como uma presença em literatura, remonta ao mito, à dimensão do sagrado e das grandes narrativas orais. Nem ao sagrado nem às grandes narrativas compete a cena ou o embate da verdade, pois estes exigem um tipo de ordem e aceitação. Se evocar o mito, o sopro e a origem da literatura é possível, hoje, é a partir de um jogo, de uma consciência da cena, de um embate árduo com relação à verdade. É preciso esquecer momentaneamente a cena para entrar minimamente no jogo do sagrado – ou da verdade, sua variante moderna. Nancy parece estar fazendo isso frequentemente. Confunde-se a consciência da cena com a sua manifestação. Parece curioso pensar essa abertura dos textos, que se assemelha a uma ressalva conceitual frente à diversidade dos textos que ali se seguem, mas ela parece existir justamente para garantir, hoje, a verdade que ali é “ingenuamente” anunciada.
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Recapitulemos mais uma vez os remetimentos de um certo processo de pensamento até aqui. Bricolagem, meditação, modo. Nomes não de uma substituição, mas de algo que se passa através de uma relação, em uma circulação metafórica que “oxigena”, por sua vez, diferentes canais do sentido. Nomes que, até aqui, foram
33À respeito da palavra Parodos, na mesma introdução Nancy explica que esta “désignait en grec le chant du chœur arrivant en scène (le premier sens du terme est 'passage’). Si nous percevons une homophonie avec parôdia, d’où provient ‘parodie’, c’est parce que nous effaçons la différence entre un o bref et um ô long. La parôdia désignait un chant enflé, bouffon. Je laisse flotter l’homophonie... Parodos pour entrer un peu sur la scène, de biais – parôdia pour ne pas m’y croire – je veux dire me croire en ce lieu où menace la tentation de l’Ode et du chant sacré”. (NANCY, 2015, p.279)
oferecidos lado a lado da palavra método por Nancy para, nessa relação, tentar designar (ou no vocabulário do autor, “fazer circular”) algo dificilmente nomeável, que se dá como errância do pensamento através de suas mãos, de seu corpo de filósofo. Um corpo que “erra”, mas trata-se de uma errância que se dá, justamente, através da experiência de um determinado lugar do pensamento ‒ sendo mais do que uma viajem (seja àquela interiorizada, imersa, da meditação, ou exteriorizada, dos laços sociais através dos quais tem lugar uma obra) ‒ lugar através do qual uma viagem é possível. E ainda, uma vez que a viagem é possível, parece abrir-se um conjunto de referências desse chamamento que o pensamento aqui requer, como uma estrutura alveolar – o que se inspira passa por todo um caminho de remetimentos.
Esse conjunto de referências evocadas mais se assemelharia a uma zona criada em torno da palavra “método”, que portanto, parece ocupar ‒ mais do que um culto a uma palavra central ‒ a importância das relações criadas entre os seres e da passagem que se dá entre essas relações. Partindo disso, seria o caso de repensar estarmos aqui “evocando” a palavra método na obra de Nancy, tal como já dito anteriormente. Ou mesmo, se ainda for possível assim formular, trata-se antes de evocar não a procedência, significado primeiro ou originário dessa palavra, a “musa” ancestral que sopra um sentido e um único sentido (o sentido da ordem e da verdade), mas suas origens múltiplas, suas relações de vizinhança, suas variadas reverberações.
Logo, se o que está em jogo é aquilo que se dá “para além” de certas palavras, no sentido de permitir o próprio lugar de sua existência, talvez seja o caso de pensar a continuidade das bordas, dos contornos dessas mesmas palavras. Poderíamos então argumentar a necessidade de um “novo” vocabulário em detrimento daquilo que pesou demasiadamente na tradição filosófica, daquilo que está demasiadamente carregado de determinado significado. Mas Nancy não abandona essas palavras, marcadas por um peso significativo. O “novo”, como real força de deslocamentos, é dado a partir das “mesmas” palavras, que persistem no seu texto como insistência sonora e semântica que de alguma forma quer chamar a um dado “ponto cego”. Não seria possível, então, falar em chamamento, evocação ou inspiração sem que se considere esse ponto cego, essa impossibilidade da visão de
um corpo, pleno, tal como o corpo ausente dos deuses que Nancy comenta em “Un jour, les dieux se retirent...”34 (NANCY, 2001).
Na passagem entre dizer, tocar ou referir-se ao método (na demanda da verdade que ele implica) e sua zona silenciosa, imóvel, passagem de muitos modos evocada (comparação que, além de outras vizinhanças/formulações mencionadas, outras se somam, como “escuta” e “nascimento do mundo”, que ainda iremos, na tese, abordar) não parece haver passagem branda, com o risco da possível redundância. Toda palavra dita, neste sentido, é uma passagem, inspirada, expirada, de um lugar através do qual sua existência se faz possível. A distância que garantiria tanto a liberdade quanto a mobilidade35 desse pensamento não permite uma passagem
pacífica. O meio, portanto, como método possível de reverenciar a verdade na