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2 Capítulo II: O desenvolvimento histórico da Farmácia, estruturação do ensino

2.1 Elementos macro-estruturais e a redução da visibilidade social da Farmácia

2.2.1 Marco conceitual da Assistência Farmacêutica

A discussão e definição das estratégias que representam a intencionalidade do Estado e dos governos, bem como a demanda da sociedade por melhores condições de saúde encontra-se condicionada por vários fatores, inclusive a própria concepção de saúde e de doença historicamente construído e socialmente representado. A partir desses referenciais constituem-se os modelos assistenciais em saúde.

Os modelos convivem dentro de um sistema e refletem dialeticamente a dinâmica de reprodução no modo de produção, de disputas em favor de projetos, de pressões sociais e econômicas, de aspectos ideológicos, políticos e culturais.

Entre os fatores que interferem na formulação de Políticas de Saúde destacam-se a complexidade do indivíduo e a multiplicidade dos determinantes sociais que incidem sobre o indivíduo e a comunidade. A diversidade das necessidades sanitárias, a variedade dos serviços e das ações de saúde necessários para dar conta dessas necessidades, bem como o processo de formação e as estratégias de valorização de recursos humanos constituem outro grupo de fatores envolvidos no planejamento, organização e prestação dos serviços. Finalmente há que se destacar que a operacionalização dos serviços e ações de cuidado depende também do desenvolvimento e da incorporação de tecnologias e dos interesses e pressões que freqüentemente tensionam a estruturação do sistema (SOUZA, 2002).

Os desafios são imensos em uma sociedade complexa e em um país com a dimensão territorial e as diferenças regionais como o Brasil.

No Brasil, a articulação e mediação entre diferentes modelos configuram- se historicamente em um projeto em construção, através da organização do movimento sanitário: o Sistema Único de Saúde. Sistema no qual convivem pelo menos dois modelos assistenciais: o modelo curativo “médico-assistencialista” e outro modelo em construção, o modelo “integrado” de “promoção da saúde” (MARIN et al., 2003). O medicamento é um insumo importante nos dois modelos. Enquanto tecnologia de saúde corresponde a um objeto de intervenção que reforça uma ou outra lógica assistencial, dependendo da concepção e do contexto de uso.

O modelo de Assistência Farmacêutica foi elaborado no contexto do movimento pela reforma sanitária e de construção do SUS. Ele corresponde a um construto social, uma concepção de serviço e um conjunto de funções e responsabilidades inseridas no sistema de saúde (DUPIM, 1999).

Sua construção histórica remonta à década de 1980, das discussões preparatórias à realização da VIII Conferência Nacional de Saúde (1988), passando por sua primeira definição no Encontro Nacional de Gerentes Estaduais da Assistência Farmacêutica (realizado em Brasília em 1996) e pela adoção pelo estado brasileiro de um conjunto de ações e políticas farmacêuticas, com destaque para a Política Nacional de Medicamentos, Portaria n. 3.916 (1998) até chegar na realização da 1ª Conferência Nacional de Medicamentos e Assistência Farmacêutica (2003) e posterior aprovação pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), em 2004, da Política Nacional de Assistência Farmacêutica, Resolução CNS nº. 338.

Conforme já referi na apresentação deste trabalho, a Política Nacional de Medicamentos (1999) define a Assistência Farmacêutica como

Grupo de atividades relacionadas com o medicamento, destinadas a apoiar as ações de saúde demandadas por uma comunidade, envolvendo o abastecimento de medicamentos em todas e em cada uma de suas etapas constitutivas, a conservação e controle de qualidade, a segurança e a eficácia terapêutica dos medicamentos, o acompanhamento e a avaliação da utilização, a obtenção e a difusão de informação sobre medicamentos e a educação permanente dos profissionais da saúde, do paciente e da comunidade para assegurar o uso racional dos medicamentos (BRASIL, 1999).

Como modelo a Assistência Farmacêutica envolve duas dimensões: uma dimensão política e uma dimensão técnica que engloba atividades técnico- administrativas e técnico-clínicas, operacionalizada no chamado ciclo de Assistência Farmacêutica; que envolve a seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição, prescrição, dispensação e o acompanhamento do uso de medicamentos.

As atividades técnico-administrativas correspondem à gestão da aquisição e do processo de distribuição de medicamentos com vistas a garantir a disponibilidade e acesso do indivíduo e da comunidade a medicamentos adequados; ou seja, que apresentam eficácia comprovada, menor risco e menor custo para os usuários do Sistema. Em relação às atividades que classifico como técnico-clínicas, dizem respeito à responsabilidade pelo processo de uso de medicamentos e a obtenção de resultados em saúde favoráveis ao indivíduo e à comunidade. A Atenção Farmacêutica faz parte deste rol de atividades clínicas.

De acordo com Lyra Jr. (2005)

Com o passar dos anos, os novos rumos propostos para o SUS, a trajetória e a situação dos investimentos e recursos destinados às políticas públicas de saúde, a extinção da Central de Medicamentos (CEME) e o processo de municipalização, as mudanças epidemiológicas e demográficas anteriormente citadas, modificações qualitativas e quantitativas no consumo dos medicamentos, apontaram para a necessidade da adoção e implementação de novas estratégias também no campo da Assistência Farmacêutica no país (LYRA Jr., 2005 p. 17)

Pode-se dizer que o conceito de Assistência Farmacêutica resultou de uma situação paradoxal. A percepção, principalmente, entre os farmacêuticos que atuavam no sistema público de saúde, das contradições e do desafio de prover aos usuários dos serviços de saúde o acesso ao tratamento farmacológico, principal instrumento de intervenção em um sistema de saúde em construção, em que as ações ainda estavam muito centradas na assistência médico-hospitalar.

No marco conceitual da Assistência Farmacêutica há uma definição mais ampla constante na Resolução n. 357 do Conselho Federal de Farmácia (CFF) que estabelece as Boas Práticas de Farmácia.

Assistência Farmacêutica - é o conjunto de ações e serviços que visam assegurar a assistência integral, a promoção, a proteção e a recuperação da saúde nos estabelecimentos públicos ou privados, desempenhados pelo farmacêutico ou sob sua supervisão (BRASIL, 2001).

Na sua elaboração, qualquer menção ao medicamento ou ao seu processo de uso foi sutilmente suprimida. A definição genérica permite caracterizar como atividade de Assistência Farmacêutica qualquer função desempenhada pelo farmacêutico dentro do seu âmbito profissional, o que acomoda as “distintas” profissões existentes no interior da profissão.

Durante os anos 80 e 90, no escopo das discussões da reforma curricular, houve a polêmica da inclusão ou não das análises clínicas e outras atividades sob o conceito da Assistência Farmacêutica. Havia aqueles que a defendiam e outros que não concordavam com essa proposta. Estes últimos argumentavam que a Assistência Farmacêutica constituía um conjunto de atividades em torno do medicamento no qual o diagnóstico laboratorial não caberia. Penso que esta divergência de opiniões estava mais relacionada ao embate, à disputa por hegemonia de projeto profissional entre bioquímicos e não-bioquímicos no interior do coletivo.

O artifício conceitual encontrado pelas lideranças farmacêuticas brasileiras buscava aglutinar a categoria em torno de uma concepção que a unificasse. A estratégia aparentemente harmonizou algumas divergências e resistências, porém o texto deixa perceber que mesmo por trás do discurso do farmacêutico como profissional do medicamento, havia a preocupação da profissão em perder espaços no exercício de um âmbito profissional que foi extendido ao máximo nos últimos 30 anos (talvez como sinal da perda de identidade). Este receio, aliado ao quase desaparecimento de uma auto-imagem das suas atribuições, do seu objeto social, explicariam a omissão em texto tão importante da missão da prática famacêutica.

Passados 20 anos desde a elaboração do conceito de Assistência Farmacêutica, pode-se constatar que este modelo encontra-se oficializado, porém há muito no que avançar. Será necessário que os farmacêuticos reconheçam em si mesmos as qualidades, as deficiências e potencialidades da sua prática, para então se convencerem de suas responsabilidades começando a exercê-las efetivamente. Mais do que um quadro conceitual bem articulado e justificado de acordo com os princípios do SUS, as atividades farmacêuticas assistenciais devem corresponder ao modelo e padrão da prática farmacêutica, um conhecimento comum que seja

realmente do domínio de todo e qualquer farmacêutico que venha a praticá-la ou não.

2.3 BREVE RECORTE SOBRE O CONCEITO DE PROFISSÃO E SEU