• Nenhum resultado encontrado

6. A MACONHA DOS JORNAIS

6.1 Material e método

6.1.1. Fontes

Foram analisadas 489 matérias do jornal Folha de S. Paulo em sua versão digital. O jornal Folha de S. Paulo teve a sua fundação em 1921, assumindo ao longo do tempo diversas propostas comunicativas e nomenclaturas, como o Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha

da Noite. Apenas em 1960 a direção do jornal unificou todas as suas edições sob o nome de Folha de S. Paulo (PINTO, 2012).

A partir de 1994 a Folha passou a expandir seu campo de atuação dos impressos para a internet, que naquele momento ainda era um campo em descoberta. Em 1995 foi criado o Folha Web, que disponibilizava alguns dos conteúdos produzidos pelo jornal, e que em 1996 passou a ser integrada ao portal Universo Online (UOL), empresa separada do jornal impresso. Em 1999 esse projeto passou a ser chamado de Folha Online e, embora estivesse relacionado à Folha de S. Paulo, tinha poucas semelhanças com o jornal impresso (PINTO, 2012). Entretanto, a partir de 2010 – período que engloba a coleta realizada – o Folha Online passa a ser chamado de Folha.com e a ser produzido integralmente pela mesma equipe de edição do jornal impresso, equiparando os conteúdos das duas versões. Além disso, ainda em 2010, o Folha.com incorpora elementos de áudio e vídeo nas suas matérias, mas esses não foram considerados na análise realizada. Cumpre observar que em junho de 2012 o Folha.com assume o logotipo da Folha de S. Paulo e deixa de existir como veículo “independente”, mas essa foi apenas uma mudança de nomenclatura, visto que o conteúdo produzido partia, desde 2010, de uma mesma equipe de edição.

Como assinalado, a coleta realizada considerou os textos produzidos em matérias veiculadas pela Folha de S. Paulo em sua versão online. Essa trajetória apresentada nos permite, portanto, considerar algumas características. Em primeiro lugar, como salientam

Pernisa e Santana (2010), o jornalismo online, ou webjornalismo, tem especificidades na sua apresentação, pela própria rapidez de circulação e integração com recursos audiovisuais, além da possibilidade do acesso a outros conteúdos – no caso de matérias que referenciam outras complementares do mesmo portal, fenômeno comum nessa forma de jornalismo. Por outro lado, ainda que seja possível identificar diferenças, o que interessa especificamente a esse estudo são as características relacionadas à forma de comunicação do jornalismo, especificamente àquelas descritas na linha editorial do jornal Folha de S. Paulo.

Nesse sentido, a Folha assume, em seu projeto editorial, o propósito de discutir, com embasamento, questões de relevância social para o cotidiano dos/das brasileiros/as. É um jornal que pretende ser informativo, apartidário, crítico e plural, abordando aspectos diversos da sociedade e não privilegiando posicionamentos unívocos (PINTO, 2012). Claro está que, independente de atingir seus objetivos, essas características, ou intencionalidades, presentes no projeto editorial apontam para a relevância desse veículo como um produtor e produto daquilo que se considera importante ser discutido sobre a maconha. Os efeitos desse veículo, portanto, estão relacionados à organização de diferentes discursos produzidos por diversos setores e grupos da sociedade. Além disso, de acordo com Pinto (2012), ao citar dados de 2011, a versão da Folha de S. Paulo para internet tem cerca de 5 milhões de acessos por dia, remetendo a um grande alcance desses conteúdos por parte de usuários de todo país.

6.1.2. Procedimentos de coleta

A partir de buscas nos bancos de dados do jornal em sua versão para internet, foram coletadas todas as matérias publicadas em um período de dois anos – iniciado em 01/07/2010 e finalizado em 31/07/2012 – que continham no título/manchete pelo menos um dos seguintes termos: maconha, cânhamo, cannabis e canábis.

A opção por abordar somente as matérias cuja palavra-chave estivesse presente no título/manchete ocorreu com o intuito de melhor homogeneizar os resultados, visto que muitas matérias faziam apenas menção à maconha no texto, mas tratavam de discutir, de fato, outros temas. Entende-se que tais produções poderiam ser utilizadas como material de análise, entretanto, buscando uma menor dispersão dos dados coletados, foram tomados apenas os textos em que a maconha assumia relativa centralidade como mote. O título/manchete, por sua vez, se configura como um indicador dos temas centrais abordados. As matérias em que a maconha surja como objeto secundário podem ser, ainda, tratadas em estudos futuros, pois também têm efeitos na construção simbólica do objeto abordado.

Outro aspecto a ser assinalado diz respeito ao intervalo de tempo utilizado. Em primeiro lugar, cumpre ressaltar que o tempo de dois anos reflete apenas uma busca aproximada por uma quantidade de material suficientemente relevante e diversa em termos de conteúdo. Em segundo lugar, observa-se que o início e o fim da coleta estão situados no mês de julho e não em janeiro/dezembro, como usualmente são coletados esses tipos de dados. Isso ocorreu em função da necessidade de equiparar temporalmente os resultados obtidos nessa etapa da pesquisa aos do material coletado no Yahoo Respostas. Há aqui a compreensão de que, ainda que comparar o tratamento de conteúdo a partir dessas duas formas de comunicação não seja o objetivo central, o fato de igualar o período temporal remete a tratar de um mesmo momento cultural, ou seja, de parte das condições de produção relacionadas aos conteúdos estudados.

6.1.3. Procedimentos de análise

Para o processo de tratamento e análise dos dados, foi utilizado o software ALCESTE – Analyse des Lexèmes Cooccurrents dans les Enoncés Simplifiés d'un Texte – Versão 2010. Esse software funciona com base na co-ocorrência de palavras em segmentos de texto, havendo o pressuposto de que o uso de campos léxicos distintos, ou “mundos lexicais”, pode identificar campos semânticos específicos (NASCIMENTO; MENANDRO, 2006). Originalmente concebido como um software de auxílio às análises do discurso, o Alceste tem sido utilizado como um instrumento que permite identificar os “lugares comuns” discursivos, no sentido de que, a partir deles, os sujeitos comumente se posicionam no ato de enunciar (REINERT, 2000, 2001). A ênfase em conteúdos linguísticos é, portanto, a principal característica que torna o uso desse instrumento relevante aos estudos sobre representações sociais (KALAMPALIKIS, 2003).

O Alceste é baseado em operações estatísticas de tratamento automático dos dados, e fornece resultados para posterior tratamento analítico. Dentre os processos de tratamento, destaca-se, aqui, a Classificação Hierárquica Descendente (CHD) que, como resumem Nascimento e Menandro (2006), é o processo em que são identificadas as formas linguísticas co-ocorrentes no sentido de constituir classes distintas de campos léxicos. Para tanto, cada UCI – no caso, cada matéria – é repartida em algumas UCE – trechos menores definidos automaticamente pelo número de palavras e pela pontuação. As classes geradas são, então, um conjunto de UCE que mantêm relações entre si pelo uso de um vocabulário específico.

O resultado da CHD, portanto, fornece classes inter-relacionadas que comportam palavras e expressões características das mesmas, facilitando a organização tópica dos discursos encontrados por temas e formas de tratar do objeto. A partir dessas palavras e expressões características, foi possível resgatar os contextos de enunciação de cada uma, o que permitiu a realização de um procedimento de análise de conteúdo temática (BARDIN, 1977). Nesse último, foi possível categorizar e nomear as diferentes classes em função das suas relações semânticas produzidas nas classes e entre as classes. Desse modo, o processo de análise se alinha com a concepção de que o sentido dos enunciados é produzido pelo próprio uso da linguagem. Assim, os resultados do tratamento do Alceste devem ser refletidos de forma inseparável à dimensão pragmática da produção discursiva sobre o objeto de pesquisa (KALAMPALIKIS; MOSCOVICI, 2005).