6. A MACONHA DOS JORNAIS
6.5. Sobre que objeto estamos falando?
A partir do panorama apresentado, é possível perceber alguns temas que são transversais entre algumas classes e outros que são específicos a uma ou outra forma de discurso. Os resultados trabalhados não parecem apontar uma forma única de construção da maconha nem, tampouco, produções discursivas excludentes entre si. Decerto, se há uma divisão tópica entre vocabulários utilizados, esse tratamento nos indica uma diversidade discursiva que, no uso comum, comporta contradições.
Em outras palavras, as comunicações jornalísticas abordadas fazem uso de diversas formas de construção do objeto, mas essa diversidade não deve ser entendida como a existência de discursos que não se encontram. Isso quer dizer que em uma mesma matéria, por exemplo, pode haver a referência a produções discursivas diferentes de acordo com as intenções e contextos de comunicação em que a maconha seja inserida. Esse caráter de pluralidade discursiva e de constante produção de um objeto social é, inclusive, o que confere dinamicidade às relações sociais. Os espaços públicos de discussão, ou espaços de encontro com a alteridade – para utilizar o termo de Jovchelovitch (2011) – são privilegiados no processo de construção e mudança da realidade social.
Feita essa consideração, é possível abordar os dois eixos da CHD como grandes categorias discursivas no processo de construção social da maconha relacionado às matérias jornalísticas abordadas.
6.5.1. Considerações sobre a “Maconha: um caso de polícia”
Quando o eixo composto pelas classes 1 e 4 é nomeado como “Maconha: um caso de polícia”, essa classificação não é por acaso. Ao observar o uso do vocábulo “polícia” nas duas classes, assim como quando são somadas as frequências do termo em ambas, identifica-se um número de 622 ocorrências em relação a 752 vezes em que essa palavra foi utilizada em todo o material. Isso significa que em cerca de 83% das vezes que a “polícia” foi utilizada nos discursos, esse uso se deu em UCE pertencentes às classes 1 e 2. Dessa forma, esse é um eixo caracteristicamente marcado pela objetivação da maconha em narrativas policiais.
No entanto, os processos sociais em que o objeto é situado parecem ser diferentes entre as duas classes do eixo. Se por um lado a classe 1 apresenta a prisão dos suspeitos como uma resolução final, por outro a classe 4 encontra na própria apreensão da droga a sua
conclusão. Essa diferença pode, de algum modo, estar relacionada à produção de um sentido de eficácia da polícia brasileira em seus domínios de atuação nacional, prendendo suspeitos (classe 1) e internacional, interditando a entrada da droga vinda fora (classe 4). São enunciados como esses que legitimam os valores do proibicionismo, conferindo eficácia a essa forma de lidar. O que há em comum, portanto, às duas classes é a construção da maconha como um objeto pertencente ao tráfico de drogas e a sua inserção na discussão policial se relaciona com narrativas de êxito das operações de repressão ao tráfico em larga escala.
O discurso implícito a essas duas classes é o de que a maconha é um objeto que deve ser combatido, retirado da sociedade brasileira e do circuito macroeconômico das drogas que extrapola os domínios territoriais do país. O consumo da maconha, para quaisquer fins, não é implicado nas produções desse eixo, sendo a palavra “uso” uma ausência significativa tanto da classe 1 (χ² = -63), como dito antes, quanto da classe 4 (χ² = -15). Aqui, a maconha é um
objeto desligado do consumo e é inserido no campo de relações da repressão estatal à oferta de drogas. Outra ausência significativa importante de ser destacada é o termo “legalização” e suas variações, tanto na classe 1 (χ² = -68) quanto na classe 4 (χ² = -17). Nesse sentido, ao
retomar o argumento de que a linguagem constrói e demarca, produzindo relações de semelhança e de afastamentos, é plausível dizer que são esses elementos – o uso da maconha e o seu status legal – que estruturam a divisão dos dados em dois eixos, a maconha como um caso de polícia; e a maconha, seus usos e regulação social. Se o primeiro eixo remete a uma naturalização da maconha como objeto ilícito e passível de repressão, o segundo eixo comporta tensões relacionadas ao controle social do objeto.
6.5.2. Considerações sobre a “Maconha: usos e regulação social”
Em primeiro lugar, é preciso assinalar que, em relação ao primeiro eixo apresentado, o segundo apresenta uma heterogeneidade maior de conteúdo. Nesse último, a maconha é discutida – e produzida – a partir de dimensões e campos de relação mais amplos que não somente o da relação com a polícia e com o tráfico. Por exemplo, ainda que a classe 3, relacionada à marcha da maconha, envolva a participação policial, a relação da polícia nesse contexto é com os manifestantes e não diretamente com o objeto.
O que se pode dizer é que esse segundo eixo parece se constituir em oposição ao primeiro e não, de forma homogênea, a partir das proximidades temáticas das classes que o compõem. Se, por ventura, as classes apresentam similaridades, essas dizem respeito ao tipo
de vocabulário utilizado, o que remete à inserção da maconha nos diferentes contextos como objeto de consumo e objeto de regulação social.
Com isso, aqui são encontrados diferentes saberes, ou formas de conhecimento, que se apropriam discursivamente da maconha. Na classe 2, a maconha é inserido em comunicações com fins de entretenimento ou mesmo da relação com o inesperado, sendo objetivada partir de discursos sobre usos por pessoas famosas – e, portanto, entendidos como acontecimentos de relevância – e usos que fogem ao que se espera do consumo de cannabis, ou de drogas ilícitas em geral. A maconha é aqui produzida como um objeto ora familiar, ora não familiar, implicando a demarcação – nem sempre explícita – de usos aceitos e rechaçados culturalmente.
Na classe 6, relacionada à regulação estatal das drogas no mundo, a maconha é ancorada no campo de conhecimentos da política e das relações internacionais. Constituído como um objeto de relevância pública, nessa classe a cannabis surge como objeto não só de consumo, mas de controle estatal para lidar com as suas potencialidades terapêuticas, com os problemas relacionados ao tráfico de drogas e com as demandas de uso recreativo.
Se a classe 6 trata dos usos em suas relações com a política internacional, na classe 5 a maconha é discutida como um objeto de pesquisa inscrito no campo da saúde e das ciências médicas. Nessa classe, a partir da nomenclatura de “cannabis”, a maconha é tanto construída como um remédio em potencial, como uma substância tóxica de efeitos danosos. Particular a esses discursos é o fato de não se incluir os aspectos legais do uso da maconha para fins terapêuticos.
Na classe 3, relacionada à marcha da maconha, o objeto é inserido no campo do direito, envolvendo produções sobre a legitimidade ou ilegalidade do movimento da marcha. A maconha é novamente desvinculada das relações de uso e produzida como um objeto caracteristicamente polêmico no contexto brasileiro. Talvez por essa relativa desvinculação às finalidades de uso, essa seja a classe com vocabulário mais específico se comparado com as outras que compõem o eixo.
Novamente, é possível dizer que o que unifica as classes 2, 6, 5 e 3 é a própria desvinculação do objeto do discurso policial relacionado à repressão das drogas ilícitas, como no primeiro eixo. Isso é bem ilustrado pela relação inversa que todas as quatro classes, respectivamente, têm com os termos “polícia” (χ² = -80; -257; -92; -31) e variações de “apreensão” (χ² = -33; -69; -15; -27). Com isso, esse é um eixo que parece se distanciar da maconha como mercadoria do tráfico e que a insere na discussão dos seus usos, danos, benefícios e regulação social.