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Maternidade/paternidade: decisão individual, responsabilidade social?

O primeiro indicador incluído na análise remete para a temática da parentalidade (maternidade, paternidade), mas, significativamente, con- fronta os inquiridos com a hipótese de alguns (quer homens, quer mu- lheres) optarem, deliberadamente, por não ter filhos. Assim, as perguntas colocadas foram as seguintes: «em que medida aprova ou desaprova se uma mulher/homem escolher nunca ter filhos»; «como é que acha que a maioria das pessoas reagiria se um homem/mulher escolhesse nunca ter filhos».

Se, pela natureza quantitativa dos dados, não é possível aprofundar a racionalidade subjacente às respostas dadas pelos inquiridos, de um ponto de vista abstracto, este indicador pode remeter pelo menos para duas dimensões analíticas distintas, embora não necessariamente exclu- sivas entre si: por um lado, a concepção da maternidade/paternidade en- quanto domínio e opção do foro estritamente pessoal, por outro, uma concepção que, para além daquela componente de decisão individual, encara a maternidade e a paternidade também numa perspectiva de res- ponsabilidade social (substituição de gerações). No primeiro caso estar- -se-ia, portanto, mais próximo dos chamados valores pós-materialistas, assumindo aqui a sua vertente mais individualista e de realização pessoal (Inglehart 1990 e 1997).

Pese embora não se pretenda subalternizar a eventual influência de outras variáveis (por exemplo, valores e/ou prática religiosa), a prevalência de dinâmicas sócio-demográficas que têm conduzido a um progressivo e acentuado envelhecimento populacional no espaço europeu confere uma actualidade e uma visibilidade política e pública à segunda dimen- são, que, neste contexto, importa não desvalorizar. Tendo por base este enquadramento, é interessante verificar que não só os resultados apontam no sentido de uma divisão mais ou menos equitativa das respostas, como, em relação à análise de género, não emergem clivagens significativas.

Em primeiro lugar, importa apontar o facto de apenas na Dinamarca a média das respostas evidenciar uma posição de maior aprovação da hi- pótese de, quer homens, quer mulheres, optarem deliberadamente por não ter filhos no seu curso de vida.

No caso dos restantes países, as respostas podem ser agrupadas em dois grupos principais: por um lado, os que manifestam um maior desacordo perante tal possibilidade; por outro, os que, em média, manifestam uma posição mais próxima do ponto neutro da escala.

Como se pode observar, a manifestação de desacordo ocorre, priori- tariamente, nos países do Leste europeu e em alguns países da Europa central (designadamente Eslovénia, Alemanha e Áustria). A Ucrânia, a Bulgária e a Rússia são, apesar de tudo, os países que apresentam uma

Quadro 4.2 – Opinião pessoal sobre homens/mulheres que escolham nunca ter filhos (médias)

Se um homem escolher nunca Se uma mulher escolher nunca

ter filhos ter filhos

Desaprova Ucrânia (1,59) Bulgária (1,53)

totalmente Bulgária (1,60) Ucrânia (1,59)

Rússia** (1,84) Rússia** (1,79) Estónia (2,03) Estónia (2,08) Chipre (2,38) Chipre (2,20) Hungria (2,41) Hungria (2,36) Eslováquia (2,42) Eslováquia (2,43) Polónia (2,60) Polónia (2,64) França*** (2,75) Áustria (2,87) Eslovénia (2,76) Alemanha (2,88) Alemanha (2,84) Eslovénia (2,93) Áustria (2,89) França*** (3,03) Irlanda (2,95) Portugal (3,09) Espanha*** (3,04) Irlanda (3,09) Portugal (3,05) Suíça (3,15) Suíça (3,06) Espanha*** (3,17)

Reino Unido*** (3,14) Reino Unido*** (3,26)

Suécia*** (3,30) Bélgica** (3,61)

Finlândia*** (3,32) Suécia*** (3,69)

Bélgica** (3,43) Finlândia*** (3,73)

Holanda (3,70) Holanda (3,82)

Aprova Noruega (3,82) Noruega (3,98)

totalmente Dinamarca (4,30) Dinamarca (4,36)

Total ESS*** 2,85 2,94

Escala: 1 (desaprova totalmente) a 5 (aprova totalmente). Teste F; **p < 0,01; ***p < 0,001; sem * = n. s.

atitude mais próxima da desaprovação, posição essa que se expressa tanto por relação aos homens como por relação às mulheres.

Analiticamente, esta manifestação de desacordo parece indiciar então a dissociação e distanciamento de uma concepção da maternidade e da paternidade enquanto domínio de decisão exclusivamente individual e a sua associação a outras dimensões (porventura a da responsabilidade social suscitada atrás).

A concepção da maternidade/paternidade essencialmente enquanto escolha privada parece ser a posição inerente ao segundo grupo, pois a manifestação maioritária de neutralidade pode traduzir uma intenção de distanciamento face a um assunto que os inquiridos julgam estar fora do âmbito da sua opinião pessoal (como se verá, contudo, esta tomada de posição é muito diferente quando aos inquiridos é solicitado que se pro- nunciem sobre a percepção social dominante).

Do ponto de vista do conhecimento e da compreensão da matriz de valores prevalecente no contexto europeu, é particularmente relevante constatar que, a despeito da manifestação de uma atitude mais conserva- dora por parte de uns países e de uma posição mais liberal por parte de outros, esta questão não suscita a emergência de clivagens de género sig- nificativas.

Como se explicitou atrás, para todos os indicadores a mesma pergunta foi colocada tendo como ponto de partida, não a opinião pessoal dos indivíduos, mas a projecção que eles fazem sobre o que a maioria das pessoas pensa. Assim, no sentido de avaliar em que medida existe uma sobreposição entre uma e outra procedeu-se ao cálculo de um novo in- dicador que resulta da subtracção dos itens que se reportam à opinião pessoal dos que se reportam à posição que os indivíduos projectam sobre os outros. Desta subtracção resultam valores próximos de zero, que re- velam uma sobreposição entre a opinião pessoal e aquela que é projec- tada para a maioria; os valores positivos retratam uma maior aprovação ao nível do posicionamento pessoal dos indivíduos do que aquela que é a percepção feita por relação à maioria e os valores negativos traduzem, em sentido inverso, uma menor aprovação ao nível do posicionamento pessoal do que a que é projectada para os «outros».1

Mesmo considerando que, no que respeita às clivagens de género, as diferenças continuam a não ser estatisticamente significativas, o con- fronto destes resultados com a percepção que os indivíduos têm sobre a

opinião social dominante fez emergir, todavia, uma diferença fundamen- tal: generalizadamente, os inquiridos tendem a observar-se a si próprios como mais liberais do que a sociedade em geral (significativamente, e como se dará conta ao longo do texto, esta é, de resto, uma tendência comum a outros indicadores).

Na prática, o que se verifica é que, em relação aos «outros», os inqui- ridos tendem a extremar o ponto em que se situaram a si mesmos na es- cala, projectando sobre os outros uma atitude mais tradicionalista e mais conservadora. A este nível, as únicas excepções são assumidas pela Bul- gária, pela Ucrânia, pela Estónia e pela Rússia, países nos quais os indi-

Figura 4.1 – Opinião pessoal versus «outros» sobre homens/mulheres que escolhem nunca ter filhos (médias)

Teste F; **p < 0,01; ***p < 0,001; sem * = n. s. Holanda Suécia*** Dinamarca** Bélgica*** Finlândia*** Espanha** Eslovénia** França*** Chipre Reino Unido** Irlanda*** Suíça Portugal Noruega Áustria Alemanha** Polónia Hungria Eslováquia Rússia Estónia Ucrânia Bulgária –0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 Em relação aos homens Em relação às mulheres

víduos se percepcionam a si próprios como mais conservadores do que os «outros». Em termos gerais, o que resulta desta tendência para extremar a projecção que fazem para os outros é que, globalmente, o posiciona- mento dos países na escala tende a ser semelhante ao que se observou relativamente à opinião dos próprios inquiridos, isto é, permanece uma relativa polarização entre os países do Norte da Europa (com atitudes, em média, de maior aprovação) e os países do Leste europeu (mais pró- ximos de uma atitude de desaprovação).

De acordo com estes resultados, afigura-se assim que, e independen- temente da atitude que pessoalmente assumiram, para a maioria dos inquiridos a percepção social dominante sobre a maternidade/paterni- dade não é redutível a opções estritamente pessoais ou a projectos in- dividuais de vida (dimensão mais correlacionada com os valores pós- -materialistas).