4.3 REGIONALISMO CAIPIRA

4.3.2 Mazzaropi e Jeca Tatu

Na década de 50, na sociedade brasileira, crescia uma verdadeira frente ao aniquilamento de conceitos e práticas tradicionais existentes na cultura do campo e do homem do interior. Alteravam-se o consumo e o comportamento de parte da população, principalmente para aqueles que habitavam os grandes centros urbanos. A paisagem urbana se modernizava com a construção de edifícios e residências com formas mais livres, seguindo os passos de uma

arquitetura que se modernizava.

Nesse contexto, o homem rural não tem possibilidades de crescimento. Deve viver para a produção do seu sustento. Já o homem da cidade tem a chance de melhorar as condições de vida. Com a oferta e oportunidades de empregos na indústria, seu salário é melhor, proporcionando o consequente fortalecimento da economia. Diante dessa realidade, há uma constante mudança e reorganização periférica nos diferentes estados brasileiros e, com ela, estarão presentes muitas manifestações culturais e o impulso a vários movimentos no campo artístico: novas formas de fazer o cinema, o teatro, a música, a literatura e a arte. Uma dessas mudanças é o lançamento, no início da década de 50, mais precisamente em 52, pela Vera Cruz, do primeiro filme de Mazzaropi intitulado: Sai da Frente. A Vera Cruz era o mais importante estúdio cinematográfico brasileiro. Em 1958, Mazzaropi abre a própria produtora, a PAM - Produções Amácio Mazzaropi. Já em 1959, ele apresenta um de seus filmes mais famosos, Jeca Tatu, o caipira inspirado na obra de Monteiro Lobato. Amácio Mazzaropi é o ator que dá vida ao personagem caipira e provoca um choque na cultura brasileira. Em seus filmes, Mazzaropi mostra a importância do interior e determinadas áreas territoriais do país, que são vistas como rústicas, e desafia os problemas deixados por uma sociedade que pretende tornar uma nação moderna, com o forte processo de urbanização e industrialização. Mazzaropi é esse interiorano que adota a amostragem dos desiguais entre rico e pobre, palco de um novo cenário econômico brasileiro. Ele realiza 32 longas durante sua carreira como cineasta, contando histórias que abordavam o racismo, a religião, a política e a ecologia. Fica conhecido por falar a língua do povo. Seu último trabalho no cinema foi O Jeca e a Égua Milagrosa, de 1980. No ano seguinte, morre aos 69 anos, vítima de um câncer na medula, antes de concluir a obra Maria Tromba

Homem, filme que ficou inacabado.

Mazzaropi caipira é apresentado nas telas do cinema brasileiro como aquele que traz consigo os valores do dinamismo e do progresso que deveriam conter o universo agrário para valorizar o urbano, quando essa referência é uma ligação com a cidade de São Paulo, um dos maiores centros latino-americanos. Agora o caipira não está só no interior, mas nos grandes centros. Mazzaropi apresenta-se no mundo popular do cinema como um personagem cômico da cultura caipira inserido no meio urbano. Seu humor e sarcasmo14 atraem uma legião de fãs em um outro período da história brasileira. Era o momento, para muitos de seus seguidores, de observação, visando à necessidade de recuperar, de algum jeito, a própria identidade.

Essa enorme massa de trabalhadores anteriormente rurais, historicamente vinculada ao trabalho independente, assustadoramente ameaçada em sua sobrevivência pelo modelo capitalista excludente planejado e executado para o campo, viria a integrar, em potência, a já tradicional legião de fãs de Mazzaropi, agora, porém, em um outro momento da história da economia e da sociedade brasileiras, em que os “novos citadinos” e “também novos consumidores de cinema” encontravam-se completamente desestruturados em relação ao “modus vivendi” que deveriam assumir, necessitando recuperar de algum modo sua identidade [...]. O caipira de Mazzaropi, no plano simbólico, preencheria, como nenhuma outra personagem, tal carência (BARSALINI, 2002, p. 95).

A indústria cultural e literária no Brasil, nesse período, com a presença de Jeca Tatu, de Mazzaropi, lida diretamente com estereótipos e padronizações. O caipira Mazzaropi, que é ligado ao imaginário de uma cultura rústica do interior paulista, também passa por novos momentos de transformação. Jeca Tatu, principalmente durante o filme dirigido por Milton Amaral em 1959, adota caracterizações em sua vestimenta bastante particulares, como, por exemplo, a calça acima da botina, deixando parte da canela de fora; o chapéu feito de palha com camisa xadrez; a utilização do rolo de fumo; o andar desengonçado na maioria das vezes com os braços meio abertos; os ombros levemente suspensos encolhendo o pescoço, que direcionam o personagem a uma figura caricatural. Com essas características grotescas, Mazzaropi expressa as fissuras e contradições de um Brasil que pretende estabelecer o fim do homem de traços antiquados em busca da modernidade do Estado.

Desde o filme Sai da frente (1952), dirigido por Abílio Pereira de Almeida, Mazzaropi já possui uma grande identificação com seus espectadores. Mas essa aprovação não aparece apenas onde a cultura rústica caipira está concentrada. “As regiões do Brasil que mais consumiam seus filmes são o Sudeste e parte do Sul, principalmente, onde a cultura caipira mais se desenvolvera em função das ocupações bandeirantes ocorridas ao longo da história” (BARSALINI, 2002, p. 74). Era a prova de um grande êxodo rural iniciado pela confirmação de todo o processo de urbanização e industrialização já recordado durante este trabalho.

Mazzaropi expõe o seu caipira ao grande público. O caipira que fala errado não é burro ou ignorante, mas sabe se defender e responder às críticas. É justamente esse modo como os códigos das culturas, rural e urbana, são apresentados e mesmo confrontados pelo personagem Jeca Tatu que, com um humor debochado e sarcástico, vai proporcionar também na literatura uma leitura bastante crítica sob um olhar mais cuidadoso das diferenças entre o rico e o pobre.

Essa literatura produzida em São Paulo sobre o caipira traz características comuns, as encontradas na produção de autores que trataram de outras regiões do Brasil, isto é, oscila entre o registro documental e a idealização, entre o ornamento e a anedota, manifestações distintas mas motivadas por uma causa comum, a discriminação do diferente, responsável pela apresentação pouco convincente de aspectos locais,

estigmatizados em marcas distintivas das peculiaridades regionais, a serem contrapostos a ficção urbana, mais homogeneizadora (LEITE, 1996, p.77).

Será que o caipira não é esperto? Ele não só é esperto como se utiliza de uma linguagem regional para dar uma resposta à altura àqueles que não o conhecem de verdade. Pelo humor, existe uma forma de captar a atenção daqueles que acompanham os filmes de Mazzaropi e as histórias de Jeca. O sarcasmo adotado pelo personagem corresponde a uma forma de responder, provocando uma reação, por vezes, até ofensiva. Esse jeito caipira e sarcástico revela um tipo de ironia mais amarga e provocativa, assumindo um papel da defesa daquele que chega do interior na cidade grande, mas não é nenhum “coitadinho”. Mazzaropi reúne ainda o sarcasmo e a sátira para apontar e ridicularizar os defeitos de uma sociedade, alfinetando sempre um tema em particular: as diferenças sociais. Esse contexto irônico desenvolve uma inversão do real significado em relação a algo e em determinado contexto, por exemplo, quando se diz o contrário do que se pensa.

Os avanços tecnológicos também fazem parte da vida do caipira Jeca Tatu. Se para o personagem de Monteiro Lobato não havia nenhuma possibilidade de conhecimento ou aprendizado, para a leitura do personagem de Mazzaropi as modernizações são introduzidas no conforto não só do próprio caipira, mas de sua família e mesmo dos animais da fazenda. Esse simbolismo está também presente no final do filme Jeca Tatu15 (1959), quando Jeca, ridiculamente, veste um terno, está instalado numa casa não mais de pau-a-pique, mas construída por um mutirão da comunidade. Jeca está ridicularizando um vizinho italiano, “Seu Giovanni”, que é considerado rico. Ele, Jeca, tem agora o reconhecimento do fazendeiro Giovanni porque também é um “rico” ou “se deu bem na história”. A música ao final do filme é cantada por Jeca Tatu e apresenta, dentre outras, estas estrofes:

Pra mim o azar é festa - Jeca Tatu (Letra: Amácio Mazzaropi) Deixei de ser um "quarqué"

Já não como mais angu, Hoje sou um "coroné" Não sou mais Jeca Tatu. Aqui hoje tem fartura Tá sobrando até feijão Bebo leite sem mistura Como carne e requeijão O meu cachorro estimado, Já deixou de ser sarnento. Tem o terno alinhado, E seu "própio" apartamento.

Eu lavo todo o leitão, Com perfume importado. Quando ele entra no facão, Sai toicinho perfumado. Até mesmo a galinhada, Hoje anda bem granfina. Vive toda enfeitada,

Tem um galo em cada esquina. Se "arguma" coisa não presta, Isso não vou "discuti", Pra mim o azar é festa, O que eu quero é "divirti" (JECA TATU, 1959).

O discurso do filme de Mazzaropi apresenta um Jeca sem a ideia do atraso como previsto por Monteiro Lobato. Ao menos em diversas cenas do filme Jeca Tatu, a condição portadora de retrocesso foi superada. O caipira deixa de ser um Jeca Tatu para transformar-se em um “Coroné”. Essa superação do atraso não viria apenas na figura do moderno como Seu Giovanni, mas na representação das históricas práticas políticas agrárias do país, protagonizadas pelo coronel. Por aí, percebe-se que o discurso fílmico está associado à ideia de uma modernização na qual estão milhares de pessoas marcadas por um Brasil oligárquico. O caipira inverte a lógica da própria modernização. Ele atravessa mais uma vez a noção de arcaico no projeto do desenvolvimentismo brasileiro, ou seja, um fenômeno histórico associado no Brasil aos governos a partir da década de 1950, com destaque para os presidentes Getúlio

Vargas e Juscelino Kubitschek.

Tudo isso é feito com a forma irônica, sarcástica e bem-humorada de Jeca Tatu em perfeito tom que ridiculariza os coronéis e a burguesia. A própria imagem do caipira vestido de coronel é estratégica e remete a um processo de inversão: um caipira vestindo um paletó sobre uma camisa xadrez. Ainda, percebe-se a presença de um lenço ao pescoço (mas de seda nesse momento), fumando um charuto e não mais um cigarro de palha. Nesse ponto estão presentes as características de um riso marcado pelos códigos de inversão que pontuam as contradições das regras e das hierarquias sociais. Jeca, de Mazzaropi, é voz e caracterizações. Ele promove uma espécie de resistência em um lugar e dentro de um jogo de forças que são consideradas manifestações sociais muito presentes em diferentes comunidades brasileiras que não só as caipiras ou caboclas.

A reavaliação da obra de Mazzaropi ocorre num período em que o Brasil, urbanizado, tem como principal voz da oposição precisamente uma organização camponesa, o MST, que prega o retorno ao campo de uma parte da população marginalizada nas imensas favelas incrustadas nas grandes metrópoles. Este novo movimento social, que

entende o camponês enquanto um protagonista revolucionário, também era visto, desta vez por altos dignitários da República, como retrógrado e utópico regressivo. No entanto, no seio da intelectualidade, o sonho da modernidade capitalista tornou-se um pesadelo: expulsão do campo, favelização, desemprego, violência urbana. Talvez, por isso, os filmes de Mazzaropi não mais são vistos enquanto obstáculos à modernização da consciência do povo brasileiro. E isso abre a possibilidade de se estudar estes filmes enquanto subsídios para a compreensão da própria realidade brasileira e os valores ideológicos que dominam a mentalidade camponesa (CÂMARA, 2006, p. 225).

Mazzaropi recriou uma nova leitura para o caipira Jeca diante do conceito do personagem criado por Monteiro Lobato. O Jeca de Mazzaropi é matreiro, mas muito vivo e sabidão. Um homem dono de si e que não perdia assunto nenhum para a “gente inteligente”. O sucesso de Mazzaropi reergueu o caipira no cenário social brasileiro e, principalmente, nos grandes centros do país onde milhares deles chegavam para trabalhar. De acordo com Santos (2009), o sucesso do ator e cineasta está ligado à competência de identificar as preferências cinematográficas dos espectadores que acompanhavam a sua produção, não ignorando o conteúdo cultural específico ao público-alvo.

O sarcasmo de Mazzaropi, na figura de um tal de Jeca, debocha dos coronéis e responde diretamente aos que não o consideram um brasileiro de fato. Jeca sensibiliza as comunidades interioranas para a importância que cada uma delas possui e deva receber, seja de quem for, autoridades, políticos e mesmo a sociedade brasileira. Seja nas histórias de Jeca Tatu, escritas por Monteiro Lobato, ou nos filmes do Jeca de Mazzaropi, cumpre-se a ideia de fortalecer culturalmente o caipira e sua linguagem regional.

Recordar de Mazzaropi, na figura de Jeca Tatu, significa apontar semelhanças existentes na crônica de Zé Fernandes em relação à aplicabilidade de uma linguagem regional caipira. O tom irônico e sarcástico de Mazzaropi em sua crítica aos problemas da sociedade e, principalmente, às elites, parece ser o mesmo de Zé Fernandes, que, por meio da linguagem regionalista, aborda as dificuldades das comunidades da Serra Gaúcha, ao mesmo em tempo em que promove sua campanha contra o comunismo. São elas que sofrem com o poder dos políticos, governantes, sistemas econômicos e até problemas ecológicos. Zé Fernandes apoia- se em crônicas que se utilizam de uma linguagem e personagens simples, assim como Jeca

Tatu, para disseminar um discurso anticomunista, respeitando-se o que está de acordo com o

que a Igreja Católica prega, acima de tudo, diante das comunidades interioranas espalhadas pelo Brasil.

O simples caipira no nordeste brasileiro ou o que vive nos grandes aglomerados do país também passa pelas mesmas dificuldades que o imigrante ou o pobre, que vive no interior do Rio Grande do Sul. Quem vive nas pequenas áreas e propriedades rurais merece a atenção

das autoridades, o que, na visão de Zé Fernandes, é ter estabelecido o direto previsto pela Constituição, como o direito ao trabalho, à saúde e à educação ou a uma vida digna em comunidade, sem esquecer que, para isso, cada cidadão precisa estar ligado a uma família, a um trabalho e, acima de tudo, à fé cristã católica. Caipiras e gaúchos, numa linguagem regional, estão juntos ao fazer com que o cidadão mais simples do interior do Brasil possa reivindicar pelos seus direitos. Zé Fernandes utiliza-se dessa linguagem interiorana do caipira de Mazzaropi para mostrar uma ação de como quem vive no interior também compreende os assuntos da sociedade e sabe proteger-se de suas artimanhas, defendendo a ideia de que o comunismo não seria uma saída para o Brasil.

No documento O anticomunismo na seção Correspondência Caipira do Correio Riograndense (1945-1955): sarcasmo e linguagem regional nas crônicas de Zé Fernandes (páginas 127-133)