4.3 REGIONALISMO CAIPIRA

4.3.1 Monteiro Lobato e Jeca Tatu

centenas de histórias do escritor José Bento Renato Monteiro Lobato (Monteiro Lobato). Nascido em Taubaté, São Paulo, Lobato formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo. Além de escritor, foi o responsável por diversos artigos publicados em jornais do Rio de Janeiro, Santos e São Paulo. Mas, é a partir de 1917 que definitivamente adota a literatura e funda a revista Paraíba, quando residia na cidade de Caçapava (SP). Muda-se para São Paulo, onde colabora com a Revista do Brasil, transformando-a em um verdadeiro núcleo da defesa da cultura nacional. Na capital paulista, também é responsável pela fundação da gráfica Monteiro Lobato, encerrada em 1924. Considerado um autor regionalista do Pré-Modernismo, o escritor literário destaca-se nos gêneros conto e fábula. Ele utiliza-se do universo dos vilarejos decadentes e das populações do Vale do Paraíba no momento de crise do plantio do café.

Moralista e doutrinador aguerrido, de acentuadas tendências para uma concepção racionalista e pragmática do homem, Lobato assumiu posição ambivalente dentro do Pré-Modernismo. Na medida que a cultura do imediato pós-guerra refletia o aprofundamento de um filão nacionalista, o criador do Jeca mantinha bravamente a vanguarda; com efeito, depois de Euclides e de Lima Barreto, ninguém melhor do que ele soube apontar as mazelas físicas, sociais e mentais do Brasil oligárquico e da primeira República [...] tendo sido um demolidor de tabus, à maneira dos socialistas fabianos, com um superávit de verve e de sarcasmo (BOSI, 2006, p. 216).

Monteiro Lobato é um contador de histórias que chama a atenção pelas suas obras, entre elas Urupês (1918), uma série de 14 contos, tendo como ênfase a vida cotidiana do caboclo: seus costumes, suas crenças e tradições. Urupês é o último conto do livro e apresenta a figura de Jeca Tatu. “Em Urupês, predomina a preocupação de desenlaces deprimentes e chocantes: Lobato quis mesmo intitulá-lo Dez Histórias Trágicas” (BOSI, 2006, p. 2017). Outra obra de destaque é O Sítio do Pica-Pau Amarelo, composta por uma série de livros (23 volumes), escrita entre os anos de 1920 e 1947.

Jeca Tatu é o personagem de Lobato no livro Urupês. Um caipira acomodado e miserável. Através dele é que Lobato critica a face de um Brasil agrário, atrasado e cheio de vícios. O personagem é um homem pobre, desanimado e aparentemente preguiçoso. Vive acompanhado de sua esposa, dois filhos e de seu cão. Durante a história, descobre-se que Jeca Tatu sofria do “amarelão” e, por isso, vivia sem vontade de trabalhar e desanimado em consequência da doença. Jeca recebe o tratamento adequado, é curado da doença e prospera na vida, tornando-se um grande fazendeiro. Nesse sentido, Jeca Tatu representa na ficção o caboclo que vive da lei do menor esforço.

Para Lobato, o Jeca Tatu de Urupês é traduzido em um parasita, ou um ser obscuro que, por não se interessar pela “luz” da civilização, prefere nada criar e nem ao menos se

manifestar. De acordo com os estudos de Márcia Naxara (1998), a descrição de Jeca Tatu na obra Urupês pretende demonstrar a identidade de um homem excluído das atividades e relações que o ligariam ao Estado: do acesso à propriedade privada e da escolha dos governantes por meio do processo eleitoral. Segundo a autora, Jeca é o responsável por produzir apenas o necessário para a subsistência, ao contrário de um fazendeiro, por exemplo, que manipula a terra para a produção de comercialização de várias culturas.

[...] o fazendeiro está inserido no processo de acumulação, o caipira não – mantém-se à margem do mercado, produz para si, não tem ambição, não está dentro dos pressupostos da acumulação, não parece capaz de caminhar ao lado do mundo (NAXARA, 1998, p. 135).

É por força de vagos atavismos que Jeca se torna um nômade, como visto em Urupês. Ele é um agregado que não tem ligação nenhuma com a terra. Aliás, diante da terra, Jeca torna- se um adepto à lei de menor esforço. A casa, os móveis, os utensílios e o alimento são ofertados pela própria natureza, que é considerada muito rica e generosa. Jeca tem apenas o gesto de espichar a mão e colher. Considerando o caipira como peça-chave do regionalismo caipira, é em Urupês que Monteiro Lobato vai traçar um perfil físico e psicológico para este homem rural.

Sua obra de narrador entronca-se na tradição pós-romântica: retalhos de costumes interioranos, muita intenção satírica, alguma piedade e efeitos variamente sentimentais ou patéticos. Apesar de pontilhada de raro em raro por certas ousadias impressionistas, é uma prosa que não rompe, no fundo, nenhum molde convencional (BOSI, 2006, p. 216).

Mais tarde, em 1920, o escritor publica o conto “Jeca Tatu: a ressurreição”, em que recordará o retrato deplorável mais uma vez do caipira. Jeca é um personagem desse chão de terra pobre e esquecido. Sua vida não está formalizada apenas na vontade própria pelo trabalhar e sua realidade é bem diferente dos trabalhadores de outras regiões. O cenário é enfraquecido pelas dificuldades de quem está isolado das benfeitorias dos grandes centros. A casa de Jeca Tatu é uma simples cabana de pau-a-pique, formada por paredes de barro e com teto de palha que, com as poucas chuvas e o sol forte, acabam apodrecendo. O Jeca de Urupês, de Monteiro Lobato, admite que essa realidade é uma escolha de vida e não busca fazer algum reparo ou conserto da sua própria história. A vida para o homem rural ou caboclo é assim mesmo, desse jeito.

Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu. Quando a palha do teto, apodrecida, gréta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca em vez de

remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante... Remendo... Para quê? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos (LOBATO, 1962, p. 282).

É também com a figura de Jeca Tatu que Monteiro Lobato vai reproduzir nos seus textos a fala brasileira da zona rural. Nela, a sua ação habitual é com coloquialismo e neologismos tipicamente orais. Dentre as obras de Lobato, talvez o recurso da oralidade tenha sido uma das maiores questões empregadas na obra Urupês, pois, nessa época, a utilização do português colonial em obras era vista como uma espécie ou algo “inferior” e sem valor literário. Devemos perceber que dentro da utilização da própria linguagem regionalista caipira, justamente, foi também com a obra Urupês que surgiram diversas palavras e mesmo expressões que atualmente estão dicionarizadas. Um exemplo disso é o termo “jeca”, originário do personagem Jeca Tatu, que passou a ser sinônimo de caipira ou o morador da zona rural e ainda uma pessoa de hábitos rudimentares.

Diante de seus escritos e manifestações, o certo é dizer que Monteiro Lobato desenvolve, durante o século XX, uma discussão acerca da língua nacional. Ainda em 1903, ele inicia as trocas de correspondências com um amigo de juventude chamado Godofredo Rangel. Elas formam o livro A Barca de Gleyre. É de amigos como o poeta Nhô Bento que Lobato ouve, na própria opinião do escritor, poemas ou récitas caipiras nunca ouvidas antes. É justamente no prefácio de “As contas de Capiá”, de Nhô Bento, que Lobato, ao elogiar o trabalho do poeta do vale paraibano, vai discutir o uso da língua pelo povo como uma justificativa para a criação de Jeca Tatu. Assim como “Jeca” de Monteiro Lobato, Zé Fernandes, autor das crônicas da seção Correspondência Caipira, pretende apresentar ou representar ao povo gaúcho qual seria a figura do caboclo brasileiro, especialmente, para aquele leitor que admira as raízes caipiras ou mesmo acompanha as histórias do cotidiano vividas no interior das grandes cidades.

No documento O anticomunismo na seção Correspondência Caipira do Correio Riograndense (1945-1955): sarcasmo e linguagem regional nas crônicas de Zé Fernandes (páginas 124-127)