Na edição de 15 de outubro de 1941, os leitores do Correio Riograndense percebiam uma novidade no semanário, a seção intitulada Correspondência Caipira, crônica literária política e do cotidiano, que usa do sarcasmo e de uma linguagem regionalista gaúcha e caipira

para fazer uma crítica política utilizando-se de um discurso anticomunista e ainda dando todo o amparo em prol das diretrizes e ideais da Igreja Católica Apostólica Romana. Eram textos que levavam a assinatura de um tal de Zé Fernandes. Este era o pseudônimo de Frei Dionísio de Antônio Prado (Gaudêncio Veroneze), falecido aos 82 anos de idade, em 06 de julho de 1998 no Hospital Nossa Senhora de Lourdes, em Veranópolis, vítima de derrame cerebral. Ele teria papel destacado no jornal por cerca de 25 anos. O frade capuchinho também usava o pseudônimo de Pimentinha, em outros textos. O periódico que começara suas publicações em italiano e passou depois para português, a partir de setembro de 1941, abria-se para um linguajar gaúcho e caipira. O primeiro artigo assinado por Fernandes teve como título: “Reinação Espírita (Uma tragicumédia)”, um texto divido em três partes publicadas nas edições do jornal dos dias 15 e 29 de outubro e 05 de novembro de 1941. A narrativa escrita desenvolvia uma crítica à doutrina espírita.

Tragecumédia é aquilo que se ve nos tiatro: um troço de gente reprisentando um acuntecimento triste-alegre, inventado por eles memo, mas não acuntecido. Eu não imaginava que podia argum dia chega a vê uma tragicumédia, não inventada mas acuntecida entre gente viva. E cheguei a vê. Agora vou conta pra todos os leitô do jorná o que eu vi. Nada de mentira. Tudo aconteceu aqui nesta cidade, onde eu moro. Pois aqui a uma reinaçãozinha de espíritas, que são as criaturas (perdão da palavra) mas b... de quantas conheci. Pois bem, inscuitem as narração do causo que aconteceu. As figura da palhaçada são munto cunhecida. Assim mesmo, cum licença, que lhes apresento os maiorá (REINAÇÃO, 1941, p. 02)

Natural do município de Antônio Prado (RS), Gaudêncio Veroneze (sobrenome em registro) nasceu em 09 de março de 1916. Era filho dos agricultores, Emilio Veronese e Rosa Cattani. Neste período teve nove irmãos: Guerino (morreu com 9 anos de idade), Angelina, Germano, Genésio, Generoso, Geminiano, Ercília, Guerino e Geraldo. Seu pai, Emilio, que nasceu na Itália, na Província de Pádua, depois de se estabelecer por alguns anos na cidade serrana, mudou-se com a família em busca de melhores terras para o cultivo, optando por se transferir em 1918 para Viadutos (RS). O local era uma Estação Férrea com um comércio intenso e movimento regular, devido ao Frigorífico e Refinaria de Banha dos Alegretti. A região era formada por uma coberta mata e pinheirais onde a maioria das extensões de terras pertenciam ao governo. Naquele período, cada família podia requisitar uma colônia de 12 alqueires com a possiblidade de pagamento através da própria produção da propriedade. Nesse sentido, o governo dispunha de terras para o cultivo, serviço e trabalho de diferentes famílias interessadas. Fiscais governamentais acompanhavam a entrega dessas áreas e também faziam o controle dos pagamentos de cada pedaço de terra.

morreram, permanecendo Gerêncio (Nene) e Girácimo (Tatinho). No total, foram 14 filhos que tiveram sua infância e adolescência em Viadutos, menos Gaudêncio que, aos 11 anos, vai estudar no Seminário Seráfico de Veranópolis dos Freis Capuchinhos, então Alfredo Chaves, conforme Figura 1. Ele voltará a sua cidade natal, para rever seus pais e irmãos apenas quando realizará a sua primeira missa solene, já como frei capuchinho, aos 23 anos, nos dias 31 de dezembro de 1939 e 1º e 2 de janeiro de 1940. Antes, ordenava-se sacerdote no dia 17 de setembro de 1939.

Figura 1 – Gaudêncio aos 12 anos, no seminário de Veranópolis (1928)

Fonte: Acervo de fotos do Museu dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul (1928).

Desde menino, Gaudêncio esteve perto do jornal Correio Riograndense. Seu pai Emilio, em Viadutos, foi um dos agentes11 do semanário responsável por buscar e acolher novas

11 Os agentes eram assinantes que tinham a incumbência de divulgar e de distribuir o jornal nos municípios e localidades nas quais ele circulava, escolhidos entre as lideranças das comunidades católicas, sendo,

assinaturas. “Papai foi assinante e posteriormente Agente do Correio Riograndense, desde os primeiros tempos do La Staffetta. E continuou até a morte. Mais de 40 anos” (VERONESE, 1964, p. 29). De acordo com Veronese, nem sempre foi tudo fácil também para seu pai, devido a muitas incompreensões por parte da comunidade em relação ao jornal. A população infelizmente era bastante arredia à leitura. Conforme Veronese, seu pai precisou de muita paciência para exercer a função de agente do jornal. Mas para o menino que conviveu até os 11 anos com seus pais, estar próximo de um jornal como o Correio foi sempre uma grande alegria.

Com que incontida alegria o registro! Porque foi lá em casa que conheci La Staffetta, depois Correio Riograndense – jornal onde passei os mais belos e empolgantes anos de minha vida Sacerdotal. Pode ser que tenha sido inoculado desde então em mim o amor ao jornal e a este extraordinário apostolado, tão recomendado pelos Papas (VERONESE, 1964, p. 30).

No momento do ato da vestição realizado durante o noviciado (quando o noviço recebe o Hábito Franciscano), antecedendo ao caminho da vida religiosa como frade, Gaudêncio Veroneze, passa a se chamar Frei Dionísio de Antônio Prado. Normalmente o nome aplicado era de um Santo associado ao lugar de nascimento da pessoa. Essa mudança significava assumir uma nova identidade. O motivo estava presente na Igreja ligado à teologia da “Fuga Mundi” (fuga do mundo). Por isso, a vida religiosa era entendida como uma “saída do mundo”, implicando a renúncia da identidade do registro de nascimento para assumir uma nova identificação como religioso. Mais tarde, com a realização do XXI Concílio Vaticano II, a partir de 1962, convocado pelo Papa João XXIII, a Igreja Católica passa por inúmeras reformulações e, entre elas, está a implantação de um novo documento chamado Perfectae Caritatis (Perfeita Caridade). Essa nova alteração implica uma mudança teológica que encerra a visão da Fuga Mundi. Agora o religioso não precisa mais abandonar seu nome e sobrenome do registro oficial.

Assim, no caso dos freis capuchinhos, a mudança do nome de frade passa a ser opcional. Quem quer adotar o nome de batismo ou registro de certidão pode retornar à nomenclatura. Já os que preferem continuar com sua atual identificação, também podem permanecer com o nome. No Rio Grande do Sul, o que se percebe é que muitos frades, por uma questão de já serem conhecidos, seguem com o mesmo nome, enquanto outros retornam ao nome de batismo ou registro oficial. Entretanto, o mais comum é que muitos permanecem com o nome de frade associado ao sobrenome de batismo. Isso é o que acontece com o Frei Dionísio Veronese, que segue com o primeiro nome de frade e acrescenta o sobrenome de nascimento,

normalmente, pessoas com um nível de instrução um pouco superior ao da população local – entre eles, professores e padres (RODEGHERO, 1998, p. 125).

com uma correção, Veroneze, não mais com “z”, agora com “s”. O nome “Dionísio” vem, segundo o capuchinho, de um personagem encontrado em uma história narrada em um livro, ainda no tempo de seminário. Sua resposta aparece durante entrevista a integrantes do Arquivo Histórico Municipal12 (HENRICHS, 1988).

A gente tinha livros santos, ou às vezes essas leituras católicas que vinham da editora Dom Bosco, de Niterói [...]. Leituras piedosas, não propriamente religiosas, digamos leituras piedosas tanto assim que eu li um livrinho e havia um drama. Lá da Suíça, não me lembro mais o lugar, entre o qual o rapaz, que era propriamente o santo, chamava- -se Dionísio, e foi por isso que no noviciado, quando foi para dar o nome, eu escolhi Dionísio, influenciado por uma leitura desse gênero (HENRICHS, 1988).

Na Figura 2, foto do Frei Justino Dotti e Frei Dionísio Veronese em sua primeira missa em Viadutos, na data de 21 de dezembro de 1939.

Figura 2 – Registro da primeira missa de Frei Dionísio, em Viadutos (RS) – 31/12/1939

Fonte: Acervo de fotos do Museu dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul (1939). Nota: Frei Justino Dotti (esq) e Frei Dionísio Veronese (dir).

A partir de 1940, Veronese assume o cargo de vigário paroquial em Veranópolis, onde

12 Entrevista concedida à Liliana Alberti Henrichs, Diretora, e Juventino Dalbó, no projeto: Imprensa, memória e preservação, disponibilizado pelo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, em 1988.

segue até julho de 1941. Da cidade começa a encaminhar para a redação do Jornal Correio

Riograndense em Garibaldi alguns textos com relatos e anúncios religiosos. “Quando cheguei

em Veranópolis como auxiliar, qualquer festa que tivesse, algum acontecimento, escrevia sempre” (HENRICHS, 1988). Como já mencionado, é também em 1941 que o capuchinho inicia a publicação de crônicas na seção intitulada Correspondência Caipira, assinadas por ele com o pseudônimo de Zé Fernandes. Dos locais onde reside, passa a manter o costume de enviar, semanalmente, seus textos para a publicação no jornal.

Aprendi por conta. Sempre caprichei nesse ponto. Naquela época, (ainda em 1930) no jornal (de Porto Alegre) ‘Estrela do Sul’, saía ‘uma carta gauchesca’, tipicamente com fraseado gaúcho. Nosso padre-mestre, no Noviciado, lia (para nós), porque também gostava, era uma coisa diferente. Aquilo me encantou! Aquilo me calou tanto que eu sempre caprichei. Só na última fase do jornal, de 1965 a 69 não escrevi o ‘caipira’ (HENRICHS, 1988).

A seção Correspondência Caipira aparece em praticamente todas as edições do

Correio Riograndense, de 1941 até 1965, somando mais de 500 crônicas. Tratando-se de um

jornal semanário, as crônicas chegam à casa dos leitores todas as sextas-feiras através dos agentes das assinaturas. A redação do Correio Riograndense sempre fechou suas edições para publicação às terças-feiras, para impressão às quartas. Durante as décadas de 40 e 50, o impresso teve, ao todo, de quatro a seis páginas. Somente em alguns casos especiais chegava a oito páginas. A seção Correspondência Caipira é distribuída no corpo do impresso de forma aleatória, na maioria das vezes localizada nas páginas 03, 04 ou 06. O texto de Zé Fernandes tem como direcionamento na página o canto superior esquerdo, na maior parte das vezes, mas também em outras posições, como a parte inferior direita e esquerda, superior esquerda e até em meia folha da parte inferior da página do jornal. Além da Correspondência Caipira, outra seção aparece, com algumas publicações, durante a década de 40, mais precisamente em 1943. Ela é intitulada Carta Caipira e assinada por Chico Ventana. As crônicas ilustram textos que são endereçados ao redator do jornal e refletem “causos” acontecidos na sociedade. Parecem ser cartas enviadas por leitor ou leitores. Entretanto, na década de 40, foram constatadas apenas 13 crônicas dessa seção.

Na seção Correspondência Caipira, a presença do combate ao comunismo é o mais expressivo. Porém, muitos outros assuntos são temas das crônicas de Zé Fernandes, como por exemplo, posicionamentos ditos como assuntos do “bem” contra o “mal” relatados pelo Correio

Riograndense, fazendo alusão ao enfrentamento do comunismo na região da Serra Gaúcha.

2008, p. 190). Outra situação são as doutrinas que, segundo os proprietários do jornal, atacam as diretrizes da Igreja Católica, como a doutrina espírita. Nos textos são criticados muitos políticos, a condução dos trabalhos do judiciário e ainda a maçonaria existente no Rio Grande do Sul e, em especial, na região de colonização italiana. Nas crônicas (vide Anexo A), Zé Fernandes utiliza o auxílio do diálogo entre duas pessoas em certos momentos. Já em outras oportunidades cria personagens para a construção das crônicas, refletindo o que o texto precisa expor aos leitores e acompanhantes do jornal.

De agosto de 1941 a 1942, Veronese é nomeado para trabalhar como vigário paroquial no município de Bom Jesus (RS). Como já referido, na edição de 15 de outubro de 1941, os leitores do Correio Riograndense conferem a primeira seção intitulada Correspondência Caipira. Veronese, durante uma de suas entrevistas publicadas no livro Histórias da Imprensa

em Caxias do Sul (1998, p. 55), comprova que a ideologia do jornal estava alinhada com a da

Igreja em relação à atuação do periódico contra o comunismo. “Combatíamos o comunismo a três por quatro, sem dúvida! Naquele tempo era a própria orientação eclesiástica. Luta aberta ao comunismo; excomungados!” (HENRICHS, 1998. p. 55).

A partir de 1943, Veronese vai para Porto Alegre, onde assume como capelão no Colégio Nossa Senhora do Rosário dos Irmãos Maristas. Em 1944, retorna a Veranópolis para ser o vigário paroquial até 1949. A partir de abril do mesmo ano é transferido para Garibaldi, onde atua como redator do Jornal Correio Riograndense. Permanece na cidade serrana até abril de 1951. Durante entrevista arquivada no Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, Veronese (1988), salienta que por “questões desconhecidas, políticas ou não, porque minha pena era muito apimentada, tiveram que me transferir”. O capuchinho é deslocado novamente para o município de Bom Jesus onde continua até janeiro de 1952 como vigário paroquial. Ainda em janeiro, muda-se para a cidade de Soledade (RS) e permanece até 1953 como Diretor do Ginásio São José. A partir do início de 1954 até o final de 1963, instala-se em Caxias do Sul, para atuar na redação do Correio Riograndense, na revista Voz de Assis e ainda na Associação Antoniana. Em 1964, é nomeado frade missionário e residirá na Casa dos Missionários Capuchinhos na Fraternidade de Vacaria (RS). No início de 1965, retorna para Caxias do Sul como vigário conventual do Convento Imaculada Conceição e redator do Jornal

Correio Riograndense. Na Figura 3, foto da equipe do Jornal Correio Riograndense, de abril

Figura 3 – Equipe do Jornal Correio Riograndense

Fonte: Acervo de fotos do Museu dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul (1949).

Nota: Sentados (esq p/ dir): Freis Dionísio, Aleixo e Mansueto. Em pé (esq p/ dir): Freis Fiorelo, Nilo, Doroteu e o técnico de máquinas, Orestes Zoppas. Garibaldi (RS), abril de 1949.

Durante os 25 anos de atuação, em Caxias do Sul no Correio Riograndense, Veronese cria inimizades e inimigos, principalmente políticos. Também durante entrevista ao Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami (1988), relata que o jornal sempre foi independente de qualquer auxílio financeiro de políticos. Entretanto, diante do visto por este estudo até aqui, a manifestação do frade capuchinho contraria que o Correio Riograndense adotou em diversos momentos uma postura ideológica política. “Não abria nem sequer um centímetro para propaganda política partidária. Não! Política sim, mas partidária não; [...] Quanto dinheiro a gente deixou de receber e o jornal estava precisando, mas nunca me abaixei em propaganda direta política partidária”.

Com o passar de tantos anos presente nas páginas do jornal, a seção se tornou uma das referências na leitura dos assinantes do semanário. Segundo Veronese, nesse tempo o periódico era um importante formador de opinião. Todo mundo disputava o jornal para saber qual seria o assunto de Zé Fernandes.

Essas críticas, e essas caipiradas e essa apimentadas, aquilo, quer queira quer não, o pessoal gosta, ou para dizer amém ou para criticar, mas quer ver e, então, assinavam. E, depois, fazia-se muita propaganda, então todas as famílias que iam lá para Santa Catarina, para o Paraná, já Mato Grosso queriam o jornal da família, sempre foi da família, queriam acompanhar. Então sempre havia uma grande penetração (VERONESE, 1988).

Um dos citados nas narrativas de Zé Fernandes foi o político e gaúcho Leonel de Moura Brizola. Considerado um líder da esquerda e um político nacionalista, o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro era um dos personagens que hora e outra aparecia na seção Correspondência Caipira. Conforme Veronese, o objetivo das crônicas envolvendo o ex- governador Brizola era “[...] baixar a lenha também no Brizola. Sempre ele era um político muito desarvorado. Peguei a palavra Brizola em italiano, ou em dialeto italiano quer dizer

costela assada” (HENRICHS, 1988). Brizola foi atacado durante muitas vezes no semanário e

pela própria Igreja como lembrado por Rodeghero (1998, p. 85). “A desconfiança em relação ao posicionamento político de Leonel Brizola, especialmente do seu apoio ao movimento sindical e aos sem-terra, também aparecia nos discursos da Igreja.”

O sarcasmo na linguagem utilizada por Zé Fernandes é presença garantida em sua seção diante de uma provocação sob o olhar das situações do cotidiano vividas pelas pessoas em suas diferentes comunidades. O encontro da mistura da linguagem gaúcha e caipira, que tem o objetivo de atingir os leitores que se identificam com esses textos, essencialmente e, em grande parte, apimentando temas políticos e religiosos.

No livro Literatura e Sociedade, Antônio Candido também lembra de Cornélio Pires, que, assim como Veronese, trazia, em sua escrita, uma abordagem sertaneja guiada por certa ingenuidade. Basicamente, de acordo com Candido, essa temática, quando colocada sob um ângulo engraçado, sentimental e pitoresco, surta ideias feitas perigosas tanto do ponto de vista social quanto, sobretudo, estético. Também de Antônio Candido, prefaciando a obra Cornélio

Pires: criação e riso, de Macedo Dantas, o autor aponta para características da literatura de

Cornélio, marcando alguns aspectos de sua produção escrita.

Meio escritor, meio ator, meio animador; generoso, combativo, empreendedor, simpático, - a sua maior obra foi a ação nos palcos, nas palestras, na literatura falada, que perde bastante quando é lida. Como os oradores, como certo tipo de poetas, como os repentistas e os velhos glosadores de mote, a dele foi uma literatura de ação e comunhão, feita para o calor do momento e a comunicação direta, eletrizante, com o público (DANTAS, 1976, p. 11-12).

É desta forma e característica que Cornélio Pires, inserido em uma produção literária, coloca seus personagens caipiras no cenário nacional. Como Frei Dionísio Veronese, Cornélio utiliza seus personagens para interagir com um contexto no qual o papel interiorano ganhava

cada vez mais espaço para que a sociedade refletisse e que tendiam, desde o polo afirmativo ao negativo, a conclusões de ações, atos ou momentos da vida em comunidade. As crônicas representam essa construção entre a opinião, reflexão e desmembramento de ideias e compreensões.

Tendo como exemplo as crônicas folhetinescas publicadas nos rodapés dos principais periódicos do Rio de Janeiro, no Jornal do Comercio, Correio Mercantil e Diário do Rio de

Janeiro, percebe-se que sempre revelaram os principais acontecimentos da semana, vistas e

escritas através de um olhar contemporâneo. “A crônica assumiu diversas formas ao longo do tempo, e sua definição passou por algumas modificações. Textos comumente chamados de relatos históricos, ensaios, e folhetins enquadram-se na crônica” (FERREIRA; MOREL; NEVES, 2006, p. 241). A crônica deixa de ser apresentada somente através de textos históricos, ganhando um caráter literário. Também o próprio termo “crônica” vai passar por uma modificação. Ela passa a significar um gênero literário específico, automaticamente ligado ao jornalismo. Lembrando novamente de Antônio Candido (1992), ele afirma que a crônica não foi feita exatamente para o livro, pois não tem pretensões de durar. Conforme o autor, a crônica encontrou no periódico seu veículo de comunicação e consolidou-se como estilo literário. A efemeridade do jornal, segundo ele, envelhece e morre a cada 24 horas, permitindo o relato de acontecimentos circunstanciais numa linguagem mais direta e coloquial. Isso significa dizer que a crônica cria, estre seu escritor e o leitor, uma troca de experiências e confidências. Basicamente, Melo (2002) ilustra o conceito que pode se deter ao gênero crônica.

Como a crônica tem sua origem na História e Literatura, e como os textos vinculados a essas duas disciplinas guardam especificidades funcionais e estilísticas, é plausível aventar hispano-americana tem raízes fincadas na crônica histórica (cumprindo portanto o papel de narração dos acontecimentos presenciados pelos repórteres- crônistas), diferentemente da crônica literária (pois os cronistas-jornalistas atuam como entretenedores públicos, recorrendo aos artifícios poéticos e ficcionais para minorar as agruras do dia a dia, deliciando os leitores com a frivolidade que não exclui absolutamente a crítica social (MELO, 2002, p. 154).

Coincidência ou não, a seção do Jornal Correio Riograndense intitulada Correspondência Caipira reflete um pouco do próprio período da circulação da crônica-

No documento O anticomunismo na seção Correspondência Caipira do Correio Riograndense (1945-1955): sarcasmo e linguagem regional nas crônicas de Zé Fernandes (páginas 81-93)