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2. AS METRÓPOLES EM SEU LONGO PROCESSO URBANO

3.2 Processos de remoções compulsórias

3.2.1 Megaeventos e processos de remoções compulsórias

A origem da organização de megaeventos pelas cidades remonta ao século XIX quando era comum ocorrerem as grandes exposições mundiais, palcos para referenciar a modernidade e também divulgar a economia e a cultura locais. Essas exposições foram responsáveis por várias transformações urbanas. Em Porto Alegre (RS), por exemplo, para montar a estrutura da Exposição de 1935, o governo do estado do Rio Grande do Sul contratou Alfred Agache, um urbanista francês que transformou uma área de várzea da cidade em parque, o Parque Farroupilha (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA, 1999). Até então a várzea era utilizada, por exemplo, para práticas religiosas, ―batuques de negros forros‖ (DIAS, 2008). O projeto da Várzea cedendo lugar a um parque, para além de compor um grande evento, fazia parte do processo de ―remodelação da cidade‖. Durante a exposição, o parque abrigou vários pavilhões em madeira e estuque que foram retirados nos anos seguintes. Mas, uma das principais obras para a exposição, que se estendeu por uma grande área da várzea, foi o espaço para as exposições culturais do evento, hoje utilizado por uma escola, o Instituto de Educação, que para os padrões da época era uma obra gigantesca (ABREU FILHO, 2006).

Os megaeventos ocorrem em um contexto de empreendedorismo urbano, a partir da adoção de técnicas empresariais como principal recurso administrativo, buscando maior competitividade no mercado global a partir da atração de investimentos e consumidores (GAFFNEY, 2013; MELO, 2012). A partir do final do século XX, dois eventos vinculados ao esporte tomaram proporções gigantescas: Olimpíadas e Copa do Mundo de Futebol. O país anfitrião desses espetáculos recebe os turistas e a imprensa de todo o mundo. Em âmbito local, os municípios criam a expectativa de ser ―o foco das atenções‖ e ter parte dos custos operacionais patrocinados pelo governo federal e grandes empresas.

Sobre os desdobramentos e impactos sociais relacionados a megaeventos destacamos as análises de Smith e Gaffney (2013). Em um de seus artigos, Gaffney compara a proposta de

sustentabilidade da FIFA em relação aos eventos que organiza com a Copa do Mundo de Futebol. Desde 2002 a FIFA apresenta uma proposta bem abrangente, de cuidados em relação às comunidades e ao meio ambiente. Contudo, diz ele, o resultado é discutível:

No torneio de 2002, realizado em conjunto na Coréia e no Japão, foram construídos ou remodelados vinte estádios. A maioria tendo caído em desuso. A realização da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul trouxe à tona questões de direitos humanos e práticas trabalhistas (...) nos anos que antecederam a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, há uma ampla documentação para sugerir que (...) houve violações notórias. (GAFFNEY, 2013)

Analisando os jogos olímpicos de Atlanta (USA) de 1996, Mary Smith aponta para a remoção dos moradores de rua e pessoas de baixa renda para que a cidade parecesse mais ―amigável‖ aos turistas. O resultado foi a queda na qualidade de vida dos grupos, principalmente da comunidade de afro-americanos ―aumentando as tensões sociais‖ (SMITH, 2008, p. 74).

No Brasil, vários estudos abordam o tema da violação dos direitos humanos na execução de megaeventos, como os jogos Pan-americanos, a Copa do Mundo de Futebol (FIFA) e os Jogos olímpicos (entre eles: TRINDADE, 2014; MELO, 2012, DUARTE, 2012, GUTTERRES, 2014). Para a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, a Matriz de Responsabilidade do Mundial foi assinada em 2010. A partir daí deu-se andamento às obras de mobilidade urbana nas doze cidades-sedes.11 Uma das metas presentes em projetos elaborados pelas cidades era a remoção de assentamentos precários para ―requalificar espaços degradados‖, abrir ou duplicar estradas e executar obras em portos e aeroportos (GUTTERRES, 2014). Dados oficiais (Secretaria de Governo) apontam que a cidade com maior número de remoções compulsórias foi o Rio de Janeiro, em segundo lugar a cidade de Porto Alegre e terceiro recife.12 Em Recife, segundo Suelen Chaussard:

Uma intervenção com mínima relação com o evento causou a remoção de 900 famílias que viviam próximo ao mangue e dinamizou o setor imobiliário nos bairros do Pina e de Boa Viagem (...). No entorno da Cidade da Copa, que é bastante isolado, foram realizadas diversas obras de mobilidade para garantir a sua acessibilidade. Decorrente dessas obras, foi realizada uma série de desapropriações, tanto de cerca de 300 posseiros que moravam na área onde seria construída a Cidade da Copa como também de 900 famílias do Loteamento São Francisco, em

11 Disponível em: <http://www.copa2014.gov.br/pt-br/brasilecopa/sobreacopa/matriz-responsabilidades>. Acesso em: 02.jan.2018.

12 Disponível em: <www.secretariadegoverno.gov.br/.../2014/.../copa_2014_desapropriacoes-final-1.pdf>. Acesso em: 23.mar. 2017.

Camaragibe, onde seria feita uma ampliação do terminal integrado de passageiros. (CHAUSSARD, 2015, p. 11)

Gabrielle Araujo, através de etnografia, se aproximou de sujeitos que vivenciavam um processo de resistência ―às reconfigurações políticas, jurídicas e sociais‖ impostas para a organização da Copa do Mundo 2014, em Porto Alegre. A partir de uma abordagem pragmática ela busca compreender os ―diferentes sentidos em torno da moradia‖ que fundamentam as interpretações de pessoas que passavam pelo processo de remoção compulsória (ARAUJO, 2015).

Gustavo Margarites (2014) aborda sobre as obras para a Copa do Mundo de 2014 envolvendo os atingidos pelo projeto de duplicação da Avenida Tronco em Porto Alegre. Sua análise recorre ao conceito de ―evento focal‖ de Thomas Birkland (1998) considerando que eles são acontecimentos repentinos que alteram o panorama dos setores de políticas públicas a ele relacionados. Assim, uma catástrofe natural, por exemplo, ou uma intervenção urbana radical chama a atenção dos cidadãos para as políticas públicas vinculadas àquele evento. Dessa forma, um megaevento gera questionamentos que colocam em xeque ―o domínio dos grupos hegemônicos em um setor de políticas públicas, possibilitando o questionamento das políticas atuais e o fortalecimento de grupos desafiadores‖ (MARGARITES,2014, p. 14).