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106 minha, mais ao meu modo do que o Evangelho,

pelas razões que lhe dizia antes: a minha tendência em ver sempre e em toda coisa, mesmo nos objetos e nos eventos mais banais, repetitivos e simples, algo de sagrado, mítico, épico. Nesse sentido, O Evangelho era a coisa mais adequada a mim, mesmo se não creio na divindade do Cristo, porque a minha visão do mundo é religiosa, caracterizada por uma religião mutilada porque não tem nenhuma das características exteriores da religião, mas é, todavia, uma visão religiosa do mundo e, por isso, fazer O Evangelho foi para mim o ápice do mítico e do épico.153

A dimensão de um espírito religioso puro, de uma visão religiosa do mundo, é assumida por Pasolini como uma espécie de princípio de ação na realidade contemporânea, de modo que, como adverte René Shérer “seu real está ligado ao passado de modo que ele não saberia se identificar à realidade do dito ‘princípio de realidade’ (freudiano), que seria apenas uma maneira de se submeter ao tempo presente, ao atual.”154

É, portanto, cunhando essas categorias míticas (e escrevendo

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PASOLINI, Pier Paolo. Pasolini su Pasolini. Conversazioni con Jon Halliday... p. 1331-1332. “Solo esteriormente il film presenta i caratteri tipici dell’opera cattolica. Ma dal punto di vista interiore, non credo di aver mai fatto una cosa più mia, più tagliata addosso a me del Vangelo, per le ragioni che le dicevo prima: la mia tendenza a vedere sempre e in ogni cosa, anche negli oggetti e negli eventi più banali, ripetitivi, semplici, qualcosa di sacrale, mitico, epico. In questo senso Il Vangelo era la cosa più adatta a me, ance se non credo alla divinità del Cristo, perché la mia visione del mondo è religiosa, improntata a una religione mutila perché non ha nessuna delle caratteristiche esteriori della religione, ma è tuttavia una visione religiosa del mondo, e perciò per me fare Il Vangelo è stato il culmine del mitico e dell’epico.”

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SHÉRER, René. Promenades (florilège). In.: SHÉRER, René; PASSERONE, Giorgio. Passages Pasoliniens. Villeneuve d’Ascq: Septentrion, 2006. p. 26. “Son réel est bien tourné vers le passé en tant qu’il ne saurait s’identifier à la réalité du dit ‘principe de réalité’ (freudien) qui ne serait qu’une manière de se soumettre au temps présent, à l’actuel.” Também em relação à realidade do mito e da noção de nostalgia em Pasolini. Cf. SANTATO, Guido. Pasolini fra Mito, Storia e Dopostoria... p. 17. “La dimensione della temporalità si svolge à rebours, in direzione opposta rispetto alla successione del tempo storico: vivere è rivivere o sopravvivere ricordando. Nel presente si specchia un passato che diviene un tempo sempre più assoluto. Il sentimento del tempo è un sentimento della perdita. La nostalgia si instaura quindi come temporalità costitutiva di un mondo estetico. Il Friuli contadino e

poesias – Poesia in Forma di Rosa e sua última reunião de poemas Trasumanar e Organizzar – e dirigindo filmes – o próprio Evangelho segundo Mateus, Édipo Rei, Medeia e mesmo Teorema para circunscrever à filmografia dos anos 60) que Pasolini cria seu aspecto religioso puro, sua visão religiosa do mundo, sua busca por espaços livres da cooptação consumista que via nascer. Assim, continua Shérer, “Pasolini defende o passado, a maior realidade do passado oposta à atualidade de então.”155

Isto é, à pressuposta realidade inexorável do presente, Pasolini joga com sua ideia de sagrado que seria um modo de fazer irromper neste presente uma força do passado156 (e, para tomar um

cristiano si offre alla contemplazione poetica di Pasolini come un mondo di sogno e insieme vivo, come un mito reale. Patria d’elezione sentimentale e linguistica, il Friuli diviene il luogo del mito, del tempo perduto e ritrovato.”

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Idem. “Pasolini défend le passé, la plus grande réalité du passe opposé à cette actualité-là.”

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De um modo muito próximo a esse de Pasolini (ao menos na nossa leitura), Georges Didi-Huberman pensa. No seu mais recente ensaio, Écorces, fruto de uma sua viagem a Birkenau-Auschwitz em junho de 2011, o crítico francês observa a realidade pacata daquele lugar (hoje uma espécie de “Museu de Estado”) pensando ser necessário treinar o olhar (e, nesse sentido, também é uma imagem muito próxima de Murilo Mendes, como aqui também se verá no momento oportuno) para ver o passado que insistentemente clama por uma presença no presente. Cf. DIDI-HUBERMAN, Georges. Écorces. Paris: Minuit, 2011. p. 61-62. Há uma tradução publicada em

http://flanagens.blogspot.com.br/2012/03/saber-ver.html“Jamais se pode dizer:

não há nada para ver, não há mais nada para ver. Para saber duvidar do que se vê é preciso ainda saber ver, ver apesar de tudo. Apesar da destruição, do esfacelamento de todas as coisas. É preciso saber olhar como olha um arqueólogo. E é por meio de tal olhar - de tal interrogação - sobre o que vemos que as coisas começam a nos olhar desde seus espaços enterrados [enfouis] e seus tempos evadidos [enfuis]. Caminhar hoje em Birkenau é deambular por uma paisagem pacífica que foi discretamente orientada - balizada por inscrições, explicações, em suma, documentada - por historiadores desse "lugar de memória". Como a história terrificante que teve este lugar como teatro é uma história passada, gostar-se-ia de crer nisto que se vê agora, isto é, que a morte se foi, que os mortos não estão mais aqui.

Mas é exatamente o contrário o que se descobre pouco a pouco. A destruição dos seres não significa que eles se foram para outro lugar. Eles estão aqui, exatamente aqui: nas flores dos campos, na seiva das bétulas, neste pequeno lago onde repousam as cinzas de milhares de mortos. Lago, água dormente que exige do nosso olhar um alerta máximo a cada instante. As rosas colocadas pelos pelegrinos sobre a superfície da água flutuam ainda e começam a apodrecer. As rãs saltam por toda parte assim que me aproximo da borda do

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