DIFERENTES CONCEPÇÕES E UMA META: a conquista da audiência através da transmissão do
3.3 Ouvindo e aprendendo
3.3.1 Minutos de história e etimologia
Ouvindo e aprendendo tinha como objetivo principal a difusão de aspectos culturais de diferentes civilizações ao longo da história A análise do seu conteúdo permite perceber a primazia de temas ligados ao cotidiano dos povos antigos. Graças à abordagem das tradições de diferentes civilizações e seus significados, pretendia-se não apenas aprofundar o conhecimento histórico dos ouvintes, como também despertar a atenção destes para novas perspectivas sobre a sociedade em que viviam. Em uma edição do programa, a história da Grécia Antiga foi abordada a partir do costume das moças solteiras em Atenas. Em outras exibições, algumas invenções, como por exemplo, o telefone e lâmina de barbear, foram os temas abordados. A introdução era feita a partir da descrição de determinadas situações- problema que haviam dado ensejo à criação destes artefatos.
- Por falar em locomotivas, você sabe que uma simples viagem de trem deu origem a uma invenção utilíssima entre nós?
- Confesso que não sei. Que invenção é essa?
- Deixa que eu lhe conto a história. Certo dia um engenheiro americano teve que viajar de Nova York a São Francisco na Califórnia.
- Hum, que viagem longa, de muitos dias...
- Exatamente. E por isso esse engenheiro teve que fazer a barba no trem para não desembarcar em São Francisco muito peludo.
- O que tem isso com o invento?
- Eu explico já. Naquele tempo só existiam navalhas comuns do barbeiro. E usando uma delas o engenheiro fez vários cortes na cara porque a trepidação do trem não deixava a lâmina deslizar suavemente.
- O que história cacete. Dá até sono...
- É, mas no engenheiro que deu foi uma idéia. A idéia de inventar um aparelho de barba.
(Arquivo Rádio Nacional. Museu da Imagem e do Som)
Ouvindo e aprendendo adotava as concepções da radioeducação desenvolvidas pelos mestres da PRD5. O teor do conhecimento irradiado não correspondia diretamente ao programa das disciplinas escolares, mas ao conteúdo sugerido em Rádio e educação (1934), que mais se adequava à matéria de História, da forma como era radiodifundida:
As gentes de muitos de muitos séculos. Como eram, como viviam, onde habitavam. Seus instrumentos, utensílios e armas. Os povos primitivos, os actuaes: esquimaus, indígenas e pretos africanos.
A vida de um povo selvagem: habitação, alimentação, vestuário. Falta de associação e auxilio mutuo.
As grandes populações actuaes: os edifícios, os moveis, a defesa contra o clima. A comida, a cozinha. Os vestuários, as modas. O commercio, os armazéns, as fabricas, o dinheiro, as minas. As viagens, meios de locomoção e communicação.
Espetáculos públicos, as festas, o esporte. Os museus, as exposições, as feiras. A família, os povos, as autoridades, as leis, o exército e marinha.
As obras publicas. A religião, os templos, os cultos. O ensino, a educação. As relações entre os povos. A imprensa, o livro. Idéa dos momentos culminantes da nossa historia.
Genolino Amado era professor de História da Escola Técnica Secundária Amaro Cavalcanti. Sob esse aspecto, é notório que a experiência no magistério também foi determinante para a seleção dos conteúdos veiculados para esta produção radiofônica. Dentre as influências, é possível citar a sua concepção de que esta matéria deveria perpassar a descrição de fatos históricos selecionados de maneira a abrangerem um longo período de tempo.
A lição, eu a trouxera de casa preparadinha na cabeça, prontinha na ponta da língua. Até trouxera cronometrada, porque duas ou três vezes a ensaiara de véspera no apartamento, falando a imaginárias alunas. Bem medida, bem certa. Cinquenta e cinco minutos de História, num recuo de quatro mil anos. Alto e Baixo Egito, os deuses e as pirâmides, Osíris e Ramsés, nem sei o que mais (AMADO, 1971, p.24).
Em suas aulas, Genolino Amado já usava a dramatização das questões do cotidiano como estratégia de motivação, tentando, desta maneira, despertar a atenção dos alunos para a relevância dos fatos históricos:
Quando me referi à Questão das Indulgências, promessa de favores celestiais a trôco de esmolas ao Vaticano, só algumas anotaram nos cadernos. Apresentei Martinho Lutero à turma. A turma não se interessou pelo que iria deflagrar o Protestantismo na Alemanha. Estranhei, perturbei-me. Que havia com as meninotas? A fim de motivá-las, de acordar as distraídas, passei à dramatização de um episódio (AMADO, 1971, p.36).
Neste período, educadores da Escola Nova defendiam a importância da memorização dos fatos, nomes próprios e datas no ensino de História apenas como um subsídio para que o aluno pudesse elaborar uma reflexão sobre o período.
Memorização fatal, pois quem diz História diz Memória da Humanidade – ficarão ideas, diretrizes, lembranças de pesquizas e de objeções levantadas, pensamentos, sentimentos despertados talvez que constituirão um fundo precioso, adquirido na fase da vida de maior plasticidade (DELGADO DE CARVALHO, 1935, s/p).
Em geral, cada irradiação de Ouvindo e aprendendo abordava mais de um tema. Em apenas cinco minutos de duração, como poderia se esperar, as questões não eram tratadas de forma aprofundada, e nem este era o objetivo do programa. A proposta consistia em proferir explicações sintetizadas, de fácil compreensão: Cinco minutos de conversa com o diabo a quatro em liçõeszinhas úteis. Desta forma, o conteúdo selecionado deveria ser sobretudo capaz de despertar a curiosidade dos ouvintes em relação ao passado.
Sob a ótica de Genolino Amado, o papel da nossa intelectualidade era voltado à atuação junto à população, tentando oferecer meios para que o povo pudesse se educar. Neste sentido, diferentes medidas poderiam ser empreendidas: programas de rádio, discotecas públicas, bibliotecas populares. O futuro era visto com otimismo, pois este intelectual percebia nos brasileiros que o anseio pelo conhecimento não era levado aos resultados esperados, devido à falta de um ambiente que propício à divulgação da cultura:
Toda a gente está procurando educar-se, como pode, de acordo com as oportunidades que encontra, num estonteado autodidatismo. Não temos quase guias universitários, pois todas as nossas Faculdades e Academias são de caráter profissional, para formar engenheiros, médicos e bacharéis, e não para formar uma alma, uma consciência, uma cultura nacional (AMADO, 1946, p.109).
O conteúdo selecionado para Ouvindo e aprendendo não proporcionava uma visão sobre o Brasil. Nesse caso, o papel mediador de Genolino Amado não se aproximava do projeto de construção da identidade nacional, pois não abordava nossas tradições, e nem, nossa cultura. Como destacou Dângelo (1994), as recomendações elaboradas pelo Serviço de Radiodifusão Educativa (SRE) preveniam os autores que os programas deveriam combater a ignorância sobre nossas coisas. Sem priorizar este aspecto, a programação apresenta o conhecimento associado à cultura geral. O autor acreditava que a população carecia mais deste tipo de informação, ou seja, do contato com outras civilizações.
Outro aspecto relevante do programa diz respeito ao vocabulário. As gírias e expressões populares são empregadas somente como uma estratégia para apresentação de novos
vocábulos. Este tipo linguagem era condenado pelo autor, que, inclusive, criticava o seu uso em programas como meio de conquistar audiência:
De certo pouco importa que os locutores de rádio usem ou abusem da oratória, desde que ainda nos resta o sagrado direito de não escutá-los. O importante é que o povo, em geral tão simples em suas predileções, com tão velho horror ao pernosticismo, ao palavriado precioso e às atitudes bacharelescas, agora se mostra verdadeiramente encantado com as discurseiras ao microfone e declamações ao microfone (AMADO, 1946, p.70).
Em várias passagens, são apresentadas tanto as formas adotadas pela língua culta quanto a etimologia de palavras:
- Ih, você hoje apareceu com uma cara muito alegre.
- Natural, acabei de ver uma loura formidável. A mais bonita do Rio. - E também acabou de falar uma tolice, um absurdo.
- Ora essa, não sei porque. A loura era mesmo linda, formidável. - Pronto. Asneira de novo. Se era linda, não podia ser formidável. - Francamente, não estou entendendo.
- Pois é simples, na verdadeira significação da palavra formidável quer dizer pavoroso, horrível, medonho.
- Ah, é mas se usa tanto esse termo, como elogio a toda forma de beleza. - Erro de muita gente. E se tem dúvida consulte os dicionários.