Entre a ciência, a educação e o rádio
1.3 Pioneiros do rádio
1.3.6 Programações: diferentes formatos e uma missão de transmitir cultura
Ao analisar os programas pioneiros da PRA2, é possível perceber o movimento que conjugava o ideário da radiocultura à linguagem do meio de comunicação oral. Nesse ponto, identifico duas fases: programações que se inserem no movimento de vulgarização do conhecimento, sem uma elaboração maior para adaptação ao veículo do
rádio, e os programas gerados a partir da discussão para a elaboração dos conteúdos voltados à irradiação.
No primeiro bloco situo as primeiras transmissões do Jornal Falado e as conferências. Dentre as primeiras experiências da PRA2, além da execução de discos e da divulgação de boletins informativos, não havia qualquer tipo de estudo destinado a adaptar a transmissão da informação ao veículo radiofônico. O ambiente girava apenas em torno da motivação inicial e do encantamento pela capacidade técnica do veículo. O
Jornal falado consistia apenas na mera leitura oral da imprensa escrita diária.
A Radio Sociedade parecia, a principio, uma extensão da Academia de Ciências. Os acadêmicos faziam tudo: produziam, escreviam e apresentavam os programas. Roquette acordava todos os dias às 5 da manhã, lia os matutinos, circulava com seu lápis de duas cores tudo que lhe parecesse interessante e, duas horas depois, estava diante do microfone apresentando o Jornal da Manhã. Lia as notícias, com destaque para o noticiário internacional, e comentava-as para os ouvintes. Outros levavam discos de suas coleções de clássicos e óperas, botavam-nos para tocar e falavam dos compositores, músicos e cantores (CASTRO, 2011, p.9).
Por sua vez, as conferências seguiam o mesmo modelo, não apresentando qualquer preparação específica ao rádio. O tempo da atração não era considerado um fator prioritário na elaboração. O palestrante ocupava o microfone como se a platéia estivesse presente. O que contava era a importância do conteúdo. Independentemente do timbre da voz, ou da dicção, o relevante era o notório saber do responsável pela exposição do assunto. As conferências poderiam ter uma duração de três ou quatro horas, e se coadunavam de acordo com os propósitos da radiocultura: É certo que nós
não fundamos a Rádio Sociedade para irradiar só o que o público deseja. Nós a fundamos para transmitir principalmente aquilo de que o nosso povo precisa: trecho de ciência, literatura ou arte.
As conferências poderiam formar um curso, quando o tema fosse dividido por várias aulas. A complexidade dos assuntos, característica do movimento de vulgarização do conhecimento, se faz presente.
Programma dos cursos e conferências de 1927 (maio- outubro) Alvaro Ozorio Almeida – Estudos sobre o metabolismo (6 lições) Ferdinando Labouriau – A siderurgia (12 lições)
Eusebio de Oliveira – Geologia do petróleo (8 lições) Tobias Moscoso – As theorias do acaso (5 lições)
M. Amoroso Costa – As geometrias não euclideanas (8 lições)
Miguel Osório de Almeida – A regulação nervosa da respiração (4 lições) Alex Lemos – Marés e phenomenos correlativos (3 lições)
Ignácio Azevedo do Amaral – Sobre a indeterminação em Mathematica (3 lições) Fernando de Magalhães – Elementos de philosofia medica (4 lições)
Everardo Backheuser – Geopolítica do Brasil (8 lições)
Esses cursos e conferências, muitos dos quaes illustrados por projecções, se realisarão no Anphiteatro da Escola Politechnica e serão irradiados pela Radio Sociedade.
Os cursos terão normalmente logar ás terças e sextas-feiras, ás 20 ½ horas, e as conferências ás quartas ou quintas-feiras, com previa notícia pela imprensa. A freqüência é livre e independente de qualquer convite ou inscrição (Boletim da ABE, março-abril de 1927, p.12).
Como se pode observar nos resumos das lições publicados como detalhes em
Electron, a organização da fala também segue os mesmos critérios das palestras
(Electron, 1/3/1926, p.13)
A fala é pautada em números e na descrição de vários objetos, razão pela qual a irradiação se tornava muito cansativa para o ouvinte. Muitas vezes, o próprio palestrante achava que o programa pouco despertava interesse, como relata José Custódio da Silva em uma carta endreçada a Roquette Pinto:
Rio de Janeiro, 16 de novembro de 1929. Prezado amigo Roquette Pinto
Em complemento á minha carta anterior em que tive opportunidade de lhe communicar que havia tomado a resolução de suspender as palestrar que despretensiosamente vinha
reavaliando na Radio Sociedade, venho, hoje, trazer uma explicação que julgo necessária e que me foi solicitada em nome dos funccionarios da Radio Sociedade. De inicio, devo dizer que sempre tive na Radio Sociedade o acolhimento mais cavalheiresco, vendo nelle, alem de distincção pessoal de cada um de seus abnegados auxiliares, o reflexo de sua encantadora personalidade.
Entretanto, desde muito, sentia que não podia despertar maior interesse entre os amadores a insistência em divulgação scientifica que, sendo arida por sua natureza, ainda mais se tornava desvalor de quem as vinha vehiculando.
Se minha própria consciência possuída como devia estar do apego natural que os homens costumam ter às honrarias immerecidamente conferidas, pôde perceber que era necessário dar tréguas ás victimas de sua descabida insistência, certamente, desde muito, tal convicção devia estar no espírito dos benévolos dirigentes da Radio Sociedade. Comprehendo, perfeitamente, que por um escrúpulo natural entre homens educados, fosse contemporizado meu comportamento quinzenal ao microphone desta estação, para que não fosse acoimada de desprimorosa uma dispensa que se tornaria necessária. Excusado é dizer que, de minha parte, tal gesto seria encarado com a devida justiça, e como sendo uma conseqüência lógica do interesse sempre manifestado na Radio Sociedade pela excellencia de seus programmas.
Do exposto, póde concluir o meu prezado amigo que não houve de parte dos dignos auxiliares da Radio Sociedade, a cujo convívio devo algumas horas de grande prazer que sempre recordarei com saudade, nada que pudesse fazer crer que estivesse algum delles, pessoalmente, saturado das minhas visitas periódicas.
Agradecendo seu especial interesse que será para mim mais um motivo, fico immensamente agradecido por todas as provas de amizade com que me tem seguidamente distinguido, e continuo seu admirador muito sincero,
José Custódio da Silva (Arquivo Roquette-Pinto)
Logo, a crônica registrava com ironia a recepção das palestras científicas:
Depois, vejam a diferença entre assistir a uma revista theatral, por exemplo, e ouvir o Radio. No theatro, si um membro não nos agrada temos que ficar firmes á espera de outro melhor... que talvez não venha. Já no Rádio si nos apparece um discurso ou palestra sobre a vida domestica das sardinhas, por exemplo é so gyrar um pouco o mostrador e lá vem música... “Maria Antonietta” ou “Gosto de ti porque gosto...” (Radio, maio de 1926, p.33).
Após os primeiros ensaios, foi instituída a seção de broadcasting, a cargo de Dulcídio Pereira e Mario Saraiva. Nesta fase, o formato das programações passou a ser tema das discussões. Também é possível notar mudanças na grade, com a criação do
Jornal do Meio Dia e de novas seções o Suplemento musical e a Página Doméstica.
As críticas feitas pela monotonia das irradiações e o tédio gerado fizeram com que os intelectuais responsáveis pela seção de broadcasting reformulassem o formato de alguns programas radiofônicos. Ao final de 1924, pode se perceber em O quarto de
hora literário, a cargo de Murilo Araujo, algumas alterações nos critérios de elaboração.
estivessem diante da platéia, modelos que continuaram a ser usados por muitos anos, ocorrem as primeiras problematizações com respeito ao tempo ocupado na irradiação. Ao explicar os parâmetros usados na criação do programa, Murilo Araujo, redator e
speaker revela:
o sem-fios é um instrumento de conforto. Creio que está a fórmula das boas irradiações: leves e breves. O broadcasting é uma lição de synthese. Seu estylo deveria ser curto claro e forte como o tempo electrico de hoje. E descreve como articulava as informações ao microfone: Uma nota exemplificada com as novidades do momento – o jornal do livro e da idea. Por uma lauda de commentario e a leitura de texto escolhido põe-se o publico apressado ao corrente da saude das musas e de seus partos... gloriosos ou não (Radio, dezembro de 1924, p.30).
Os primeiros estudos no Brasil sobre a linguagem do rádio levaram à criação do modelo de programação chamado de crônica por Murilo Araujo: ao lado da página de
música e da canção que agradam os novos, ao lado da sobremesa poética e do texto das senhoras e creanças – haveria chronicas electricas sobre todas as artes e sciencias, noticiário incisivo e flagrante e barra para defeza do pensamento novo ou não (Radio,
dezembro de 1924, p.30). A idéia era mesclar o dinamismo da música às informações, imprimindo um ritmo mais acelerado, e despertando o interesse do ouvinte para determinados assuntos com breves notas, sem o aprofundamento exaustivo das aulas ou conferências.
O dinamismo da fala também passou a ser alvo da atenção de Labouriau:
Deante do microphone da Radio Sociedade ou me sinto muito mais perplexo do que defrontado a um auditório visível, porque neste sente-ei passar a corrente da telepathia que liga qualquer orador aos que o ouvem, ao passo que a situação é bem diferente. Tranquilizae-vos, porém: serei breve. Falar pela radio é um symbolo da época actual trepidante com a vertigem da velocidade. Notar como tudo hoje se faz às pressas: até para que o homem, sentindo fugir o tempo se esforça por compensar a rapidez dessa fuga. Fallando pela rádio é indispensável pois ser breve (Radio, 05 de 1926, p.53). Ainda que tenha ficado clara a percepção de alguns homens de rádio e ciência para o dinamismo que a linguagem radiofônica deveria apresentar, nem todos concordavam em sempre eleger essa característica como prioridade. Em nome da transmissão do conhecimento, e encarnados no papel de mediador entre a cultura e o povo, eles se sentiam no dever de estabelecer limites à linguagem empregada nas irradiações.
O novo speaker só precisa satisfazer a um critério, que é o da voz. Si a mostra boa, nada mais lhe pedem.
Dahi os descalabros freqüentes a que dão logar.
Já não é a corruptela constante dos nomes estrangeiros, patrioticamente descupavel. É tudo.
São expressões corriqueiras, são coisas comesinhas, que qualquer homem medianamente culto tem de obrigação de conhecer, desde que abre os olhos á vida, e que se apresentam todos grotescamente truncados, acrescidos irreconhecíveis.
Quem não se lembra, por exemplo, das celebres musicas de câmera, das óperas de Chopin, e dos adágios cantábiles...?
Arthur Azevedo disse um dia, que tinha o hábito de chegar atrazado nos theatros para não pertubar a emoção artística dos espetáculos com os erros de ortographia dos pannos de boca..
Que diria elle, agora, se fosse obrigado a supportar a ignorância dos speakers para gozar da maravilha do nosso tempo, que o seu bom humor não conheceu? (Radio, agosto de 1924, p.5).
Iniciada em julho de 1924, a criação de programas infantis tinha como objetivo não só a transmissão do conhecimento, mas a formação de ouvintes. Ao anunciar a nova programação, a PRA2 destacava: Todos os dias a hora certa, podem os amadorezinhos
da radiotelephonia escutar em suas casas, palestras instructivas,musica apropriada, recitativos simples, tudo na dose certa e da maneira que requer sua idade (Radio, julho
de 1924, p.7). A partir da análise do conteúdo das atrações infantis, é possível perceber que a Rádio Sociedade desejava formar eruditos: apreciadores de óperas e de músicas clássicas, detentores de amplo conhecimento sobre o país e o mundo. Os programas para crianças tinham duração de quinze minutos. A escolha por irradiações mais curtas mostra que os autores das atrações radiofônicas já consideravam o tempo como um fator importante na elaboração de seus textos, pois tinham a consciência de que as longas transmissões poderiam causar cansaço no ouvinte e, conseqüentemente, a sua dispersão. O formato era sempre a narrativa de histórias.
Dentre os responsáveis pelas irradiações do Quarto de hora infantil estava João Kopke, o Vovô Kopke. Diretor do Instituto Henrique Kopke, Kopke foi professor de vários intelectuais que participaram do ato fundador da Rádio Sociedade: Amoroso Costa, Miguel Ozório de Almeida, Álvaro Ozório de Almeida, Roquette-Pinto, dentre outros. Como mestre, Kopke ensinava a leitura a partir de um método analítico, utilizando revistas e jornais. Nesta metodologia, o ato de ler tinha como fim o divertimento e não a simples decifração de sons. Ao recordarem suas aulas, seus antigos alunos exaltavam o prazer da oralidade proporcionado pela narrativa de suas estórias. A
escolha de Kopke para speaker da programação infantil nos dá indícios de que os diretores da PRA2 desejavam proporcionar aos pequenos ouvintes o mesmo prazer que lhes marcara a infância. A leitura do texto destinado à irradiação deveria ser diferente, não poderia ser monótona, deveria ser realizada de maneira a despertar diferentes sentimentos, tais como alegria e suspense.