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Modelo Curricular Movimento da Escola Moderna (MEM)

CAPITULO III – DO CURRÍCULO AOS MODELOS CURRICULARES

3.4. Modelos Curriculares para a Educação Pré-Escolar

3.4.4. Modelo Curricular Movimento da Escola Moderna (MEM)

O modelo curricular do Movimento da Escola Moderna (MEM) teve origem em Portugal, em 1966, associado à Federação Internacional dos Movimentos da Escola Moderna inspirando-se na pedagogia de Célestin Freinet, baseada em princípios democráticos e numa educação inclusiva. Assume, segundo Folque (2012, p.51), três grandes finalidades formativas: 1) a iniciação a práticas democráticas; 2) a reinstituição dos valores e das significações sociais e 3) a reconstrução cooperada da cultura. Estas finalidades do MEM centram especificamente a atenção no

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desenvolvimento pessoal, social e cultural de professores e alunos enquanto cidadãos livres, ativos e democráticos, pois a prioridade de Freinet sustenta-se numa educação de qualidade baseada num sistema de treino democrático. Este modelo curricular encara a escola como:

um espaço de iniciação às práticas de cooperação e de solidariedade de uma vida democrática. Nela, os educandos deverão criar com os seus educadores as condições materiais, afetivas e sociais para que, em comum, possam organizar um ambiente institucional capaz de ajudar cada um a apropriar-se dos conhecimentos, dos processos e dos valores morais e estéticos gerados pela humanidade no seu percurso histórico-cultural (Niza, 2013, p.144).

A abordagem do MEM foi desenvolvida nos diferentes níveis de ensino assumindo na educação de infância três condições essenciais: 1) grupos heterogéneos; 2) clima de expressão livre e 3) tempo lúdico para explorar e descobrir (Folque, 2012, p.53). A primeira condição visa a organização dos grupos com crianças de diferentes idades e capacidades, isto é, a constituição de grupos de forma vertical. Deste modo, todas as crianças e cada uma em particular tem oportunidade de enriquecer a sua aprendizagem através das interações que se estabelecem e da diversidade de atividades que se vão desenrolando nesse contexto. Num clima de expressão livre, este modelo pretende alicerçar as competências e a aprendizagem tomando como ponto de partida as opiniões, as ideias e as experiências de vida das crianças. Finalmente, a terceira condição prende-se com o tempo lúdico que é proporcionado às crianças para explorarem e descobrirem materiais e documentos tornando-as ativas e envolvidas na compreensão do mundo que as rodeia, sendo indispensável para que ocorra nas crianças “a interrogação que suscite projetos de pesquisa, autopropostos ou provocados pelo educador” (Niza, 2013, p.149).

No modelo do MEM, os educadores aplicam as OCEPE sublinhando “também a importância a que as crianças adquiram controlo sobre os processos de aprendizagem, tomando consciência das relações entre os elementos ou passos constituintes de um processo (ou cadeia de operações) para obtenção de um resultado ou produto” (Folque,2012, p.53).

O currículo do MEM é baseado em problemas e motivações intrinsecamente ligadas à vida real das crianças, constituindo as suas experiências, saberes e vivências a base para a aquisição de novos conhecimentos. A cooperação entre os vários intervenientes no processo educativo proporciona uma gestão cooperada do currículo sustentado em pilares democráticos. Partindo desta conceção, o MEM tem como objetivo central proporcionar um ambiente educativo agradável, estimulante utilizando as paredes como expositores permanentes das produções das crianças. Segundo Niza (2013, p.151) numa das paredes, de preferência perto do quadro preto à sua altura,

que as crianças poderão encontrar todo o conjunto de mapas de registo que ajudem a planificação, gestão e avaliação da atividade educativa participada por elas. Esses mapas de registo assumem no MEM a designação de “instrumentos de pilotagem”, pois ajudam o educador e as crianças a orientar, regular, planear e avaliar o que acontece na sala de atividades. Trata-se de uma regulação formativa que utiliza como instrumentos o mapa de presenças, o mapa de atividades, inventários, diários de grupo, mapas de regras e quadro de distribuição de tarefas. Folque (2012, p.56) considera que todos estes instrumentos fazem parte da organização do grupo e ajudam as crianças a integrar as suas experiências individuais no conjunto do grupo.

A organização do espaço educativo integra seis áreas básicas de atividade, distribuídas à volta sala e uma área central polivalente onde se desenvolve o trabalho coletivo. Destacam-se como áreas básicas: - biblioteca e documentação; - oficina de escrita e reprodução; - laboratório de ciências e experiências; - carpintaria e construções; - atividades plásticas e outras expressões artísticas; - brinquedos, jogos e faz de conta. A área polivalente “é constituída por um conjunto de mesas e cadeiras suficientes para todo o tipo de encontros coletivos do grande grupo (acolhimento, conselho, comunicações e outros encontros) e que vai servindo de suporte para outras atividades de pequeno grupo, ou individuais ou de apoio ao educador” (Niza, 2013, p.151). Neste modelo, as áreas devem reproduzir realidades muito próximas em tudo com o ambiente das sociedades adultas sendo agradáveis, ricas e estimulantes.

A organização do tempo desenrola-se em nove momentos distintos (rotina diária): acolhimento, planificação em conselho, atividades e projetos, pausa, comunicações (de aprendizagens feitas), almoço, atividades de recreio (canções, jogos tradicionais e movimento orientado), atividade cultural coletiva e balanço em conselho. Para Folque (2012, p.59) as rotinas, tendo embora uma organização bem definida, devem ser flexíveis para dar resposta às necessidades do grupo e de cada criança, de acordo com os fatores contextuais da vida diária.

O modelo MEM assume a avaliação de forma integrada na ação e nas aprendizagens, destacando e enfatizando como função da avaliação a de regulação formativa. Neste sentido, a avaliação surge integrada no próprio processo de desenvolvimento da educação assumindo um caráter diário, semanal e periódico. Segundo Niza (2013, p.158) a avaliação está integrada no próprio processo de desenvolvimento da educação dando-se “maior ênfase à função de regulação formativa, muito embora a cooperação em que radicam as práticas educativas possa assumir a dimensão de controlo dado que se implicam paritariamente as crianças nesses juízos de valor em conselho de balanço”.

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Neste modelo curricular, os educadores assumem-se “como promotores da organização participada, são dinamizadores do espírito de cooperação e dos princípios cívicos e morais, além de serem auditores ativos, de forma a provocarem a livre expressão e incentivarem, nas crianças, o espírito crítico” (Serra, 2004, p.55).

No quadro 3, resumimos as principais caraterísticas do modelo MEM:

Modelo Movimento da Escola Moderna (MEM)

Currículo Sustentado em problemas e motivações da vida real.

As experiências de vida e os saberes das crianças são a base para a aquisição de novos conhecimentos.

Papel da criança Sujeito de direitos: Ativa, participativa

Papel do adulto Sujeito de direitos.

Promotores da organização participada, dinamizadores da cooperação, animadores cívicos e morais do treino democrático e auditores ativos.

Espaço Definido em seis áreas básicas à volta da sala e uma área central polivalente

para o trabalho coletivo.

Materiais Agradáveis, ricos e estimulantes muito próximos dos ambientes de organização

das sociedades adultas.

Tempo Rotina diária definida em nove momentos distintos: acolhimento, planificação,

atividades e projetos, pausa, comunicações, almoço, atividades de recreio, atividade cultural coletiva e balanço em conselho.

Pedagogia Pedagogia de Célestin Freinet baseada em princípios democráticos e numa

educação inclusiva.

Avaliação Avaliação integrada – função de regulação formativa.

Avaliação através da observação espontânea. Avaliação como meio de aprendizagem.

Instrumentos de avaliação

“Instrumentos de pilotagem” - mapa de presenças, o mapa de atividades, inventários, registos no diário de grupo, mapas de regras e quadro de distribuição de tarefas, registos coletivos e individuais, comunicações das crianças, debates e reflexões em conselho.

Quadro 3 – Características do MEM