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A estrutura da área urbana de Montes Claros apresenta os espaços mais planos no interior do perímetro urbano, como mostra a figura 26. Essa variável associada aos fatores históricos e econômicos de produção do espaço urbano fez com que a ocupação para diversos usos se concentrasse no centro e se dissipasse para as áreas pericentrais, até atingir a periferia. Sendo que nesta última o processo de ocupação ainda se encontra em expansão, uma vez que há disponibilidade de espaço para isso.

Figura 26 - Vista panorâmica da região leste de Montes Claros

Autor: Leite, 2010.

Diante das análises sobre o recente processo de crescimento urbano de Montes Claros, pode-se afirmar que o resultado da migração no decorrer da década de 1970 foi refletido no aumento da área urbana em 1980, embora sequelas dessa forma desorganizada do espaço urbano permaneçam presentes nessa cidade, entre os quais se destacam a segregação urbana e a especulação imobiliária. Portanto, a configuração espacial de Montes Claros é reflexo da sobreposição de várias formas de ocupação do solo urbano e, como consequência, a cidade acumula problemas que não foram sanados pelo poder público ao longo dos anos, e com o tempo se agravaram.

Visualizar a configuração da cidade de Montes Claros é possível, através da distinção dos determinados usos do solo urbano que permite de maneira cartográfica entender a forma de sua ocupação e, simultaneamente, denunciar as formas desiguais de consumo do solo urbano. Como mencionado no primeiro capítulo, a compreensão do uso de todo o espaço intraurbano ficou mais ágil com o

auxílio do sensoriamento remoto integrado ao SIG. Para mostrar essa contribuição para o planejamento e gestão do espaço urbano, será apresentada no capítulo seguinte a aplicação das geotecnologias no mapeamento do uso do solo urbano na cidade de Montes Claros/MG.

CAPÍTULO 4

INTEGRAÇÃO DE IMAGEM DE ALTA

RESOLUÇÃO E SIG NO MAPEAMENTO DO

USO DO SOLO URBANO

4.1 O mapeamento do uso do solo urbano

O estudo sobre os diversos problemas urbanos está se expandindo em função da importância desse tema, uma vez que o processo de urbanização em escala global está em crescimento, impulsionado pelos países pobres. As cidades se tornaram o principal ponto de concentração de pessoas, isso foi constatado no relatório do UNFPA (2007), que apontou, através de estimativas, que a população rural foi superada pela população urbana no mundo. A diversidade econômica e a disponibilidade de serviços básicos e de infraestrutura são apontadas como fatores responsáveis por essa atração para a cidade.

Em função das diversas atividades e da alta densidade demográfica presentes na cidade, esse espaço apresenta complexidade na interpretação do uso do solo. E pensar em desenvolvimento das áreas urbanas exige compreender as diferentes funções e interações entre os componentes que produzem o espaço urbano. Nesse sentido, a identificação das funções de cada área da cidade é primordial para apresentar planos e propostas de desenvolvimento urbano que visem uma melhor qualidade de vida para os citadinos. Essa ideia é ratificada por Tenedório (1989) que afirma que as informações do uso do solo de determinado espaço são imprescindíveis para o planejamento territorial, pois são basilares para o processo de conhecimento da organização do espaço.

Analisar o uso do solo de uma cidade exige uma definição conceitual desse termo, haja vista que há divergência na concepção de alguns pesquisadores. A definição da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, 1995) trata o uso do solo pelo critério funcional, assim, entende que o conceito de uso está relacionado à finalidade para a qual a terra é usada pela população local.

Henriques (2008) faz uma consideração importante sobre o fato de as abordagens sobre o uso do solo estarem relacionadas a um grande recorte espacial (apresentado em mapas de pequena escala), pois está embutida nessa definição a “[...] idéia de solo como matéria-prima necessária ao sustento das pessoas e das suas actividades.” (HENRIQUES, 2008, p. 107).

Corrobora com essa interpretação Cheng (2003), ao definir uso do solo, de maneira ampla, como o nível de acumulação espacial de atividades, tais como produção, transação, administração e residência com fortes relações de dinâmica entre elas. Dessa forma, esse autor define uso do solo urbano em uma perspectiva econômica, na qual o uso está relacionado às atividades econômicas e funcionais a que o solo se destina. Essa visão expõe o fato de o uso do solo ser um indicador da condição socioeconômica de uma cidade, imprimindo característica peculiar a cada área.

A transição de estado de uso do solo urbano indica mudança na dinâmica da cidade, ou seja, quando há uma redefinição funcional no padrão espacial pode-se concluir que houve influência de algum processo recente na cidade. Como, por exemplo, a implantação de shopping centers na cidade que provoca, ao longo dos anos, alterações no uso do solo. No caso da cidade média, como mencionado no primeiro capítulo, apresenta um percentual de crescimento urbano maior que outros tipos de cidade, assim essa mudança será mais intensa. Ainda que ocorra essa constante transformação nas cidades médias, há escassez de informações que mensurem e auxiliem na análise desse processo.

Essa deficiência de informações pode ser reduzida com a aplicação do sensoriamento remoto, através de imagens de alta resolução. De acordo com Novo (2008), a expressão alta resolução refere-se à imagem da superfície terrestre, captada por sensores orbitais, com resolução espacial menor que 5 metros. Entretanto, o avanço da tecnologia militar permitiu que imagem com resolução inferior a 1 metro fosse possível, como apresentado no primeiro capítulo.

O suporte das imagens de alta resolução foi decisivo para os estudos de uso do solo urbano, uma vez que, para mapear os alvos intraurbanos, é necessária uma escala que possibilite maior detalhamento, logo, há necessidade de uma base compatível com a escala pretendida. O sensoriamento combinado ao SIG permite sistematização e análise dos padrões de uso de solo com alto índice de confiança.

Com o auxílio dessas tecnologias foi possível, neste trabalho, realizar o mapeamento do uso do solo da cidade de Montes Claros. O mapa de uso de solo é definido por Tenedório (1989, p.10) como a “[...] representação temática, sobre base

topográfica, dos tipos de utilização do solo de determinado território, num momento preciso.” Por isso, esse produto cartográfico permite conhecer os vários tipos de uso do solo urbano, embora, devido à complexidade de funções no interior de uma cidade, esse mapeamento possa ser direcionado para uma determinada finalidade, ou seja, é possível fazer um mapeamento que prime pela identificação de classes específicas de uso de solo.

Como apresentado anteriormente, foi definida, na metodologia deste trabalho, uma legenda hierárquica ou de especificações sucessivas para o mapa de uso do solo urbano de Montes Claros, visando identificar as classes em níveis graduais. Para tornar a legenda coerente com o objetivo de mapear as ocupações informais, foi adotado um modelo de hierarquização que elimina as classes, que não são o foco deste estudo, no nível subsequente. O intuito dessa metodologia é alcançar o menor nível de detalhamento para ser analisado, no caso desta pesquisa foram os assentamentos urbanos informais, como explicado no segundo capítulo.

Para se chegar ao menor nível foi preciso primeiro classificar as áreas ocupadas e não ocupadas da cidade de Montes Claros, ou seja, realizar uma classificação binária. Dentro da metodologia adotada, essa fase é importante para separar a área de interesse da pesquisa, a área edificada, além de quantificar e diagnosticar a ocupação do solo no interior do perímetro urbano.

4.2 O espaço urbano ocupado e não ocupado: Nível I do mapeamento do uso do solo

O resultado expresso no mapa 11 mostra que, dos 101 km² da área urbana de Montes Claros, 59,8 km² estão ocupados, representando 59,3% do perímetro urbano, enquanto 41,2 km² não estão ocupados, o que corresponde a 41,7% da área urbana. Entretanto, vale destacar que a área não ocupada agrega terrenos que não são passíveis de ocupação humana, pois há impedimentos naturais e legais, como os lagos, os parques e as áreas de preservação permanente. Essa ressalva é importante, pois ao apresentar esses dados pode-se fazer uma inferência

equivocada de que a área não ocupada representa o potencial de solo a ser ocupado ao longo dos anos.

Ao analisar o mapa binário de uso do solo, outra informação que pode ser absorvida trata da distribuição de espaços não ocupados. A área norte da cidade aparece com o maior percentual de área não ocupada, isso é uma consequência do baixo interesse imobiliário dessa região da cidade. O poder público municipal usa esta área para implantar conjunto habitacional popular, e isso se torna um empecilho na atração populacional. Uma medida adotada pela Prefeitura Municipal para atrair maiores investimentos para a região norte da cidade foi a cessão de terrenos para implantação de instituições públicas. A doação do terreno para a construção do Instituto Técnico Federal – IFET é um indicativo dessa política.

Ao contrário do que ocorre na parte norte da cidade, a região sul apresenta alto grau de ocupação. Os fatores responsáveis por essa situação podem ser explicados pela concentração de investimentos públicos e privados nessa área. Ao remeter-se aos mapas 06 e 07, apresentados no capítulo 3, visualiza-se a presença de alguns fatores de valorização imobiliária como shopping centers, faculdades e parques urbanos. Consequentemente, a taxa de ocupação dessa área será estimulada.