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3 IDENTIDADES COLORIDAS, ELEIÇÕES MUNICIPAIS E LEGISLAÇÃ

3.2.2 Do processo de 2008

3.2.2.4 MPPE inicia a oitiva dos acusados

Chega o momento de registrar a oitiva dos depoentes convocados pela Promotoria de Justiça e Direitos Humanos. A 7ª PJDCC-DH daria destaque ao depoimento de duas pessoas, nos esclarecimentos prestados sobre a responsabilidade pela autoria do site Verdade Cristã: o webdesigner Júlio César Venâncio138 e o evangélico Severino Francisco dos Santos, corretor de seguros e agente de viagens, ambos representados pelo mesmo advogado, o senhorSérgio Correia Dias Santos.

Na oitiva do depoente Júlio César Venâncio, registrou-se:

QUE as matérias vinculadas (sic) no site verdade cristã não foram criadas

pelo declarante; QUE recebia as matérias prontas para postar no referido site; QUE as matérias eram matérias que já haviam sido veiculadas em outros jornais, blogs e sites; QUE nenhuma das matérias foram editadas pelo declarante; QUE lhe competia cuidar do visual e da diagramação das referidas matérias; QUE foi contratado pelo senhor Severino Santos para a construção e manutenção do site verdade cristã [...].(MPPE, PIP nº 08032- 0/7 p. 49, grifos do próprio documento, sublinhado meu).

O webdesigner esclareceu como sua vida mudou a partir do momento em que concedeu uma entrevista à Folha de Pernambuco:

QUE recebeu uma ligação telefônica da jornalista Marileide Alves, da Folha

de Pernambuco, no dia 11.09.08; [...] QUE em virtude da veiculação do seu nome com o site verdade cristã sofreu alguns prejuízos; QUE chegou a receber, por duas vezes, ameaças pelo telefone; QUE as ameaças consistiam em advertir o declarante, de maneira para que “tivesse cuidado e parasse de fazer o que estava fazendo”; QUE perdeu dois trabalhos por conta do episódio; QUE desde a primeira matéria relativa ao fato, trazendo o nome do declarante, entendeu, por bem, romper o que havia sido contratado com o Sr. Severino, apenas concluindo o projeto e passando para outra pessoa contratada pelo Sr. Severino [...].(MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 49, grifos do

próprio documento, sublinhado meu).

Por fim, Júlio Venâncio discorre sobre o que acha do site Verdade Cristã, repetindo aquilo que pode ser lido como uma estratégia de defesa recorrente, na sua afirmativa de não

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É importante ressaltar que o PIP nº 08032-0/7, iniciado pelo MPPE em 2008, só seria concluído posteriormente em 2011, praticamente três anos após o pleito eleitoral municipal.

138 No dia 27 de outubro de 2008, Júlio César Venâncio apresentou uma procuração à Promotoria de Justiça, nomeando três advogados para representá-lo legalmente. Contudo, no depoimento prestado em 19 de dezembro de 2008, ao promotor Westei Conde, Venâncio apareceu acompanhado de um único advogado, o senhor Sérgio Correia Dias Santos, este que não fazia parte dos advogados anteriormente registrados na procuração. (MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 35).

ter preconceito algum em relação aos segmentos sociais, possivelmente afetados, presentes na investigação da peça ministerial:

QUE na sua visão o site verdade cristã é um site antipetista e não

propriamente um site que pregue discriminação contra homossexuais e a intolerância contra a umbanda; [...] QUE o declarante não discrimina as pessoas em razão da sua orientação sexual, inclusive é simpatizante do movimento LGBTT, tendo realizado trabalho de designer/webdesigner;

QUE tão pouco discrimina as pessoas em virtude das religiões que

professam; QUE o declarante está disposto, em sendo necessário, a esclarecer quaisquer dúvidas aos segmentos LGBTT e de religiões de matriz africana, bem como a discutir eventual forma de reparação. (MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 49, grifos do próprio documento).

Existia, desse modo, uma forte preocupação, no decorrer de todo o processo, para que nenhuma igreja evangélica fosse associada ou responsabilizada pelo conteúdo do site. Assim, no dia 11 de dezembro de 2008, a oitiva individual de Severino Francisco dos Santos, junto com o seu advogado, o mesmo de Venâncio, registrou o seguinte depoimento:

QUE é responsável pela criação do site verdade cristã; QUE nenhuma igreja

é responsável pelo referido site; QUE assume inteiramente todas as despesas de manutenção do referido site; QUE teve ciência da matéria publicada pelo Jornal Folha de Pernambuco em 12.09.2008 acerca do site verdade cristã;

QUE o conteúdo do site diz respeito exclusivamente a matérias que foram

publicadas nos jornais locais e no programa de governo extraído no site

www.joãodacosta13.com.br; QUE o site foi criado no período eleitoral do

corrente ano; QUE a intenção é permanecer com o site divulgando assuntos e matérias relacionados à comunidade evangélica; QUE nunca houve a intenção de atacar qualquer religião através do referido site, apenas esclarecer à comunidade evangélica, a partir do programa do referido candidato, quem estava apoiando-o; QUE em relação aos homossexuais, de igual maneira, não houve a intenção de discriminá-los; QUE reafirma que a intenção do site era, sem discriminar quem quer que seja, mostrar quais as prioridades que estavam sendo dadas no programa do referido candidato, a fim de que livremente pudessem fazer a sua escolha[...].(MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 74, grifos e sublinhado negritado do próprio documento, sublinhados simples meus).

A estratégia da defesa de Severino Francisco dos Santos, por sua vez, não segue um caminho muito diferente da de tantos outros acusados de discriminar homossexuais, posto que consiste em afirmar que nunca foi praticado nenhum tipo de aversão ao cidadão homossexual, mesmo com evidências contrárias, numa clara tentativa de tentar apagar ou silenciar práticas homofóbicas já visivelmente efetivadas, quando da apuração dos fatos. Seguindo a mesma lógica de pensamento, o acusado afirmava também não discriminar nenhuma religião de matriz africana. Dessa forma, o depoente prossegue e declara-se negro. Todavia, o momento

da grande novidade é quando Severino revela que o webdesigner, contratado para gerir o domínio virtual, era de fato homossexual139:

QUE o declarante, assim como toda a família, é negro; QUE não discrimina,

como dito, nenhuma outra religião, particularmente as de matriz africana;

QUE tão pouco discrimina os homossexuais; QUE o então webdesigner

responsável pela página do verdade cristã é homossexual; QUE o declarante mantém uma relação de trabalho e amizade com o referido webdesigner; [...];QUE desde de logo, coloca-se à disposição dos segmentos que eventualmente se sentiram ofendidos com o conteúdo do site para possível reparação. (MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 74, grifos do próprio documento, sublinhados meus).

A singularidade da estratégia da defesa de Severino Santos surge quando o incriminado apresenta ao promotor um documento trazido por ele. Tratava-se de uma cópia do programa eleitoral do candidato João da Costa, em que constava uma série de manuscritos pessoais que evidenciavam fortes indícios de aversão, ojeriza e intolerância ao segmento LGBT e aos povos de matriz africana. Era como se o seu advogado não o tivesse orientado sobre a ideia de se produzir provas contra si mesmo, de modo que o inusitado episódio foi registrado em ata de audiência, narrado pelo promotor Westei Conde, com as seguintes palavras: “Nessa oportunidade, o declarante exibiu cópia de programa de governo da Frente do Recife, em 04 (quatro) laudas, contendo observações manuscritas feitas pelo declarante” (MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 74).

Anexado ao PIP nº 08032-0/7, entre as páginas 75 a 78, o documento com intervenção manuscrita produzida pelo religioso evangélico, talvez, possa sugerir a possibilidade de algumas indagações hermenêuticas: seria uma prova de culpa ou de liberdade de expressão? É possível entender a liberdade de expressão como um direito constitucional e, assim, se dizer qualquer coisa, sem se assumir responsabilidades pelo dito? A opinião pessoal sempre pode ser dita e assegurada como um direito? As interferências manuscritas no documento demonstram um forte posicionamento contrário a ensinamentos voltados ao respeito entre os diferentes indivíduos e às práticas de liberdade de cada um, também assegurados por lei.

O plano de governo de João da Costa, por sua vez, preocupa-se em apresentar a defesa de uma educação voltada à igualdade de gênero, de modo a ser exibida como uma “Educação Não-sexista, Não-homofóbica, Não-lesbofóbica e Laica”, trazendo em si a explicação de como poderia ser construída uma política pública na educação ofertada aos

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Esta última declaração surpreende porque em nenhum momento, quando Júlio Venâncio prestou depoimento, afirmou tal coisa. Logo, apesar de Severino Santos não citar o nome de Venâncio, pela leitura do processo, deduzisse tratar-se unicamente dele.

educandos, pelo poder público municipal. Já no entendimento de Severino, o registro: “– Enquanto a Igreja prega: Macho e Fêmea, o Plano de João da Costa é,(sic) criar uma geração sem sexo! Tanto faz?! O que é isso? Temos que engolir o homossexualismo, e ficarmos calados?!” (MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 76). Como pode-se ser lido, o pequeno trecho da intervenção manuscrita não deixa de enfatizar uma forte aversão, desprezo e intolerância àqueles que pudessem apresentar manifestações de práticas de gênero descontínuas de um padrão heterossexual de comportamento. Essas práticas descontínuas de gênero passariam a identificar todos aqueles apontados como homossexuais, o suposto inimigo comum coletivo, artificialmente produzido. Prosseguindo, Severino Santos, também, apresentava sua insatisfação sublinhando um pequeno fragmento do programa que prescrevia o aumento do GTOS (Grupo de Trabalho em Orientação Sexual) nas escolas; com um desenho de uma seta, o evangélico indicava o seu entendimento sobre esta possibilidade: “Ensino Religioso não tem; mas sexo livre e homossexuais têm!”(MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 77).

O programa de intensões políticas eleitorais, no bojo de seu texto, exibia no item “Livre Orientação Sexual”, a proposta de “Implantar um Programa Municipal de combate à discriminação e à violência contra LGBT”. Logo em seguida, à explicação cursiva de Severino, talvez, ligeira e apressada sobre o que deveria significar aquelas letras: “L- Lésbica; G – gay; B – Bissexuais; T – Transexuais e Travestis”. Sobre este detalhe, pode-se especular que a pluralidade das identidades sexuais passava a se tornar mais visível e conhecida, até mesmo por seus detratores (MPPE, PIP nº 08032-0/7 p. 77).

Segue abaixo alguns trechos do programa de governo de João da Costa e as intervenções manuscritas do religioso, algumas já comentadas acima. Severino Santos parecia acreditar, com alguma segurança de quiçá, no entendimento dele e com aquela documentação em mãos, convencer à promotoria de que ele apenas externava a sua livre opinião sobre os fatos, sendo ela desprovida de qualquer intenção de discriminar ou menosprezar quem quer que seja, mesmo quando o contrário tornava-se excessivamente notório140:

140 Ao tentar reproduzir alguns trechos do documento junto com as intervenções manuscritas e os sublinhados feitos pelo próprio acusado, procurei adaptar o efeito visual digital o mais próximo possível do original. Reproduzi setas, riscos e sublinhados presentes no original e destaquei o itálico para reproduzir a escrita cursiva. Ao fim da dissertação, apresento cópia integral em anexo do programa de governo de João da Costa e as intervenções manuscritas do acusado, presentes no PIP nº 08032-0/7, p. 75-78.

PROGRAMA DE GOVERNO DA FRENTE DO RECIFE JOÃO DA COSTA

* Garantir que a política educacional incorpore obrigatoriamente, a partir da educação infantil, a formação em gênero, livre orientação sexual, raça, etnia, direitos sexuais e direitos produtivos, promovendo e desenvolvendo uma educação não sexista, não-homofóbica, não-lesbofóbica, anti-racista e laica para toda a comunidade escolar;

O alvo são nossas crianças.

Aborto

- Enquanto a Igreja prega: Macho e Fêmea, o Plano de João da Costa é,(sic) criar uma geração sem sexo! Tanto faz?! O que é isso? Temos que engolir o homossexualismo, e ficarmos calados?!

* Ampliar o número de profissionais que atuam no GTOS – Grupo de Trabalho em Orientação Sexual – da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer, garantindo o acompanhamento das ações e projetos desenvolvidos na unidade de ensino sobre as temáticas e a integração das equipes educacionais;

Ensino Religioso não tem; mas sexo livre e homossexuais têm! Igualdade racial

* Efetivar, nas escolas públicas municipais, o cumprimento da Lei de Diretrizes e Bases que trata sobre as Histórias da África e da Cultura Afrobrasileira previstas na Lei 11.465/08, estimulando novas iniciativas referentes ao aprimoramento dos conteúdos, tais como [...].

Para encobrir questões espirituais!

* Regularização fundiária dos terreiros e quilombos urbanos da cidade do Recife e implementação de ações e programas que combatam a intolerância religiosa;

* Consolidar a institucionalização do Programa Combate ao Racismo Institucional;

Essa é a pior de todas. Um terreiro em cada bairro e ainda chamar de Intolerância Religiosa! Minha opinião

Livre Orientação sexual

*Implantar um Programa Municipal de combate à discriminação e à violência contra LGBT;

L- Lésbica; G – gay; B – Bissexuais; T – Transexuais e Travestis; (MPPE,

PIP nº 08032-0/7 p. 76-77, grifos do próprio documento).

No item “Igualdade racial”, por exemplo, o documento exibe uma intervenção manuscrita sobre a falta de entendimento dado a “Lei de Diretrizes e Bases que trata sobre as Histórias da África e da Cultura Afrobrasileira previstas na Lei 11.465/08”, através do seguinte comentário “Para encobrir questões espirituais”. Evidencia-se, portanto, a lógica entre a fiscalização para que a lei seja cumprida e um eventual encobrimento de questões espirituais, o que me parece totalmente confuso e sem nenhum sentido. Todavia, talvez, seja possível especular que, na forma de pensar do religioso, o ensino desses conteúdos pudesse estar atrelado ao incentivo de cultos não cristãos. Trazendo à tona, assim, a ideia do estímulo às práticas religiosas, nas quais muitos evangélicos costumam classificar pejorativamente por “macumba”. Já no que diz respeito à regulação dos terreiros e quilombos urbanos, um comentário do tipo: “Essa é a pior de todas. Um terreiro em cada bairro e ainda chamar de Intolerância Religiosa! Minha opinião”. É um julgamento que deixa bem claro a rejeição às políticas que apoiam a inclusão de crenças religiosas não cristãs, comumente marginalizadas por discursos de intolerância.

O que se verifica são racionalidades preocupantes, quando analisadas dentro de num contexto democrático de direito, haja vista que criminalizam as práticas de liberdade do outro, daquele tido como diferente. É, nesse sentido, importante destacar que o regime de verdade produzido no documento, através dos comentários, é bem peculiar, posto que ele demonstra um entendimento muito pequeno, mesquinho, excludente e autoritário, sobre práticas de liberdade fora de uma regulação estabelecida por um padrão artificial de conduta, definido e defendido por poderosos líderes evangélicos.

Entretanto, apesar da forte propaganda negativa contra o candidato João da Costa Bezerra Filho, a disputa eleitoral é por ele vencida logo no primeiro turno, tendo o total apoio do atual prefeito João Paulo Lima e Silva. Rapidamente, Recife, a capital de Pernambuco, deixaria registrada na sua história o governo de doze anos da gestão petista, entre os anos de 2001 a 2013, com significativas conquistas implantadas institucionalmente em prol da cidadania LGBT.

Já a investigação ministerial iniciada em 2008, só seria encerrada em 2011. Nos momentos próximos da conclusão do processo, é preciso ressaltar o forte protagonismo da ONG UIALA MUKAJI – Sociedade das mulheres negras de Pernambuco –, quando da elaboração das cláusulas a compor o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). A ONG ficou responsável por boa parte do texto a regular o documento final, composto de 11 cláusulas, negociado e assinado entre o MPPE, o evangélico Severino Francisco Santos, as ONGs LGBTs e do Movimento Negro. Ao que se refere às obrigações acordadas, cabe destacar:

DAS OBRIGAÇÕES CLÁUSULA SEGUNDA:

O COMPROMITENTE se obriga a veicular no site verdade cristã

(www.verdadecrista.com.br), por meio de “link” específico, no período de 05.04.2010 até 15.11.2010, nota de desagrado às religiões de matriz africana.

CLÁUSULA TERCEIRA:

O COMPROMITENTE se obriga a divulgar no site verdade cristã

(www.verdadecrista.com.br), por meio de “link” específico, no período de 05.04.2010 até 15.11.2010, legislação antidiscriminatória/anti-racista.

CLÁUSULA QUARTA:

O COMPROMITENTE se obriga a divulgar no site verdade cristã

(www.verdadecrista.com.br), por meio de “link” específico, no período de 05.04.2010 até 15.11.2010, cópia do presente Termo de Ajustamento de Conduta.

CLÁUSULA QUINTA:

As obrigações constantes CLÁUSULA SEGUNDA, TERCEIRA E

QUARTA deverão atender as seguintes especificações: fonte arial, tamanho 12, espaçamento entre linhas simples, de sorte a assegurar a

leitura dos respectivos textos, na forma que forem entregues pelo

COMPROMISSÁRIO e pelos INTERVENIENTES ao

COMPROMITENTE. CLÁUSULA SEXTA:

Os INTERVENIENTES se comprometem a redigir Nota de Desagravo,

consoante CLÁUSULA SEGUNDA, integrando-se esta, como ANEXO, o presente Termo de Ajustamento de Conduta. (MPPE, PIP nº 08032-0/7, p.138, grifos do próprio documento, sublinhados meus).

Neste PIP nº 08032-0/7, houve apenas a condenação de um membro da Igreja evangélica, o senhor Severino Francisco Santos. Este, logo no início das investigações ministeriais, declarou-se culpado. Contudo, no material anexado aos autos processuais, a participação, direta e/ou indireta, dos pastores Josildo Ferreira (filiado ao PSC) e José de Alencar (apontado como presidente da Convenção Estadual das Assembleias de Deus) foi registrada.

No que tange ao desdobramento do PIP nº 08032-0/7, o que se pode especular é uma forte articulação das instituições evangélicas, de identidade político-partidária, a produzir uma marginalização das condutas de determinados indivíduos, no estabelecimento de uma ordem social forjada e tida como ideal. Essas igrejas instituem uma regulação dos atos, gestos, afetos e desejos dos indivíduos, por meio de convicções estipuladas por seus membros. Já os meios utilizados para tal fim são comumente os discursos, destinados a atingir um grande número de pessoas, dando pouca ou nenhuma legitimidade aos que são apontados como fora do padrão previamente estabelecido, fortalecendo, como já foi dito anteriormente, a ideia de um inimigo

comum. Acredito, assim, que o poder de persuasão desses religiosos não deva ser ignorado, principalmente quando usado para marginalizar práticas de liberdade de terceiros, legalmente constituídas por lei. Os discursos, travestidos de liberdade de expressão ou de opinião, quando usados para criminalizar e marginalizar pessoas devido à sua sexualidade e/ou crença religiosa, necessitam de intervenção institucional, devendo ser duramente combatidos e punidos pelas instâncias operadoras do direito, estas deveriam sempre cumprir o seu papel de defensoras da garantia da democracia e das liberdades individuais do cidadão.

Nesta dissertação, por assim dizer, estão sendo analisados os regimes de práticas. Ao trazê-los à baila reflexiva, procurei seguir as orientações propostas por Michel Foucault, no seu texto intitulado “Mesa-Redonda em 20 de maio de 1978”, quando afirmou:

Analisar “regimes de práticas” é analisar programações de conduta que têm, ao mesmo tempo, efeitos de prescrição em relação ao que se deve

fazer (efeitos de “jurisdição”) e efeitos de codificação em relação ao que se deve saber (efeitos de “veridicidade”). (FOUCAULT, vol. IV, 2015,

p.331, grifos meus).

Tomando-se, portanto, um regime de verdade e um conjunto de práticas tens, então, a formação de um dispositivo. Este representa um conjunto heterogêneo de elementos veiculado pelos discursos, e assim, chega-se ao entendimento, proposto por Michel Foucault, de que o pensamento e a liberdade podem obstruir o funcionamento de um dispositivo. Isto dito, deve- se compreender que negar um discurso, contestar um enunciado, também contribui para ajudar a desestruturar um dispositivo. Os discursos religiosos, vistos há pouco, construíram um inimigo comum, abstrato e sem forma definida: o segmento LGBT. Desse modo, é-se importante destacar que dois tipos de dispositivos vêm sendo trabalhados nesta dissertação - um que fortalece a ideia de um inimigo comum individual e/ou coletivo e outro que incentiva práticas de liberdade e uma estética da existência, mais voltadas para o fortalecimento de uma identidade colorida fora da esfera privada: i. os dispositivos heteronormativo, ou de heterossexualidade compulsória; e, ii. os dispositivos de publicização das presenças das identidades coloridas no espaço público. Destacando-se que esses dois dispositivos produziram relações de poder e práticas resistências possíveis na cidade do Recife, nos anos 2000.

No que diz respeito às práticas regulatórias discursivas, trabalhadas neste capítulo, destaco a ênfase de muitos líderes religiosos, alguns ocupando mandatos legislativos, afirmando com muita veemência que as práticas e as identidades homossexuais representavam o pecado e, portanto, deveriam ser rejeitadas e vista como algo abominável e torpe. Os conservadores religiosos insistiam em classificar as práticas e as identidades homossexuais

pelo uso do termo homossexualismo, uma referência antiga que as conceituavam como doenças. Segundo eles, era a Bíblia que afirmava e que reforçava como sendo pecado tais programações de conduta, sendo missão deles denunciar e combater este suposto pecado. Tem-se, portanto, a laicidade do Estado confrontada com práticas regulatórias discursivas, vinculadas a interpretações tendenciosas e violentas de leituras bíblicas, realizadas não só por religiosos, mas também por ocupantes de cargos públicos. Nesse sentido, as fronteiras entre o que seria liberdade de expressão, de crença religiosa, ou injúria e discriminação pareciam ter sido borradas, tornando os limites e impedimentos dessas fronteiras frágeis ou até mesmo inexistentes.