Em janeiro de 1966, acabou o contrato de Simonal com a TV Tupi e ele não queria renová-lo. Ao invés disso, assinou com a TV Record que era o maior canal de TV brasileiro desde 1965, graças aos seus programas musicais, em especial a "O Fino da Bossa", comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues e que era o reduto da Bossa Nova e da Canção de Protesto, e ao programa "Jovem Guarda", comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa e propagador do Iê-iê-iê.[1] Logo no início, Simonal já passou a ser uma atração fixa no programa de Elis e Jair Rodrigues, mas participava também do programa dos jovem guardistas, algo que só ele e Jorge Ben faziam.[1] Neste ano, lançou mais dois compactos em abril e maio de 1966, sendo que o segundo (Mamãe Passou Açúcar em Mim), gravado para a trilha sônora do primeiro filme dos Trapalhões (Na Onda do Iê-iê-iê) e com a banda The Fevers acompanhando o cantor, estourou nas rádios e foi o maior sucesso de Simonal até então.[1] Na onda desse novo sucesso, em agosto de 1966, Simonal firma uma parceria com o Som Três, formado por Toninho na bateria, Sabá no baixo e César Camargo Mariano no piano, para que o grupo o acompanhasse na carreira solo e no seu futuro programa que deveria estrear ainda aquele ano.[1] A ideia de Simonal e César Camargo Mariano era misturar Bossa Nova, Samba, a nascente música Soul americana, o Jazz, a música de protesto e o rock que se fazia por aqui na época sem perder a qualidade, mas fazendo um som que eles definiam como "mais comunicativo", isto é, que se comunicasse melhor com as massas do que a Bossa Nova.[1] Este novo som, seria chamado futuramente de pilantragem, uma mistura de samba, iê-iê-iê e soul, constituindo-se em verdadeiro movimento, capitaneado por Wilson Simonal, Carlos Imperial e Nonato Buzar.[7]
Algo que mantivesse a qualidade musical dele, a nossa, que estivesse dentro do espírito musical da época, mas que fosse algo evidentemente mais popular. E nem era "popular" o termo que a gente usava, era "comunicativo". Isso se transformou em um desejo legítimo nosso. Trabalhávamos o tempo todo em cima desse conceito. Era comum que nos trancássemos os quatro e passássemos dias bolando os arranjos, elaborando cada detalhe do repertório, buscando essa união do bom gosto com a comunicação imediata.
— César Camargo Mariano em depoimento ao jornalista Ricardo Alexandre.[1] Assim, Simonal e o Som Três gravaram juntos pela primeira vez em 02 de fevereiro de 1966, numa rápida viagem ao Rio de Janeiro, a música "Carango" de Carlos Imperial e Nonato Buzar, que já havia sido gravada por Erasmo Carlos. A canção fez ainda mais sucesso que "Mamãe Passou Açúcar em Mim", como que garantindo que estavam na trilha correta.[1] Estes 9 meses nos quais Simonal trabalhou na Record sem programa próprio serviram para que ele adquirisse experiência e ensaiasse com o seu conjunto. E às 20h20m do dia 20 de outubro de 1966, estreou o seu programa "Show em Si... Monal", tendo entre os seus roteiristas Miele, Bôscoli, Carlos Imperial e Jô Soares.[8] Nos intervalos do programa que, como era gravado, precisava, de quando em quando, parar para as trocas das fitas de rolo, Simonal entretia o público com piadas, imitações e algumas músicas despretensiosas. Foi assim que surgiu a ideia de gravar "Meu Limão, meu Limoeiro" que, já sendo "sucesso" nos intervalos do programa, sairia no álbum
Vou Deixar Cair, o quinto de Simonal.[1] Este disco, que saiu em novembro de 1966, já começava a explorar a ideia da pilantragem, recorrendo a uma mistura de compositores e estilos, tudo "amalgamado" pelos arranjos de César Camargo Mariano. Ou, nas palavras de Sabá em depoimento para o jornalista Ricardo Alexandre, era algo que "não
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era iê-iê-iê, não era bossa-nova, não era canção de protesto, não era jazz, mas era tudo isso e era algo completamente diferente".[1] Em setembro defendeu "Querendo Ficar", composição de Johnny Alf, no primeiro festival da Record, e em outubro defendeu, juntamente com o MPB4, "Maria", de Francis Hime e Vinicius de Moraes, no Primeiro Festival Internacional da Canção.[1]
Capítulo singelo na história não só de Simonal como também da música popular brasileira é a campanha ou happening[1] do Mug. Mug era um boneco de "pano preto, redondo e sem pescoço, com os olhos esbugalhados, 'cabelos vermelhos e calça xadrez ao estilo escocês, que virou febre ao ser vendido como amuleto da sorte para o Ano-Novo de 1967".[1] Os mais variados artistas e personalidades participaram, como o Zimbo Trio, Chico Buarque, Ari Toledo, Hebe Camargo e Maurício de Sousa, além, é claro, de Simonal. Aproveitando a campanha, Simonal estreou em dezembro um show produzido por Miele & Bôscoli no Teatro Princesa Isabel, em Ipanema. O nome era "Mugnífico Simonal" e trazia o cantor acompanhado da sua banda, o Som Três, cantando músicas e realizando alguns esquetes.[1]
Alegria, Alegria
Na temporada no Teatro Princesa Isabel com o show "Mugnífico Simonal", o cantor escreveu nos bastidores uma música com Ronaldo Bôscoli. Nela assumia-se negro e falava em luta, em uma reflexão sobre Martin Luther King Jr., pastor americano ícone na luta pelos direitos civis naquele país. A canção foi tocada na temporada do show e gravada pela banda em 28 de fevereiro de 1967,[1] mas, como era de se imaginar, ficaria retida na censura por quatro meses.[1] Ainda assim, na entrega do troféu Roquete Pinto para os melhores do ano, Simonal cantou a música para um Teatro Paramount lotado, fazendo um discurso:
Essa música, eu peço permissão a vocês, porque eu dediquei ao meu filho, esperando que no futuro ele não encontre nunca aqueles
problemas que eu encontrei, e tenho às vezes encontrado, apesar de me chamar Wilson Simonal de Castro.[9] — O compacto foi lançado em junho de 1967 e estreou direto no primeiro lugar na parada do IBOPE.[10] No mesmo mês, houve a gravação de um álbum ao vivo e duplo, no mesmo Teatro Paramount onde ocorria o programa de Simonal para comemorar o primeiro aniversário do show, com direito a 4 mil pessoas cantando em uníssono "Tributo a Martin Luther King" no encerramento do show.[1] Em setembro de 1967, lançou mais um compacto contendo "Nem Vem que não Tem" que fez um sucesso imenso, só ultrapassado na carreira do cantor por "Sá Marina" e "País Tropical". No dia 06 do mesmo mês, o programa de Simonal na tv trocou de horário e de nome e ganhou a participação de Chico Anysio, passando a chamar-se "Vamos S'imbora" e deixando as 22h40m de domingo para passar para as 20h10m de quarta-feira.[1]
No famoso III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, Simonal foi indicado como intérprete por tantos compositores que a organização abriu uma exceção para que ele apresentasse uma música em cada uma das três eliminatórias.[1] Assim, o cantor defendeu "Balada do Vietnã", de Elizabeth Sanches e David Nasser, vestido de guerrilheiro; "O Milagre", de Nonato Buzar, com um grande crucifixo no peito; e "Belinha", de Toquinho e Victor Martins, "vestido de pilantragem".[1]
No mês seguinte sairia o próximo álbum de Simonal e o primeiro de quatro a se chamar Alegria, Alegria!!!, bordão que Simonal usava na televisão e que Caetano Veloso pegou emprestado para usar como nome de uma música no festival do mês anterior.[1] O disco era pilantragem pura, com várias cantigas de roda, palmas, muita gente no estúdio durante a gravação e alguns sucessos, como "Vesti Azul".[1]
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