• Nenhum resultado encontrado

O disco que mudaria tudo

No documento Bossa Nova (páginas 52-54)

Em julho de 1958, Elizete Cardoso lança o famoso LP Canção do Amor Demais, contendo músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O disco, entretanto, entraria na história da música popular brasileira por outro motivo: João Gilberto acompanhava Elizete ao violão nas faixas Chega de Saudade e Outra Vez, sendo essas as primeiras gravações da chamada "batida da bossa nova". Esse disco, entretanto, não pode ser considerado o pioneiro da bossa nova, uma vez que Elizete era uma cantora presa ao samba-canção, com ênfases óbvias e gastas<ref name=há tanta coisa bonita a ser consertada[13].

Em agosto do mesmo ano, João lança um disco de 78 rpm contendo Chega de Saudade e Bim Bom, gravado na Odeon, com apoio de Tom Jobim, Dorival Caymmi e Aloysio de Oliveira. Este disco inaugura o gênero bossa nova, e logo foi um sucesso comercial. Sua gravação teve arranjos de Tom Jobim e participação de orquestra, de Milton Banana, entre outros artistas. João inovou ao pedir dois microfones para gravar: um para a voz e outro para o violão. Desse modo, a harmonia passou a ser mais claramente ouvida[14]. O disco estourou primeiro em São Paulo, o principal mercado do país na época. Foi um sucesso de vendas e primeiro lugar nas rádios. João participa, então, de programas de rádio e TV, da entrevistas, faz shows. Logo o sucesso parte para o Rio.

Em 1959, João lança mais um 78 rpm, dessa vez contendo Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça, e Hô-bá-lá-lá, composição própria. Em março, lança o LP Chega de Saudade, que vira um sucesso de vendas.

A importância deste primeiro disco de João Gilberto é mostrada por Tom Jobim já no texto de contracapa do LP: "Em pouquíssimo tempo, (João) influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores."[15]

1959-1962

Chega de saudade

Após o lançamento do LP Chega de Saudade, a nova batida do violão torna-se moda entre os jovens secundaristas e universitários, encantados com o violão de João Gilberto, que buscavam copiar. Esse disco influenciou a geração de João e a geração seguinte de jovens que, depois de ouvir João, decidiram-se pela carreira de músico. Entre os jovens estavam Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo, Francis Hime, Roberto Carlos, Jorge Ben Jor, Paulinho da Viola, entre outros[16].

Esse disco criou a mais completa reviravolta na música popular brasileira[16]. João sintetizou a música popular brasileira em seus termos fundamentais: ritmo, harmonia, batida de violão e técnica de cantar[16].Além disso, João mostrou que seu estilo, apesar de revolucionário, não foi um rompimento com a música do passado, ao gravar em seus discos velhas composições de Ary Barroso, Geraldo Pereira, Dorival Caymmi, e sucessos de Orlando Silva[16]. Chamado de recompositor pela crítica, João transformou as velhas canções em novas, segundo sua concepção. Jobim define o estilo de João como uma forma leve extensível a qualquer música brasileira[16]. João Gilberto define como marca harmônica inédita a economia. Os arranjos de Tom Jobim, por exemplo, usam como guia o violão de João, que concentrava a fluidez rítmica e melódica[16]. Introduziu-se, nesse LP, o uso de acordes invertidos executados em bloco[16].

A canção Chega de Saudade, inicialmente, era um chorinho. João transformou a composição num samba enxuto, com o violão deixando de ser mero acompanhamento e dividindo o primeiro plano com a voz[17].

A mídia da época tentava explicar o estilo de João. O jornal O Cruzeiro, por exemplo, fez uma reportagem especial de dez páginas.

Ainda em 1959, casa-se com Astrud Evangelina Weinert, que ficou conhecida como Astrud Gilberto, com quem teve um filho, João Marcelo, em 1960.

Com o sucesso, João grava três canções para a trilha sonora do filme Orfeu de Carnaval, ou Orfeu Negro. Faz, também, shows na boate Meia Noite do Copacabana Palace e no Country Club do Rio de Janeiro.

João Gilberto 50

Em 1960, realizam-se vários festivais de bossa nova pelo Rio, como no Grupo Universitário Hebraico, na Escola Naval, na Rádio Globo, transmitido ao vivo, e no Teatro de Arena da Faculdade Nacional de Arquitetura, este último com participação de João Gilberto e Chico Pereira, que gravou o espetáculo, além de presença de Vinicius de Moraes e Tom Jobim e ampla cobertura dos jornais. Todos os novos músicos ligados ao movimento bossa nova copiavam o modo de tocar e cantar de João.

Participa de programas na TV Rio, com quem contracenava e fazia dueto com Orlando Silva, seu antigo ídolo, e tem um programa próprio, chamado Musical Três Leões, em São Paulo

Com o sucesso, João se apresenta em Minas Gerais, Salvador (com presença de Vinicius de Moraes), e faz temporada na boate Arpège, no Leme, Rio de Janeiro.

João grava um jingle para a Lever, atual Unilever, de versos "As estrelas do cinema usam Lever/ O sabonete que

você devia usar/ Irradie mais beleza/ Seja estrela do seu cinema/ Use sabonete Lever".

O amor, o sorriso e a flor

Ainda nesse ano, João grava o LP O Amor, o Sorriso e a Flor, seu segundo LP, que em 1962 chega aos Estados Unidos. Começa a exportação da moderna música brasileira. Seu segundo LP trouxe outra inovação: a contracapa trazia as letras das músicas, passando, depois disso, a ser característica de discos brasileiros[16]. Este disco ainda trouxe, entre outros sucessos, o Samba de uma nota só, síntese da bossa nova nos fundamentais elementos de letra, melodia, ritmo e harmonia[16].

João Gilberto (1961)

Em 1961, grava seu terceiro álbum João Gilberto. Seu terceiro LP foi gravado em duas fases: a primeira com Walter Wanderley e seu conjunto; a segunda, com orquestra sob regência de Tom Jobim. Os velhos sambas voltam, mas alterados de tal forma, rítmica e harmonicamente, que soavam como novos sambas[16]. Entre os efeitos usados por João, está o rubato, no qual se apressa ou encurta frases, cantando em tempo ligeiramente diferente do acompanhamento, "roubando" algum tempo das notas, para depois aguardar com o violão e seguir normalmente. Foi neste disco também que João, pela primeira vez, gravou sozinho, apenas com o violão[16].

João começa a fazer sucesso em solo norte-americano. Lena Horne canta Bim Bom em português no Copacabana Palace, dizendo-se fã de João Gilberto. Em Washington, na rádio WMAL, o disc jockey Felix Grant programa para tocar diariamente os discos de João, fato que provocou impacto nos músicos e aficionados de jazz[18]. João é considerado um fenômeno pelos jazzistas. Herbie Mann declara que João Gilberto atraiu a atenção dos americanos sobre a música brasileira[18]. A revista Life en Español, em ampla matéria de Joaquín Segura, do dia 29/10/1962, apresenta a bossa nova de João Gilberto aos Estados Unidos[18], "Nota de Actualidad BOSSA NOVA - Del Brasil

llega a los EE.UU. una música contagiosa". O jornalista descreve viagens ao Brasil de astros do jazz como Dizzy

Gillespie, Charlie Byrd, Herbie Mann e voltam tentando imitar o violão e a voz de João Gilberto, descrito pelo jornalista como expoente máximo da bossa nova.

Bim bom, Ho Ba La La e Um Abraço no Bonfá começam a chegar na França. Durante estes anos, João chegou a se apresentar no Uruguai e na Argentina.

João Gilberto 51

O Encontro do Au Bon Gourmet

Em 1962, faz o histórico show O Encontro no restaurante francês Au Bon Gourmet, localizado em Copacabana, ao lado de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Os Cariocas, Milton Banana e Otávio Bailly, sob direção de Aloysio de Oliveira. Foi a única vez que Vinicius, João e Tom se encontravam num palco.

A temporada durou um mês, estendido por duas semanas devido ao sucesso. O público se constituía da alta sociedade carioca e círculos de artistas[19].

o Show foi marcante pelo fato de ter sido a estreia de grandes sucessos da bossa nova. Entre eles, Só Danço Samba, Samba da Benção, O Astronauta, Samba do Avião e Garota de Ipanema, que nessa ocasião especial teve um introdução inédita escrita por Tom, Vinicius e João[19].

João Gilberto: Tom e se você fizesse agora uma canção/ Que possa nos dizer/ Contar o que é o amor? Tom Jobim: Olha Joãozinho/ Eu não saberia/ Sem Vinicius pra fazer a poesia

Vinicius de Moraes: Para essa canção/ Se realizar/ Quem dera o João/ Para cantar João: Ah, mas quem sou eu?/ Eu sou mais vocês/ Melhor se nós cantássemos os três Todos: Olha que coisa mais linda/ mais cheia de graça [...]

João inovou em Corcovado, composição de Tom Jobim, ao trocar o verso "um cigarro, um violão", por "num cantinho, um violão"[19], como ficou consagrado.

O show teve grande repercussão na mídia da época, ganhando várias capas de revista e elogios em jornais[20].

No documento Bossa Nova (páginas 52-54)