Ricardo Amaral, um empresário carioca, resolve promover uma turnê de Sérgio Mendes no Brasil. Fala com a Shell atrás de patrocínio e consegue agendar 17 shows a serem realizados em 20 dias, por todo o país, com cachê de 1 milhão de dólares por apresentação para o artista. O contrato incluía uma apresentação a ser gravada e transmitida pela TV Tupi, no Clube Monte Líbano, e uma apresentação a preços populares no Maracanãzinho, a última da turnê. Pelo tamanho do Maracanãzinho, o show foi "engordado" com outras atrações como Jorge Ben, Marcos Valle, Gal Costa, Maysa, Milton Nascimento, Os Mutantes, Gracinha Leporace, Pery Ribeiro e Wilson Simonal. Caso sobrassem ingressos eles serim comprados pela Shell e utilizados em promoções nos seus postos de gasolina.[1]
Wilson Simonal 115
Ficou acertado que Simonal faria o show que antecederia ao de Sérgio Mendes com os grupos Brasil '66 e Bossa Rio. No dia 5 de julho de 1969, trinta mil pessoas lotavam o Maracanãzinho, não tendo sido necessária a compra dos ingressos pela empresa patrocinadora.[1] O destaque negativo do show era o som dos Amplificadores que eram engolidos pelo barulho que vinha da platéia. Simonal entrou nervoso já que nunca tinha tocado para um público tão grande e, além do mais, para ele e sua banda aquele público estava ali para ver Sérgio Mendes. Mas o que aconteceu viraria notícia em toda a imprensa no outro dia: Simonal tocou seis ou sete músicas - apenas hits - e foi ovacionado, com a platéia cantando junto com ele durante todo o show, além de ter divido o público em vozes tal como fazia no seu antigo programa de tv durante "Meu Limão, meu Limoeiro".[1] O sucesso foi tanto que, quando o show terminou, Simonal desmaiou no camarim.[1]
Foi nesse clima que Sérgio Mendes subiu ao palco e iniciou sua apresentação. Quando começou a tocar "Pretty World" (sua versão de "Sá Marina") o público delirou.[1] Entretanto, quando as vocalistas de sua banda começaram a cantar a letra em inglês, a platéia começou em coro a gritar "Simonal! Simonal!".[1] Somente quando o cantor subiu ao palco para cantar "Sá Marina" o público sossegou. Sérgio Mendes acabaria sendo muito aplaudido quando tocou sua versão de Mas que Nada.[1] A cobertura da imprensa foi extremamente favorável a Simonal, enaltecido mais do que Sérgio Mendes por alguns (como Nelson Motta no jornal Última Hora[1]). O Pasquim tripudiou em cima de Sérgio Mendes, considerado vendido pelo tablóide[1], e publicou que Simonal "jantou" o músico niteróiense.[1] O impacto do show foi tão grande na cúpula de marketing da Shell, que estava assistindo a tudo no Maracanãzinho[1], que Simonal passou a ser sondado para assinar um contrato como garoto propaganda da companhia. Enquanto estava em conversações com a empresa, o cantor lançou o que viria a ser o seu maior sucesso comercial, País Tropical. Simonal conheceu a canção quando foi levado por Jorge Ben para assistir a um show de Gal Costa, com quem Jorge Ben estava tendo um caso.[1] Lá o cantor viu Gal cantar "País Tropical" e, ignorando a preferência dada por Jorge Ben para a cantora gravá-la, arrastou-o para o estúdio para mostrar a canção a sua banda.[1] Simonal fez grandes modificações na música, cortando estrofes inteiras, introduzindo menções ao slogan da Shell na época ("algo mais") e inventando um bis para a música no qual cantava-se apenas a primeira sílaba das palavras, criando o célebre termo "patropi", utilizado até hoje para referir-se ao Brasil.[1]
A Shell, após ter tido como garotos-propaganda Os Mutantes, avaliava que precisava de um grande nome (como Roberto tinha sido nos tempos do programa Jovem Guarda), já que acreditava que a parceria com o grupo paulista havia sido mais benéfica para os artistas do que para a companhia.[1] Assim, após a apresentação de Simonal no Maracanãzinho, a empresa acreditou que tinha achado o homem certo. No dia 16 de setembro de 1969, o artista assinou um contrato de publicidade com a Shell, sendo chamado pela imprensa da época de "o mais fabuloso contrato de publicidade já assinado no Brasil"[1], com uma duração inicial de seis meses, sendo que o contrato foi renovado em março de 1970 por mais um ano, com condições ainda mais vantajosas para Simonal.[1]
Simonal já vinha há algum tempo flertando com a ideia de tomar conta da própria carreira autonomamente, criando uma pessoa jurídica que faria toda a sua movimentação financeira, reduzindo custos e tributos. A convivência com Sérgio Mendes, que era "empresário de si próprio", e João Carlos Magaldi, publicitário de muito sucesso na época, assim como os exemplos de músicos de fora como Frank Sinatra que tinha fundado a Reprise Records e os Beatles que haviam iniciado a Apple Corps, levaram Simonal a conclusão que este era o melhor caminho a seguir para sua carreira.[1] Assim, no dia 12 de setembro de 1969, o cantor juntou alguns amigos, entre eles o empresário Ruy Brizolla, para tocarem a produtora e criou a Simonal Produções Artísticas.[1]
No mês seguinte, o contrato com a Shell começou a render seus frutos. Magaldi tinha excelentes contatos na Globo, por ser padrinho de casamento de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho e havia sido seu sócio em uma empresa,[1] e conseguiu que Simonal fosse indicado presidente do júri do IV Festival Internacional da Canção, que ele fizesse o show de entreato da final e, também, que ele seria o embaixador do evento no ano seguinte.[1] No dia 4 de outubro de 1969, Simonal subiu ao palco do Maracanãzinho, dessa vez com várias pessoas segurando cartazes em referência ao cantor, outras com bandanas na testa, tal qual Simonal, e regeu o público como se fosse um coral novamente, dividindo a platéia em vozes durante "Meu Limão, meu Limoeiro".[1]
Wilson Simonal 116
Em novembro de 1969, chegaram as lojas o quarto e último álbum de Simonal com o título de Alegria, Alegria. Tentando aproveitar-se do sucesso de "País Tropical" e do show de encerramento do FIC no Maracanãzinho, o disco continha como subtítulo o monólogo introdutório do cantor na música, Homenagem à Graça, à Beleza, ao Charme e
ao Veneno da Mulher Brasileira, além de suas capa ser imagem do cantor durante o show. O disco vendeu bem,
trazendo ainda a música "Que Maravilha", uma composição de Jorge Ben e Toquinho.[1] No mesmo mês, o músico foi o anfitrião da festa do milésimo gol de Pelé: como o jogador também era patrocinado pela Shell, a empresa promoveu o show, que ocorreu no dia da bandeira daquele ano, e, nada mais natural, chamou seu outro contratado para ser o mestre de cerimônias.[1]