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Mulheres do campo, das florestas e das águas

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CAPÍTULO III – A ASBRAER NA REDE SOCIAL FACEBOOK

4.4 Ater e relações de gênero, geração e etnia

4.4.1 Mulheres do campo, das florestas e das águas

Público fundamental nas preocupações da Política Nacional de Ater, as mulheres receberam atenção discreta entre as publicações feitas pela Asbraer na Linha do Tempo, do total de postagens feitas pela entidade, apenas 7 destacaram o público feminino em ações diversas. Duas delas ressaltaram a posse de presidentes de entidades estaduais de Ater. Em 13 de março a Asbraer noticia em seu perfil no Facebook a posse da nova presidenta do Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins (Ruraltins-TO), uma das entidades estaduais de Ater. No texto, é enfatizado que a empossada é a primeira mulher a assumir a direção do órgão máximo de Ater no Tocantins e que a posso havia ocorrido no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher (RURALTINS, 2012b). Em 21 de maio é a vez de uma mulher assumir o comando geral de outra entidade Associada à Asbraer, o Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável (Emater-AL), órgão vinculado à Secretaria da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário de Alagoas (Seagri). A Asbraer registrou em seu Facebook a posse da nova presidente, no dia 23 de maio de 2012, com a postagem “Inês Pacheco é nomeada presidente diretora da Asbraer”. Em ambos os casos é apresentado um perfil das novas gestoras, com suas realizações, cargos e funções político-administrativas mais importantes. Embora não se trate de agricultoras familiares ou de outras beneficiárias da PNATER, é relevante o fato de o relato apresentar a posse de mulheres aos cargos máximos de entidades estaduais de Ater, visto que a função, em grande parte, é quase sempre exercida pela figura masculina. Das 27 entidades estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural, apenas 3 – Alagoas, Pará e Tocantins – possuem mulheres no cargo máximo da instituição, configuração que se reflete na configuração da própria Asbraer, formada pelos dirigentes de cada estado.

As demais publicações com enfoque nas mulheres rurais – 5 ao todo – tratavam de ações diversas de extensão rural realizadas pelas entidades estaduais no sentido de favorecer a inclusão produtiva e o aumento da renda entre esse público. Três delas destacavam a realização e cursos de capacitação, uma delas divulgava a realização de um seminário e outra trazia a história de uma agricultora que realizava a produção de farinha de mandioca para comercialização. Esta última postagem, intitulada “Agricultora familiar do Pará exporta farinha para Portugal” contava a história de uma mulher rural, líder comunitária, que era apontada como “um dos destaques na diversificação e na qualidade da produção familiar local”, da cidade de Igarapé Preto, estado do Pará. Por meio de assessoria técnica da Emater-PA, diz o texto, a agricultora chegou a exportar parte de sua farinha para a Europa. Além de receber orientações sobre o manejo adequado do plantio da mandioca, a produtora também recebeu apoio para trabalhar a identidade visual de seu produto e na regularização fiscal de suas vendas. Ao que

parece, a assistência prestada possibilitou que cultivadora se tornasse um modelo para a região e buscasse voos ainda mais amplos: “Nossa exportação ainda é tímida por que não estamos regularizados, nossa intenção também é patentear nosso produto”, ressaltou a produtora rural no texto disponível no site institucional da Asbraer (EMATER-PA, 2012a).

Entre os encontros de formação destinados às mulheres rurais promovidos pelas entidades estaduais de Ater e que foram divulgados no perfil do Facebook da Asbraer, três deles abordam iniciativas voltadas ao fortalecimento de cadeias de produção e comercialização de artesanato. Em 29 de março, a Associação divulgou uma iniciativa da Emdagro-SE – “Emdagro promove seminário para 160 artesãs de 14 municípios sergipanos” – em que apresentou um seminário voltado à integração e intercâmbio entre as mulheres artesãs, realizado na cidade de Itabaiana. Esta publicação afirmava que a iniciativa buscava “atender a Chamada Pública nº 26, Contrato 161 do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)”. De acordo com a publicação, este contrato tinha o objetivo de atender à cadeia produtiva do artesanato, “com qualidade e sustentabilidade de produção e da comercialização” (EMDAGRO-SE, 2012).

Esta é uma das poucas ações que identificamos que se tratava de um projeto financiado pelo MDA e que foi selecionado por meio de Chamada Pública, modalidade contratação de serviços de Ater prevista na Lei 12.188 – Lei de Ater –, por meio das quais entidades vinculadas aos governos estaduais e Organizações Não-Governamentais concorrem em busca de recursos para suas atividades. O encontro promovido pela Emdagro-SE, divulgado pela Asbraer em seu perfil no Facebook, marcava o encerramento das atividades financiadas pelo Contrato 161 do MDA, o que colocaria em risco a continuidade das atividades de formação e articulação das 160 artesãs dos 14 municípios as que o texto se referiu. Um das críticas feitas ao modo de financiamento proposto pela Lei de Ater, 12.188, para a contratação das ações específicas junto a agricultores familiares e demais beneficiários da Política Nacional de Ater – as Chamadas Públicas – é que para ter continuidade as ações dependem da aprovação de projetos em novas chamadas. Caso a entidade não consiga aprovar um projeto numa das Chamadas Públicas propostas pelo MDA, o trabalho corre um sério risco de ser encerrado prematuramente sem que os processos propostos pela Ater tenham sido concluídos ou fortalecidos. No seminário realizado pela Emdagro-SE com as artesãs sergipanas, essa era uma das preocupações dos técnicos ali presentes, sendo externada por um diretor de Ater da organização: “esse trabalho não acaba por aqui por que ele vai continuar, independentemente de outra chamada pública, pela presença permanente da Emdagro com as populações rurais, consolidando as conquistas que se realizaram nessa etapa” (EMDAGRO-SE, 2012). O fato de a entidade oficial de Ater de Sergipe ser um órgão público, que conta com verbas daquele estado na realização de parte de

suas atividades minimiza esse risco iminente. No entanto a chance de a Emdagro-SE não ser contemplada em novas chamadas públicas do MDA para projetos dessa natureza põe em risco o acompanhamento a ser dado às artesãs dos municípios atendidos.

No dia 15 de maio, “Agricultoras familiares de Irecê aperfeiçoam técnica de pintura em tecido” foi o título da publicação feita pela Asbraer, relatando um curso que seria promovido pela EBDA-BA para 15 mulheres da região. Em 23 de maio a Associação divulgou outra iniciativa de Ater da EBDA-BA junto a mulheres artesãs: “EBDA desenvolve ações em parceria com associação de artesanato”. A publicação destacou as ações feitas em parceria com mulheres rurais ligadas à Associação Mulungu do Sol, que contava com a participação de 10 agricultoras familiares. Neste caso, há uma ênfase na atuação das próprias mulheres, que mantêm uma “relação com a EBDA de dar e receber. (...) A parceria (com a EBDA-BA) foi consolidada na troca de conhecimentos” (EBDA, 2012d), conforme afirma a responsável pela Associação Mulungu do Sol, entidade localizada no município baiano de Mulungu do Morro. A partir do link disponibilizado na Linha do Tempo da Asbraer no Facebook, tivemos acesso ao texto por completo da publicação. Nele encontramos o relato de que as agricultoras de Mulungu são estão inseridas em outras políticas por meio da Ater, como a comercialização de polpas de fruta para escolas da região, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Segundo o texto, as artesãs são estimuladas a produzirem diversos artigos, como bolsas, porta-retratos, quadros decorativos, pulseiras, colares, entre outros, utilizando-se de materiais disponíveis na própria região, cabendo à EBDA-BA favorecer a inserção e comercialização dessa produção em estandes de feiras realizadas em toda a região. Além disso, segundo a publicação, as mulheres rurais também exercem um papel importante de formadoras de outras agricultoras, conforme destaca o depoimento de uma das responsáveis pela Associação Mulungu do Sol:

Já ministramos cursos de artesanato para outras agricultoras familiares a pedido da EBDA, assim como também por meio de cursos de derivados de umbu, a Empresa nos ensinou a aproveitar esta fruta que tanto a gente via ser desperdiçada, por não saber como aproveitá-las (EBDA, 2012d).

As experiências acima, divulgadas pela Asbraer em sua Linha do Tempo no Facebook, apresentam ações das entidades estaduais de Ater, associadas à Asbraer, em que as mulheres aparecem como o público principal. Sobretudo em relação à sua inserção econômica e política. No entanto, vale ressaltar que o número de publicações que tratam abertamente de questões de gênero e da valorização da mulher rural foi bastante reduzido em relação ao total – 7 entre 153. Se levarmos em consideração que o período analisado foi de três meses, temos uma média de publicações de pouco mais de duas postagens por mês, o que revela que num espaço de 30 dias

as mulheres rurais só aparecem prioritariamente de duas a três vezes. Chamou nossa atenção também a ausência de algumas temáticas relacionadas à garantia dos direitos às mulheres, como a divulgação de iniciativas de combate à violência contra a mulher rural; ao fomento de implantação de creches e unidades infantis de ensino – que possibilitariam à mulher dedicar-se por mais tempo a outras atividades; ao incentivo à participação feminina em fóruns políticos, movimentos sociais, sindicatos rurais; entre outras questões.

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