PARTE II – DO ANTIFASCISMO A UMA NOVA AGENDA FEMINISTA
CAPÍTULO 5 Anos 60, os ventos para uma nova vaga dos feminismos não chegam a Portugal
3. Mulheres na clandestinidade e nas prisões
Em Maio de 1961, saiu clandestinamente da prisão de Caxias um manifesto político, sob a forma de 13 cartas escritas por mulheres presas pela PIDE, denunciando as condições em que viviam. Na investigação que realizou, a jornalista São José de Almeida obteve nove dessas cartas e divulgou, no jornal Público de 20 e 21 de Novembro de 2004, alguns dos seus extractos. São documentos impressionantes, como ela própria afirma, escritos por militantes clandestinas do PCP.289 O objectivo das cartas seria a sua leitura numa reunião internacional em Paris, promovida pela FDIM, Federação Democrática Internacional das Mulheres, ligada aos partidos comunistas pró- soviéticos. O Diário de Lisboa de 12 de Outubro de 1961 noticiava: ―julgamento de duas senhoras acusadas de pertencerem ao Partido Comunista‖. Cândida Ventura e Alda Nogueira são as duas mulheres julgadas na altura. ―Acusadas de actividades subversivas‖, assim se referia no Diário da Manhã. 290
Também em 1962 é presa pela PIDE, por alegado envolvimento no golpe de Beja, Maria Eugénia Varela Gomes. É mantida isolada desde 6 de Janeiro até meados de Abril. É sujeita a tortura do sono numa acção coordenada pelo chefe de brigada Mortágua e chefiada pelo inspector Pereira de Carvalho. Das memórias dessa época, Maria Eugénia Varela Gomes recorda:
―Estive com a Albina Pato e a Natália David, as duas primeiras comunistas encartadas que eu conheci (...). Descobri uma coisa que me deixou horrorizada: enquanto eu tinha a visita com a família numa sala e os filhos vinham ao meu colo e davam beijinhos elas era no parlatório. Os filhos iam
288
CRUZEIRO, Maria Manuela, BEBIANO, Rui (2006), op. cit., p. 39.
289 Maria Luísa Costa Dias, Maria Albertina Diogo, Ivone Dias Lourenço, Aida Magro, Maria da Piedade
Gomes dos Santos, Maria Ângela Vidal Campos, Aida Paula, Maria Alda Nogueira, Fernanda de Paiva Tomás.
290
ao parlatório. Um dos pequenos da Albina, cada vez qe ia à cadeia, ficava com febrões de 39. Uma coisa dramática. Eu fiquei para morrer e disse «Isto é uma coisa perfeitamente incrível, eu vou escrever ao director da cadeia». Foi então que as duas me disseram «Não faças isso, que é a maior estupidez que tu vais fazer (...) Vais escrever e perdes o que tens, sem qualquer benefício para nós». (...) Acontece que a primeira visita que eu tive a seguir a escrever a carta foi mesmo para o parlatório. Mas não me arrependi‖.291
Sessenta, foi a década em que as mulheres passaram a ser torturadas tal como os homens, procedimento anteriormente pouco comum, segundo Alda Nogueira: ―Por sistema, a polícia política não batia nas mulheres, nem as obrigava à tortura do sono‖
(PIMENTEL, 2007: 112). Houve, contudo, excepções. Em 1949, ―Sofia Ferreira tinha sido espancada com um cassetête e esbofeteada com tal violência, que ficou com um derramamento de sangue no olho esquerdo e perturbações auditivas durante muito tempo. Mais tarde, na segunda prisão, em 1959, foi submetida à tortura da estátua‖.292
A partir de 1960, as torturas da estátua e do sono passaram a ser mais aplicadas. Albertina Diogo foi a primeira mulher a sofrer a tortura do sono às mãos da PIDE. Presa durante 6 anos foi alvo de inúmeros interrogatórios e esteve sujeita à tortura do sono durante uma semana. Natália David, presa em 1961, foi submetida à tortura da estátua. Fernanda Paiva Tomás, presa no mesmo ano, quando era funcionária do PCP, esteve oitenta horas consecutivas sem dormir, numa primeira fase e noventa e quatro horas, numa segunda fase.
Uma violência exacerbada foi exercida pela PIDE sobre muitas outras mulheres: Albertina Diogo, Maria Galveias, Maria da Piedade Gomes dos Santos, Maria Ângela Vidal, Aida Magro, Conceição Matos, Maria José Lopes da Silva, Mariana Janeiro, Maria Rosa Viseu, Maria Custódia Chibante e Olímpia Brás. Estas últimas eram trabalhadoras agrícolas no Couço, sofreram espancamentos brutais e foram as que mais arcaram com as torturas infligidas. As agentes da PIDE Madalena, Assunção e Odete para além dos ―célebres‖ inspectores Tinoco e Mortágua eram os nomes mais temidos por todas elas.
Muitas destas mulheres ficaram com registos de memória, que as acompanharam, dolorosamente, durante anos. Foi o caso de Conceição Matos.
―Durante o período de interrogatórios, mais do que a tortura do sono a que me submeteram durante três dias e três noites, atingiu-me uma outra tortura, que me persegue ainda em pesadelos. Na altura dos interrogatórios, o inspector Tinoco da PIDE deu ordem para não me deixarem ir à casa de banho. Tinha de fazer as necessidades no chão – disse ele – e seriam limpas
291 CRUZEIRO, Manuela (2003), op. cit. pp 221-222. 292
com a minha roupa. Aguentei-me o mais que pude, andava curvada, cheia de dores no ventre mas depois tive mesmo de fazer. E os agentes foram-me despindo e limpando o chão com as minhas roupas até que fiquei em combinação. Nesse período, em consequência do nervosismo veio-me a menstruação e eu não tinha sequer um papel, nem podia lavar-me.‖293
Conceição Matos, antes de ser presa, sabia dos métodos utilizados pela PIDE, mas estava longe de imaginar que chegassem a tal extremo. Três dias após estes interrogatórios fizeram-na regressar ao edifício da António Maria Cardoso294. Despiram-na à frente de vários agentes da PIDE que quiseram fotografá-la despida, totalmente nua. Esbofetearam-na, deram- lhe pontapés, deram-lhe socos no queixo, obrigavam-na a manter-se de pé.295
Albertina Diogo, presa em 1960, na mesma altura que o marido, Guilherme da Costa Carvalho,296relata da seguinte forma alguns dos momentos que mais a marcaram:
―Eles disseram: «a senhora está presa». Eu tinha 28 anos, era uma jovem, inexperiente, mas de forma enérgica respondia sempre a eles e disse-lhe: «os senhores não me levam daqui da forma como estou» (...). Como insisti que queria levar uma mala, eles foram à dispensa, eu disse a mala que queria e eles tiraram-na. Peguei numas peças de roupa mas eles não deixaram eu ir ao guarda-fato, pois andavam a inspeccionar tudo (...). Entrei em Caxias às 4 horas da manhã. Mas passei primeiro pela sede da PIDE, onde fui interrogada. Eles queriam saber nomes, como eu tinha sido ―aliciada‖, quem era o pai dos meus filhos. Eu disse-lhes: «Eu não respondo a quem não conheço».
Nessa altura, Albertina Diogo ainda não sabia que o seu marido tinha sido preso, mas admitia que tal tivesse acontecido. A mala que transportava foi com ela para Caxias, mas ficou na secretaria. Na altura em que foi revistada ficou em cuecas e soutien.
―Durante 10 dias não tive uma peça de roupa para mudar, nem sequer cuecas. Com o período menstrual. Sem ter nada que me valesse. O que vale é que tínhamos água quente na casa de banho. À noite lavava as cuecas colocava-as junto às grades na janela e no outro dia vesti-as. Fui para uma cela sozinha onde estive 40 dias incomunicável, sem falar com ninguém (...) A minha cama era de ferro com um cobertor todo esfarrapado. Uns lençóis muito negros, daquele pano-cru, muito ásperos. Eu nem me deitei nos lençóis. Pus-me em cima daqueles trapos com o meu casaco‖.297
Irene Pimentel (2007) refere no seu livro: A História da PIDE, que era habitual surgir o período menstrual a presas, nos períodos de fortes interrogatórios e que não lhes era permitido utilizarem qualquer tipo de protecção. Também Paula Mendes Godinho no seu estudo sobre a
293 Depoimento de Conceição Matos à revista Mulheres de Novembro de 1983. 294 Nome da rua onde se situava a sede da PIDE.
295
OLIVEIRA, Maria José, ―Conceição Matos -a memória incólume‖, in Público, 5 de Março de 2005, pp. 12-13.
296 Guilherme da Costa Carvalho já tinha estado preso no Tarrafal e depois em Peniche de onde fugiu, na
mesma altura que Álvaro Cunhal.
297
resistência rural no Couço, refere que uma das presas de nome Maria Galveias relatou ter estado sujeita a interrogatórios durante onze dias sem que lhe tenha sido permitido lavar-se.298
Sobre a tortura do sono, Albertina Diogo, recorda esses dias com grande mágoa, pois ficou uma semana em tortura de sono na sede da PIDE.
― Eu perdi a noção de tudo, não via a luz do sol, dentro de uma sala fechada com aquelas vozes que eles faziam para destrambelhar a nossa cabeça. (…) Aquilo era por turnos, quando chegava à meia-noite, entravam outros pides de turno. Como eu não falava estava sempre um à minha volta a massacrar. E ele dizia: ―então minha senhora, você está a gostar disto, não está?‖. O Rosa Casaca dizia: ―ela gosta disto; ela só sai daqui quando falar; se não falar sai daqui, mas para o cemitério‖. Depois vinha o Sardinha a fazer perguntas e depois o Saccheti. Depois juntavam-se os dois. Eu não dizia nada. Depois comecei a rejeitar a comida. Queriam dar-me comprimidos. Eu sempre que podia guardava-os na boca e depois ia à casa de banho e deitava- os fora. Tinha vómitos. Puseram-me um colchão no chão e dormi lá. Quando me levaram para Caxias eu queria calçar os sapatos e não podia. As pernas pareciam uns madeiros. Muito amarela, muito desorientada. Eu parecia um farrapo. Levaram-me para uma cela onde não estava ninguém. Eu tinha problemas de vesícula.(…) Passados uns dias mudaram-me para uma sala onde estavam várias amigas. As mulheres do Couço estavam lá e diziam: ―ai como ela vem‖. Outras diziam: «deixem-na dormir; ela só acorda quando terminar o efeito do comprimido». Estive muitas horas a dormir‖.299
Maria da Piedade Gomes dos Santos foi outra das mulheres que teve graves problemas de saúde, pois na altura em que foi presa estava grávida e acabou por abortar na cadeia, tendo ficado com uma infecção de tal forma grave, que tiveram de a levar de ambulância para o julgamento. Quando saiu da cadeia pesava 52 quilos. Na carta que escreve em 1961, integrando o manifesto político que saiu de Caxias nesse ano, afirma: ―No acto da minha prisão fui esbofeteada e não me permitiram trazer comigo qualquer peça de vestuário, além do que tinha no corpo, e assim me mantiveram cerca de mês e meio, apesar dos meus protestos‖.300
Idêntica situação tinha acontecido com Albertina Diogo, como foi anteriormente referido. Esta forma de tratar as presas era uma das formas de fazer baixar a sua moral e de procurar que elas ficassem mais vulneráveis durante os interrogatórios.
Existiam mulheres que foram alvo de prisões sucessivas e, ainda, as que sofreram pesadas condenações de nove e mais anos.
298
GODINHO, Paula (1998), Memória da resistência Rural no Sul: Couço (1958-1962), dissertação de doutoramento, departamento de Antropologia, FCSH, Universidade Nova de Lisboa.
299 Entrevista a Albertina Diogo já referida.
300 ALMEIDA, São José, ―Cartas Manifesto de mulheres na prisão de Caxias II‖, in Público, 21 de
Fernanda Tomás foi a mulher que mais tempo seguido esteve presa: nove anos e nove meses. Era licenciada em Românicas e, na carta que escreveu em 1961, refere que estava presa porque não era míope e tinha coração e cérebro.
―Aqui no Forte de Caxias, sujeita a restrições, a arbitrariedades de requinte, premeditadamente desumanas, material e psicologicamente cruéis. Não posso beijar o meu filho de cinco anos e a minha velha mãe de 70 anos. Gestos naturais de carinho têm de ser recalcados, conversas íntimas estancadas porque o parlatório, as redes e a distância nos separam da família e um guarda escuta-nos de perto e ostensivamente.‖301
Alda Nogueira ficou presa nove anos e três meses. Ela também é uma das autoras das ―cartas manifesto‖ escritas em 1961 e publicadas no Público em 2004: ―Ao longo destes 19 meses cujos dias foram passados 24 horas ou 23 horas e meia numa cela debaixo de terra como todas as do Forte de Caxias que é subterrâneo, razão porque aqui a humidade é constante, o que muito contribui para o agravamento de uma doença reumática de que sofro‖. Ângela Vidal que foi libertada em Março de 1962, oito anos e nove meses após a sua detenção, quando a GNR de Albufeira invadiu uma casa clandestina do PCP. Apesar de uma saúde muito frágil, o que ocasionou que um conjunto de advogados decidissem fazer uma queixa à ONU, intenção gorada pelo facto destes terem sido detidos e sujeitos a interrogatórios, esteve todos esses anos presa.
A primeira mulher que se evade da prisão foi Georgete de Oliveira Ferreira, em 1950. “A minha evasão foi cuidadosamente preparada e estudada por mim”. 302 Georgete de Oliveira estava muito doente e aproveitou uma das idas ao hospital para fugir. Nesta fuga teve o apoio da família e do PCP. ―Adélia Terruta foi a segunda mulher a fugir de um hospital, neste caso de Santa Maria, quando aí se deslocou para uma consulta de ginecologia‖ (PIMENTEL, 2007 B:453). Contudo, estes casos constituem excepções, pois as fugas organizadas eram sobretudo de homens.
Segundo a historiadora Irene Pimentel,
“Existe nos arquivos da PIDE uma carta de uma presa que escreve à irmã
onde se lamenta por que razão só os homens é que podiam fugir das prisões e elas não. Até porque elas muitas vezes adoeciam e uma das repressões muito utilizada pela PIDE era «o não tratamento». Até houve casos de aborto e outros muito complicados. Algumas estavam mesmo em perigo de vida. Só que o partido comunista não organizava essas fugas para se salvarem pessoas, mas para libertarem os funcionários que mais interessavam para a luta política. Nas fugas colectivas os homens eram sempre os escolhidos‖. 303
301 Ibidem. p. 16.
302 MELO, Rosenery Nobre (1975), As mulheres portuguesas na resistência, Seara Nova, Lisboa, p. 68. 303
Helena Neves, militante comunista na altura, afirma que não tem dúvidas que as mulheres foram extremamente importantes na luta clandestina do PCP. Contudo, o papel de companheira que lhe foi atribuído nas ―casas do partido‖, teria sido muito limitador da sua afirmação e evolução política. Aida Magro, na Voz das Camaradas, boletim interno do PCP destinado às militantes que trabalhavam nessas casas, escreve um artigo, sob o pseudónimo de Eva, intitulado ―O momento actual e a urgente necessidade de estudo e preparação política‖, onde refere a importância ―das camaradas das casas do partido fixarem um horário para estudo e para a leitura do jornal‖.(TENGARRINHA, 2004:61-62)
Margarida Tengarrinha no seu livro ―Quadros de Memória‖ (2004) refere o grande isolamento e as carências afectivas sentidas pelas mulheres, que viviam na clandestinidade com a tarefa das ―casas do partido‖. Esta situação não seria tão sentida pelos homens, pois eles saíam de casa, tinham o seu trabalho de organização, contactavam com outras pessoas amigas do partido, ―gente que vivia uma vida normal, com quem conviviam, conversavam e faziam as suas petiscadas‖.
―Nós, as «camaradas das casas do partido» podíamos ter tarefas interessantes, mas sempre dentro de casa e tendo a cargo a sua defesa. Por vezes, passávamos sozinhas, dias seguidos, quando os camaradas se ausentavam (...) Quando leio relatos de vários camaradas, que já foram publicados, constato que falam de factos políticos, momentos altos e heróicos de luta, mas nunca abordam estas questões do quotidiano que nós, mulheres, vivemos pacientemente. Será que foi menos heróico aquele nosso dia a dia, desgastante e obscuro?‖ (TENGARRINHA, 2004: 62-63)
Margarida Tengarrinha levanta esta interrogação, reflectindo ainda sobre a dramática situação de separação dos filhos, quando estes atingiam a idade escolar e se tornava impossível mantê-los nas casas clandestinas.
―A força do partido éramos nós‖, afirma Albertina Diogo, em entrevista concedida a 9 de Março de 2007.
―Na clandestinidade eu tive acesso à «Voz das Camaradas». Aquilo que nós escrevíamos era aí publicado e eram esses artigos de umas para as outras, que nos davam alento e a coragem necessária para enfrentar aquela vida. Para quebrar o isolamento. Quando vinha aquele jornal era uma luz luminosa que nos entrava. Eu cheguei a escrever com o nome de Helena. (…) Nas casas do partido, as mulheres não participavam na discussão política. Assistiam, às vezes, a uma apresentação da situação política. Eles reuniam, eu entrava no quarto e punha as refeições e tornava a sair. Eles estavam às vezes dois ou três dias seguidos a debater. Era só para os dirigentes. Nos dirigentes havia poucas mulheres. Quem eu conhecia, nesse tempo, era a Cândida Ventura, a Maria Alda Nogueira, a Fernanda Tomás. As mulheres que estavam nas casas do partido acabavam por ter um papel não reconhecido: tratavam da vigilância da casa, da lida da casa, escreviam
algumas coisas à máquina. Eu escrevia à máquina, muitas coisas que o meu marido escrevia à mão. Eu às vezes dizia-lhe: «tu tens tanta paciência, és carinhoso, porque é que não me ensinas mais coisas; não tens tempo, mas olha que mais tarde vai fazer-me falta mais conhecimentos». Ele dizia, «agora não, agora não»; ele tinha sempre muito trabalho, é verdade, mas eu sentia necessidade de maior apoio. O papel que nos era dado era mais subalterno do que a responsabilidade que na realidade tínhamos. Eu fui carente em tantas explicações por não haver tempo. Na prisão cheguei a dizer isto à Maria Alda. E ela compreendeu e esforçou-se imenso para me ensinar aquilo que eu não sabia. Nunca mais esqueço a Maria Alda e outras camaradas que também me apoiaram: a Fernanda, a Julieta. A Maria Alda ensinava-me Matemática e também História, a Fernanda era as Letras e a Julieta era um conjunto de tudo, conhecimentos gerais. Era uma verdadeira escola. As alunas eram eu, a Sofia Ferreira, a Aida Paula, a Luísa Paula e a Lucrécia, mas esta era mais velha. A Ivone Dias Lourenço tinha mais jeito para desenhos‖.
Albertina Diogo foi uma mulher de grande coragem, que recorda esses tempos sem amargura: “É certo que o nosso papel deveria ter sido mais valorizado, mas não estou nada arrependida daquilo que fiz. Aprendi também muita coisa. Adquiriu-se muita experiência. Mesmo na prisão aprendi muitas coisas com as outras camaradas que também estavam presas‖. Ivone Dias Lourenço considerou que o convívio naquela cela foi, para a maioria das presas, a primeira experiência de partilha e luta em comum, já que as clandestinas do PCP tinham como função guardar e manter as casas clandestinas e raríssimas vezes se reuniam entre si ou com os homens.304
Nas vivências de prisão surgiram amizades e relacionamentos que marcaram a vida de algumas militantes. Foi o caso de Fernanda Paiva Tomás e de Julieta Gandra305, cujo relacionamento afectivo íntimo constituiu, para a época, uma transgressão às regras moralistas imbuídas na sociedade e no próprio Partido Comunista. Segundo Maria Teresa Horta, ―Mesmo após o 25 de Abril havia silêncio à volta do assunto; não por elas, que não escondiam. Mas em relação à mulher é mais difícil falar-se, não há homossexualidade feminina, porque não há sexualidade feminina. Imagine-se o que é duas mulheres assumirem uma relação dentro de uma cela de uma cadeia da PIDE cheia de presas do PCP. É um acto de transgressão máxima‖.306
A vida de muitas mulheres ficou marcada pela clandestinidade e pelas sucessivas prisões. As que viviam nas casas ilegais designadas por ―casas do partido‖ tinham de
304 ALMEIDA, São José, ―Cartas manifesto de mulheres na prisão de Caxias‖, in Público de 20 de
Novembro de 2004, pp. 12-13.
305 Julieta Gandra era médica, exercia medicina gratuita, viveu em Angola e apoiou o MPLA. Foi presa
pela PIDE a 29 de Março de 1959.
306 ALMEIDA, São José, ―1917-2007, Julieta Grandra: a transgressora, feminista e anticolonialista‖, in
construir uma vida inventada. Eram tratadas simplesmente por ―Maria‖ por muitos dos seus camaradas e as suas funções mais valorizadas eram as tarefas caseiras, que muitas vezes nem sequer ―eram respeitadas ou poupadas, como por exemplo arrumando a roupa ou não deitando beatas para o chão‖, assim se queixava uma dessas funcionárias no boletim interno ―3 Páginas‖.307
Contudo, quando uma casa era assaltada pela polícia política a funcionária tinha como missão queimar todos os apontamentos, jornais, comunicados comprometedores e proteger a fuga dos camaradas deixando-se prender