PARTE II – DO ANTIFASCISMO A UMA NOVA AGENDA FEMINISTA
CAPÍTULO 5 Anos 60, os ventos para uma nova vaga dos feminismos não chegam a Portugal
1. Recuos nas fronteiras do proibido e pouco mais
A segunda vaga dos feminismos centrou-se na autonomia do sujeito-mulher, na sua liberdade de escolha em todos os campos: da profissão, ao amor, à sexualidade.
―Temps de «révolution sexuelle» au double sens du terme: relations entre les sexes et la pratique de la sexualité. Liberté de la contraception, rupture avec le mariage et la famille traditionelle, liberté sexuelle, hétéro e homosexuelle...sont autant d´innovations dues en grande partie aux féminismes occidentaux et qui ont bouleversé les structures millénaires de la «domination masculine». On peut enfin envisager de «dissoudre la hiérarchie» du masculin et du féminin qui organisait l’ordre symbolique du monde » (PERROT, 2004:11).
A ideologia do Estado Novo no domínio da sexualidade teve sobretudo como objectivo, a identificação da função sexual da mulher com a sua função reprodutora. ―O acto sexual por prazer desonrava a mulher. Reconhecer oficialmente e publicamente à mulher o direito à sexualidade conduziria ao aniquilamento de todo o edifício da ideologia corporativista, que fazia da família a célula base da sociedade e da mulher a dedicada e casta esposa‖.214
A descoberta e lançamento da pílula contraceptiva, no início dos anos 60, constituiu na maioria dos países, um novo poder para as mulheres, o do controlo da sua sexualidade. A dissociação da sexualidade da reprodução representou para as mulheres a libertação de gravidezes não desejadas e criou condições para que elas pudessem viver melhor a sua sexualidade. Nas relações entre as e os jovens permitiu um relacionamento mais aberto nas vivências comuns de uma libertação, que chegava à esfera mais íntima do privado. Contudo, em Portugal, a pílula foi proibida de ser prescrita como prática contraceptiva. É o próprio Oliveira Salazar que afirma que as mulheres não atingem a felicidade pelo prazer, mas sim pela renúncia. Numa sociedade com um grande domínio do catolicismo, o sexo equivalia ao pecado.
Neste quadro de fundo conservador do país, os anos 60 trouxeram, contudo, algumas alterações ao nível dos costumes que, segundo Ana Paula Alão, não constituindo uma revolução sexual, conseguiram ―recuar um pouco a fronteira do
214 PAIS, José Machado, ―Austeridade e moralismos nos valores estéticos‖, in Portugal Contemporâneo,
proibido‖ (ALÃO, 1996:367). Estas transformações ocorreram paralelamente à fase de maior industrialização do país, de abertura às empresas estrangeiras que empregam a mão-de-obra mais barata das mulheres, em especial a partir da segunda metade da década de 1960. Este foi também o período de uma nova vaga de emigrantes com destino à Europa, em especial para a França e Alemanha (RFA). Apesar do regime salazarista reconhecer formalmente o direito à emigração, as exigências colocadas (diploma de 3ª classe, cumprimento dos deveres militares e, no caso das mulheres, autorização do marido, do pai ou tutor) constituíam entraves que empurravam para a emigração clandestina. A partir dos finais da década de 1960, as mulheres passam a ter maior peso na emigração, fruto do grande número de famílias inteiras que partem.
As barreiras impostas à convivência entre rapazes e raparigas começaram a romper-se, em especial no ensino universitário. A polémica criada em torno da ―Carta a uma Jovem Portuguesa‖, na universidade de Coimbra, que posteriormente será analisada, demonstra que a necessidade de ruptura de concepções estava colocada, apesar das reacções conservadoras que ainda se faziam sentir. Uma nova concepção do amor e da sexualidade iniciava a sua gestação, colocando-se em causa a moral do sistema, mas os reflexos dessa mesma moral ainda se faziam sentir em muitas situações. As alterações ao nível do vestuário, por exemplo, com o uso de calças por parte das raparigas, marcavam também um desejo de igualização em relação aos rapazes e uma nova revalorização do corpo, constituindo um terreno de luta de muitas jovens.
Contudo, um inquérito à situação dos universitários relativo ao ano lectivo de 1963/1964, realizado junto dos estudantes de Coimbra, Lisboa e Porto,215 revelava que a modernização em termos de costumes ainda era muito limitada. Sobre o casamento e comportamento sexual admitia-se que para os rapazes poderia ser útil terem experiências sexuais antes do casamento, o mesmo não acontecendo para as raparigas.216 Em relação aos meios anticoncepcionais apenas 15,3% dos e das estudantes consideravam lícitos todos os meios conhecidos e de resultados
215 CODES/JUC, Gabinete de Estudos e Projectos de Desenvolvimento Sócio-Económico/ Juventude
Universitária Católica (1967), Situação e opinião dos universitários. O inquérito foi realizado no ano lectivo de 1963/64, mas só foi publicado três anos mais tarde. Foi o segundo inquérito promovido pela JUC; o primeiro tinha sido feito em 1958, quando do I Congresso da JUC e da JUCF: ―Situação Universitária Portuguesa‖.
216 A experiência sexual antes do casamento era considerada útil para os rapazes na opinião de 40,4% dos
universitários e de 18,9% das universitárias. Em relação às raparigas, tal experiência só era vista como útil por parte de 8,6% dos alunos e 5,6% das alunas. Consideravam a experiência sexual antes do casamento repreensível para os rapazes 37,9% das inquiridas e 22,9% dos inquiridos. Em relação às raparigas a atitude seria repreensível na opinião de 47% dos rapazes e 63,8% das raparigas. (CODES/JUC (1967), Situação e opinião dos universitários, p. 233.
comprovados, enquanto que 46,8% se inclinava para os meios naturais, que eram os defendidos pela Igreja e que 32,8% dos inquiridos não tinham opinião. É curioso verificar que as as respostas por sexo mostravam que apenas 7,2% das raparigas se pronunciavam a favor de todos os métodos, sendo que a maioria: 50,9% era a favor dos métodos naturais. Este resultado tem como fundamento a enorme influência da Igreja e dos meios mais conservadores na formação de mentalidades. Quanto à limitação da natalidade a mesma influência fazia-se sentir. Esta só era considerada justificada ―só em situações graves‖ para 36,3% dos rapazes e 48% das raparigas, sendo que 15,3% dos rapazes e 23,8% das raparigas consideravam a limitação da natalidade como ―a tradução de um egoísmo social‖. Apenas 4,8% dos universitários e 2,4% das universitárias, declarava que ―a limitação da natalidade era uma prática absolutamente justificada e necessária‖.217
Sobre o divórcio, 45,8% dos rapazes e 32,7% das raparigas concordavam com a sua existência como solução para ―situações graves de desarmonia conjugal‖ e apenas 4,6% e 1,6%, respectivamente, como uma ―expressão natural da liberdade humana‖. Discordavam do divórcio, porque ―o casamento é indissolúvel‖ 23,3% dos alunos e 33,4% das alunas. Analisando por pólos regionais universitários (Lisboa, Coimbra e Porto) é em Lisboa que existe uma maior percentagem de estudantes a concordar com o divórcio.218 O inquérito recolhe também opinião dos (as) estudantes sobre a ―atitude da Igreja face ao divórcio, a limitação da natalidade e das práticas anticoncepcionais‖. Consideravam como uma ―atitude demasiado rígida não se adaptando às actuais circunstâncias‖ 33% dos rapazes e 21,5% das raparigas. Como ―a única atitude compatível com a concepção cristã do matrimónio‖ era a opinião de 38,5% dos alunos e de 60,2% das alunas, 219notando-se nesta questão como em outras anteriormente referidas que as raparigas eram mais permeáveis à influência dos meios familiares e religiosos.
Apenas 1/10 do total de estudantes, considerava que as mulheres deveriam ter um emprego toda a vida (a favor: 5,9% das jovens e 4,9% dos jovens inquiridos). A maioria considerava que uma mulher só deveria empregar-se em caso de extrema necessidade (40,5% dos rapazes e 30,3% das raparigas) ou no caso do seu horário de
217 CODES/JUC (1967), op. cit., pp. 426-429. 218 Ibidem, p. 418.
219
trabalho ser compatível com as ―exigências da vida familiar‖ (53,3% das estudantes universitárias e 41,1% dos universitários).220
Sara Amâncio, na altura, uma das jovens universitárias, que participaram nas crises académicas da década de sessenta afirma, a propósito:
―Eu lembro-me da minha avó: «então não pensas em casar e constituir família?». Eu dizia: «logo vamos ver, agora quero fazer outras coisas». Eu queria fazer a Faculdade e a vida familiar não era coisa que me obcecasse. Os preconceitos eram ainda fortes nessa época. Era preciso vencer esses preconceitos. Era preciso ter uma grande coragem e fazer rupturas e, por isso, admiro as colegas que sendo de educações religiosas ou apertadíssimas conseguiram cortar com todos esses condicionalismos. No meu caso, a situação era um pouco diferente. Às vezes diziam à minha mãe: «a Sarinha vinha com um rapaz da escola». E, a minha mãe dizia: «ainda bem, assim não vem sozinha e eu fico muito mais descansada». Os meus pais eram bastante abertos, embora até certas fronteiras. Mas era diferente das outras situações em que existia uma ideologia religiosa na família‖.221
Todavia, os anos 60 foram já anos libertadores para muitos jovens, apesar da censura e da doutrinação conservadora do regime. A revista da Mocidade Portuguesa Feminina Menina e Moça procurava resistir às mudanças e dar respostas moralistas a uma nova época de maior relacionamento entre rapazes e raparigas por via de um maior ingresso das jovens nas universidades. Numa ―Carta a uma Rapariga‖, publicada na revista Menina e Moça, podia ler-se: ― (...) as teorias modernas têm o condão de tornar as raparigas inconscientes do bem e do mal. Precisas de alguém que te tire dessa onda de modernismo e inconsciência. Confia tudo à tua mãe. Quem melhor do que ela te poderá guiar?‖ (PIMENTEL, 2007:301). Condenava-se ainda a ―nova vaga‖ considerada uma ―vaga arrastada para o mal e a mediocridade‖.222
Segundo Marta Fidalgo, a ―Menina e Moça‖ alertava as suas leitoras para ―os perigos do flirt, da liberalização dos costumes, e tenta desesperadamente demonstrar que os comportamentos permitidos aos rapazes não são aplicáveis às raparigas. O casamento, no fim da década de sessenta, continuava a ser o destino desejável para as jovens, destino para que a revista as tenta preparar, apostando na formação feminina e na formação cultural‖ (FIDALGO, 2002: 225). A mesma revista procurava assegurar a posição das jovens como guardiãs de uma feminilidade reconhecida como exemplar.
O regime também pugnava pela ―salvaguarda de um mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados não
220 Ibidem, p. 237.
221 Entrevista a Sara Amâncio realizada a 20 de Março de 2007. 222
dispensavam‖. Por exemplo, as portarias que constavam dos painéis nas praias, estipulavam que os fatos de banho das mulheres teriam de ter meia perna e um saiote e os dos homens camisola e calção com corte inteiro e com reforço interno da parte da frente. 223
Contudo, a propaganda do regime já não podia suster a evolução de mentalidades que começava a aflorar. Um testemunho interessante de Maria Antónia Palla sobre esta época diz-nos que ela tinha uma enorme necessidade de ir todos os anos a Paris. Respirava-se então as aragens do Maio de 68. Por isso, decidiu editar um livro que se chamava ―Revolução do Amor‖, mas que foi apreendido de imediato. Tentou ainda publicar no Diário de Lisboa alguns artigos sobre os acontecimentos de Paris, mas a censura já não deixou sair o terceiro artigo. Afirma, ainda, Maria Antónia Palla recordando essa época:
―Uma das razões pela qual me interesso pelo Maio de 68 tem a ver com o feminismo. Quem começou a difundir as novas questões trazidas pelo Maio de 68 foram certas pessoas como o Lindley Cintra, os católicos progressistas, porque as pessoas de formação marxista não ligavam ao assunto. Diziam que as contradições estavam todas na luta de classes. Eu estava noutra. Eu achava que as contradições surgiam também de outros lados‖.224
Ainda, segundo Maria Antónia Palla, quer nos Estados Unidos, quer em França, no Maio de 68, tudo tinha começado pelas relações entre rapazes e raparigas. ‖O ambiente começa a turvar-se quando a universidade não consente que rapazes e raparigas se juntem numa residência universitária. Estas relações, entre o «público» e o «privado», assim como as questões das sexualidades, surgem nos anos 60. Um filme que teve uma importância enorme na minha vida foi «Les Amants», logo no princípio dos anos sessenta. Mostrava uma outra maneira de encarar as relações entre os sexos. Isto representou uma ruptura enorme‖.225
Tiveram um peso especial neste processo de mudança de mentalidades, os meios intelectuais do tecido urbano ligados à esquerda e os sectores católicos progressistas, que entendiam que a luta pela evolução das mentalidades estava intimamente ligada à luta pela transformação global da sociedade.
A grande aspiração pela igualdade de direitos entre os sexos que a segunda vaga dos feminismos trouxe para as mulheres dos E.U.A e da Europa Ocidental não encontrou, no entanto, o mesmo eco num país onde a luta antifascista continuava a
223 SANTOS, António Costa (2008), ―Bainhas e umbigos e uma estátua de sutiã‖, in Os anos de Salazar,
Lisboa, Planeta DeAgostini, pp.129-135.
224 Entrevista realizada em 28 de Outubro de 2004. 225
absorver as energias de muitas mulheres e onde as dimensões de classe e género não se conseguiram encontrar nessa mesma luta. No Programa do Partido Comunista, aprovado no VI Congresso, em 1965, as questões relativas aos direitos das mulheres encontravam-se inseridas no ponto do programa: ―Elevar o nível de vida das classes trabalhadoras e do povo em geral‖, no seguinte parágrafo:
―As mulheres trabalhadoras recebem salários até 50% inferiores aos dos homens, mesmo quando executam trabalho igual. A dureza do trabalho e a falta de assistência à maternidade e à infância, provocam a ruína na saúde e o envelhecimento precoce das mulheres. Em todos os aspectos da vida social e política a mulher é colocada numa humilhante situação de inferioridade em relação ao homem. Como resultado do abandono a que são votadas as crianças pelo regime fascista, da fome que passam, da falta de agasalho, da prática inexistência de assistência médica, as taxas de mortalidade infantil em Portugal são as mais altas da Europa‖.226
A vertente das contradições de classe consubstancia, de facto, o essencial do pensamento do PCP na época.
Os movimentos de libertação das mulheres na Europa e nos Estados Unidos tinham nascido da conjugação de duas correntes: um feminismo político já organizado e um feminismo novo, radical, que provinha de jovens da extrema-esquerda e das grandes mobilizações de estudantes.
―De um lado ao outro dos Estados Unidos as universidades foram centros de protesto organizado contra a política do governo no Vietnam, em muitas universidades europeias, em especial em França, tiveram lugar muitas manifestações contra a política dos governos. (...) A nova interpretação do mundo em 1968 estava a favor da libertação política e sexual e contra a guerra do Vietnam. (...) Implícita a estes acontecimentos surge uma corrente que, a longo prazo, teve maior impacto na vida social do que os movimentos de protesto da década de sessenta. Esta corrente foi o feminismo, a reclamação por parte das mulheres dos seus direitos de autodeterminação e autonomia pessoal. (...) O feminismo não era uma novidade para o século XX, mas assumiu, nos anos sessenta e setenta um novo imperativo e um novo radicalismo‖. (EVANS, 1997:18-19)
Em Portugal, as movimentações de estudantes da década de 60 não conseguiram gerar esse feminismo de cariz novo.227
226 Do ―Programa do Partido Comunista Português‖ aprovado pelo VI Congresso em Setembro de 1965.
Documento cedido pelo Arquivo do PCP em 2004.
227 Nos Estados Unidos, as jovens participantes nos movimentos contra a guerra do Vietnam e pelos
direitos dos negros contestaram o feminismo ―reformista‖ da NOW (National Organization of Women) fundado por Betty Friedan e criaram, em 1967, o Movimento de Libertação das Mulheres. É de considerar o papel importante que o livro de Betty Friedan ―A Mística da Mulher‖, lançado em 1963, tinha tido no despertar do feminismo americano no início da década de 60. ―Na altura, cerca de 40% das mulheres americanas ocupavam um emprego a tempo inteiro, mas apenas as suas qualidades como esposas e mães definiam a sua identidade‖. (FILLARD, Claudette, COLLOMB-BOUREAU, Colette 2003, Les
mouvements féministes américains, Paris, Ellipses, 2003, p. 67). Em França, o aparecimento de vários