A POLÍTICA DE DAVID HUME; UMA RECONCILIAÇÃO DISTINTA ENTRE LIBERALISMO E
RESPONSABILIDADE E MULTIPLICIDADE: ELEMENTOS DA MORALIDADE EM STRAWSON
2- Multiplicidade e Moralidade Social
Após eleger as atitudes reativas como expressão da sociabilidade e meio pelo qual os homens formulam juízos morais Strawson consegue então fortalecer a responsabilidade com uma evidência empírica coerente. Já no ensaio seguinte “Moralidade Social e Ideal Individual” (1961) Strawson explora a relação entre a multiplicidade de aspirações individuais e o sistema de demandas que regem a moralidade social. Uma vez que a dúvida sobre a legitimidade da responsabilidade havia sido respondida, faltava examinar a diversidade subjetiva e a conformidade entre ela e as exigências morais regulares do contexto social. É possível interpretar o texto subsequente de Strawson como a caracterização do ambiente político onde as inter-relações e sentimentos ocorrem e de que forma convergem para compor as condições de possibilidade da existência da própria sociedade como algo desejável.
Ao construir as reflexões de cunho político Strawson não perde o tom realista, mantém seu método de análise descritivo para pensar na dinâmica desta relação dentro dos limites do funcionamento social. O objetivo de Strawson era ilustrar o tipo de sociedade e individuo que garantem comprometimento moral e político favoráveis.
O ponto de partida que ele utiliza para abordar a interação contrastante entre as sanções da comunidade social e as imagens ideais concebidas individualmente, começa na constatação da existência da multiplicidade modos de vida com que cada homem se relaciona. Segundo Strawson “os homens fazem para si mesmo imagens de formas de vida. Estas imagens são diferentes e podem estar em nítida oposição umas as outras”4. Esta frase introdutória de seu texto descreve a diversidade de imagens que habitam a esfera subjetiva dos homens, que podem não apenas conflitar entre indivíduos mas conflitarem entre si. Strawson afirma que a visão de um homem “pode variar radicalmente, não só em diferentes
4 STRAWSON, P.F. Ensaios sobre a filosofia de Strawson, Moralidade Social e ideal
períodos da sua vida, mas de um dia para o outro, inclusive de uma hora para outra”5.
Embora Strawson não faça qualquer menção a Hume em seu ensaio, é evidente que a concepção de sujeito que ele descreve é análoga ao eu humeano, um self difuso, instável, mutável, um objeto afetado por inúmeras impressões e ideias, formando não uma pintura estática e permanente de identidade pessoal, mas sim um caleidoscópio de infinitas combinações. É possível encontrar semelhante descrição de multiplicidade na seguinte frase de Hume; “os demais homens não são senão um feixe ou uma coleção de diferentes percepções que se sucedem umas às outras com uma rapidez inconcebível que estão em perpétuo fluxo e movimento”6.
A análise que Strawson faz do homem não tem qualquer apelo metafísco, transcendente ou idealista, e sim uma descrição da forma como vivemos e agimos na vida cotidiana. Para apoiar a visão de Strawson, qualquer um de nós pode perceber ao observar nossa maneira de conduzir a vida, que de fato encontramos em nós mesmos uma tendência de identificarmos imaginativamente com diversas visões de vida ideal. Esta tendência explica de certa forma “o enorme encanto da leitura de romances, de biografias, de histórias”7 afirma Strawson. Ao ler o conto “Pai contra mãe” de Machado de Assis, por exemplo, o leitor pode sem jamais ter sido uma escrava fugitiva ou um pai miserável -que é capaz de qualquer coisa para manter sua família unida- identificar-se com tais imagens sem nunca realiza-las na prática. Naturalmente tal atividade literária provoca e aguça nossa simpatia e alteridade. Uma vez que o indivíduo possui uma única vida é impossível realizar exaustivamente toda a multiplicidade de imagens, no entanto, como escreve Strawson “o dono de uma vida pode desejar, com perfeita coerência prática, que suas imagens conflitantes se cumpram todas em vidas diferentes”8. A coexistência de imagens incompatíveis é ela mesma a condição de possibilidade da harmonia na vida social. Intolerável, nas palavras de Strawson, é desejar “qualquer doutrina que proponha que o padrão de uma vida ideal seja o mesmo para todos”9. Qualquer tentativa de
5 Ibid, p.271.
6 HUME, David. Tratado da Natureza Humana, São Paulo: editora Unesp, 2009, p.285. 7 STRAWSON, P.F. Ensaios sobre a filosofia de Strawson. Moralidade Social e ideal
individual, p.272.
8 STRAWSON, P.F. Ensaios sobre a filosofia de Strawson. Moralidade Social e ideal
individual, p.272.
suprimir a pluralidade e unificar forçosamente as múltiplas imagens à um padrão universal é eliminar o caráter essencial do que nos faz humanos. Em uma sociedade que realmente se interessa em preservar este terreno múltiplo, deve aceitar o fato de que conflitos são inevitáveis e devem também desejar que visões antagônicas tenham lugar para se expressarem.
Mesmo que este fato seja verdade, tornando o pluralismo algo desejável, o choque entre ideais e sociedade é complicado quando colocamos todas estas vidas em zonas de interação. A região diversa, múltipla e plural pertence ao terreno do ético, e à esfera de máximas éticas, que Strawson caracteriza da seguinte forma;
Pode-se expressar isso dizendo que a região do ético é a região onde há verdades sem que haja verdade; ou, em outras palavras, que a determinação de ver a vida como algo estável e como um todo é absurda, pois ninguém pode fazer ambas as coisas10.
Por outro lado, a esfera da moralidade social diferente do âmbito ético é caracterizada pela observância de regras, princípios que se aplicam universalmente para regular o comportamento humano. Dado estes aspectos contrastantes, naturalmente a relação entre a esfera individual e a esfera social é complexa. A proposta de Strawson para tentar amenizar as diferenças e preservar a vantagem evidente de ambas é o que ele vai chamar de concepção mínima de moralidade. Uma “ideia analítica útil” que visa ajustar a dinâmica entre as diversas formas de vida e as demandas sociais. Mas oque exatamente seria esta concepção mínima de moralidade? E qual seu mérito de aplicação?
Para definir o conceito de concepção mínima de moralidade Strawson estabelece primeiramente que todo e qualquer indivíduo depende invariavelmente de uma organização social para a realização de seu ideal, ou seja, a concretização de todo e qualquer ideal exige necessariamente “a existência de alguma forma de organização social.”11 Segundo, toda e qualquer organização social por menor que seja depende e necessita de regras. Assim a observância de regras não apenas é uma condição de existência de uma sociedade como também garante a própria realização das múltiplas imagens de formas de vida. Este fato pressupõe o
10 Ibid, p.274. 11 Ibid, p.275.
reconhecimento das obrigações e demandas inseparáveis da posição e oficio que ocupamos dentro da sociedade, esta seria, segundo Strawson, uma concepção mínima de moralidade.
Strawson admite que a concepção mínima de moralidade como “um tipo de conveniência pública” tem suas objeções, como por exemplo, a ausência de uma moralidade importante em si mesma e o fato de que ela não cumpre a exigência de uma regra moral universal aplicável a todo e qualquer ser humano. Strawson argumenta que a regra universal é:
A que diz que um ser humano deveria agir em conformidade com aquelas regras que se aplicam a ele em situações particulares, dentro de uma sociedade particular. Aqui a universalidade é alcançada acessando uma ordem superior. Um homem deve cumprir os deveres de sua posição na sociedade12.
Mas para Strawson estas objeções, embora sejam pertinentes, não prejudicam os méritos da concepção mínima de moralidade, ela ainda sim consegue satisfazer os propósitos que podem harmonizar a relação entre o âmbito ético individual e um contexto social. Os méritos de tal concepção seriam; sua flexibilidade para acomodar a diversidade de indivíduos e contextos sociais, assim como facilitar a compreensão de forma mais realista e concreta do que seria um homem virtuoso. Compreendemos como virtuoso todo aquele que cumpre as obrigações vinculadas às posições e ofícios dentro de uma comunidade. Contudo, para que o individuo cumpra tais obrigações não apenas por dever e sim por obrigação moral, Strawson enfatiza que o mesmo precisa sentir-se membro da parte sancionadora e possuir interesse em seguir as demandas. Em outras palavras, a ação moral em um ambiente complexo e plural está vinculada as expectativas mútuas dos membros que dela fazem parte.
Mas o que dizer do individuo que não compartilha da mesma disposição para esta reciprocidade? Ou seja, o sujeito que se utiliza do sistema de forma hipócrita, ele tira proveito do fato dos outros membros cumprirem as regras, mas não encontra-se disposto a exercer as obrigações exigidas a ele. Para este caso de hipocrisia extrema, Strawson diz que estes são exceções, e “ se esse fato fosse a norma, não poderia haver nada como um sistema de demandas morais”13. Para Strawson é
12 Ibid, p.277. 13 Ibid, p.281.
evidente que o interesse pelas exigências feitas aos demais e o reconhecimento da exigências feitas a si mesmo são coisas relacionadas entre si. Resumindo; toda pessoa sujeita a demandas morais sociais tem interesse na moralidade.
Ainda em uma linha humeana de interpretação das regras morais, Strawson aponta para o fato de que certos “interesses humanos são tão fundamentais e tão gerais que eles devem ser reconhecidos universalmente de alguma forma e em algum grau em qualquer comunidade moral concebível”14. Strawson lista estes interesses como virtudes; a saber , o socorro mútuo, a obrigação de abster-se de infligir dano físico e o desejo de não ser engano. Além destas virtudes gerais e evidentes, de todos os membros é exigido universalmente algo como uma virtude abstrata de justiça, que Strawson define da seguinte forma: “um homem não deve insistir em uma exigência particular e recusar reconhecer uma exigência recíproca”15.
Portanto a concepção mínima de moralidade sugerida por Strawson é capaz de vincular o ponto de vista privado com o público, partindo da noção de que o individuo se expressa tanto em uma dimensão individual como social. Segundo Rodriguez:
A partir da perspectiva humiana, assim como é natural que os indivíduos não possam deixar de considerar seus interesses e aspirações mais próprios e privados – por exemplo, no projeto de “formas de vida” – do mesmo modo “a simpatia” os move de forma natural em busca não só de uma aproximação cooperativa- vantajosa para todos-, senão de um verdadeiro esforço de compreensão racional do comportamento de estranhos16.
Para finalizar sua analise descritiva das estruturas básicas que compõem o agir humano dentro da esfera individual em interação com a esfera social, Strawson enfim delimita as bases políticas que possibilitam a coexistência da diversidade ética e a concepção mínima de moralidade. Este equilíbrio é possível em sociedades políticas liberais,
Uma sociedade política que combine dessa forma uma ampla variedade de agrupamentos sociais com complexos vínculos e
14 Ibid, p.282. 15 Ibid, p.282.
16 RODRIGUEZ, Aman Rosales, Ensaios sobre a filosofia de Strawson, Strawson e Hume:
liberdade de movimento entre eles, a dissociação entre o ideal idiossincrático e a demanda moral comum tenderá sem dúvida a seu máximo17.
Contrastando o cenário múltiplo e complexo de sociedades liberais, Strawson afirma que a ideia de “comunidades fechadas em si mesmas, nas quais o sistema de demandas morais responde exatamente ou tão exatamente quanto possível, uma imagem ideal de vida mantida em comum por todos os membros”18 é uma ideia fantasiosa, que consequentemente leva a tensões e a alienação do mundo. Uma sociedade onde haja a tentativa de fazer com que a aspiração moral de um Estado reflita uma única imagem moral de todos seus membros estará suprimindo a condição natural dos homens que é em si a multiplicidade de ideais.
Considerações Finais
Fica claro que, para Strawson certas vontades sociais devem atuar para uma interconexão desejável entre as duas esferas, tal como: a prudência e o equilíbrio, rejeição de qualquer fundamentalismo racional rigoroso assim como um ceticismo reducionista. O indivíduo strawsoniano, reconhece seus ideais particulares, porém percebe o ganho mútuo da cooperação e pluralidade inerente do intercâmbio social, mesmo sujeito ao conflito de imagens, ele valoriza a diversidade ética por reconhecer que a exigência de uma uniformidade é ela mesma avessa à moralidade. O ético e o moral em Strawson surgem do universo de atitudes reativas e sentimentos compartilhados. Não é um mundo opcional, porém pode ser aperfeiçoado desde que haja uma atmosfera de tolerância e espaço para ajustes. Este individuo, na visão de Strawson, não apenas recusa o monopólio da moralidade em único modo de vida, como também rejeita a noção de que seus próprios ideais são capazes “de produzir um reino harmonioso dos fins, pois ele não pensará nos fins como necessariamente capazes de serem harmonizados”19.
Certamente o texto de Strawson não esgota toda a perplexidade do tema em questão, o qual ele mesmo admite não ter oferecido resposta completa e absolutamente adequada. Porém, sua exposição teórica de
17 STRAWSON, P.F.: Ensaios sobre a filosofia de Strawson, Moralidade Social e ideal
individual, p.287.
18 Ibid, p.287. 19 Ibid, p.289.
suporte empírico junto à uma análise conectiva coerente sobre um homem anfíbio, que vive tanto imerso em si como na sociedade, oferece lucidez sobre aspectos inalienáveis de nossa condição e devolve ao centro do debate moral a natureza humana.
Referências
STRAWSON, P. F. Ceticismo e Naturalismo. Tradução de Jaimir Conte. Editora Unisinos, 2007.
______. Ensaios sobre a filosofia de Strawson. Tradução de Jaimir Conte e Itamar Luís Gelain. Editora UFSC.
HUME, D. Tratado da Natureza Humana. Editora UNESP, 2009.
______. Investigações sobre o Entendimento Humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José de Oscar Almeida Marques. Editora UNESP, 2004.
O VLADIMIR ILICH ULIANOV DE SLAVOJ ẐIẐEK: UMA LEITURA