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Museu Real de Antropologia de Berlim (1900)

E Bastian era o intelectual em comando. A criação de um museu de antropologia estava diretamente vinculada ao seu próprio projeto etnológico. Como previamente observado, para Bastian a tarefa da etnologia era reunir os dados de campo primários em uma enorme estatística, para ser analisada posteriormente pelos métodos da psicologia científica. Os pensamentos elementares (Elementargedanken) estariam impressos nos mitos e na cultura material e poderiam ser deduzidos através do estudo comparativo das línguas. Por isso, Bastian clamava para que os museus antropológicos funcionassem como arquivos, bibliotecas e laboratórios, em que os etnólogos trabalhariam para traduzir ornamentos, símbolos, alegorias e hieróglifos em textos legíveis.52 Ao analisar a cultura material, os museus ofereciam olhares microscópicos acerca da imensidão da diversidade humana, e através do estudo comparativo, os etnólogos estariam aptos a testar teorias etnológicas. O valor empírico da cultura material,

traduzido em texto pelo etnólogo, sustenta Penny, expunha “as limitações da historiografia universitária baseada na filologia”.53

Angariar coleções etnográficas não foi uma criação de Bastian e do Museu de Berlim. Em museus alemães havia diversas coleções etnográficas. Em 1799, por exemplo, a Universidade de Göttingen adquiriu as coleções que Reinhold Forster formou nas expedições em que acompanhava James Cook.54 E ainda antes disso, coletar material etnográfico era parte das expedições. Na expedição pela Sibéria, empreendida entre 1719 e 1727 Messerschmidt formou uma coleção etnográfica, que posteriormente foi estudada por Müller para aperfeiçoar o método de Leibniz. A diferença reside no tratamento e na importância dedicada às coleções. Se antes os objetos etnográficos serviam para ilustrar os modos de vida de populações distantes, e assim demonstrar a diversidade de usos e costumes das nações, com o estabelecimento dos museus de antropologia no final do século XIX a cultura material passou a ser investigada cientificamente com vistas para contribuir para o conhecimento da humanidade.

Além do histórico de coleta de material etnográfico por acadêmicos alemães, da proposta epistemológica de Bastian e do mecenato de elites locais, um outro fator foi determinante para o aumento do volume de objetos nos museus: a etnografia de salvação.55 Considerando que a expansão europeia acarretava no desaparecimento de culturas locais, era preciso salvar tudo que fosse possível, com o objetivo de completar a estatística dos pensamentos elementares.

No final do século XIX, os museus antropológicos alemães competiam com outros museus europeus e norte-americanos pelas coleções que circulavam por um recém-criado mercado de bens etnográficos. Durante o imperialismo europeu, furto e roubo de peças cometidos por etnógrafos em campo não eram exceções, sobretudo nas colônias. Um dos casos mais notáveis certamente foi o furto de máscaras kono, cometido pelos integrantes da Missão Etnográfica e Linguística Dacar-Djibuti, e narrado pelo antropólogo francês Michel Leiris (1901-90).56 Certamente a notoriedade não se deve à quantidade de objetos furtados, ou ao

modus operandi, mas pela exposição fornecida por um dos agentes envolvidos. Em todo caso,

os museus alemães estavam em desvantagem em obter material etnográfico diretamente das

53 PENNY, 2002, p. 25. 54 VERMEULEN, 2015, p. 381. 55 PENNY, 2002, p. 51.

populações produtoras, já que a Alemanha não era uma potência colonial. Cinco anos após a unificação alemã, o Reich obteve a concessão administrativa de territórios no Pacífico Sul, mas o imperialismo alemão propriamente dito se iniciou apenas em 1884, com a fundação da colônia

Deutsch-Westafrika (“Sudoeste Africano-Alemão”), território que atualmente compreende a

Namíbia e parte de Botswana. Isso significa que o Império alemão só pôde saquear populações africanas com décadas de atraso em relação à Grã-Bretanha e à França. Em decorrência às aspirações imperialistas da Alemanha e do consequente transporte de objetos etnográficos ao

Reich, em 1888 foi promulgada uma lei imperial, segundo a qual, todo os materiais

extraeuropeus deveriam ser enviados diretamente ao Museu Real de Berlim, que faria a triagem e enviaria as duplicatas para outros museus estatais alemães.57 Na prática, o Museu de Berlim alcançou o monopólio de obtenção de coleções etnográficas, e poucos objetos eram efetivamente repassados a outros museus.

O mercado intraeuropeu e intragermânico gerou uma concorrência entre os museus, que estimulou fortemente a busca por coleções.58 Se epistemologicamente as coleções etnográficas eram fundamentais para o projeto etnológico de Adolf Bastian, a concorrência entre os museus gerou uma necessidade ainda maior de obter coleções singulares, enormes e de povos os mais isolados possíveis. A concorrência entre os museus se estruturava em diversos níveis. No final do século XIX, as administrações municipais alemãs viam no fomento à cultura e ciência uma maneira eficiente de aumentar o dinamismo socioeconômico das cidades, para se tornar metrópoles de relevância e reconhecimento internacional.59 Os museus, cada vez mais profissionalizados, e de temáticas heterogêneas, competiam entre si por visitantes, por coleções e por verbas públicas, doações financeiras e mecenato etnográfico.60 A concorrência afetava sobretudo os museus de Hamburgo, Leipzig, Munique e pequenos museus municipais, já que Berlim ocupava um posto preferencial isolado, ancorado em uma ampla rede científica.61 Assim, por conta da necessidade de obter coleções únicas e por pressões econômicas, os museus, ao lado das fontes de financiamento, dedicaram-se a custear expedições que visavam angariar coleções etnográficas mundo afora, uma vez que o investimento em expedições e o volume de material resultante delas era inferior ao montante gasto na aquisição de coleções

57 PENNY, 2002, p. 113. 58 PENNY, 2002, p. 54-58. 59 PENNY, 2002, p. 43-47 60 PENNY, 2002, p. 8. 61 PENNY, 2002, p. 66.

montadas por museus concorrentes.62 Informações sobre as peças, como a forma de produção, os usos sociais, e os significados culturais agregavam valor a elas, de modo que os museus cada vez mais agenciavam etnólogos especializados para formar coleções, ao invés de colecionadores e mercadores de objetos etnográficos.63

No Museu de Antropologia de Berlim, as coleções eram divididas entre exibições destinadas ao público e coleções guardadas para os pesquisadores.64 Isso revela o caráter científico dessa instituição. As exibições para o público foram radicalmente alteradas por Bastian. Nos museus (de arqueologia, por exemplo), os objetos eram expostos trilhando uma sequência evolutiva. Bastian reordenou as exposições para que as coleções fossem montadas de acordo com a sua procedência geográfica.65 Assim sendo, Bastian definiu a natureza científico-empírica das expedições pedagógicas, refutando as teorias especulativas em que as montagens contemporâneas se baseavam.

O fundador do museu via nas Américas uma região especialmente importante para a elaboração da sua estatística dos pensamentos elementares. Em 1873, das 40 mil peças existentes no museu, 21 mil eram provenientes das Américas.66 As coleções americanas eram especialmente importantes para a teoria das províncias geográficas de Bastian – regiões com particularidades sociais e geográficas que permitiriam uma transformação dos pensamentos elementares em pensamentos étnicos desprovidos de influência europeia. Segundo a antropóloga Manuela Fischer, “através da análise das causas imanentes nas diversas representações dos artefatos deveria ser possível entender os efeitos dos agentes em jogo e, por consequência, descobrir os pensamentos elementares comuns a todos os seres humanos”.67

Apesar do vívido interesse nas Américas, Bastian mesmo pouco estudou as coleções americanistas.68 Em consequência a essa contradição, ele precisou valer-se dos serviços de vários etnólogos. Antes da virada do século Karl von den Steinen, Paul Ehrenreich e Max Schmidt iniciaram suas atividades no Museu, depois da virada do século, Theodor Koch-

62 PENNY, 2002, p. 79. 63 PENNY, 2002, p. 84-86. 64 PENNY, 2002, p. 138. 65 PENNY, 2002, p. 35.

66 FISCHER, Manuela. “La Mision de Max Uhle para el Museo Real de Etnología en Berlin (1892-1895): entre

las ciências humboldtianas y la arqueología americana”. In: KAULICKE, Peter et al. Max Uhle (1856-1944):

Evaluaciones de sus investigaciones y obras. Lima: Fondo Editorial de la Pontificia Universidad Católica del

Perú, 2010, p. 49.

67 FISCHER, 2010, p. 49-50. 68 FISCHER, 2010, p. 50.

Grünberg e Wilhelm Kissenberth. Além deles, outros especialistas em América do Sul eram parte do staff científico do Museu: Eduard Seler, fundador dos estudos mexicanistas modernos e estudioso da arqueologia e línguas antigas da Mesoamérica, tornou-se diretor assistente em 1892, Konrad Theodor Preuss (1869-1938), especializado em México e Colômbia foi contratado em 1895, Walter Lehmann (1878-1939) tornou-se assistente de Eduard Seler em 1903 e três anos depois o mesoamericanista Walter Krickeberg (1885-1962) foi empregado como voluntário.69 O Museu também contratava profissionais para que formassem coleções americanas: Max Uhle (1856-1944) viajou pela Argentina e Bolívia entre 1892 e 1895, Alberto Vojtěch Frič (1882-1944) foi contratado em 1906 para uma expedição que deveria atingir os Rios Araguaia e Tocantins, e nas décadas de 1920 e 1930 Emil Heinrich Snethlage (1897-1939) viajou duas vezes ao Brasil.70

À margem dos homens havia em Berlim uma americanista: Caecilie Seler-Sachs (1855-1935). Mesmo impedida de obter graduações acadêmicas e ocupar cargos universitários por ser mulher, ela participava das reuniões científicas, mantinha correspondências intelectuais e publicava seus escritos. Caecilie Seler-Sachs teve uma atuação fundamental para o estabelecimento dos estudos mesoamericanos na Alemanha. Casada com Eduard Seler desde 1884, ela participou de todas as seis expedições de campo do marido, porém desenvolvendo suas próprias pesquisas (imagem 7). Enquanto Eduard investigava questões ligadas à arqueologia e à linguística, Caecilie dedicava-se à etnologia, à fotografia e ao desenho. Várias ilustrações das obras de Eduard foram criadas por Caecilie. Em 1919 ela publicou sua principal obra Frauenleben im Reiche der Azteken. Ein Blatt aus der Kulturgeschichte Altmexikos (“A vida das mulheres no Império Asteca. Uma página da história cultural do México Antigo”). Caecilie não foi apenas esposa e companheira de viagem, ela foi a principal interlocutora intelectual de Eduard, e depois da morte deste, ela organizou e publicou alguns de seus escritos.71

69 KRAUS, 2004a, p. 34.

70 FISCHER, 2010, p. 49; “Eventual-Vertrag für den Explorador Albert Frič”, EM Bln, Acta Adalbert Frič;

KRAUS, 2004a, p. 45.

71 HANFFSTENGEL, Renata; VASCONCELOS, Cecília Tercero. Eduard y Caecilie Seler: Sistematización de los estúdios americanistas y sus repercusiones. Cidade do México: Universidad Nacional Autónoma de