Seo Cláudio sai da sala e vai, mancando, até o portão. Conversa com um vizinho que passa, enquanto espera Márcio, um dos filhos, trazer o netinho para almoçar com os avós. O filho chega com uma criança pequena: motor barulhento de carro velho, som alto, sorriso largo. Pai e filho se abraçam, brincam um com o outro, entramos todos para almoçar. Depois de perguntarem das minhas histórias, falamos sobre o trabalho de Márcio, 32 anos, eletricista nas Casas Bahia. Mais precisamente, Márcio me conta como se organiza o seu trabalho: ele viaja pelo estado todo montando a parte elétrica ou reformando as lojas da rede. Comenta o quanto crescem as Casas Bahia. Eles abrem loja nova todo dia.
Márcio é irmão gêmeo de Sérgio, ambos estudaram até o ensino médio, fizeram curso técnico no SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). Prestador ferramenteiro. A expectativa evidente era a de garantir também para eles, os filhos homens, a estabilidade dos empregos industriais da qual o pai e os tios desfrutaram. Eles seriam provedores depois, afinal. Entretanto, crescidos nos anos 90, os meninos já não encontraram o cenário do emprego industrial estável.
Foi caindo o emprego, muito robô. Foi mecanizando, robô pra caramba. Esse negócio de prestador ferramenteiro é pouco que tem hoje em dia. [Seo Cláudio]
Os meninos trabalharam, o valor central da família foi transmitido de geração a geração. Mas a trajetória profissional dos filhos de Seo Cláudio é muito distinta da dele próprio. Aos 32, casados e pais de família, os rapazes já passaram por diversos empregos, em geral formais, tanto na indústria como nos serviços. Além disso, adultos crescidos em Sapopemba, eles já não encontraram um entorno marcado por interesses comuns, como seus pais encontraram. O ambiente profissional já é muito mais competitivo, dado o desemprego e a exigência por qualificação, e a pressão por associação, da geração anterior, se traduz em
pressão por individuação são mais individualizados do que os da geração anterior. Há a necessidade de empreender.
E empreender é a cara das Casas Bahia. Continuando a conversa no almoço, Márcio me conta que Samuel Klein, dono e fundador das Casas Bahia, escapou do campo de
concentração e nunca foi empregado de ninguém. Que ele veio com a esposa, fugitivo de
guerra, e que perdeu toda a família durante o regime nazista. Que começou a vida em São Paulo sem nada, vendendo coisas de porta em porta, numa charrete. Que o nome “Casas Bahia” foi feito para agradar os pobres, público-alvo desde o início, quase sempre migrantes nordestinos recém chegados em São Paulo, que precisavam montar suas casas, e precisavam parcelar os pagamentos. Que graças a esta sacada, hoje ele tem mais de 600 lojas.
Ele controla o mercado. Não adianta produzir eletrodomésticos se as Casas Bahia não comprarem. Se a TV custa R$ 500, ele diz que paga R$ 300, e os caras são obrigados a vender para ele. Tem mais de 40 mil funcionários. Eu trabalhei na Continental 2001, que fabrica fogões, e os caras diziam que metade da produção era para as Casas Bahia. [Márcio]118
Agora, projeto e atuação não se combinam mais. Se o plano é subir de vida empreendendo, as chances reais são pequenas. Enquanto diz que o caminho é esse, Márcio me conta que gostaria mesmo era de ser chef de cozinha. Pensa no que precisaria, para empreender. Calcula a remuneração e o investimento necessário nos cursos de formação, e ali mesmo desiste: com uma família para criar, não poderia começar tudo de novo, do zero. Não dava.
Eu queria outro trabalho, não queria mais trabalho assim. (...) O problema daqui é o seguinte: você não tem dinheiro, você não tem recurso pra poder estudar. Não tem a facilidade que vocês têm pra poder fazer um intercâmbio, igual vocês fazem [se refere a mim e a um pesquisador canadense que me acompanhava]. Aqui não tem nem jeito de fazer intercâmbio. Porque assim, tem um curso, é assim, eles falam que pra fazer um curso na França, é tipo obrigatório, pra quem faz gastronomia. E eu sei que tem um curso lá que custa R$ 10 mil, só o curso. Aí você tem que pagar estadia, tem que pagar alimentação... não tem crédito educativo. Se torna inviável. [Márcio].
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Por coincidência, ou por disseminação do discurso, eu havia escutado exatamente esta mesma história, em alguns momentos com os mesmos termos, numa outra família que conheci em Sapopemba, duas semanas antes. Dois dos filhos da Célia, rapazes de 20 e 22 anos, eram funcionários do setor de informática da empresa, e igualmente fascinados pela história pessoal de seu fundador. Usaram a expressão: a empresa cresce, a gente pode crescer com ela.
Cafezinho, e depois era hora de ir. Já tinha feito o caminho à pé algumas vezes, mas Márcio também seguiria para sua casa, me ofereceu uma carona. Som alto, barulho do motor, Sapopemba. Fui pensando no contraste entre a história dele e a dos pais. As trajetórias dos filhos de Dona Sílvia não são apenas diferentes por singularidade, algo que sempre ocorre mesmo dentro de um mesmo conjunto de parâmetros de organização. As formas de organizar a vida entre as gerações são distintas, nenhum dos filhos manteve os parâmetros fundadores da família operária, quando cresceram. Nem seria possível mantê-los – nem o trabalho, nem a religião e nem o projeto de ascensão social, centros de uma história familiar anterior, permaneceram os mesmos nesse período. O mundo se deslocou, de uma geração a outra, e os meninos perceberam isso. Clarice tem uma história de vida radicalmente distinta da de sua mãe.
a Clarice é solteira, mas muito ajuizada. Nunca me deu trabalho com nada, sempre pensou em estudar, sempre teve vontade de sair daqui. [D.Sílvia]
meus irmãos fizeram SENAI, não é? Agora eu era a mulher, então não fiz o SENAI, então o que me sobrava? Casar, ter filhos, essas coisas... e estudar foi uma opção minha.[Clarice]
A mãe se casou aos 18 anos, a psicóloga já tinha 36 e preocupava-se com sua carreira. Para as moças de família operária, ou de qualquer família popular, o casamento é uma referência central do sucesso na trajetória feminina. “Clarice é solteira, mas muito ajuizada”. A pressão pelo cumprimento do papel reprodutivo entre mulheres desta idade é considerável na família. Mas ela apostou nos estudos, e conseguiu estudar numa das principais universidades de São Paulo, cursou psicologia na PUC. Clarice também teve que trabalhar desde cedo, trabalhou também para pagar a faculdade, mas o esforço surtiu efeito.
quando eu ia para a PUC, eu mudava de mundo. Porque eu saía do extremo da pobreza e ia para outro mundo, não é? Então assim, eu participava de conversas do tipo: “Vamos para a Itália em julho?” “Ah vamos!”, “Clarice, vamos?” Claro, que vou para a Itália. Eu não tinha nem nunca saído do estado de São Paulo, quem dirá ir para a Europa, não é? Então, essas coisas foram mexendo com a minha cabeça, mas não mexeram de uma forma ruim.
eu não tinha envolvimento com nada aqui no bairro, que eu sempre neguei o público daqui. Então eu esqueci, que eu morava aqui... como a faculdade era em tempo integral não tinha como [viver o bairro]. Eu não conhecia nada daqui. Eu sempre neguei. [Clarice]
“Sempre pensou em estudar, em sair daqui”, diz a mãe. A opção é respeitada, coerente com o projeto original de ascensão. Querer estudar, como se vê, é o mesmo que querer sair da periferia, mudar de ambiente, de código social. Querer estudar vem da falta de identificação pessoal com o entorno, com o bairro, com a “comunidade” de interesses homogêneos que se compõe ali. Se o projeto da família operária é ascender, há que ter um vetor de interesses apontado para fora do bairro. Clarice deixa clara a opção. “Eu sempre neguei”119. Os conflitos de Clarice entre os “dois mundos” foram marcantes em sua formação. Fizeram-na transitar na fronteira entre a família operária, as convicções socialistas e a psicologia social da PUC, disciplina ao mesmo tempo vinculada tradicionalmente aos movimentos de esquerda e freqüentada pela elite intelectual de São Paulo.
Terminou sua graduação no final dos anos 90, e em seguida trabalhou algum tempo como psicóloga em uma grande empresa de bebidas, no “Departamento de Gente” (assim se chama, ali, o departamento comumente conhecido por “recursos humanos”). Mas a vontade de trabalhar com as questões sociais a aproximou da área da infância, das violações de direitos, do cooperativismo, e Clarice foi selecionada para atuar num Centro de Defesa de Direitos de Crianças e Adolescentes, outro CEDECA, chamado Paulo Freire, na Zona Norte de São Paulo. Ali, soube que a alguns quarteirões da sua casa, em Sapopemba mesmo, havia um centro parecido. Enviou um currículo, em boa hora. Em 2004, acabava de ser aprovado o financiamento para o programa de acompanhamento de medidas sócio-educativas em meio aberto (que discuto com detalhe dos capítulos 6, 7 e 8). Havia recursos para dois psicólogos, Clarice era moradora do bairro, tinha um bom currículo, experiência em outro CEDECA, foi imediatamente contratada.
Permaneceu ali por dois anos, foi onde a conheci. A experiência na organização, e no atendimento aos meninos autores de ato infracional foi muito intensa. Saiu de lá para atuar em uma organização não-governamental (ONG), ligada à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que atua diretamente com o tema da violência sexual120. Pretende sair de lá logo, me
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Durante minha conversa com Clarice, pela proximidade das redes universitárias, diversas vezes interrompemos o assunto para comentar sobre pessoas conhecidas. Era curioso ir a Sapopemba estudar o outro e encontrar gente conhecida. Heterogeneidade e conexões, ao invés de homogeneidade e segregação, que compõe o senso comum sobre as periferias.
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disse no início de 2008. Converteu-se ao budismo quando ainda estava no CEDECA. Mais uma ruptura, central, com as trajetórias-tipo que encontra-se com regularidade na geração anterior. Conforme a conversa com Clarice avança, some o modelo da família operária, somem as regularidades dos depoimentos de até então. Se no período em que a geração de Dona Sílvia colonizou Sapopemba, e tantas outras periferias, as trajetórias são relativamente homogêneas, entre seus filhos cada trajeto é singular. Clarice tem uma vida já muito distinta de sua mãe, e da trajetória de seu irmão Márcio. A história de Sérgio, o outro filho, também tem suas particularidades. Ele conheceu bem o bairro, desde criança, e daí são outras as questões que aparecem.