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A ANCED – Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, de âmbito nacional, que atua na defesa dos Direitos Humanos da infância brasileira. A ANCED constituiu-se em 10 de outubro de 1994, a partir de uma articulação dos Centros de Defesa em rede nacional existente desde 1991. A ANCED se faz presente em quinze estados brasileiros a partir da ação desenvolvida pelos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente - CEDECA’s - filiados, que unificam-se pela missão de proteção jurídico- social de direitos humanos de crianças e adolescentes. Afirmamo-nos como sujeitos do Sistema de Garantia de Direitos, em especial dos eixos da Defesa e do Controle Social. A coordenação da ANCED é formada por um colegiado composto de três CEDECA’s , eleito pela Assembléia Geral a cada dois anos

Esse é o texto mais recente de apresentação da Associação Nacional dos CEDECAs, em seu endereço eletrônico. A principal inflexão que se nota nele é o deslizamento contido na passagem dos “direitos da criança e do adolescente” para os “direitos humanos” da infância. Este deslizamento tem histórias específicas, mas para o argumento convém notar que a reivindicação dos “direitos humanos” explicita, antes de mais nada, a filiação a um campo de debates, nomeado por uma categoria mais ampla em que cabem tanto crianças e adolescentes quanto adultos, e que portanto favorece a associação deste movimento outros mais ampliados. Os “direitos humanos da infância” demarcam terreno, portanto, tanto na área da infância quanto no debate mais amplo. E demarcam de um modo específico: Valdênia, que já despontava como uma figura articuladora desta rede, conta como isso se materializava concretamente, no momento de elaboração do ECA:

A gente sempre participou da Pastoral do Menor, do Movimento de Meninos e Meninas de Rua, então já nos encontrávamos porque sempre acreditamos nas articulações, não é? E sempre muito propositivos, então na verdade foi um casamento, uma junção, a necessidade [local] mais [a oportunidade da conjuntura]. (...) Inclusive, o artigo que prevê a área das entidades na promoção da defesa [ECA art. 87] foi pressão mesmo já

desse movimento. Nós nos reunimos em vários estados para poder conversar e ir montando, então se você olhar a data de nascimento de todos os Centros de Defesa, são tudo mais ou menos por ali [1991-2]. Porque nós tínhamos muito famosos os Centros de Direitos Humanos por conta dos presos políticos. E os Centros de Defesa das Crianças e Adolescentes saem no grito pra dizer, escuta: é importante ter o cento de defesa para os presos políticos, mas tem outros presos, que não vêm da classe média, que são tão políticos quanto. Então foi o primeiro corte, na verdade, se olharmos as histórias. [Valdênia].

Alinhar-se aos defensores de direitos humanos, no Brasil, sempre foi assumir uma posição num debate político. No período, Valdênia faz já notar uma distinção interna ao campo movimentista, entre os movimentos vinculados aos setores médios e intelectuais (que traziam a discussão dos direitos humanos tendo como foco a repressão militar e os presos políticos), e o “grito” dos CEDECAS, sempre entidades das periferias urbanas, que reivindicavam direitos humanos para os presos comuns, sobretudo adolescentes. Havia naquele momento efervescente grande legitimidade para os Centros de Direitos Humanos, num período de refluxo da repressão estatal, os CEDECAs tentavam ampliá-la a outros setores: seria também por razões políticas que ocorriam as violações de direitos humanos nas periferias urbanas. Hoje, o problema é enquadrado de modo bem distinto, e os termos desta discussão já são outros.

Atualmente a própria expressão “direitos humanos” é publicamente questionada, mesmo em sua validade normativa. Se os “presos políticos” contavam com diversas instâncias sociais de legitimação, o “pessoal dos direitos humanos” hoje representa, no debate corrente, um conjunto de organizações e pessoas que defendem direitos de grupos sociais sem nenhuma legitimidade pública – moradores de rua, vítimas de violência ilegal, ameaças e tortura, dependentes químicos e pacientes psiquiátricos desassistidos, mas sobretudo indivíduos submetidos à extrema pobreza, que quase sempre circulam pelos regimes de internação, incluindo aí tanto adolescentes quanto adultos privados de liberdade. Defender direitos humanos é defender “bandidos” e “vagabundos” 201.

201

Para a família, você estudou, precisa ganhar dinheiro. E aí uma filha que estudou, com o maior sufoco, e faz a opção de não ganhar dinheiro. Não é que eu fiz a opção de não ganhar dinheiro, fiz a opção por um trabalho que não me dá dinheiro! [risos] Então você imagina, depois, quanto que a família ainda sofre [pelo tema de trabalho escolhido], rechaçada: ‘ah, sua filha defende bandido!’ [Valdênia]

Para as entidades a convivência com dramas intensos intensifica sua razão de ser: trata-se de defender famílias e indivíduos marcados por histórias de homicídios de familiares, maus- tratos, violência do crime e da polícia, além dos circuitos conhecidos como as “piores formas do trabalho infantil”, ou seja, aquelas que exploram a mão de obra de crianças e adolescentes em conflitos armados, no tráfico de drogas e de pessoas, na produção de pornografia, exploração sexual e prostituição infantil202. Defender os direitos humanos passa a ser defender aqueles que não têm direitos, mas que formalmente estão inseridos em uma comunidade política formalmente organizada em torno de um Estado democrático. Explorar este “mal-entendido” entre a lei igualitária e a desigualdade social é considerado de relevância central para o CEDECA203.

Mas embora defendam a lei, os “cidadãos” a defender são nomeados como “vagabundos” e “bandidos”, portanto seres a reprimir, isolar ou eliminar. Quando a ANCED e os CEDECAs assumem fazer a defesa dos “direitos humanos”, portanto, delimitam também um tipo específico de problema a enfrentar – as entidades são vistas como defensoras de “bandidos”, e quem defende direitos de “bandidos” iguala-se a eles. No senso comum, por se proporem a representar aqueles grupos desprovidos do “direito a ter direitos”, as próprias organizações passam a viver a experiência de ter, elas mesmas, que reivindicar a legitimidade de sua existência.

202

Organização Internacional do Trabalho (1999).

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O CEDECA considera a garantia formal de direitos um patamar de luta, e sai invariavelmente na defesa tanto do ECA quanto da Constituição Federal. Ao contrário de desmerecer a lei porque ela não se realiza na prática, a entidade tem clareza de que, sem a lei que garanta a existência política formal dos direitos da população que defende, sua legitimidade seria ainda mais questionada. Neste sentido, a atuação da entidade é crítica a uma noção de direitos humanos de concepção “humanista”, que desconsidera a necessidade do Estado nacional e de sua legislação como garantia de seus princípios. Crítica por conhecerem, na prática, a realidade da leitura de Arendt (2000a) acerca dos direitos humanos. Os Direitos do Homem, afinal, haviam sido definidos como “inalienáveis” porque se supunha serem independentes de todos os governos; mas sucedia que, no momento em que seres humanos deixavam de ter um governo próprio, não restava nenhuma autoridade para protegê-los e nenhuma instituição disposta a garanti-los. Arendt (2000a, p.325). A autora se refere aos apátridas (ou povos sem Estado), que perderam sua cidadania no período entre-guerras. Ela argumenta que sem a proteção de um direito constitucional, da cidadania legal, estes indivíduos passavam a ser desprovidos do “direito a ter direitos”, e conseqüência deste processo era sua privação imediata dos direitos humanos. O paradoxo da perda de direitos humanos é que essa perda coincide com o instante em que a pessoa se torna um ser humano em geral – sem uma profissão, sem uma cidadania, sem uma opinião, sem uma ação pela qual se identifique e se especifique. Arendt (2000a, p.335).

Em suma, a questão relevante à compreensão da atuação dos CEDECAs, que também compõe as fronteiras entre os setores populares urbanos e o mundo político, é que como os direitos humanos em direitos traduzem-se em direitos dos “sem-direito”, assume-se que, embora estes indivíduos e grupos sejam formalmente cidadãos do país, eles necessitam de suporte externo para fazer valer esta cidadania. Sendo assim, os direitos humanos na prática reafirmam a necessária ingerência sobre estas populações, argumento que, submetido às disputas próprias do debate público, conflui para a sedimentação da imagem destes grupos como necessariamente objetos de intervenção. O debate em torno deles se faz, portanto, entre as alternativas de proteção, bastante minoritárias, e as de controle por assistencialismo ou gestão técnica, preventivas à repressão violenta nos casos em que estas não adiantarem204.

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