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Narrativas Digitais Interativas

No documento Auto da Compadecida em Hipermídia (páginas 70-79)

5. O Ambiente Hipermidiático

5.2 Narrativas Digitais Interativas

Desde as antigas culturas orais até a geração que atualmente navega pela Internet, diversas formas de transmissão de conhecimento foram desenvolvidas pelo homem no sentido de preservar sua cultura através do tempo.As narrativas repassadas

55 G. P. LANDOW, Hypertext. The Convergence of Contemporay Critical theory and Technology, p. 13-94.

através da oralidade constituíam-se também como forma de transmissão de experiências adquiridas.

O poeta popular como representante do povo e repórter dos acontecimentos da vida no Nordeste do Brasil é também contador de histórias. Não há limite na escolha dos temas para a criação de um folheto de cordel. Podem-se narrar os feitos de Lampião, as “prezepadas” de heróis como João Grilo ou Cancão de Fogo, uma história de amor ou acontecimentos importantes de interesse público.

O cantador popular de cordel, nômade como o jogral de quem é herdeiro, recebe situações e imagens que conjugam tradições diversas e antigas. Não há limites entre a cantoria e o folheto, considerando que a passagem para a escrita, não depende do oral, mas tudo o que é escrito pode ser cantado, residindo assim, uma das causas para a incerteza da autoria.

No momento em que todos são narradores/tradutores, têm-se diversas narrativas relatando o mesmo acontecimento. Há divergências no modo de contar, porém o sentido original, o fio condutor da história, é preservado. É como se a história tivesse se fragmentado em diversas partes, que ao invés de se excluírem, passam a se complementar entre si, de modo que o escritor responsável pela reconstituição da história aglutina os fragmentos.

As narrativas não esgotavam a experiência no momento de seu relato, elas eram incorporadas pelos ouvintes, de tal forma que atravessavam gerações, configurando-se mesmo como experiências coletivas de uma cultura, de um povo. Dessa forma, a narrativa implica uma interação subjetiva entre o narrador/emissor e seu ouvinte/receptor.

Uma das características da narrativa é a habilidade na articulação do pensamento. O bom narrador é aquele capaz de articular diferentes histórias, recorrendo às experiências adquiridas ao longo de sua vida, de maneira a constituir uma única narrativa.

A Internet parece ser o espaço de convergência onde a informação e a experiência se encontram. Contar uma história na Web é dividi-la com leitores em diversos pontos do mundo, e dadas as próprias características da WWW, a história pode ser apropriada e incorporada a outras histórias desses leitores.

Na verdade este processo de construção não é novo. Os livros já permitiam esse relacionamento entre textos, através das notas de rodapé, das referências bibliográficas. Ocorre que na WWW esta ligação é mais explícita, dada a praticidade do hipertexto em relacionar diversos blocos de informação dinamicamente. Mas, o que chama atenção agora é a possibilidade de interação efetiva entre o autor/emissor e o leitor/receptor. Se nas narrativas modernas a interatividade subjetiva decorria da interpretação da mensagem pelo receptor, na Web pode mesmo ocorrer uma interatividade entre as pessoas envolvidas no processo de comunicação como em nenhum outro meio de comunicação moderno até então.

Por narrativa hipertextual, entendemos projetos desenvolvidos especificamente para este meio, e não as obras escritas em forma de livros impressos que foram transpostas para o suporte digital. Já foi comentado anteriormente que na literatura, já se havia tentado romper com a linearidade e aumentar o grau de envolvimento dos leitores.

Com os recursos de hipertexto, pode-se utilizar, de modo real, uma estrutura que permita ao leitor estabelecer trajetos de leitura e relações que não tenham sido pré-determinadas. Com os recursos do meio digital ainda é possível utilizar imagens, sons, vídeos e ambientes virtuais como blocos de informação dentro da estrutura hipertextual, constituindo o que se poderia chamar de hipernarrativa.

A experimentação do conteúdo digital na forma de hipernarrativa, se desprende de padrões tradicionais, podendo apresentar-se de forma simultânea e interativa e não apenas linear. O novo meio permite uma forma participativa de interação que reage às informações que inserimos. Sua forma de representação permite a construção de espaços navegáveis no qual podemos nos mover, recuperar e interferir nas informações que nos são apresentadas.

Atualmente pode-se encontrar na Internet dois tipos de hipernarrativas, ou

hiperficções como proposta de Micheal Joyce56 - a hipernarrativa explorativa e a hipernarrativa construtiva.

Na hipernarrativa explorativa existe somente um autor da história. Este como leitor também, pode tomar decisões sobre o trajeto a ser percorrido e quais lexias57 deve escolher a cada momento, exigindo assim, atividade constante. Aqui o autor, que também é leitor da história, que não escreve, mas decide sobre o que foi escrito previamente.

Por outro lado, a hipernarrativa construtiva permite a colaboração por parte de cada leitor, mesclando os limites entre autor e leitor. Esta prática é um exemplo de autoria compartilhada, que tem intenção lúdica. Mesmo se limitado ao texto, é possível superar a improvisação e o pouco grau de intervenções pessoais limitado por aspectos tecnológicos.

Uma alternativa para a construção de hipernarrativas apontada por Judy Malloy58, é a construção de blocos, curtos o suficiente para prender a atenção do leitor e ao mesmo tempo consistentes de forma que o leitor os guarde na memória , que incorpore-os à sua experiência.

“Minhas hipernarrativas são escritas em blocos de construção de narrativa do formato de uma tela, que podem tanto permanecer isolados como podem ser combinados com outros blocos de diversas maneiras. Cada ‘tela’ representa uma ‘figura de memória’ completa, totalmente expressa e algumas vezes visual. De ‘Uncle Roger’ até o trabalho de “literatura pública” que venho escrevendo na Web desde novembro de 1995 - ‘The Roar of Destiny Emanated from the Refrigerator. I got up to get a beer.’, minhas hipernarrativas são coleções de pequenos blocos de construção de informação narrativa intensamente escritos que podem se sustentar independentemente mas podem também ser combinados com outras telas para constituir-se num todo com um significado maior.

De maneira semelhante ao processo vivido pelo compositor ao compor diferentes partes de uma música que eventualmente serão ouvidas em conjunto pelo ouvinte, quando escrevo as telas individuais, tenho em mente as diversas maneiras que um leitor pode combiná-las.

Na Web, não espero que o leitor leia mais do que três ou quatro telas antes de saltar incansavelmente para outra url. Assim, é particularmente importante que cada tela de uma narrativa na Web seja memorável em si e para si.”59.

57 Fragmento do hipertexto, caracterizado por informação, podendo ser som, imagem, vídeo ou outro tipo de mídia.

58 Judy MALLOY, Hypernarrative in the Age of the Web

59 Judy Malloy: “My hypernarratives are written with screen sized narrative building blocks that can either stand alone or be combined with each other in multiple ways. Each “screen” represents a complete, fully

Ao reagir a estímulos externos, explorando os links das páginas, a “leitura” que se faz na Web aproxima-se do pensamento e da construção de significado que fazemos a partir das experiências sensoriais que nos cercam.

Os conceitos apresentados anteriormente são consolidados no próximo capítulo, que apresenta a transcriação da obra de Suassuna no ambiente hipermidiático.

expressed and often visual “memory picture”. From Uncle Roger to the work of “public literature” that I have been writing on the web since November of 1995 - The Roar of Destiny Emanated from the Refrigerator. I got up to get a beer., my hypernarratives are collections of small intensely written building blocks of narrative information that can stand by themselves but can also be combined with other screens to make a whole with greater meaning. // Somewhat like the process a composer goes through in composing four different streams of music that will eventually be heard together by the listener, when writing individual screens, I keep in mind the many ways in which a reader might combine them. // On the web, I do not expect the reader to read more than three or four screens before moving restlessly on to another url. So, it is particularly important in that each screen of a web hypernarrative be memorable in and of itself.”

No documento Auto da Compadecida em Hipermídia (páginas 70-79)

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