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Natureza da reciprocidade e estruturas recíprocas

CAPÍTULO II REFLEXIVIZAÇÃ O E RECIPROCIZAÇÃO: NATUREZA DA SUA CODIFICAÇÃ O

2.4 Reciprocização

2.4.1 Natureza da reciprocidade e estruturas recíprocas

(com verbos lexicalmente reflexos)

Reflexas não corporais + +

Prefixo reflexo AUTO-

ZI-/ZIWO-Reflexividade prefixada + + Presença de marcador argumental + - Alteração de transitividade da estrutura - +

Verbos lexicalmente reflexos - +

Compatibilidade com

marcador recíproco / -

Quadro 2.8: Codificação de reflexividade em PE e em mandarim

2.4 Reciprocização

2.4.1 Natureza da reciprocidade e estruturas recíprocas

Numa construção recíproca estabelecem-se relações complexas entre as duas ou mais entidades sendo cada uma das quais balizada pelo antecedente. Não obstante, nenhuma das entidades está associada simultaneamente a dois papéis distintos num só subevento da situação descrita pela construção. Em vez disso, uma construção

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recíproca descreve subeventos paralelos em que cada uma das entidades do conjunto desempenha um único papel em cada subevento. Em outras palavras, cada indivíduo do conjunto pode ser agente num subevento e paciente noutro, mas nunca poderá acumular estes dois papéis simultaneamente num mesmo subevento (como em II-84), contrariamente àquilo que acontece numa construção reflexa (II-83) (Lobo, 2013: 2212-2213).

(II-83) A Maria e a Rita pentearam-se (a si próprias). –Leitura reflexa (II-84) A Maria e a Rita pentearam-se (uma à outra). –Leitura recíproca

Nas frases (II-83) e (II-84), em ambos os casos há um conjunto de dois elementos e dois subeventos: em (II-83), em que se permite uma leitura reflexa, cada membro acumula simultaneamente dois papéis diferentes (agente e paciente): a Maria

penteou-se a si própria e a Rita também se penteou a si própria; na frase (II-84), em que se permite uma leitura recíproca, a Maria participa num evento como agente, em que penteou a Rita, e noutro subevento enquanto paciente, em que foi penteada pela

Rita (e vice-versa). A diferença entre as frases (II-83) e (II-84) revela-se mais visível no seguinte gráfico:

(II-83) (II-84)

A Maria e a Rita pentearam-se (a si próprias)

A Maria e a Rita pentearam-se (uma à outra) Agente Paciente a Maria a Rita a Maria a Rita a Maria a Rita a Maria a Rita Estrutura reflexa (sujeito composto) Estrutura recíproca (sujeito composto) Gráfico 2.3: Estrutura reflexa vs. Estrutura recíproca

É importante salientar de novo a impossibilidade de um determinado membro assumir dois papéis no mesmo subevento, razão pela qual o antecedente (o sujeito)

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duma construção recíproca é necessariamente não unário. No caso de o antecedente incluir mais de dois elementos, a situação pode ser ainda mais complicada porque é possível que nem todos os indivíduos envolvidos desempenhem os dois papéis em subeventos distintos, como se ilustra no seguinte exemplo dado por Lobo (2013: 2213): (II-85) As crianças (a Ana, a Rita e o Zé) lavaram-se (umas às outras).

A frase permite duas interpretações (como se mostra no Gráfico 2.4). Na primeira leitura incluem-se dois subeventos: (i) a Ana lavou a Rita; (ii) a Rita lavou o . Nesta interpretação (a primeira hipótese do Gráfico 2.4), todos os indivíduos participam num subevento, quer como agente quer como paciente, mas apenas um (a Rita) participa em dois subeventos, num como agente noutro como paciente. Na segunda hipótese do Gráfico 2.4, há três subeventos: (i) a Ana lavou a Rita; (ii) a Rita lavou o ; (iii) o

lavou a Ana. Neste caso, todos participam em dois subeventos, num como agente noutro como paciente.

1ª Hipótese 2ª Hipótese Agente Paciente a Ana a Rita o Zé a Ana a Rita o Zé a Ana a Rita o Zé a Ana a Rita o Zé Gráfico 2.4: Duas interpretações possíveis da reciprocidade

Quando à questão de tipologia de estruturas recíprocas, existem vários modelos, como os de König & Kokutani (2006), de Nedjalkov (2007) e de Haspelmath (2007)13. No presente trabalho, usa-se o modelo de Evans (2008: 33-104) porque é considerado o mais completo, e nele estão representadas as estruturas recíprocas em mandarim. De acordo com este autor, a primeira divisão contempla frases simples e frases compostas. A codificação da noção de reciprocidade é muito explícita em estruturas

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de coordenação, em que não é preciso o uso do nenhum marcador recíproco: (II-86) O Filipe ama a Helena e a Helena ama o Filipe.

Numa frase simples, encontram-se várias estratégias para assegurar a reciprocidade, como se exibe no seguinte gráfico:

Single clause

NP marking strategy Verb-marking strategy Conjunct strategy Modifier strategy

Reciprocal pronoun (Clitics)

Gráfico 2.5: Tipologia de estruturas recíproca

(Gráfico adaptado do original apresentado por Evans, 2008: 45)

Apresentam-se, no presente trabalho, apenas as estratégias adotadas nas línguas que são objeto de estudo (PE e mandarim). Segundo Evans (2008), a Estratégia de Clíticos advém das línguas românicas, em que SE (em francês, espanhol e português) ou SI (em italiano) servem como marcadores tanto para a reflexividade como para a reciprocidade, assumindo normalmente a função sintática de complemento verbal. Em PE, a argumentalidade de SE nas estruturas recíprocas também provoca, tal como acontece com as estruturas reflexas, muita controvérsia porque existem duas linhas de análise opostas (Ribeiro, 2011: 52): uma que defende que as estruturas recíprocas decorrem de uma operação diatésica recessiva que resulta na perda de manifestação sintática de um dos argumentos selecionados pelo predicador; outra que postula que todos os argumentos exigidos pelo verbo têm presença na linearidade frásica. Esta questão voltará a ser discutida no próximo capítulo (cf. Secção 3.5.1).

A segunda estratégia é Estratégia Verbal: com certos verbos inerentemente recíprocos dois participantes unem-se num único argumento, havendo portanto uma

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redução de valência de um argumento (II-87b). Importa chamar a atenção para a possibilidade de não realização de nenhum marcador nas estruturas recíprocas expressas através de estratégia verbal. Os exemplos dados por Evans (2008: 73) permitem esclarecer a realização de reciprocidade com esta estratégia:

(II-87) (a) John kissed Mary and Mary kissed John. (b) John and Mary kissed.

Evans (2008: 73) pretende ilustrar, através destes dois exemplos (II-87a e II-87b), a diferença entre a estrutura unidirecional e a recíproca: na estrutura unidirecional a ação é feita pelo agente (x) sobre o paciente (y) enquanto na estrutura bidirecional recíproca, x age sobre y e simultaneamente y age sobre x:

Unidirecional Recíproca

V <x,y> V <x+y>

Quadro 2.9: Estrutura unidirecional vs. Estrutura recíproca

Nota-se que a estratégia verbal é possível em múltiplas línguas como PE e mandarim, questão que se discutirá detalhadamente mais adiante.

Uma outra estratégia a destacar é a Estratégia Modificativa, com a qual se marca a reciprocidade com um modificador, elemento que não se integra no predicado como argumento (Evans, 2008: 76). Por exemplo, o marcador recíproco mais utilizado em mandarim huxiang é modificador (advérbio), que corresponde semanticamente aos advérbios mutuamente e reciprocamente em PE.

Para muitas línguas, como por exemplo o PE, o advérbio recíproco representa apenas uma estratégia secundária, não sendo obrigatória a sua presença numa estrutura recíproca:

(II-88) Eles ajudaram-se (mutuamente) durante este semestre.

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representa uma estratégia primária: (II-89) Temen huxiang bangzhu.

Eles mutuamente ajudar

Eles ajudam-se (mutuamente).

Note-se que neste exemplo em mandarim, o advérbio huxiang é o único marcador recíproco que se encontra na frase, sem o qual não se marcaria a reciprocidade. Apresentam-se, nas seguintes secções 2.4.2 e 2.4.3, as estruturas recíprocas em PE, língua-alvo de aquisição, e em mandarim, L1 dos aprendentes.