2. Uma visão panorâmica da literatura de cordel no Brasil
2.3. Negros, protestantes, mulheres e “matutos” nos folhetos
Diversos estudos têm-se dedicado à análise de certas temáticas recorrentes nas histórias dos folhetos. Destaco, aqui, alguns desses temas, por considerá-los importantes para a compreensão do universo da literatura de cordel, a partir de algumas categorias que permeiam todo o estudo. Para isso, utilizo alguns exemplos retirados, de maneira aleatória, das histórias28. Esses temas estão relacionados, principalmente, à questão do preconceito presente em muitos poemas. O “outro” – negro, protestante, mulher ou “matuto” –, não necessariamente referido a um outro empírico (o autor, o editor ou mesmo o leitor/ouvinte dos folhetos), é, via de regra, considerado de maneira estigmatizada em muitas histórias; estigma certamente presente em outras esferas da sociedade na época29.
A questão do preconceito racial contra negros e também índios, presente na literatura de cordel, já foi tema de estudos específicos30. Nos folhetos, dois procedimentos principais são utilizados pelo poeta quando introduz personagens negros nas histórias. Em alguns
naquele país. Muitas dessas histórias, segundo Márcia Abreu (1993 e 1999), foram reeditadas seguidamente durante dezenas e, às vezes, centenas de anos. A autora encontrou, por exemplo, impressões da história da Donzela Teodora datadas de 1712 a 1945, e de Paixão de Cristo, de 1559 a 1893. Além disso, a autora observou que obras mal elaboradas e de qualidade ruim só tiveram uma ou duas edições, revelando o papel do julgamento do público na perenidade ou não das obras. Esse fato parece indicar que, ao contrário do que tantos pesquisadores têm afirmado, não é somente no “Nordeste” que certos enredos perduram... Poderia acrescentar, embora pareça óbvio, que na denominada “literatura erudita” acontece o mesmo fenômeno: algumas obras tendem a atravessar gerações; outras fracassam em sua primeira edição.
28
Nesta parte do trabalho, não realizo uma análise aprofundada dos textos dos folhetos, como busco fazer no capítulo II.
29
Sobre o estigma, ver o trabalho clássico de Erving Goffman (1983/1963).
30
Ver, por exemplo, Jeová Franklin (1970), Orígenes Lessa (1982) e Olga Santos e Marilena Vianna (1989). O preconceito contra os negros estava também presente nas cantorias que ocorriam no Brasil no século XIX. Ver, por exemplo, Francisco das Chagas Batista (1997/1929).
casos, o autor primeiro apresenta as características principais do personagem para, então, referir-se a sua raça ou etnia. As associações entre o “mal” e os negros e índios ou seus descendentes que, depois de uma certa prática de leitura de folhetos, o leitor/ouvinte é capaz de inferir, sem dificuldades, é explicitada assim, aos poucos, pelo poeta:
“Então soube que o carrasco Era um tal de Zefirino Um calibre mais ou menos Egual ao de Valdevino
Tinha os tres dons da desgraça Cobarde, vil, assassino.
Era um mulato laranja De um aspecto aborrecido O côro da testa delle Sempre se via franzido Os cabellos bem vermelhos
Rosto largo e não comprido.” (O cachorro dos mortos, p.30)
No folheto História do Pescador, o poeta introduz o novo personagem na narrativa com o verso: “Viram um prêto apparicer” (p.36). Cerca de dez versos depois, ele conclui uma estrofe com o verso: “Olhava p’raquelle monstro”. Nesse intervalo, o poeta não traz mais nenhum elemento que permita ao leitor associar o personagem a um monstro. O anúncio de que, a partir daquele momento, havia um “preto” na história, é suficiente para que o leitor preencha os vazios da narrativa. Para ser capaz de preencher esse “branco”, o leitor tem que ter uma “enciclopédia”31, construída a partir de sua inserção em uma cultura específica e também através de leituras com estruturas semelhantes, que lhe permita associar a raça negra à monstruosidade. Algumas páginas depois, o poeta confirma o que o leitor já havia construído, ao reunir, em uma só estrofe o “preto” e o “monstro”, identificando claramente a quem estava atribuindo a qualidade:
“Eu julguei que ella do prêto Estava sem esperança Porem ella conservava
O monstro em sua lembrança E contra mim se preparava
P’ra tomar uma vingança.” (Historia de um pescador, p.61)
31
ANA MARIA DE OLIVEIRA GALVÃO
38
Em outros casos, depois de apresentadas as características físicas do personagem, o poeta revela as suas características morais, como se pode observar nas estrofes a seguir:
“Havia alli um mulato, chamado José Vaqueiro, um indivíduo ladrão, cobarde e alcoviteiro jurava o que nunca via
por diminuto dinheiro.” (A vida de Cancão de Fogo e o seu testamento, p.15)
Há momentos em que a simples referência a algo negro ou preto é suficiente para exprimir, para o leitor, que se trata de qualquer coisa (não importa o quê) nociva, inimiga do herói, destruidora do bem. A caminho do reino do Trovador, onde se encontrava a princesa, Gelmires, o caçador e mocinho da história A garça encantada passou pelo reino das Trevas, de onde teve que sair correndo, com medo do inimigo. Na estrofe abaixo, para os leitores acostumados às histórias de cordel, a palavra “horrenda” certamente soaria redundante tendo em vista o substantivo que a antecede:
“Uma negraria horrenda que estava ali á ouvir, partiu para o lado d’ele tratando de o perseguir o moço nada encarando
começou, logo à fugir.” (A garça encantada, p.9)
As estrofes que apresentam a personagem mulher negra em sua casa, no caminho da longa viagem feita por Cancão e Alfredo, vão induzindo o leitor a construir uma imagem – a associação negro-maldade-demônio – sobre a qual ele já tem referências, a partir de outras leituras já realizadas e de outras vivências que lhe possibilitaram construir um certo tipo de enciclopédia. A “crioula” vivia em um lugar esquisito, sozinha – somente na companhia dos filhos – sem vizinhos por perto. Revela seu ódio por Cancão – é uma serpente, animal associado tradicionalmente ao mal e à mulher –, que é branco; atira-lhe uma bala, por fim, e “uiva” – verbo associado ao cão, ao lobo, ao lobisomem, ao sobrenatural – de raiva porque, evidentemente, Cancão sai ileso do episódio.
“Era um lugar esquesito somente uma casa havia uma crioula acolá, com quatro filhos vivia
dalli até doze leguas não tinha uma moradia A creoula cozinhava era fora do oitão, elles viram uma panella que conzinhava feijão a crioula pisava milho estava conzinhando um pão. Cancão de fogo chegou comprimentou-a contente a negra cravou-lhe os olhos que parecia serpente o cancão disse comsigo eu pensava differente. O cancão de fogo disse não podemos mais andar vossa exellencia me arranje o que se possa jantar temos dinheiro e pagamos o que a senhora cobrar. A negra olhou e lhe disse já por alli vagabundo gente branca para mim é a peior deste mundo você pode se damnar morrer com os olhos fundo (...)
A negra ainda atirou-lhe mas o tiro não pegou a negra uivava na ira e de que forma ficou depois que chegou em casa
e a panella não achou” (A vida de Cancão de Fogo e o seu testamento, p.38-39; 40)
Em alguns casos, o poeta, irônico, exprime que, mesmo um pobre, se for branco e utilizar a esperteza, pode enganar um rico, negro e, conseqüentemente, pouco inteligente. Questão que pode ser observada na estrofe abaixo, em que um personagem narra mais um caso de Cancão:
“Um preto aqui fazendeiro no tempo da escravidão, botou-o como empregado e elle uma occasião
ANA MARIA DE OLIVEIRA GALVÃO
40
e lá vendeu o patrão.” (A vida de Cancão de Fogo e o seu testamento, p.58)
Mesmo em relação aos animais, a associação entre o “mal” ou o “bem” e a raça/cor é, na maioria das vezes, direta. Nesses casos, os animais de cor escura se relacionam principalmente a feitiços do mal, ao diabólico32. Ao narrar o parto da vaca misteriosa, o poeta já havia antecipado as expectativas do leitor, ao dizer que havia ocorrido no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, quando, tradicionalmente, o diabo está solto. Somando-se a esse elemento, o poeta também contribui para antecipar a leitura ao afirmar que aquele era um ano de seca: as catástrofes naturais, nos folhetos, estão muitas vezes associadas ou ao castigo divino ou à praga do diabo. O leitor freqüente de folhetos não terá dificuldades de presumir, quando a estrofe abaixo for lida, que o fato de o bezerro ter nascido preto, associado a outras características – “grande e nutrido” demais para um recém-nascido – significa a presença do satanás.
“Della nasceu um bezerro um pouco grande e nutrido preto da côr de carvão, o pello muito lusido representando já ter
um mez ou dois de nascido.” (O boi mysterioso, p.6)
Em A chegada de Lampião no inferno, para impedir que Lampião entre no inferno, satanás instrui o vigia a convocar os negros habitantes do local:
“Disse: o vigia patrão a cousa vai aruinar eu sei que ele se dana quando não poder entrar satanaz disse isso e nada convide ai a negrada
32
A associação entre os negros e as práticas de feitiçaria encontram-se presentes também em diversas formas de poesia oral. Leonardo Mota (1987/1921), por exemplo, cita as seguintes quadrinhas que expressam as características supostamente típicas de cada uma das “raças”: “Todo branco quer ser rico,/Todo mulato é pimpão,/Todo negro é feiticeiro,/Todo cigano é ladrão” ou “Mulato não larga a faca/Nem branco a ‘sabedoria’,/Cabra não larga a cachaça,/Nem nego a feitiçaria.” (p.95). Nas memórias e romances analisados, o mesmo tipo de associação é feito. Em O moleque Ricardo (Rego,1993/1935), o personagem que dá título ao romance é negro, mas sente-se receoso em fazer amizade com o também negro seu Lucas, um pacato jardineiro, que não gostava de agitações políticas, mas freqüentava um terreiro: “O moleque do Santa Rosa, porém, fugia do feiticeiro. Negro feiticeiro era danado. E ele fugia dos agrados de seu Lucas. Não. O que Ricardo queria era viver como os outros, ser manso como nascera. (...) Quase que uma noite deixara o quarto correndo, até chegar no Fundão e se entregar a seu Lucas, dando o seu corpo para seu Lucas tirar o que havia de ruim por dentro dele. Mas teve medo de ir. (...) Podia ser pior e que outra coisa lhe entrasse o corpo adentro para o resto da vida.” (p.132;180).
e leve os que precizar Leve cem duzias de negros entre homem e mulher vá na loja de ferragem; tire as armas que quizer é bom escrever tambem pra vir os negros que tem mais compadre Lucifer E reuniu-se a negrada primeiro chegou fuchico com um bacamarte velho gritando por cão de bico que trouxesse o pau da prensa e fosse chara trangença na casa de maçarico (...) Quando Lampeão deu fé da tropa negra encostada disse: só na Abessina oh tropa negra danada o chefe do batalhão gritou de arma na mão
- toca-lhe fogo negrada” (A chegada de Lampião no inferno, p.4;5)
Por outro lado, os personagens que representam o “bem” ou outras características valorizadas pelo poeta (como a esperteza, mesmo com desonestidade, no caso de Cancão de Fogo ou João Grilo, ou a valentia, mesmo que posta a serviço do mal, como em alguns folhetos de Lampião) não são feitas referências à sua raça ou etnia ou são brancos, como no caso abaixo: “Chamava a attenção de todos/ as grandes tranças tão louras” (O cachorro dos mortos, p.4).
Embora de maneira mais sutil, os folhetos também são preconceituosos em relação aos índios ou seus descendentes, como o caboclo33. Esses personagens aparecem, muitas vezes, como vaqueiros, no Sertão. Na estrofe abaixo, sobressai o caráter rude, pouco sofisticado do índio:
“Inda và, mais esta agora! o coronel exclamou! aquelle bruto sahiu
33
Segundo Sílvio Romero (1977/1888), o caboclo foi “desde os tempos coloniais, o objeto de muitos motejos e lendas ridículas; era considerado o tipo de tolice e fatuidade, a encarnação do parvo e do basbaque.” (p.201).
ANA MARIA DE OLIVEIRA GALVÃO
42
e nem me communicou que diabo teve elle
que até o gado soltou?” (O boi mysterioso, p.34)
À semelhança do negro, o índio é, por vezes, associado à magia, à feitiçaria, ao misticismo não cristão:
“Então o povo dizia que o indio era feiticeiro e uma fada pediu-lhe
que não fosse mais vaqueiro a fada transformou elle
em um viado galheiro.” (O boi mysterioso, p.35)
Em outros casos, o poeta associa, como faz com o negro, o índio ao diabo. Aos poucos, o leitor vai, através de associações, cruzamento de informações, recorrência à sua enciclopédia, identificando o caboclo como mensageiro do satanás. Na estrofe abaixo, a primeira em que aparece o personagem, há, aparentemente, uma simples descrição física do vaqueiro. No entanto, a informação de que ele era “caboclo curibóco” já remete o leitor, familiarizado com as histórias de cordel, a desconfiar da transparência do comportamento do personagem:
“Nisso chegou um vaqueiro um caboclo curibóco o nariz grosso e roliço a forma de uma taboca em cada lado do rosto
tinha uma grande pipoca.” (O boi mysterioso, p.42-43)
Algumas estrofes depois, o poeta, utilizando um recurso mais direto, remete ao personagem do coronel a desconfiança em relação ao caboclo, apenas anunciada ao leitor:
“De manhã todos seguiram o caboclo foi na frente o coronel notou logo nelle um typo differente e disse se houver diabo
é aquelle sertamente.” (O boi mysterioso, p.45)
Na estrofe abaixo, através da voz do próprio caboclo, o poeta dá elementos mais diretos para o leitor deduzir que seu “patrão” era o diabo e a “fada” representava as forças do bem.
“Então o caboclo disse póde correr camarada
vamos ver quem tem mais força si é meu patrão ou a fada eu não chego a meu patrão contando historia furada.”
Finalmente, o poeta confirma para o leitor que ainda pudesse apresentar alguma dúvida, aquilo que já se sabia: o caboclo era enviado do diabo. O cavalo que “deitava” “fogo das ventas” e que “tudo assombrava” é o símbolo maior da procedência do personagem. Mas cabe ao coronel “decidir”, definitivamente, quem era o caboclo.
“Então sahiram no campo onde tudo se avistava o cavallo do caboclo fogo das ventas deitava dava sopros na campina que tudo alli se assombrava O coronel disse a todos devemos seguir atraz está decidido que alli anda mão de Satanaz convem agora é nós vermos
ANA MARIA DE OLIVEIRA GALVÃO
44
QUADRO 1
POPULAÇÃO DE FATO, POR COR, SEGUNDO ALGUNS MUNICÍPIOS PERNAMBUCANOS 1940
Total Brancos Pretos Amarelos Pardos Cor não declarada
Município N N % N % N % N % N % Estado 2.688.240 1.463.617 54,45 417.047 15,51 380 0,01 802.649 29,86 4.547 0,17 Alagoa de Baixo 19.063 15.383 80,70 3.581 18,79 - 0,00 98 0,51 1 0,00 Bezerros 67.081 50.591 75,42 3.929 5,86 - 0,00 12.545 18,70 16 0,02 Bom Jardim 48.325 25.429 52,62 3.332 6,89 - 0,00 19.538 40,43 26 0,05 Jaboatão 35.847 12.285 34,27 7.068 19,72 2 0,01 16.378 45,69 114 0,32 Limoeiro 57.054 39.862 69,87 6.615 11,59 5 0,01 10.443 18,30 129 0,23 Nazaré 40.208 8.091 20,12 9.697 24,18 - 0,00 22.391 55,69 29 0,07 Recife 348.424 175.880 50,48 53.221 15,27 164 0,05 118.771 34,09 388 0,11
Fonte: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Recenseamento Geral do Brasil (1o. de setembro de 1940). Série Regional. Parte IX - Pernambuco. Tomo 1. Censo
Demográfico. População e habitação. Quadros de totais referentes a Estado e de distribuição segundo os municípios. Quadros sinóticos por município. Rio de Janeiro: Serviço Brasileiro de
Em Lampeão foi cercado o poeta atribui ao analfabetismo a causa do cangaceirismo, da criminalidade e de outros elementos nocivos à região, como os “pajés” e os “catimbozeiros”, em uma referência direta aos cultos de origem indígena e africana. Poderia levantar algumas hipóteses para tentar explicar as razões de tanto preconceito impregnado. Inicialmente, a escrita dos primeiros folhetos, alguns dos quais reeditados sucessivamente, coincidem quase com o fim da escravidão. O preconceito contra os negros e índios estava presente nas diversas esferas da vida social, inclusive no discurso científico34. Em 1940, por exemplo, embora a população não-branca compusesse 45%35 da população pernambucana36 e, em alguns casos, chegasse a constituir quase 80% da população de algumas cidades, como Nazaré, na Zona da Mata (Quadro 1), os brancos ocupavam, quase completamente, os postos e profissões mais prestigiosos e lucrativos. Em relação à educação, a disparidade entre brancos e não-brancos é ainda maior: ainda em 1940, 91% das pessoas com educação secundária eram brancas, contra 1% de negros (Roberto Levine,1980). De acordo com os dados demonstrados no Quadro 2, enquanto a porcentagem de negros que sabia ler e escrever era de apenas 13,20% no Estado, entre os brancos esse índice era de 30,90%.
34
Em 1888, por exemplo, Sílvio Romero (1977) afirmava que o negro, considerado uma raça ignorante, deveria ser objeto de ciência. Convoca, então, os especialistas a se apressarem em estudar aspectos de sua cultura, antes de sua extinção. Para uma discussão sobre a atração dos estudiosos da “cultura popular” pelos objetos que já estão se extinguindo, ver o artigo A beleza do morto, de Michel de Certeau et al. (1995/1974).
35
Embora a definição de branco, no Brasil, seja vaga e subjetiva, como exprime Roberto Levine (1980), esses dados são, assim mesmo, significativos. Segundo o autor, essa ausência de objetividade na classificação racial da população pode explicar a variação extrema de percentagens raciais em municípios adjacentes de Pernambuco, como, por exemplo, Moxotó e Águas Belas, que tinham, em 1940, 92% e 25% de “brancos”, respectivamente. Essa explicação pode ajudar a compreender também porque, entre 1872 e 1940, a percentagem de pernambucanos classificados como brancos tenha aumentado consideravelmente, embora a percentagem de negros tenha permanecido relativamente constante no período. Segundo o autor, não houve um processo de “branqueamento” no Estado nesse intervalo, mas certamente um deslocamento na definição social de mulato ou pardo (p.41).
36
Número significativo, quando comparado com os índices de 12% para São Paulo e 11% para o Rio Grande do Sul (Roberto Levine,1980).
ANA MARIA DE OLIVEIRA GALVÃO
46
QUADRO 2
ESTADO DE PERNAMBUCO - PESSOAS DE 5 ANOS E MAIS, SEGUNDO A INSTRUÇÃO E COR37
1940
Pessoas de 5 anos e mais por instrução
Total Sabem ler e escrever Não sabem ler nem escrever Pessoas de instrução não declarada Cor N N % N % N % Brancos 1.230.807 380.310 30,90 846.004 68,74 4.493 0,36 Pretos 360.189 47.552 13,20 310.203 86,12 2.434 0,68 Amarelos 333 103 30,93 224 67,27 6 1,80 Pardos e cor não declarada 682.046 142.076 20,83 533.991 78,29 5.979 0,88
Fonte: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Recenseamento Geral do Brasil (1o. de setembro de 1940). Série Regional. Parte IX - Pernambuco. Tomo 1. Censo Demográfico. População e habitação. Quadros de totais referentes a Estado e de distribuição segundo os municípios. Quadros sinóticos por município. Rio de Janeiro: Serviço Brasileiro de Geografia e Estatística, 1950. (Quadro baseado na tabela 17, p.16).
Alguns autores afirmam, como Candance Slater (1984), que os poetas, muitos dos quais também de ascendência africana ou indígena, não se vêem como o “outro”, negro ou índio, que eles representam. Eu acrescentaria que os poetas mais conhecidos e reeditados, como Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, eram, além de brancos, de origem sertaneja. Sabe-se que o número de escravos foi relativamente pequeno no Sertão, região que possui a população menos miscigenada e, talvez, mais preconceituosa em relação aos negros, mesmo hoje38. Essa hipótese é também levantada por Jeová Franklin (1970), em artigo sobre o preconceito racial na literatura de cordel. O autor afirma que poucos estudiosos da cultura popular reconhecem o preconceito forte e explícito do sertanejo contra o negro presente nos folhetos, e, quando o reconhecem, o fazem de forma atenuada. Por outro lado, o sertanejo tem uma forte origem indígena. Mas, a julgar pelos registros do censo, como se pode observar no Quadro 1, a população indígena, a princípio classificada como “amarela”, está
37
Apesar de não concordar com ela, mantive a denominação “cor” utilizada nos registros do Recenseamento Geral de 1940.
38
Em Alagoa de Baixo, atual Sertânia, localizada no sertão de Pernambuco, por exemplo, em 1940, 80,70% da população era considerada branca, enquanto 18,79% era classificada como preta. O número de “pardos” é quase insignificante. Em Nazaré, por outro lado, cidade localizada na zona da mata do Estado, onde a presença da escravidão foi fundamental, empregada principalmente no trabalho com a cana-de-açúcar, apenas 20,12% da população no mesmo ano era considerada branca. Os “pardos”, por sua vez, compunham 55,69% da população (ver Quadro 1).
completamente diluída, provavelmente entre os “brancos”, mesmo no Sertão. Em Alagoa de Baixo, por exemplo, ninguém foi registrado como “amarelo” no recenseamento de 1940.
De maneira menos freqüente, o preconceito religioso está presente e os folhetos também discriminam os protestantes. Muitos títulos ridicularizam a figura do “crente”, como é o caso de algumas histórias do próprio Leandro Gomes de Barros, como O crente e o cachaceiro, um dos mais conhecidos do gênero. O preconceito contra os protestantes parecia presente nas diferentes instâncias da sociedade. Nas décadas iniciais do século, eles eram ainda em pequeno número e não tinham visibilidade significativa, principalmente nas cidades do interior do Estado39 (ver Quadro 3): eram um “outro” que emergia, em uma sociedade de tradição católica – contra-reformista – imposta desde os momentos iniciais da colonização40. Gregório Bezerra (1980, p.62), em suas memórias, narra, por exemplo, o caso de uma moça, “bonita e forte”, que se negou a ir rezar o terço, por não mais “acreditar em reza”, na casa de uma senhora, no Sertão de Pernambuco, na primeira década do século. Diante do fato, sua tia indagou se ela havia se tornado “nova-seita”. Na verdade, os folhetos satirizam também o catolicismo institucional, através de histórias em que padres são trapaceados e, como se viu, são extremamente preconceituosos quanto à religiosidade africana. Cultivam, em grande parte dos casos, o catolicismo “popular”, com o culto a santos e beatos e a crença em Jesus Cristo e nos santos.
39
Em 1940, compunham apenas pouco mais de 1% da população do Estado. Na maioria das cidades do interior esse índice era ainda menor. No Recife e região metropolitana, como Jaboatão, subia para