Novas formas de produção da notícia decorrentes dos usos e apropriações das tecnologias digitais. Processos de conver- gência digital que resultam em conteúdos multimídia exigin- do perfil profissional multitarefa. Inserção de novos atores sociais na produção de conteúdos em plataformas digitais capazes de criticar e participar. Redes sociais sendo utilizadas como ferramentas de apuração de notícias e meio de partici- pação e de colaboração entre usuários e jornalistas. Estas são apenas algumas das inúmeras transformações que têm mar- cado o jornalismo na contemporaneidade e que impactam nas formas tradicionais de produção da notícia, no relacio- namento com o público, na organização dos veículos e na identidade profissional.
Diante dessas mudanças estruturais, impulsionadas pelos fe- nômenos de convergência tecnológica, o jornalismo parece vivenciar momentos de incertezas: como produzir jornalis- mo de qualidade diante do encurtamento dos prazos para
1. Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), doutora em Ciências da Comunicação pela Uni- versidade de São Paulo, pesquisadora sênior e cofundadora do Observatório de Radiodifusão Pública na América Latina. Email: [email protected]
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se fazer uma boa apuração? Como conciliar as demandas por velocidade com a produção de qualidade? Como manter o compromisso com a independência e o interesse público quando, por vezes, tornam-se fluidas no digital as fronteiras entre jornalismo, entretenimento e publicidade? Como selecionar informações confiáveis, críveis, originais e esclarecedoras em meio à profusão de dados pro- duzidos por uma variedade enorme de fontes disponíveis na Internet?
Com base em dados obtidos numa ampla pesquisa sobre a profissão e seus valores, os americanos Kovach e Rosenstiel (2004:31), chegaram à conclusão que a tecnologia está enfraquecendo o jornalismo de verificação e investigação independente a partir do momento em que a Internet passou a oferecer acesso fácil a matérias, relatórios, dados e informações de segunda ou terceira mão. Segundo eles, os jornalistas passaram a gastar mais tempo tentando sintetizar uma massa de informação recolhida da web, correndo o risco de se tornarem mais passivos, recebendo mais do que procuram saber. O espaço virtual estaria se convertendo em um novo modo de conhecimento do mundo exterior e das pessoas. São mudanças que, no limite, ameaçam os fundamentos do jornalismo como a disciplina da verificação, a independência engajada com a missão de informar com veracidade e correção, e o compromisso com o interesse público. No Brasil, o blog do professor Manuel Carlos Chaparro, O Xis da Questão (www.oxisdaquestao.com.br) tem cumprido o papel de fortalecer os valores e princípios que guiam a produção do jornalismo de qualidade em tempos de mudanças. Criado em 2007, o blog é um espaço público de debate acadêmico e profissional no qual o professor da ECA-USP analisa diariamente a narrativa da mídia sobre os acontecimentos, questiona práticas e métodos de construção das notícias, destaca “o saber de quem faz” e, ainda, oferece aulas em vídeo e textos sobre os conceitos básicos do jornalismo.
Para Chaparro é no tempo e no espaço da atualidade que o jornalismo atua e se realiza:
Atualidade é um ambiente de conflitos entre sujeitos interessados, legi- timamente organizados, que agem de forma mais ou menos competente na sociedade. São partidos e líderes políticos, empresas e empresários, go- vernos e governantes, organizações não governamentais, universidades, sindicatos, clubes, associações de todos os tipos, artistas, intelectuais, es- pecialistas – todos com capacidade de produzir fatos e falas noticiáveis.2
2. Ver O Xis da Questão, seção Sínteses. Disponível em: <http://www.oxisdaquestao.com. br/sinteses.asp>
O ponto central das análises do professor é a ação dos jornalistas nos proces- sos da atualidade e vice-versa. Segundo ele, seria impossível compreender, ana- lisar e discutir o jornalismo de hoje sem considerar a velocidade dos conteúdos gerados pelas fontes. A crise do jornalismo está na revolução das fontes:
Os sujeitos institucionais do mundo globalizado (ainda chamados de “fontes” nos envelhecidos glossários da cultura jornalística), são entes sociais pragmaticamente falantes: em ações planejadas e coordenadas, sa- bem dizer; sabem o que dizer; sabem quando, onde, como dizer. E agem no espaço público da Notícia como usuários competentes da linguagem jornalística, assumindo-se produtores de conteúdos relevantes, materia- lizados em acontecimentos, fatos e falas noticiáveis. Assim, pelas formas discursivas e pelas redes difusoras do jornalismo, dizem pelo que fazem. E fazem pelo dizem. É a revolução das “fontes”.3
E o que fazer diante da revolução das fontes? A resposta do professor é simples e pragmática: “não perder a vocação e o dever do desvendamento”. Significa que hoje não basta relatar, dizer o que aconteceu. É preciso “penetrar a superfície organizada da atualidade” e sair dessa esfera da aparência que se encontra controlada pelas fontes interessadas e revelar contextos e conflitos, ensina Chaparro. A respeito da revolução das fontes na atualidade, Manuel Chaparro estabeleceu um diálogo ima- ginário muito interessante com o jornalista americano Brent Cunningham, editor executivo da Columbia Journalism Review, vinculada à Escola de Jornalismo da Columbia University. Em 2010, Brent publicou um artigo em O Estado de S. Pau- lo intitulado “O jornalismo muda, o leitor precisa segui-lo”4 defendendo que não
pode mais existir mais consumo passivo de notícias. “Os cidadãos precisam pensar como jornalistas porque desempenham cada vez mais o papel de zeladores da infor- mação, tanto ao criar e publicar conteúdo original na rede quanto ao retransmitir notícias e informações criadas por outros”, analisou Brent. Ao comentar o artigo, como jornalista que atuou durante anos na imprensa, Chaparro discorda democra- ticamente em uma série de três posts publicados na seção com sugestivo nome de “Postigo do Diálogo” ao dizer que não se melhora o jornalismo apenas educando os leitores, é necessário também contar com a contribuição de boas fontes:
3. Ver O Xis da Questão, seção Sínteses. Disponível em http://www.oxisdaquestao.com. br/sinteses.asp?pag=2
4. Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-jornalismo-muda-o- -leitor-precisa-segui-lo,550502,0.htm
Embora pouco se fale delas, as fontes fizeram uma revolução. E a crise é esta, Brent, e boa, recheada de contradições: o discurso jornalístico perdeu autonomia, porque em vez de agendar, é agendado. E seduzi- do por acontecimentos que já nascem com recheios elaborados para o relato jornalístico. [...] O jornalismo não ficou à margem do processo, nem perdeu importância. Ao contrário: jamais foi tão importante para o sucesso dos processos sociais. Acontece que as fontes sabem mais da atualidade do que as redações, porque a produzem, em ritmo alucinante, de forma intencional, interessada. E lhe impõem uma lógica de conflito que atribui novos papéis ao jornalismo, exigindo dele, como linguagem e ambiente do relato e da análise, uma vocação de compromisso com valores. Porque os conflitos da atualidade devem ter boas razões de ser. As razões dos valores éticos. [...] E sem investigação jornalística independen- te não há como atribuir, ao que acontece, significados intelectualmente honestos e perspectivas de interesse público”.5
Em seu blog, o professor Chaparro promove uma profícua discussão sobre o papel e o impacto das fontes na produção jornalística contemporânea. Cada vez mais profissionais e competentes, as fontes geram e distribuem relatos e dis- cursos, agem para que acontecimentos gerados por elas conquistem o status de notícia. Ação que desafia jornalistas a construírem relatos independentes frente à profusão de discursos intencionais e interessados. De fato, o trabalho dos jornalistas, na visão do pesquisador, não se dá mais no restrito espaço físico das redações tradicionais:
As fronteiras que separam fontes e redações não existem mais. O jorna- lismo tem hoje a amplitude da própria atualidade, numa imbricação de circuitos e fluxos pelos quais as informações correm soltas, já elaboradas ou em processo de elaboração partilhada, e as interações se realizam com grande eficácia, principalmente pelas redes imateriais da Internet.6 Pesquisadores concordam que a construção da notícia se dá num campo de produção de sentido caracterizado pela luta concorrencial entre diferentes ato-
5. Conversa com Brent Cunningham sobre as novas complexidades do Jornalismo (1, 2 e 3). Disponível em http://www.oxisdaquestao.com.br/colunas.asp?col=9
6. O berço da Notícia já não está nas redações tradicionais. Seção Cortes & Recortes. Dis- ponível em http://www.oxisdaquestao.com.br/colunas-integra.asp?col=12&post=589
res e campos da sociedade. Para Bourdieu (1997, p. 106-7), o jornalismo é um campo que possui uma lógica específica, propriamente cultural, que se impõe aos jornalistas por meio de restrições e controles cruzados, cujo respeito funda as reputações de honorabilidade profissional. Por essa ótica complexa, a ação dos jornalistas é frequentemente moldada não somente pelas ideias e valores da cultura profissional, mas também pela interação com a organização do trabalho, as rotinas produtivas e os constrangimentos historicamente institucionalizados. A contribuição de Chaparro é acrescentar a essa visão clássica da produção da notícia a nova condição existencial das fontes, como sujeitos sociais institu- cionalizados que conquistaram certa autonomia no campo ao difundirem seus discursos, relatos e versões pela Internet, utilizando-se da linguagem jornalís- tica. O desafio dos jornalistas é manter a incansável missão de investigar com independência:
A cultura jornalística deve, pois, acolher e tirar proveito da qualidade informativa das fontes. Mas há também que resistir às seduções dessa competência, cujo efeito danoso é a preguiça das redações para o traba- lho indispensável de investigar, comparar, aferir, aprofundar, elucidar, debater com independência – em favor do sucesso dos conflitos que in- teressam à sociedade e ao seu aperfeiçoamento. 7
Embora faça alertas significativos sobre a necessidade de compreensão do impacto dessa revolução das fontes na produção da notícia, Chaparro vê os jornalistas como agentes possuidores de certo grau de autonomia em relação aos poderes constituídos. Embora sejam sujeitos no domínio de operações lógicas produtivas, eles fazem a mediação da estrutura organizacional jornalística com as ações objetivas, a realidade social e a própria subjetividade. A constatação da subjetividade, inseparável a toda e qualquer atividade de conhecimento, tende a produzir outras soluções teóricas que ajudam a compreender a construção social da realidade. Os fatos não são a realidade exclusivamente objetiva, são construções humanas, e como tal, possuem um componente subjetivo intrínse- co (MEDISTCH, 1999, p. 221-229).
Admitindo a subjetividade como uma faceta do processo de construção da notícia, Chaparro questiona os limites da autonomia dos jornalistas. Um bom
7. Conversa com Brent Cunningham sobre as novas complexidades do Jornalismo (1, 2 e 3). Seção Postigo do Diálogo. Disponível em http://www.oxisdaquestao.com.br/ colunas.asp?col=9
exemplo está em seu artigo “Jornalismo sobre o fio da navalha”, no qual dialoga com seu ex-aluno, Cláudio Augusto, editor de política de O Estado de S. Paulo. O professor propõe uma reflexão ao experiente profissional sobre os limites en- tre fazer denúncia e defender causas, por mais nobres que sejam:
Porém, a razão principal da nossa conversa, Cláudio Augusto, é a de propor-te uma rápida reflexão sobre os riscos de, no nosso ofício, atra- vessarmos os limites do bom jornalismo, quando lidamos com desafios como esse a que te entregaste nas últimas semanas: o de, em favor da ética e em razão dos valores da sociedade, denunciar malandros e malan- dragens da nossa política.
O risco de que falo, Cláudio Augusto, é o de se pular do campo do jorna- lismo independente, fiel ao dever de informar com veracidade, para o cam- po sempre tentador de defender ou propor causas mais ou menos nobres. Tenho até neste blog um texto sobre o chamado “jornalismo de causas”, e nele escrevo que essa é uma “prática discursiva em que se usam as artes e as técnicas do jornalismo para fazer algo que está mais próximo da propa- ganda que do jornalismo” – entendendo-se propaganda como linguagem cujo fim específico é o de realizar ações de convencimento, para a adesão a ideias, doutrinas ou campanhas.8
Ainda que o jornalista entenda que deva defender valores democráticos, co- brar lisura e correção na atuação de políticos e gestores públicos, não pode cair na tentação de tornar-se mensageiro de causas. E isso, pela simples razão de que o jornalismo exige “virtudes essenciais da veracidade e da independência que possam as ações, as falas e os embates dos protagonistas da atualidade, que não são os jornalistas”, como explica Chaparro.9